Atanásio de Alexandria (; ), foi o vigésimo arcebispo de Alexandria (como Atanásio I de Alexandria), Doutor da Igreja e santo da Igreja Católica (Alexandria, 296 – Alexandria, 2 de maio de 373). Seu episcopado durou aproximadamente 45 anos, de a , dos quais dezessete ele passou exilado, em cinco ocasiões diferentes e por ordem de quatro diferentes imperadores romanos. Atanásio foi um teólogo cristão, um dos "padres da Igreja", um defensor do trinitarismo contra o arianismo e um líder da comunidade de Alexandria no .

O conflito contra Ário e seus seguidores, apoiados muitas vezes pela corte em Roma, moldou a carreira de Atanásio. Em 325, com 27 anos, começou a luta contra os arianos como assistente de seu arcebispo, Alexandre, no Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino I entre maio e agosto de 325 para tratar da tese ariana de que o Filho de Deus, Jesus de Nazaré, e Deus Pai seriam de substâncias (ousia) diferentes.Durant, Will. Caesar and Christ. New York: Simon and Schuster. 1972. Três anos depois de Niceia, Atanásio sucedeu ao seu arcebispo.

Além do conflito contra os arianos, que incluía o partido liderado por Eusébio de Nicomédia, ele disputou também contra os imperadores Constantino, Constâncio II, Juliano, o Apóstata e Valente e, por isso, era conhecido como "Athanasius Contra Mundum" em latim.

Apesar disso, poucos anos depois de sua morte, Gregório de Nazianzo chamou-o de "Pilar da Igreja". Suas obras foram celebradas por todos os padres da Igreja que vieram depois dele, tanto no ocidente quanto no oriente, que ressaltaram sua rica devoção ao Verbo-encarnado, sua grande preocupação pastoral e seu profundo interesse no nascente monasticismo. Atanásio aparece entre os quatro grandes doutores da Igreja orientais da Igreja Católica Romana. Na Ortodoxia, ele é chamado de "Pai da Ortodoxia". Algumas denominações protestantes chamam-no de "Pai do Cânon".

Biografia

Primeiros anos Atanásio nasceu em Alexandria ou, possivelmente, na cidade de Damanhur, perto do delta do Nilo, no Egito romano em 296. Alguns acadêmicos ocidentais consideram que seu domínio do grego, língua que Atanásio utilizou na maioria das obras sobreviventes, evidenciam que ele seria de origem grega. Porém, na literatura copta, ele é considerado como sendo o primeiro patriarca de Alexandria a fazer uso do copta juntamente com o grego em suas obras.

A Enciclopédia Católica afirma que Atanásio teria nascido entre 296 e antes de 298. O argumento para esta última data começa com uma análise do compilador das famosas "Cartas Pascoais" logo depois de sua morte. Este autor, anônimo, afirmou que os arianos haviam afirmado Atanásio, entre outras coisas, de não ter ainda atingido a idade canônica (30 anos) e, por isso, ele não poderia ter sido ordenado patriarca de Alexandria em 328. Como ele não foi julgado novamente por essas acusações, Atanásio deve ter pelo menos parecido ter mais de 30 anos em 328 para a afirmação ser plausível.Rubenstein, Richard E., When Jesus Became God: The Epic Fight over Christ’s Divinity in the Last Days of Rome (New York: Harcourt Brace & Company, 1999), 105–106 Além disso, em duas passagens distintas (Hist. Ar., lxiv e De Syn., xviii), Atanásio afirma não se lembrar de ter sido testemunha ocular do início da grande perseguição pelos tetrarcas Diocleciano e Maximiano em fevereiro de 303. Ao fazer referência a estes eventos, ele nunca menciona lembranças próprias e se volta para as tradições, o que tende a indicar juventude (menos de 10 anos de idade) em 303.

Educação Alexandria era considerado o mais importante centro comercial de todo o Império Romano durante a infância de Atanásio. Intelectualmente, moralmente e politicamente, a cidade egípcia era o retrato da diversidade étnica do mundo greco-romano, mais do que Roma, Constantinopla, Antioquia ou Massilia (Marselha, na França).Clifford, Cornelius, Catholic Encyclopedia 1930, Volume 2, Pgs: 35–40 "Athanasius". Sua escola catequética — sem sacrificar em nada sua famosa paixão pela ortodoxia doutrinária que vinha dos tempos de Panteno, Clemente, Orígenes, Dionísio e Teognosto —, já havia começado a adquirir uma característica quase secular e contava com estudiosos da cultura pagã entre os seus membros.

