Maria Thereza Fontella Goulart (São Borja, 23 de agosto de 1936) é a viúva de João Goulart, o 24.º presidente do Brasil. Exerceu a função de segunda-dama do país entre 1956 e 1961 e a de primeira-dama de 1961 até a deposição de Goulart pelo golpe de Estado de 1964. Durante a presidência do marido, assumiu a presidência de honra da Legião Brasileira de Assistência (LBA), na qual participou da organização da representação da entidade em Brasília e de iniciativas relacionadas à saúde materno-infantil e à assistência social.
Sua imagem recebeu ampla atenção da imprensa brasileira e estrangeira, sobretudo por sua juventude, por sua relação profissional com o costureiro Dener Pamplona de Abreu e pela utilização da alta-costura produzida no Brasil. Estudos posteriores, entretanto, observaram que a ênfase jornalística em sua aparência frequentemente relegou a segundo plano suas atividades assistenciais e reproduziu os padrões de feminilidade e de representação pública atribuídos às esposas de governantes naquele período.
Após o golpe, deixou o Brasil com os dois filhos e viveu no Uruguai e na Argentina. Durante o exílio, enfrentou restrições para entrar no país, episódios de detenção e a impossibilidade de acompanhar os funerais de seus pais. Retornou com o corpo de João Goulart após a morte dele, em dezembro de 1976. Nas décadas seguintes, participou de iniciativas de preservação da memória do antigo presidente, doou documentos ao Arquivo Nacional, requereu reparação pelas perseguições políticas e acompanhou o processo de exumação dos restos mortais de Goulart.
Primeiros anos e formação
Maria Thereza era filha de Dinarte Fontella e Maria Giulia Pasqualotto, integrantes de uma família de ascendência italiana estabelecida na zona rural de São Borja, município da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Parte de sua infância transcorreu na Fazenda Capão Alto. Em razão de problemas de saúde, entre eles um quadro de anemia, foi levada ainda criança para a casa da tia Horaides, na área urbana de São Borja.
O ano exato de seu nascimento é objeto de divergência. A data tradicionalmente divulgada pelo Instituto João Goulart e reproduzida em obras de referência é 23 de agosto de 1936. O biógrafo Wagner William, porém, concluiu que o registro civil foi realizado tardiamente e que a documentação disponível permite situar seu nascimento entre 1936 e 1937. Publicações mais antigas chegaram a indicar 1940, hipótese que não é aceita pela biografia de William.
Em São Borja, frequentou inicialmente o Grupo Escolar Getúlio Vargas e posteriormente uma instituição religiosa. Em 1946, passou a viver em Porto Alegre, onde ficou sob os cuidados de parentes e estudou no Colégio Metodista Americano. A mudança proporcionou-lhe uma rotina escolar mais regular e a aproximou do ramo da família ligado aos Vargas. Sua tia América Fontella era casada com Spartaco Dornelles Vargas, irmão de Getúlio Vargas, de modo que Maria Thereza conviveu desde jovem com pessoas vinculadas à política gaúcha e ao trabalhismo.
Na infância e na adolescência, aprendeu equitação e tiro esportivo, atividades comuns no ambiente rural em que parte de sua família vivia. Relatos posteriores destacaram seu gosto por cavalos, característica que conservaria durante a vida adulta e que influenciaria sua preferência pela Granja do Torto durante a passagem pela Presidência da República.
Relacionamento, casamento e família
Maria Thereza conheceu João Goulart quando ainda era adolescente. Segundo os relatos recolhidos por seus biógrafos, um dos primeiros contatos ocorreu quando ela foi incumbida de entregar-lhe uma correspondência em São Borja. Goulart, consideravelmente mais velho, já administrava as propriedades de sua família e começava a adquirir projeção na política nacional. O relacionamento afetivo entre os dois, contudo, somente se desenvolveu alguns anos depois.
