miniatura|Um homem e uma mulher conversando, do lado de fora de um café. Heteronormatividade (do grego hetero, "diferente", e norma, "esquadro" em latim) é um termo usado para descrever situações na qual a heterossexualidade e as relações heterossexuais são tidas como universais e a suposição de que todas as pessoas devem ser naturalmente heterossexuais. A heteronormatividade pressupõe que a heterossexualidade é a orientação sexual padrão e que a única forma natural de se expressar sexualidade e atração envolvem pessoas de sexos opostos. Uma visão heteronormativa, portanto, envolve o alinhamento entre sexo biológico, sexualidade e papéis de gênero.

A heteronormatividade é vista como profundamente associada ao heterossexismo e à homofobia, e os efeitos da heteronormatividade social sobre indivíduos homossexuais e bissexuais têm sido descritos como privilégio heterossexual ou "hétero".

Origem do termo O termo foi cunhado por Michael Warner em 1991WARNER, Michael. "Introduction: Fear of a Queer Planet". Social Text; 9 (4 ): 3-17, 1991 em uma das primeiras grandes obras sobre a teoria queer, e possui raízes na noção de Gayle Rubin do "sistema sexo/gênero", na ideia de Adrienne Rich de heterossexualidade compulsóriaRICH, Adrienne. "Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence" in Signs: Journal of Women in Culture and Society, 5:631-60, 1980. e na obra de Craig Rodwell sobre heterossexismo e sistemas opressivos anti-homossexuais.

Numa série de artigos, Samuel A. Chambers tentou teorizar a heteronormatividade mais explicitamente, clamando por uma compreensão da heteronormatividade como um conceito que revela as expectativas, demandas e restrições produzidas quando a heterossexualidade é tomada como normativa dentro de uma sociedade.CHAMBERS, Samuel A. "Telepistemology of the Closet; Or, the Queer Politics of Six Feet Under". Journal of American Culture 26.1: 24-41, 2003CHAMBERS, Samuel A. "Revisiting the Closet: Reading Sexuality in Six Feet Under, in Reading Six Feet Under. McCabe e Akass, eds. IB Taurus, 2005.

Cathy J. Cohen define a heteronormatividade como a prática e as instituições "que legitimam e privilegiam a heterossexualidade e relacionamentos heterossexuais como fundamentais e 'naturais' dentro da sociedade".COHEN, Cathy J. Punks, bulldaggers, and welfare queen: The radical potential of queer politics? in "Black Queer Studies". E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson, eds. Duke UP, 2005. 24 Sua obra enfatiza a importância da sexualidade envolvida em estruturas maiores de poder, intersectando com e inseparável de raça, gênero e opressão de classe. Ela assinala os exemplos de mães solteiras em auxílio-desemprego (particularmente mulheres negras) e trabalhadores do sexo, que podem ser heterossexuais, mas não são heteronormativos e assim não são percebidos como "normal, moral ou merecedores de ajuda do Estado" ou de legitimação.COHEN, Cathy J. Punks, bulldaggers, and welfare queen: The radical potential of queer politics? in "Black Queer Studies". E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson, eds. Duke UP, 2005. 26

De acordo com Richard Miskolci, a heteronormatividade expressa as expectativas, as demandas e as obrigações sociais que derivam do pressuposto da heterossexualidade como natural e, portanto, fundamento da sociedade. A heteronormatividade é um conjunto de prescrições que fundamenta processos sociais de regulação e controle, até mesmo aqueles que não se relacionam com pessoas do sexo oposto. É uma denominação contemporânea para o dispositivo histórico da sexualidade que evidencia seu objetivo: formar todos para serem heterossexuais ou organizarem suas vidas a partir do modelo supostamente coerente, superior e “natural” da heterossexualidade. Para Miskolci, o estudo da sexualidade necessariamente implica explorar os meandros da heteronormatividade, tanto a homofobia materializada em mecanismos de interdição e controle das relações amorosas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo, quanto a padronização heteronormativa dos homo orientados.

Lauren Berlant desenvolveu ainda mais essas ideias em seu ensaio seminal "Sexo em Público":

Relação com o casamento e família nuclear As estruturas familiares modernas do passado e do presente variam em relação ao que era típico da família nuclear da década de 1950. Nos Estados, Unidos, por exemplo, as famílias da segunda metade do século XIX e início do século XX eram caracterizadas pela morte de um ou ambos os pais em muitas crianças americanas. Em 1985, estimava-se que os Estados Unidos abrigassem aproximadamente 2,5 milhões de lares pós-divórcio com famílias reconstituídas e filhos.

