thumb|400px|Transfiguração.1487-1495. Por Giovanni Bellini, atualmente no Museo Nazionale di Capodimonte, em Nápoles
A Transfiguração de Jesus é um episódio do Novo Testamento no qual Jesus é transfigurado e se torna radiante no alto de uma montanha. Os evangelhos sinóticos (, e ) e uma epístola () fazem referência ao evento. Nestes relatos, Jesus e três de seus apóstolos vão para uma montanha (conhecida como Monte da Transfiguração). Lá, Jesus começa a brilhar e os profetas Moisés e Elias aparecem ao seu lado, conversando com ele. Jesus é então chamado de Filho por uma voz no céu – presumivelmente Deus Pai – como já ocorrera antes no seu batismo.Transfiguration by Dorothy A. Lee 2005 ISBN 978-0-8264-7595-4 pages 21-30
A Transfiguração é um dos milagres de Jesus nos evangelhos,Clowes, John, 1817, The Miracles of Jesus Christ published by J. Gleave, Manchester, UK page 167Henry Rutter, Evangelical harmony Keating and Brown, London 1803. page 450Lockyer, Herbert, 1988 All the Miracles of the Bible ISBN 0-310-28101-6 page 213 diferente dos demais pois, neste caso, o objeto do milagre é o próprio Jesus.Karl Barth Church dogmatics ISBN 0-567-05089-0 page 478 Tomás de Aquino considerava a Transfiguração como o "maior dos milagres", uma vez que ele complementou o batismo e mostrou a perfeição da vida no céu.Nicholas M. Healy, 2003 Thomas Aquinas: theologian of the Christian life ISBN 978-0-7546-1472-2 page 100 A Transfiguração é também um dos cinco grandes marcos da vida de Jesus na narrativa dos evangelhos (os outros são o batismo, a crucificação, a ressurreição e a ascensão).Essays in New Testament interpretation by Charles Francis Digby Moule 1982 ISBN 0-521-23783-1 page 63The Melody of Faith: Theology in an Orthodox Key by Vigen Guroian 2010 ISBN 0-8028-6496-1 page 28
Na doutrina cristã, o fato de a Transfiguração ter ocorrido no alto de uma montanha representa o ponto onde a natureza humana se encontra com Deus: o encontro do temporal com o eterno, com o próprio Jesus fazendo o papel de ponte entre o céu e a terra.Transfiguration by Dorothy A. Lee 2005 ISBN 978-0-8264-7595-4 page 2
Narrativa bíblica thumb|esquerda|220px|Afresco da Transfiguração.No Parque Nacional de Goreme, na Capadócia Nos evangelhos sinóticos, o relato da transfiguração acontece aproximadamente no meio da narrativa.The Cambridge companion to the Gospels by Stephen C. Barton ISBN pages 132–133</ref>The Content and the Setting of the Gospel Tradition by Mark Harding, Alanna Nobbs 2010 ISBN 978-0-8028-3318-1 pages 281–282 Ele é um episódio muito importante e aparece logo depois de um outro também de grande importância, a chamada "Confissão de Pedro": "Tu és o Cristo",, e servindo como mais uma revelação da identidade real de Jesus como Filho de Deus para alguns de seus discípulos.
Nos evangelhos, Jesus levou Pedro, Tiago, filho de Zebedeu, e João consigo até o alto de uma montanha cujo nome não é mencionado. Lá, afirma que Jesus "Foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz." Neste momento, os profetas Elias e Moisés aparecem e Jesus começou a conversar com eles. é mais específico e afirma que os apóstolos "viram a sua glória".Transfiguration by Dorothy A. Lee 2005 ISBN 978-0-8264-7595-4 pages 72–76
No momento que Elias e Moisés começaram a desaparecer, Pedro pergunta a Jesus se os discípulos deveriam armar três barracas para ele e para os dois profetas. Esta pergunta tem sido interpretada como uma tentativa de Pedro de manter os profetas ali por mais algum tempo. Contudo, antes que Pedro pudesse terminar, uma nuvem brilhante apareceu e uma voz nas nuvens disse: "Este é o meu Filho, o meu escolhido, ouvi-o." Os discípulos se prostraram tementes, mas Jesus se aproximou e tocou-os pedindo-lhes que não tivessem medo. Quando os discípulos olharam para o alto, já não viram mais Elias e Moisés.