O casamento civil foi realizado em 26 de abril de 1955. Fortes chuvas impediram Goulart de chegar a Porto Alegre a tempo da cerimônia, e ele foi representado por procuração. A cerimônia religiosa ocorreu no dia seguinte, na capela da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, e foi celebrada pelo arcebispo Alfredo Vicente Scherer. Naquele momento, Goulart preparava sua candidatura à Vice-presidência da República.
O casal teve dois filhos: João Vicente Goulart, nascido em 22 de novembro de 1956, e Denize Goulart, nascida em 29 de novembro de 1957. Por meio do casamento, Maria Thereza tornou-se cunhada de Neusa Goulart Brizola e concunhada do político Leonel Brizola.
Durante parte da década de 1950, a família manteve residência no Rio de Janeiro, então capital federal, embora Goulart realizasse viagens frequentes a Brasília, ao Rio Grande do Sul e ao exterior em razão de suas atribuições políticas. A vida doméstica de Maria Thereza foi marcada pela criação dos filhos e pela crescente exposição pública decorrente da carreira do marido.
Segunda-dama do Brasil
miniaturadaimagem|esquerda|Maria Thereza e João Goulart com o vice-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon e Pat Nixon, em 1956.
João Goulart foi eleito vice-presidente nas eleições de 1955, compondo o governo de Juscelino Kubitschek, embora à época presidente e vice-presidente fossem escolhidos em votações separadas. Com a posse de Goulart em 31 de janeiro de 1956, Maria Thereza tornou-se segunda-dama. Ela permaneceu na função após a reeleição do marido para a Vice-presidência, em 1960, quando Jânio Quadros foi eleito presidente.
Nos primeiros anos, sua participação em solenidades públicas foi relativamente discreta. Acompanhava Goulart em recepções e em parte das viagens diplomáticas, mas não possuía atribuições institucionais permanentes. A historiadora Dayanny Rodrigues observa que esse comportamento correspondia ao papel doméstico e representativo então esperado das esposas de vice-presidentes e de outras autoridades.
Em abril e maio de 1956, acompanhou o marido em visita oficial aos Estados Unidos. O casal foi recebido pelo vice-presidente Richard Nixon e por Pat Nixon, hospedou-se na Blair House e participou de encontro na Casa Branca com o presidente Dwight D. Eisenhower. A viagem ocorreu no contexto dos esforços brasileiros para ampliar o diálogo econômico e diplomático com os Estados Unidos durante o governo Kubitschek.
Em 1959, Maria Thereza também acompanhou Goulart e o filho João Vicente em uma audiência com o papa João XXIII, no Vaticano. A visita integrou uma viagem mais ampla do vice-presidente pela Europa e foi divulgada pela imprensa brasileira como parte da agenda internacional do governo.
Crise sucessória de 1961
Em agosto de 1961, Maria Thereza encontrava-se na Europa com os filhos, enquanto João Goulart chefiava uma missão oficial à República Popular da China. Em 25 de agosto, a renúncia de Jânio Quadros abriu uma grave crise institucional, pois os ministros militares tentaram impedir a posse constitucional do vice-presidente. No Rio Grande do Sul, Leonel Brizola liderou a Campanha da Legalidade em defesa da sucessão prevista pela Constituição.
Maria Thereza acompanhou a crise inicialmente da Espanha e, depois, de Paris. Em depoimentos posteriores, afirmou ter defendido o retorno do marido ao Brasil e demonstrado desconfiança em relação à solução parlamentarista negociada para permitir sua posse. O compromisso aprovado pelo Congresso reduziu temporariamente os poderes presidenciais e transferiu parte das funções executivas para um primeiro-ministro. João Goulart tomou posse em 7 de setembro de 1961.
Ao desembarcar em Brasília após o desfecho da crise, Maria Thereza passou a exercer a função de primeira-dama. Sua chegada foi acompanhada por intensa cobertura da imprensa, que explorou a combinação entre sua juventude, a instabilidade política e a mudança repentina da família para a residência presidencial.
