Óscar Omar Míguez Antón (Montevidéu, 5 de dezembro de 1927- Montevidéu, 19 de agosto de 2006) foi um futebolista uruguaio que jogava como o centroavante, posição da qual foi o titular da seleção uruguaia campeã mundial de 1950. Até hoje, Oscar é o maior artilheiro do Uruguai nas Copas do Mundo FIFA, somando oito gols.GEHRINGER, Max (dez. 2005). Os campeões. Placar - A Saga da Jules Rimet, fascículo 4 - 1950 Brasil. São Paulo: Editora Abril, pp. 40-41
Com 27 gols em 39 jogos no total pelo Uruguai, Míguez também foi por muito tempo o terceiro maior artilheiro da seleção, atrás de Héctor Scarone e Ángel Romano durante o século XX. Depois, foi ultrapassado pelos nomes mais recentes de Diego Forlán, Edinson Cavani e Luis Suárez. Míguez destacava-se pela rapidez mental e um domínio incomum da bola, com gols de cabeça, de voleio ou de bicicleta buscados por toda uma partida até que saíssem. Não se satisfazia apenas em marcar gols, sendo um centroavante malabarista. Ele, porém, negava ter sido um grande jogador.A derrota (19 jun. 1970). Placar n. 14-A. São Paulo: Editora Abril, pp. 8-15
A nível de clubes, destacou-se no Peñarol, onde fez ao todo 137 gols e 107 gols, rendendo-lhe excelente média de 0,78 gols por jogo e diversas propostas do exterior durante seu auge, sempre recusadas por seu amor ao time.
Carreira Inícios Na infância, vendia leite com seu pai pela manhã e à tarde ia à escola. Ainda nessa fase da vida recebeu o apelido de El Cotorra ("a cocota"), em jogo de rua testemunhado por uma vizinha que assim chamou-lhe em função de uma boina verde usada por Míguez. No futebol, ele começou como marcador e passou logo ao ataque.
No futebol oficial, Míguez começou no Sud América, em 1943. O clube foi rebaixado em 1945 e só voltaria à primeira divisão do campeonato uruguaio em 1952. Foi em 1947, ainda como juvenil, que ele se projetou, graças a um amistoso contra os quartos quadros de seu clube e o Peñarol em uma partida no estádio Centenário preliminar para uma entre a equipe principal dos aurinegros contra o River Plate. O Sud América goleou com três gols de Míguez.
A partida chamou a atenção dos dois principais clubes uruguaios. Míguez chegou a treinar no fim do ano no Nacional. "Don Ángel Romano, um cavalheiraço, me levou ao Nacional a fins de 1947. Ele sabia muito bem que eu era manya (torcedor do Peñarol). Se quando o Peñarol ganhava, armávamos um escândalo bárbaro aqui no bairro. E eu era dos principais. (Mas) não vou andar ao lado de Ciocca? Quem não jogava a seu lado? O que aconteceu é que a camisa não me caía bem e tchau. Pedi perdão a don Ángel e não fui mais. Essas coisas daquela época". Acabou acertando com o time do coração, que o sondou ainda em meio àquela goleada do Sud América, conforme Míguez detalharia:
Peñarol
Míguez transferiu-se ao Peñarol juntamente com Alcides Ghiggia, a quem conhecera no Sud América. Curiosamente, neste clubes ambos jogavam em posições inversas às quais se consagrariam: era Ghiggia o centroavante e Míguez o ponta-direita. Outro a chegar foi o argentino Juan Hohberg, do Rosario Central.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1948. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 88-89 Diferentemente de Ghiggia, que precisou esperar até 1949 para firmar-se no novo clube,BASSORELLI, Gerardo (2012). El Ñato Ghiggia. Héroes de Peñarol. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 248-251 Míguez destacou-se assim que chegou: foi o artilheiro do elenco aurinegro no ano de 1948, com 17 gols. Oito deles foram válidos pelo campeonato e bastaram para que ele fosse o artilheiro do torneio: o campeonato foi paralisado após a primeira rodada do segundo turno em função de uma longa greve. Ela só veio a se encerrar em abril do ano seguinte.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1949. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 90-91 O título foi então dado a quem era líder, o rival Nacional.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1948. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 102-103
Em 1949, porém, o Peñarol terminou campeão de modo arrasador ainda que sem nenhum novo jogador relevante, tendo como grande reforço o técnico húngaro Emérico Hirschl. Em maio, escalou-se pela primeira vez o quinteto ofensivo formado por Ghiggia na ponta-direita, Hohberg na meia-direita, Míguez de centroavante, Schiaffino na meia-esquerda e o ítalo-argentino Ernesto Vidal na ponta-esquerda. Deles, somente Hohberg não pôde ir à Copa do Mundo FIFA de 1950, com sua naturalização sendo concedida apenas posteriormente, ao contrário da de Vidal.
A estreia do quinteto ocorreu em goleada por 5-1 sobre, curiosamente, o Sud América. Foi o marco inicial de um ataque apelidado de "Esquadrilha da Morte". Míguez era o membro mais jovem dos cinco. O time como um tudo foi por sua vez apelidado de La Máquina del 49. O título veio com uma campanha invicta, com 16 vitórias, 2 empates, 62 gols a favor e 17 contra.GEHRINGER, Max (dez. 2005). Histórias épicas de heroísmo. Placar - A Saga da Jules Rimet, fascículo 4 - 1950 Brasil. São Paulo: Editora Abril, pp. 44-45 Considerando amistosos, foram 113 gols em 32 partidas, em média de três gols e meio por jogo. Apenas uma vez o clube foi derrotado naquele ano, em amistoso com o time argentino do Huracán. Foram conquistados 52 dos 54 pontos em disputa. Míguez, novamente, foi o artilheiro do elenco no ano, agora com 38 gols, e do campeonato, com 20.
