Epilepsia é um grupo de doenças neurológicas não transmissíveis caracterizadas por uma predisposição a crises epilépticas recorrentes e não provocadas. Uma crise epiléptica é uma descarga súbita e anormal de atividade elétrica no cérebro, que pode provocar sintomas variados, desde lapsos breves de consciência até convulsões prolongadas. Esses episódios podem resultar em lesões físicas, tanto diretamente (como fraturas) quanto por acidentes. O diagnóstico de epilepsia geralmente requer ao menos duas crises não provocadas com intervalo superior a 24 horas, embora, em alguns casos, possa ser estabelecido após um único episódio se houver evidências clínicas de alto risco de recorrência. Crises isoladas, sem risco de recorrência ou provocadas por causas identificáveis, não configuram epilepsia.
A causa subjacente frequentemente é desconhecida, mas a epilepsia pode decorrer de traumatismo cranioencefálico, acidente vascular cerebral, infecções, tumores cerebrais, alterações genéticas ou anormalidades do desenvolvimento. Em alguns casos, essas causas podem ser preveníveis. O diagnóstico envolve a exclusão de outras condições que possam simular crises epilépticas, podendo incluir neuroimagem, exames laboratoriais e eletroencefalograma (EEG).
Cerca de 69% dos casos de epilepsia podem ser controlados de forma eficaz com medicamentos anticonvulsivantes, que são amplamente disponíveis e de baixo custo. Em casos refratários, podem ser consideradas alternativas como cirurgia, neuroestimulação ou dietas terapêuticas, como a dieta cetogênica. Nem todos os casos são permanentes, e muitas pessoas podem atingir um controle duradouro a ponto de não necessitarem mais de tratamento; nesses casos, a epilepsia é considerada resolvida.
Em 2024, cerca de 50 milhões de pessoas no mundo viviam com epilepsia, com quase 80% dos casos concentrados em países de baixa e média renda. Nessas regiões, o impacto da epilepsia é mais que o dobro observado em países de alta renda, provavelmente devido à maior exposição a fatores de risco, como lesões perinatais, infecções e traumas, somada à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Em 2021, a epilepsia foi responsável por cerca de 140 mil mortes, um aumento em relação às 125 mil registradas em 1990.
A doença é mais comum em crianças e idosos. Estima-se que entre 5% e 10% das pessoas terão uma crise não provocada até os 80 anos de idade, e a chance de uma segunda crise nos dois anos seguintes à primeira é de aproximadamente 40%.
Pessoas com epilepsia podem enfrentar tratamento desigual e diferentes graus de estigma social ao redor do mundo, devido à natureza alarmante de suas manifestações clínicas. Em diversos países, há restrições legais para dirigir, sendo necessário um período de controle das crises antes de recuperar a autorização para condução de veículos. O termo epilepsia deriva do grego antigo , que significa "tomar", "possuir" ou "afligir".
Sinais e sintomas A epilepsia caracteriza-se por uma predisposição duradoura à ocorrência de crises epilépticas recorrentes e não provocadas. A manifestação clínica das crises pode variar amplamente, dependendo das regiões cerebrais afetadas, da idade de início e do tipo de epilepsia envolvido.
Crise epiléptica
Uma crise epiléptica é uma manifestação clínica resultante de uma descarga transitória, excessiva, síncrona e anormal dos neurônios. Estas descargas podem variar em localização, extensão e severidade, resultando em uma ampla diversidade de formas clínicas. Os sinais e sintomas de uma crise epiléptica refletem, portanto, a ativação da parte do cérebro afetada por esta atividade excessiva.
Segundo a classificação de 2025 da Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE), as crises epilépticas são agrupadas em quatro classes principais: focais, generalizadas, de origem desconhecida (se são focais ou generalizadas), e não classificadas.
