A KV62 é a tumba no Vale dos Reis em que foi sepultado o faraó Tutancâmon, membro da Décima Oitava Dinastia do Antigo Egito. Ela consiste em quatro câmaras e um corredor e escadaria de entrada. É menor e bem menos decorada do que outras tumbas reais da época, provavelmente tendo-se originado como uma tumba para alguém de fora da família real e que foi adaptada para uso de Tutancâmon depois de sua morte prematura. Ele foi sepultado com uma grande variedade de objetos e outras posses pessoais, porém estes itens precisaram ser empilhados muito próximos uns dos outros devido ao espaço limitado da tumba. Foi invadida por ladrões duas vezes depois do sepultamento, mas a múmia e a maioria dos objetos permaneceram intactos.

A posição da tumba no chão do vale permitiu que sua entrada fosse escondida por entulhos de construções e inundações, assim não foi saqueada durante o Terceiro Período Intermediário. Foi descoberta em novembro de 1922 por escavadores liderados por Howard Carter. Ela atraiu um frenesi da mídia pela quantidade e aparência espetacular de seus artefatos, se tornando o achado mais famoso na história da egiptologia. A morte do Conde de Carnarvon, patrono de Carter, durante a escavação inspirou especulações de que a tumba estava amaldiçoada. A descoberta produziu apenas pequenas evidências sobre o reinado de Tutancâmon e o Período de Amarna que o precedeu, mas proporcionou maior conhecimento sobre a cultura material da realeza egípcia.

A maioria dos objetos da tumba foram inicialmente enviados para o Museu Egípcio no Cairo, onde foram exibidos por décadas até serem transferidos na década de 2010 para o Grande Museu Egípcio em Gizé, porém a múmia de Tutancâmon e um dos seus sarcófagos permanecem na tumba. Inundações e grande tráfego de turistas danificaram a tumba desde sua descoberta, com uma réplica da câmara mortuária tendo sido construída em um local próximo para reduzir a pressão turística na original. A descoberta elevou Tutancâmon ao posto de um dos faraós mais notórios da história, com alguns artefatos de sua tumba, especialmente sua máscara mortuária feita de ouro, tendo-se tornado uma das peças de arte mais conhecidas do Antigo Egito.

História Enterro e roubos thumb|esquerda|240px|Parte central do vale, com a entrada da tumba de Tutancâmon coberta à direita Tutancâmon reinou como faraó aproximadamente entre 1334 e 1325 a.C., ao final da Décima Oitava Dinastia durante o Império Novo. Ele ascendeu ao trono ainda criança depois da morte de Aquenáton, que provavelmente era seu pai, e dos breves reinados de Semencaré e Neferneferuaton. Aquenáton tinha modificado radicalmente a religião egípcia ao rejeitar todas as divindades para venerar um único deus, Áton, uma mudança que iniciou o Período de Amarna. Um dos principais atos de Tutancâmon foi restaurar as práticas religiosas tradicionais. Seu nome foi alterado de Tutancáton, referência à Áton, para Tutancâmon, homenageando Amon, uma das principais divindades do panteão tradicional. Similarmente, o nome de sua esposa mudou de Anquesepaton para Anquesenamon.

O faraó encomendou uma tumba de grande tamanho no Vale dos Reis pouco depois de ascender ao trono, que provavelmente era a WV23 ou a KV57. Acredita-se que a KV62 originalmente seria uma tumba para alguém de fora da família real, possivelmente para Aí, que era na época conselheiro de Tutancâmon. O faraó morreu prematuramente e a KV62 foi ampliada para acomodar seu sepultamento. Aí foi seu sucessor e foi sepultado na WV23. Ele já era idoso quando ascendeu ao trono e possivelmente enterrou Tutancâmon na KV62 para poder usurpar a WV23, garantindo assim que tivesse uma tumba de proporções adequadamente reais quando morresse. Faraós da época também construíam templos mortuários onde receberiam oferendas para sustentar seus espíritos no pós-vida. O templo de Aí e Horemebe em Medinet Habu continha estátuas que foram originalmente entalhadas para Tutancâmon, sugerindo que o templo de Tutancâmon ficava próximo ou que Aí também tomou o templo de Tutancâmon para si.