RufinoHist. Ecl., Rufino, I, xiv relata a ocasião quando o bispo Alexandre convidou seus colegas para um café da manhã depois de um importante serviço religioso. Enquanto esperava pelos convidados na janela, ele assistiu alguns jovens brincando na praia. Ele logo percebeu que eles estavam imitando o elaborado ritual cristão do batismo. Ele mandou chamar os garotos e descobriu que um deles (Atanásio) era o "bispo" do grupo. Alexandre determinou que os batismos de mentira fossem considerados reais e estimulou Atanásio e seus companheiros a se prepararem para receber funções clericais.

O próprio Alexandre ordenou Atanásio diácono em 319.Encyclopedia Americana, vol. 2 Danbury, Connecticut: Grolier Incorporated, 1997. ISBN 0-7172-0129-5. Em 325, Atanásio serviu como secretário do bispo no Concílio de Niceia. Já reconhecido como teólogo e asceta, ele era uma das escolha para suceder seu velho mentor como patriarca,Encyclopædia Britannica, 15th edition. Chicago: Encyclopædia Britannica, Inc. ISBN 0-85229-633-9 apesar da oposição dos seguidores de Ário e de Melécio de Licópolis. Enquanto ainda era diácono à serviço de Alexandre ou nos primeiros anos de seu patriarcado, é possível que Atanásio tenha se encontrado com alguns dos eremitas do deserto egípcio, principalmente com Antão do Deserto, cuja hagiografia acredita-se que ele tenha escrito.

Ele havia tido uma boa educação e era versado em gramática e retórica e, apesar de ainda jovem e de não ter ainda alcançado o episcopado, já dava provas aos que o conheciam de sua sabedoria e sagacidade".

A primeira obra de Atanásio, "Contra os Pagãos - Sobre a Encarnação " (escrita antes de 319), revela traços da influência do origenismo no pensamento alexandrino (como a citação frequente de Platão e a utilização de uma definição originada no "Organon" de Aristóteles), mas de forma ortodoxa. Atanásio conhecia também as teorias das diversas escolas filosóficas e, em particular, os principais avanços do neoplatonismo da época. Apesar disso, em obras subsequentes, Atanásio cita Homero mais de uma vez.Hist. Ar. 68; Orat. iv. 29 Em sua carta a Constâncio II, ele apresenta uma defesa de si com traços evidentes da influência da obra "De Corona", de Demóstenes.

Atanásio conhecia o grego e admitia não saber nada de hebraico.Veja, por exemplo, a 39ª Carta Festiva de Santo Atanásio As passagens do Antigo Testamento que ele cita frequentemente são quase todas da Septuaginta grega.᾽Αλεξανδρεὺς τῷ γένει, ἀνὴρ λόγιος, δυνατὸς ὢν ἐν ταῖς γραφαῖς

Início da controvérsia ariana

Por volta de 319, quando Atanásio era diácono, um presbítero chamado Ário entrou em conflito direto com o bispo Alexandre de Alexandria. Ao que parece, Alexandre havia repreendido o presbítero por entender que doutrinas heréticas estariam sendo ensinadas por ele.Kannengiesser, Charles, “Alexander and Arius of Alexandria: The last Ante-Nicene theologians”, Miscelanea En Homenaje Al P. Antonio Orbe Compostellanum Vol. XXXV, no. 1-2. (Santiago de Compostela, 1990), 398 A visão teológica de Ário (o pouco que sobrevive de sua obra são citações feitas por concorrentes) parece ter estado firmemente enraizada no cristianismo alexandrino e seus pontos de vista certamente não eram radicaisːWilliams, Rowan, Arius: Heresy and Tradition (London: Darton, Longman and Todd, 1987),175 ele defendia uma cristologia subordinacionalista (que defendia que o Filho de Deus, o Logos, era "criado" e não "gerado eternamente", "subordinado", portanto, ao "criador"), fortemente influenciada por pensadores alexandrinos como Orígenes,Williams, 175 uma visão comum na cidade na época.Williams 154–155 O apoio de bispos como Eusébio de Cesareia"Carta de Ário a Eusébio de Cesareia" e Eusébio de Nicomédia"Epístola Católica de Alexandre de Alexandria" ajudam a entender como a cristologia de Ário era compartilhada por diversos outros cristãos por todo o império romano.