Quando Jesus e os três apóstolos estavam descendo da montanha, Jesus pediu-lhes que não contassem para ninguém sobre "esta visão" até que o "Filho do homem" tivesse "ressuscitado dos mortos". Os três então questionam entre si o que Jesus quis dizer com "ressuscitado dos mortos".Mark by Douglas R. A. Hare 1996 ISBN 978-0-664-25551-0 page 104 Além do relato principal dos evangelhos sinóticos, em , o apóstolo Pedro se autodescreve como testemunha ocular da "majestade" de Jesus.
Em outros trechos do Novo Testamento, a referência de Paulo de Tarso em à "transformação" através da "imagem de glória em glória" se tornou a fonte teológica para considerar a transfiguração como a base para o processo que leva o fiel ao conhecimento de Deus.Systematic Theology by Lewis Sperry Chafer 1993 ISBN 978-0-8254-2340-6 page 86The Synoptics: Matthew, Mark, Luke by Ján Majerník, Joseph Ponessa, Laurie Watson Manhardt 2005 ISBN 1-931018-31-6, page 121
Embora Mateus 17 liste o discípulo João como estando presente à transfiguração, o Evangelho segundo João não faz menção ao evento,Metamorphosis: The Transfiguration in Byzantine Theology And Iconography by Andreas Andreopoulos (Oct 30, 2005) ISBN 0881412953 pages 43-44The Gospel According to John by D. A. Carson (Dec 31, 1991) ISBN pages 92-94The Bible Knowledge Commentary by John F. Walvoord and Roy B. Zuck (Jul 1, 1983) ISBN 0882078127 page 268 à exceção, pela opinião de alguns estudiosos, de que ele parece fazer uma alusão ao fato em .Transfiguration by Dorothy A. Lee 2005 ISBN 978-0-8264-7595-4 page 103 Este fato deu origem a um debate entre os acadêmicos, com alguns duvidando da autoria do Evangelho segundo João e outros tentando explicar esta omissão. Uma explicação (que remonta a Eusébio de Cesareia, no ) é que João teria escrito seu evangelho de forma a não ter muitas sobreposições com os evangelhos sinóticos, complementando-os. Além disso, a Transfiguração não é o único evento que não está presente no quarto evangelho — a instituição da Eucaristia durante a Última Ceia é outro exemplo chave — o que parece reforçar a tese de que a inclusão de episódios em João foi de fato seletiva.
Teologia Importância A teologia cristã atribui grande importância à transfiguração por diversos motivos. O evento é considerado um marco e sua localização no alto de uma montanha representa, na doutrina cristã, o ponto onde a natureza humana se encontra com Deus: o encontro do temporal com o eterno, com o próprio Jesus fazendo o papel de ponte entre o céu e a terra.Transfiguration by Dorothy A. Lee 2005 ISBN 978-0-8264-7595-4 page 2 Além disso, assim como no seu batismo, a transfiguração reforça a identidade de Jesus como Filho de Deus. A expressão "ouvi-o" também o identifica como sendo o mensageiro e o porta-voz de Deus.Metamorphosis: the Transfiguration in Byzantine theology and iconography by Andreas Andreopoulos 2005 ISBN 0-88141-295-3 pages 47–49 A importância desta identificação é ainda reforçada pela presença de Elias e de Moisés, pois indica aos apóstolos que Jesus é a voz de Deus e, ao invés de Elias ou Moisés, deve ser ouvido, o que, para alguns teólogos, é o sinal de que a lei do Antigo Testamento foi suplantada através da relação filial de Jesus com Deus. O trecho na epístola de Pedro ecoa a mesma mensagem: na transfiguração, Deus atribui a Jesus uma "honra e glória" especial e o evento é um momento de virada no qual Deus exalta Jesus acima de toda a criação, posicionando-o como governante e juiz.The Bible knowledge background commentary: John's Gospel, Hebrews-Revelation by Craig A. Evans ISBN 0-7814-4228-1 pages 319–320
A transfiguração também reflete o ensinamento de Jesus de que Deus não é . Mesmo Moisés tendo morrido séculos antes e Elias tenha sido carregado para o céu (em ), eles agora vivem na presença do Filho de Deus, implicando que o mesmo retorno à vida se aplica também a todos que estão sujeitos à morte e tem fé.The Gospel and Its Meaning by Harry Lee Poe 1996 ISBN 0-310-20172-1 page 166
Desenvolvimento da doutrina thumb|220px|A chamada "Luz de Tabor" na Transfiguração.Década de 1800. Por Carl Heinrich Bloch A teologia da transfiguração recebeu bastante atenção dos padres da Igreja desde o início do primeiros dias do cristianismo. No , Ireneu de Lyon se mostrou fascinado pelo evento e escreveu: "a glória de Deus é um ser humano vivo e uma vida humana real é a visão de Deus".Andrew Louth, "Holiness and the Vision of God in the Eastern Fathers" in Holiness: past and present by Stephen C. Barton 2002 ISBN pages 228–234 A teologia de Orígenes sobre a transfiguração influenciou a tradição patrística e se tornou a base de muitas obras teológicas posteriores.Metamorphosis: the Transfiguration in Byzantine theology and iconography by Andreas Andreopoulos 2005 ISBN 0-88141-295-3 pages 60–65 Entre outros temas, Orígenes comentou que, por conta do pedido de Jesus de que os apóstolos mantivessem segredo até a ressurreição, o estado glorificado da transfiguração e o da ressurreição certamente estão relacionados.