Aí foi sucedido por Horemebe, um general de Tutancâmon, porém a transferência de poder talvez tenha sido contestada e resultado em um breve período de instabilidade política. O novo faraó, como parte da contínua reação contra o atonismo, tentou apagar os registros de Aquenáton e seus sucessores, desmontando monumentos de Aquenáton e usurpando aqueles erguidos por Tutancâmon. Listas posteriores de faraós pulam de Amenófis III, pai de Aquenáton, diretamente para Horemebe.

A tumba de Tutancâmon foi roubada duas vezes poucos anos depois de seu sepultamento. Oficiais consertaram e empacotaram novamente alguns dos objetos danificados, em seguida preenchendo o corredor externo com lascas de calcário e alguns objetos derrubados pelos ladrões para dissuadir mais roubos. Um segundo grupo de ladrões mesmo assim escavou pelo preenchimento do corredor. Este roubo também foi detectado e uma segunda restauração apressada foi realizada novamente para selar a tumba.

O Vale dos Reis sofre periodicamente de enchentes relâmpago que depositam alúvio nas suas áreas mais baixas. A maior parte do vale, incluindo a entrada da tumba de Tutancâmon, foi coberta por uma camada de alúvio sobre a qual cabanas foram depois construídas para os trabalhadores da KV57, em que Horemebe foi sepultado. O geólogo Stephen Cross argumentou que uma grande enchente depositou uma camada de alúvio depois da KV62 ter sido selada uma segunda vez e antes das cabanas serem construídas, significando que a tumba ficou inacessível na época do fim do reinado de Aí. Por outro lado, o egiptólogo Andreas Dorn sugeriu que na verdade essa camada já existia durante o reinado de Tutancâmon e que os trabalhadores escavaram por ela para chegarem até a base rochosa do vale em que a tumba foi construída.

A tumba de Ramessés V e Ramessés VI, a KV9, foi construída na rocha ao oeste da KV62 mais de 150 anos depois do sepultamento de Tutancâmon. A entrada da KV62 foi enterrada mais por uma grande quantidade de entulho da escavação da KV9 e pelas cabanas dos trabalhadores em cima dos entulhos. Pelos anos seguintes as tumbas dos vales sofreram várias ondas de roubos: primeiro no final da Vigésima Dinastia por gangues locais de ladrões, depois na Vigésima Primeira Dinastia por oficiais trabalhando para o Sumo Sacerdote de Amon, que saquearam as tumbas e removeram as múmias. A tumba de Tutancâmon estava enterrada e esquecida e assim permaneceu intacta.

Descoberta e liberação

Várias tumbas no Vale dos Reis estavam abertas desde a antiguidade, porém as entradas de muitas outras permaneceram escondidas pelo passar dos séculos até o crescimento do campo da egiptologia no início do século XIX. Muitas das tumbas restantes foram encontradas entre 1902 e 1914 por uma série de escavadores trabalhando para Theodore M. Davis. A maior parte do vale foi explorada durante esse período, porém a tumba de Tutancâmon nunca foi encontrada porque Davis não achava que uma tumba teria sido construída no chão do vale. Dentre suas descobertas estava a KV54, um fosso que continha objetos com o nome de Tutancâmon. Acredita-se agora que esses objetos tenham sido itens de sepultamento que foram originalmente guardados no corredor de entrada da tumba de Tutancâmon, depois removidos e reenterrados na KV54 quando restauradores preencheram o corredor, ou possivelmente objetos relacionados ao próprio funeral do faraó. As escavações de Davis também descobriram a pequena tumba KV58, que continha peças de um arnês de carruagem tanto com nome de Tutancâmon quanto o de Aí. Davis depois disso ficou convencido de que esta era a tumba de Tutancâmon.