A campanha foi tão avassaladora que três adversários abandonaram o campo: o Liverpool uruguaio, o Rampla Juniors e, na ocasião mais famosa, o rival Nacional, no que ficou conhecido como El Clásico de la Fuga, pois os tricolores, temendo uma goleada, não retornaram à partida após o intervalo. Estavam perdendo por 2-0 e tinham dois jogadores expulsos. O segundo gol veio em rebote de pênalti desperdiçado por Míguez; protestos pela penalidade haviam causado a expulsão de Eusebio Tejera e novos protestos, sustentando que o autor do segundo gol (Vidal) havia invadido a área antes da cobrança de Míguez, levaram à expulsão de Walter Gómez. Tejera estaria na Copa do Mundo FIFA de 1950, mas Gómez não, punido com longa suspensão em função dessa expulsão.
A grande campanha fez com que seis jogadores do Peñarol compusessem a base da Seleção Uruguaia na Copa do Mundo de 1950: Roque Máspoli, Obdulio Varela e os já citados Ghiggia, Schiaffino, Míguez e Vidal. Apenas Vidal não participaria do Maracanaço, devido a uma lesão, cedendo lugar a Rubén Morán. Ao todo, foram nove jogadores aurinegros convocados.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1950. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 92 E era desejo no clube que outro presente na seleção fosse o próprio técnico Hirschl. Como isso não foi atendido, os dirigentes aurinegros chegaram a ameaçar uma proibição na convocação dos seus jogadores. Ironicamente, o time, prejudicado com uma lesão de Schiaffino nos meniscos, terminou perdendo o campeonato uruguaio de 1950 para o arquirrival.
Já em 1951 o Peñarol fez nova grande campanha, com apenas uma derrota no campeonato, para o River Plate uruguaio (2-1), adversário que chegou a ser goleado por 7-0 em torneio de pré-temporada - Míguez fez quatro gols.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1951. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 93 O título de 1951 fez o Peñarol ser chamado para a Copa Rio de 1952, onde bateu os adversários europeus, mas viu-se prejudicado pela arbitragem contra os brasileiros. Já no campeonato doméstico, Peñarol e Nacional terminaram empatados, forçando um jogo-extra realizado em fevereiro do ano seguinte. Ghiggia e Míguez foram expulsos nele e o rival terminou campeão.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1952. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 94-95 Foi inclusive a última partida do amigo Ghiggia pelo Peñarol. Acusado de agredir o árbitro, sua expulsão foi seguida de uma suspensão de quinze meses, o que influenciou na venda do jogador ao exterior.
O título foi recuperado em 1953. Embora passando a alternar-se com Rodolfo Pippo, Míguez chegou a participar e marcar um dos gols na goleada de 5-0 sobre o arquirrival Nacional.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1953. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 96 Um bicampeonato veio em 1954 com oito pontos de diferença para o vice Danubio, apesar dos desfalques de Schiaffino (vendido ao Milan) e de Obdulio (que jogou somente as rodadas finais após voltar lesionado da Copa do Mundo daquele ano). Para Míguez, continuava a alternância com Pippo.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1954. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 97-99 Os dois anos seguintes foram de certa entressafra, mas Míguez recuperou a titularidade absoluta.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1955. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 100-101ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1956. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 102-103 Em 1957, novo ano sem títulos, passou a concorrer com o argentino Elio Montaño.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1957. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 104
O título voltou enfim em 1958, já com um plantel bastante reformulado, com dispensa de Víctor Rodríguez Andrade (outro presente no Maracanaço) e a ausência de Hohberg - inicialmente requisitado pelo Sporting Clube de Portugal, com quem não terminou acertando, mas ainda assim tornando-se sério desfalque por sofrer acidente aéreo não-fatal ao retornar. Míguez era um remanescente, ainda que mantivesse a alternância com Montaño. O título veio com um ponto de diferença para os vices Nacional e Rampla Juniors.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1958. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 105 Mas já não permaneceu para a temporada seguinte.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1959. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 106-107 O título de 1958 foi o primeiro do chamado "Primeiro Quinquenio de Oro" do Peñarol, o pentacampeonato seguido no campeonato uruguaio a perdurar até 1962,ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1962. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 116-117 série que igualou um orgulho até então exclusivo do arquirrival, que tivera o seu Quinquenio na virada da década de 1930 para a de 1940.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1939-1943. El Nacional de Atilio y El Quinquenio de Oro. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 82-83
Míguez foi em 1959 ao Sporting Cristal, do Peru, onde chegou a ser visitado por Pelé no hotel da concentração, e em 1960 veio ao Rampla Juniors, onde chegou a jogar com Ángel Labruna. Por fim, parou no Colón. Sobre Míguez, assim declararia Néstor Gonçalves, futuro recordista de títulos no PeñarolBASSORELLI, Gerardo (2012). El Tito Gonçalves. Héroes de Peñarol. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 248-251 e com quem chegou a jogar a partir de 1957.
Ao todo, foram 137 gols e 107 gols pelo Peñarol, rendendo-lhe excelente média de 0,78 gols por jogo e diversas propostas do exterior durante seu auge, sempre recusadas por seu amor ao time.
Seleção Copa de 1950 Míguez estreou pelo Uruguai em 30 de abril de 1950, a poucas semanas da Copa do Mundo daquele ano. Naquele data, a Celeste perdeu de 3-2 para o Paraguai, já no Rio de Janeiro, no estádio São Januário, pela Copa Trompowsky.