Crises focais As crises focais têm origem em um dos hemisférios cerebrais e podem envolver redes neuronais localizadas ou distribuídas. Para um determinado tipo de crise, o local de início tende a ser consistente entre os episódios. Uma vez iniciada, a crise pode permanecer localizada ou se espalhar para áreas adjacentes e, em alguns casos, pode propagar-se para o hemisfério oposto (propagação contralateral). Essas crises são ainda classificadas com base no estado de consciência durante o episódio:
Crise focal com consciência preservada: a pessoa permanece consciente e responsiva. Crise focal com alteração da consciência: há prejuízo da consciência e/ou da responsividade.
Determinadas sensações conhecidas como auras frequentemente antecedem as crises focais. As manifestações clínicas podem incluir fenômenos sensitivos (visuais, auditivos ou olfativos), psíquicos, autonômicos e motores, dependendo da região cerebral envolvida. Espasmos musculares podem começar em um grupo muscular específico e se espalhar para grupos vizinhos — fenômeno conhecido como marcha jacksoniana. Também podem ocorrer automatismos, que são comportamentos gerados sem consciência, geralmente movimentos repetitivos simples como estalar os lábios, ou mais complexos, como tentar pegar objetos imaginários. Algumas crises focais podem evoluir para crises tônico-clônicas bilaterais de início focal, quando a atividade epiléptica anormal se propaga para ambos os hemisférios cerebrais.
Crises generalizadas As crises generalizadas espalham-se rapidamente por ambos os hemisférios através de redes cerebrais interligadas. Embora a disseminação seja rápida, o início pode parecer assimétrico em alguns casos. Essas crises normalmente comprometem a consciência desde o início e podem assumir diversas formas, incluindo:
Crises tônico-clônicas generalizadas, frequentemente com uma fase tônica inicial seguida por abalos clônicos;
Crises de ausência, que podem se manifestar com piscamentos ou automatismos;
Outras crises generalizadas, categoria que inclui crises tônicas, clônicas, mioclônicas, atônicas e espasmos epilépticos.
As crises tônico-clônicas estão entre os tipos mais reconhecíveis, tipicamente envolvendo perda súbita da consciência, rigidez muscular (fase tônica) e abalos rítmicos (fase clônica) dos membros. Esse tipo de crise (seja de início focal com generalização, generalizada desde o início ou de origem desconhecida) recebe atenção especial devido à sua gravidade clínica, estando associado a maior risco de lesões, complicações médicas e morte súbita inesperada na epilepsia (SUDEP).
As crises mioclônicas envolvem abalos musculares súbitos e breves, que podem afetar grupos musculares específicos ou o corpo inteiro. Essas crises podem causar quedas e lesões. Já as crises de ausência são caracterizadas por breves lapsos de consciência, às vezes acompanhados por movimentos sutis como piscamentos ou leve desvio da cabeça. A recuperação costuma ser imediata e sem confusão. As crises atônicas, por sua vez, envolvem perda súbita do tônus muscular, frequentemente resultando em quedas.
Fatores desencadeantes e crises reflexas Determinados fatores externos ou internos podem aumentar a probabilidade de ocorrência de uma crise em pessoas com epilepsia. Esses fatores desencadeantes não causam epilepsia, mas podem reduzir o limiar convulsivo em indivíduos predispostos. Entre os desencadeantes mais comuns estão a privação de sono, estresse, febre, doenças, menstruação, consumo de álcool e certos medicamentos. Sozinhos, esses fatores não provocam crises, mas podem facilitar sua ocorrência em pessoas suscetíveis.
Um pequeno subgrupo de indivíduos apresenta epilepsia reflexa, na qual as crises são sistematicamente provocadas por estímulos específicos. As crises reflexas correspondem a cerca de 6% dos casos de epilepsia. Os estímulos mais comuns incluem luzes intermitentes (epilepsia fotossensível), sons súbitos ou tarefas cognitivas específicas, como leitura ou cálculos. Em algumas síndromes epilépticas, as crises ocorrem com maior frequência durante o sono ou ao despertar.