thumb|240px|<center>Canto sudoeste da antecâmara, com carruagens desmontadas na esquerda e mobílias na direita. A entrada para o anexo esta embaixo da cama funerária.<center> Davis depois disso abriu mão do trabalho no vale, com o arqueólogo Howard Carter e seu patrono lorde George Herbert, 5.º Conde de Carnarvon, fazendo um esforço para liberar o vale de entulho até a base rochosa. As descobertas de Davis de artefatos com o nome de Tutancâmon deram a Carter e Carnarvon motivos para terem esperança de que talvez pudessem encontrar sua tumba. A KV62 foi descoberta em 4 de novembro de 1922 quando um degrau da sua escadaria de entrada foi encontrado por trabalhadores egípcios. Os escavadores alcançaram a antecâmara em 26 de novembro e encontraram uma quantidade de artefatos que superava todas as suas expectativas, proporcionando um conhecimento sem precedentes sobre como era um sepultamento real no Império Novo.

A condição dos objetos mortuários variavam enormemente; muitos tinham sido afetados profundamente pela umidade, o que provavelmente ocorreu tanto pelo estado úmido do gesso quando a tumba foi selada pela primeira vez quanto pela infiltração de água ao longo dos milênios até a tumba ser encontrada. O registro do conteúdo da tumba e sua conservação para que pudesse sobreviver a viagem até o Cairo mostrou-se uma tarefa gigantesca que demorou dez temporadas. Muitas pessoas participaram da escavação, porém os únicos membros que estiveram presentes durante todo o processo foram Carter, o químico Alfred Lucas, o fotógrafo Harry Burton e os capatazes egípcios Ahmed Gerigar, Gad Hassan, Hussein Abu Awad e Hussein Ahmed Said.

A natureza espetacular dos artefatos da tumba inspiraram um frenesi midiático chamado de "tutmania" que transformou Tutancâmon em um dos faraós mais conhecidos. A publicidade no mundo ocidental inspirou uma moda por itens de decoração inspirados no Antigo Egito. No próprio Egito a descoberta reforçou a ideologia do faraonismo, que enfatizava a conexão do Egito moderno com seu passado e que tinha crescido em proeminência entre 1919 e 1922 durante a luta egípcia por independência do controle britânico. A publicidade aumentou ainda mais depois da morte de Carnarvon por uma infecção em abril de 1923, inspirando rumores de ele tinha sido morto por uma maldição na tumba. Outras mortes e eventos estranhos relacionados com a tumba também foram atribuídos a essa suposta maldição.

A liberação da tumba continuou sob a liderança de Carter depois da morte de Carnarvon. A segunda temporada ocorreu entre o final de 1923 e início de 1924, quando a antecâmara foi esvaziada de seus objetos e os primeiros trabalhos na câmara mortuária começaram. O Egito tinha se tornado parcialmente independente em fevereiro de 1922 e o governo teve um confronto com Carter sobre a questão do acesso à tumba; o governo achava que egípcios, especialmente a imprensa egípcia, não estavam recebendo o acesso devido. Carter e seus associados pararam de trabalhar em fevereiro de 1924 em protesto às restrições cada vez maiores impostas pelo governo, iniciando uma disputa jurídica que perdurou até janeiro de 1925. O acordo que resolveu a disputa estipulava que os artefatos da tumba não seriam divididos entre o governo e os patrocinadores da escavação, como tinha sido a prática em escavações egiptológicas até então. Em vez disso, a maior parte do conteúdo da tumba foi transferido para o Museu Egípcio no Cairo.

Os escavadores abriram e removeram os caixões e múmia de Tutancâmon em 1925 e em seguida trabalharam na tesouraria e anexo. A liberação foi finalizada em novembro de 1930, porém Carter e Lucas continuaram a trabalhar na conservação dos artefatos até fevereiro de 1932, quando os últimos foram enviados para o Cairo.

Turismo e preservação thumb|esquerda|240px|Turistas na entrada da tumba