Patriarca thumb|esquerda|400px|Gravura de Santo Atanásio sendo perseguido.

O episcopado de Atanásio começou em 9 de maio de 328 depois que o sínodo de Alexandria elegeu-o para suceder o idoso Alexandre. Este concílio também denunciou várias heresias e cismas, problemas que ocupariam Atanásio durante os 45 anos que ocuparia o trono em Alexandria. Ele passou dezessete fora de sua sé em cinco exílios diferentes ordenados por quatro imperadores romanos, sem contar aproximadamente seis outros incidentes nos quais Atanásio teve que fugir da cidade para fugir da população que pretendia matá-lo. Estes eventos deram origem à expressão "Athanasius contra mundum ("Atanásio contra o mundo"). Porém, durante seus primeiros anos como bispo, visitou as igrejas de seu território, que abrangia todo o Egito e a Líbia. Ele também estabeleceu contato com os eremitas e monges do deserto, incluindo Pacômio, o que lhe seria muito útil no futuro. Porém, logo em seguida Atanásio se envolveu nas variadas disputas contra o arianismo que tomariam o resto de sua vida.

Primeiro exílio (11 de julho de 335—22 de novembro de 337) O primeiro conflito de Atanásio foi Melécio de Licópolis e seus seguidores, que não aceitaram o resultado do Concílio de Niceia, que havia anatemizado Ário. Um antigo adversário de Atanásio, Melécio já havia tentado tomar o trono de Alexandria antes e era considerado um lapsi. Acusado de maltratar os arianos e os melecianos, Atanásio se defendeu das acusações num sínodo em Tiro, o Primeiro Concílio de Tiro, em 335. Durante os trabalhos, o líder ariano Eusébio de Nicomédia e seus aliados depuseram Atanásio. Em 6 de novembro, ambos os lados da disputa se encontraram com Constantino I em Constantinopla.Barnes, Timothy D., Athanasius and Constantius: Theology and Politics in the Constantinian Empire (Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1993), 23 Na reunião, Atanásio foi acusado de tentar interferir com o suprimento de cereais do Egito e, sem nenhum julgamento formal, Constantino exilou-o em Augusta dos Tréveros (Tréveris, na Alemanha), na Gália Bélgica.

Segundo exílio (16 de abril de 339—21 de outubro de 346) Quando Constantino morreu, Atanásio recebeu permissão para retomar sua sé em Alexandria. Logo depois, em 338, o filho de Constantino, o novo imperador Constâncio II, renovou o banimento de Atanásio. Ele seguiu para Roma e passou a ser protegido por Constante, o imperador romano do ocidente. Nesta época, Gregório da Capadócia foi instalado no trono de Alexandria, usurpando o direito de Atanásio que, contudo, manteve-se em contato com seu povo através das suas "Cartas Pascoais" anuais, nas quais ele também anunciava a data da Páscoa anualmente.

Além disso, em 340, cem bispos se reuniram em Alexandria e se declararam a favor de Atanásio, vigorosamente rejeitando as críticas feitas pelo partido de Eusébio em Tiro. O papa Júlio I escreveu para os aliados de Ário exigindo fortemente que eles reinstalassem Atanásio, mas sem sucesso. O papa Júlio I convocou um sínodo em Roma em 341 para tratar do impasse e o resultado foi que Atanásio foi inocentado de todas as acusações.

Em 346, quando o detestado usurpador, Gregório, morreu, Constante usou sua influência para permitir que Atanásio retornasse para Alexandria. A maior parte dos egípcios já havia então passado a considerar o bispo como uma espécie de herói nacional e sua recepção foi calorosa. Este foi o início de uma década de paz e prosperidade na região, durante a qual Atanásio reuniu diversos documentos sobre seus exílios e retornos numa obra chamada "Apologia Contra os Arianos". Porém, com a morte de Constante em 350, outra guerra civil se iniciou e o pró-ariano Constâncio II acabou tornando-se o único imperador. Um concílio local em Alexandria em 350 reafirmou (ou recolocou) Atanásio em sua sé.