Agrupamentos de crises Os agrupamentos de crises epilépticas (ou seizure clusters) referem-se à ocorrência de múltiplas crises em um curto intervalo de tempo, com recuperação incompleta entre os episódios. São distintos do estado de mal epiléptico, embora possam coexistir ou evoluir para ele. As definições variam entre os estudos, mas os agrupamentos são geralmente descritos como duas ou mais crises em 24 horas ou um aumento notável na frequência das crises em relação ao padrão habitual da pessoa. As estimativas de prevalência variam amplamente, de 5% a 50% das pessoas com epilepsia, devido, em grande parte, às diferentes definições e populações estudadas. Os agrupamentos de crises são mais comuns em pessoas com epilepsia farmacorresistente, alta frequência basal de crises ou em algumas síndromes epilépticas específicas. Estão associados a maior uso de serviços de emergência, pior qualidade de vida, prejuízos no funcionamento psicossocial e, possivelmente, aumento do risco de mortalidade.
Estado pós-ictal Após a fase ativa de uma crise (o período ictal), é comum haver um intervalo de recuperação caracterizado por confusão, conhecido como estado pós-ictal, até que o nível de consciência volte ao normal. Esse período pode durar de minutos a dias. Durante esse estado, podem ocorrer cefaleia, fadiga, distúrbios da fala ou alterações motoras. Algumas pessoas apresentam paralisia de Todd, uma fraqueza focal transitória após a crise. A psicose pós-ictal ocorre em aproximadamente 2% das pessoas com epilepsia, especialmente após agrupamentos de crises tônico-clônicas generalizadas.
Psicossocial A epilepsia pode ter impactos significativos no bem-estar psicológico e social. Pessoas com a condição podem enfrentar isolamento social, estigma ou limitações funcionais, o que pode contribuir para menor escolaridade e redução nas oportunidades de emprego. Esses desafios frequentemente se estendem aos familiares, que também podem enfrentar estigma e um aumento na carga de cuidados.
Diversos transtornos psiquiátricos e do neurodesenvolvimento são mais comuns em pessoas com epilepsia. Entre eles estão a depressão maior, transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e enxaqueca. O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é particularmente prevalente em crianças com epilepsia, com ocorrência de três a cinco vezes maior do que na população geral. A associação entre TDAH e epilepsia pode afetar de forma significativa o comportamento, a aprendizagem e o desenvolvimento social. A epilepsia também é mais comum em crianças com transtorno do espectro autista.
Estima-se que cerca de um terço das pessoas com epilepsia tenha histórico de transtorno psiquiátrico ao longo da vida. Essa associação provavelmente reflete uma combinação de mecanismos neurobiológicos comuns e o impacto psicossocial de viver com uma condição neurológica crônica.
A presença concomitante de depressão e ansiedade está associada à pior qualidade de vida, maior uso de serviços de saúde, pior resposta ao tratamento (inclusive à cirurgia) e maior mortalidade. Alguns estudos sugerem que esses transtornos psiquiátricos podem influenciar a qualidade de vida mais intensamente do que o tipo ou a frequência das crises. Apesar de sua relevância clínica, a depressão e a ansiedade frequentemente permanecem subdiagnosticadas e subtratadas em pessoas com epilepsia.
A qualidade de vida das pessoas com epilepsia depende não apenas do controle das crises, mas também de fatores emocionais como ansiedade e depressão, que apresentam alta prevalência e podem ser agravadas por estigma social e isolamento. A integração do tratamento psicológico ao medicamentoso é essencial, uma vez que a depressão pode influenciar mais negativamente a eficácia terapêutica do que as próprias convulsões.
Causas thumb|Em 60% a causa é desconhecida, mas algumas doenças neurológicas como a Síndrome de Rasmussen podem causar epilepsia (foto).