Primeira-dama do Brasil
Vida pública e residências oficiais
miniaturadaimagem|Maria Thereza em fotografia oficial preservada pelo Arquivo Nacional.
Durante o governo Goulart, a família utilizou o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. Maria Thereza considerava o Alvorada excessivamente formal para a vida cotidiana e preferia a Granja do Torto, onde havia maior privacidade e espaço para a prática da equitação. O palácio, entretanto, continuou sendo empregado em recepções, banquetes e cerimônias oficiais.
Como primeira-dama, participou da recepção a autoridades estrangeiras, de solenidades governamentais e de eventos beneficentes. Sua presença pública, entretanto, não correspondia a um cargo constitucional ou administrativo. As funções exercidas pelas primeiras-damas resultavam de convenções sociais e políticas, especialmente da tradição de vincular a esposa do presidente à assistência social.
A exposição de sua vida pessoal produziu tensões com a imprensa. Colunas sociais publicavam comentários sobre suas roupas, viagens, gastos e rotina familiar. Parte dessas notícias era baseada em informações não verificadas ou em disputas políticas que atingiam o governo. Maria Thereza chegou a pedir publicamente que os jornalistas reduzissem a cobertura de sua intimidade.
Legião Brasileira de Assistência
A principal atividade institucional de Maria Thereza foi desenvolvida na Legião Brasileira de Assistência. Criada em 1942, a LBA havia se consolidado como uma entidade de alcance nacional destinada inicialmente ao apoio às famílias de soldados brasileiros e, posteriormente, a diferentes programas de assistência à maternidade, à infância, à saúde e às populações de baixa renda. Ao longo de sua história, a instituição manteve forte associação com as esposas dos presidentes da República, fenômeno posteriormente denominado primeiro-damismo.
Ao assumir sua presidência de honra, Maria Thereza encontrou a representação da LBA em Brasília ainda pouco estruturada. Com o auxílio de funcionários e de colaboradores, participou da organização de uma sede na nova capital e da formação de uma equipe responsável por receber pedidos, coordenar campanhas e manter contato com as unidades estaduais. A sede inicial funcionou em um imóvel de dimensões reduzidas, adaptado às necessidades administrativas da entidade.
Nos primeiros meses, acompanhou campanhas voltadas à assistência materno-infantil, à distribuição de medicamentos e alimentos e ao atendimento de famílias em situação de vulnerabilidade. Também realizou visitas a hospitais, creches e representações estaduais da LBA. Segundo Rodrigues, a agenda passou a ocupar parte significativa de sua rotina, contrariando a imagem de que sua atuação se limitava a aparições cerimoniais.
Entre as ações divulgadas durante sua gestão estiveram a mobilização nacional de combate à tuberculose e a inauguração, em São Paulo, de uma unidade hospitalar da LBA que recebeu seu nome. Maria Thereza também participou de campanhas para obtenção de veículos, equipamentos e recursos. Bens doados à instituição podiam ser utilizados diretamente ou leiloados para financiar programas assistenciais.
A primeira-dama procurou manter interlocução com esposas de governadores, dirigentes estaduais e entidades filantrópicas. Esse sistema reproduzia a organização hierárquica da assistência social do período, na qual mulheres ligadas às elites políticas atuavam como intermediárias entre o Estado, instituições de caridade e beneficiários. Estudos sobre a LBA observam que tais práticas ampliaram serviços sociais, mas também reforçaram a personalização da assistência e a associação entre cuidado, caridade e papéis femininos tradicionais.
Em junho de 1963, Maria Thereza apresentou ao conselho da LBA um pedido para deixar a presidência de honra. Alegou que limitações administrativas e orçamentárias impediam que imprimisse à entidade o ritmo desejado. O conselho rejeitou a solicitação e a convenceu a permanecer. Nos primeiros meses de 1964, porém, sua participação diminuiu em meio à crise política e às acusações dirigidas contra o governo.