Os padres do deserto enfatizaram que a luz experimentada através da experiência do ascetismo e a relacionaram com a luz da transfiguração — um tema que foi desenvolvido por Evágrio do Ponto no . Por volta da mesma época, Gregório de Níssa — um dos padres capadócios — e, posteriormente, Pseudo-Dionísio, o Areopagita, estavam desenvolvendo a "teologia da luz" que influenciou as tradições místicas e contemplativas bizantinas, como a Luz de Tabor e a theoria (vide hesicasmo).
A iconografia da transfiguração continuou a se desenvolver neste mesmo período e há uma representação simbólica do na abside da Basílica de Sant'Apollinare in Classe e uma outra, bem conhecida, no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai.Festival icons for the Christian year by John Baggley 2000 ISBN 0-264-67487-1 pages 58–60 Os padres bizantinos geralmente se valiam de metáforas fortemente visuais em suas obras, indicando que eles podem ter sido influenciados por esta iconografia. A copiosa obra de Máximo, o Confessor, pode também ter sido moldada por sua experiência contemplativa no católico do Mosteiro de Santa Catarina — um caso que não é incomum de uma ideia teológica aparecendo em ícones muito antes de aparecer na literatura.Metamorphosis: the Transfiguration in Byzantine theology and iconography by Andreas Andreopoulos 2005 ISBN 0-88141-295-3 Chapter 2: "The Iconography of the Transfiguration" pages 67–81
No , Máximo afirmou que os sentidos dos apóstolos foram transfigurados para permitir que eles percebessem a verdadeira glória de Cristo. Nesta mesma linha de pensamento e partindo de , já no final do o conceito de "transfiguração do crente" se firmou e Gregório Palamas considerava o "verdadeiro conhecimento sobre Deus" como sendo uma "transfiguração do homem pelo Espírito de Deus".Gregory Palamas by Saint Gregory Palamas, John Meyendorff 1988 ISBN 0-8091-2447-5 page 14 A transfiguração espiritual do crente desde então continuou sendo uma forma de alcançar uma proximidade maior com Deus.The Wiersbe Bible Commentary: The Complete New Testament by Warren W. Wiersbe 2007 ISBN 0-7814-4539-6 page 167
Uma das generalizações mais comuns sobre a doutrina cristã é a de que a Igreja Ortodoxa enfatiza a transfiguração enquanto que a Igreja Católica foca muito mais na crucificação. Porém, a verdade é que ambas atribuem grande importância a ambos os eventos, com algumas nuances.The Gospel and Its Meaning Harry Lee Poe 1996 ISBN 0-310-20172-1 page 177 Entre elas estão os chamados "sinais sagrados" da imitação de Cristo. Ao contrário dos santos católicos como o Padre Pio ou Francisco de Assis (que consideravam os stigmata como um sinal da imitação de Cristo), os santos ortodoxos jamais reportaram esses sinais. Santos como Serafim de Sarov e Staretz Silouan relataram terem sido transfigurados por uma "luz interna da graça".The Divine Trinity by David Brown 1985 ISBN 0-87548-439-5 page 39The Catholic tradition by Thomas Langan 1998 ISBN 0-8262-1183-6 page 139
Transfiguração e ressurreição