Nas últimas três décadas, as taxas de divórcio, parentalidade monoparental e coabitação aumentaram vertiginosamente.Benfer, Amy. The Nuclear Family Takes a Hit , Salon.com. 7 June 2001 Famílias não tradicionais (Que divergem de "Uma família de classe média com um pai provedor e uma mãe dona de casa, casados ​​entre si e criando seus filhos biológicos") constituem a maioria das famílias no Brasil, Estados Unidos, Rússia e Canadá atualmente. O casamento com compartilhamento de renda/parentalidade, no qual dois pais heterossexuais são igualmente provedores de recursos e cuidadores dos filhos, tornou-se a nova norma social. Famílias modernas também podem ter famílias chefiadas por pais solteiros, o que pode ser causado por divórcio, separação, morte, famílias com dois pais solteiros, mas com filhos, ou famílias com pais do mesmo sexo. Com a inseminação artificial, barrigas de aluguel e adoção, as famílias já não precisam ser formadas exclusivamente pela união biológica heteronormativa de reprodução de um homem e uma mulher.

As consequências dessas mudanças para os adultos e crianças envolvidos são amplamente debatidas. Em um amplo estudo sobre configurações conjugais em Massachusetts, em 2009, o psicólogo do desenvolvimento Michael Lamb testemunhou que a orientação sexual dos pais não afeta negativamente o desenvolvimento infantil. "Desde o final da década de 1980... está bem estabelecido que crianças e adolescentes podem se adaptar tão bem em ambientes não tradicionais quanto em ambientes tradicionais". Michael Lamb, Ph.D.: Affidavit – United States District Court for the District of Massachusetts (2009)

Temporalidade heteronormativa A temporalidade heteronormativa, um subconjunto da heteronormatividade, postula que a trajetória social ideal envolve alcançar o casamento heterossexual como objetivo final da vida. Essa ideologia impõe expectativas sociais que encorajam os indivíduos a se conformarem aos papéis tradicionais dentro de uma estrutura familiar nuclear: buscar um parceiro do sexo oposto, entrar em casamento heterossexual tradicional e criar filhos.Schalet, Amy T. Not under My Roof: Parents, Teens, and the Culture of Sex. Chicago: U of Chicago, 2011. A temporalidade heteronormativa também promove a abstinência sexual até o casamento. Muitos pais aderem a essa narrativa heteronormativa e a ensinam aos filhos. De acordo com Amy T. Schalet, a maior parte da educação sexual entre pais e filhos nos Estados Unidos, gira em torno do estímulo á práticas de abstinência sexual, mas isso difere em outras partes do mundo.

Da mesma forma, a professora da Universidade George Washington, Abby Wilkerson, discute como as indústrias de saúde e medicamentos reforçam a visão do casamento heterossexual para promover a temporalidade heteronormativa. O conceito de temporalidade heteronormativa se estende além do casamento heterossexual, incluindo um sistema generalizado onde a heterossexualidade é vista como um padrão e qualquer coisa fora desse âmbito não é tolerada. Wilkerson explica que ela dita aspectos da vida cotidiana, como saúde nutricional, saúde pública, educação sexual, status socioeconômico, crenças pessoais e papéis tradicionais de gênero.

Heteronormatividade e heterossexismo Apesar de geralmente serem confundidos e tratados como uma coisa só, heteronormatividade e heterossexismo são conceitos diferentes, apesar de relacionados. O conceito de heteronormatividade foi cunhado como uma derivação do heterossexismo.Enquanto a heteronormatividade seria a suposição e a presunção social e cultural de que a todos os indivíduos são naturalmente heterossexuais e que a heterossexualidade e os relacionamentos heterossexuais são a única forma de expressão sexual entre indivíduos,o heterossexismo é o sistema de atitudes e opressões que colocam a heterossexualidade e os relacionamentos heterossexuais como norma privilegiada e reprime de forma estrutural e institucional os relacionamentos e sexualidades fora do padrão heterossexual.

Ver também

Bibliografia

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006. - entrevista concedida por Michel Foucault a B. Gallagher e A. Wilson, em Toronto, junho de 1982. Publicada originalmente em "The Advocate", n. 400, 7 de agosto de 1984, pp. 26–30 e 58. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I. A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1977. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade II. O Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade III. O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

Ligações externas COLLING, Leandro. Teoria Queer. Acessado em 30 de março de 2008. SANTOS, Ana Cristina. Heteroqueers contra a heteronormatividade: notas para uma teoria queer inclusiva. Acessado em 30 de março de 2008. TAVARES, Marcus. Como se ensina a ser menino na mídia televisiva?. Acessado em 30 de março de 2008.

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