O Cruzeiro (originalmente Cruzeiro) foi uma revista semanal ilustrada brasileira, lançada no Rio de Janeiro, em , editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. A direção inicial foi entregue a Carlos Malheiro Dias e Frederico Barata, cabendo a Malheiro Dias permanecer no cargo até 1933, quando foi sucedido por Antonio Accioly Neto e, posteriormente, por José Amádio, que em 1960 imprimiu um novo design editorial que ficou conhecido como "bossa nova". Foi a principal revista ilustrada brasileira da primeira metade do século XX. Deixou de circular em julho de 1975.
Estabeleceu uma nova linguagem na imprensa brasileira: inovações gráficas, publicação de grandes reportagens, ênfase ao fotojornalismo. Fortaleceu a parceria com as duplas repórter-fotógrafo, a mais famosa sendo formada por David Nasser e Jean Manzon que, nos anos 1940 e 1950, fizeram reportagens de grande repercussão.
Em 1941, O Cruzeiro também passou a ser o nome da Editora do grupo Diários Associados.
Lançamento e linha editorial miniaturadaimagem|Assis Chateaubriand, em 1957. A revista foi nomeada primeiramente como CruzeiroSERPA, Leoní. A contribuição de O Cruzeiro para com o jornalismo brasileiro (1928-1945). Disponível em: <http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/5o-encontro-2007-1/A%20contribuicao%20de%20O%20Cruzeiro%20para%20com%20o%20jornalismo%20brasileiro%20-1928-1945.pdf>. e foi lançada no dia 10 de novembro de 1928, sob o slogan "Compre amanhã o Cruzeiro, a revista contemporânea dos arranha-céus", prometendo uma linha editorial moderna. O projeto inicialmente era do jornalista Carlos Malheiro Dias, do periódico A Revista da Semana, mas foi vendido para Assis Chateaubriand, pois a Empresa Gráfica Cruzeiro S.A, pertencente a Carlos Dias, não tinha dinheiro para lançar a publicação. Apesar disso, a direção inicial coube a Malheiro Dias, em parceria com Frederico Barata, oriundo da equipe de O Jornal, ficando o primeiro no cargo até 1933, junto com o presidente da revista, José Mariano Filho. Meses depois, em junho de 1929, a revista, que já estava na edição número 30, passa a ser chamada de O Cruzeiro, nome que permanece até seu fim. No primeiro editorial da revista, lançado em dezembro de 1928, a publicação justifica seu nome:
A primeira edição foi impressa na Argentina, onde tinham equipamentos mais modernos como a rotogravura capaz de variar o tamanho das fotografias e imprimi-las ao mesmo tempo que o texto. As outras revistas no Brasil, na época, usavam chapa que não dava as oportunidades de impressão da anterior. O Cruzeiro foi a primeira revista de circulação nacional do Brasil e era financiada principalmente por publicidade, apesar de possuir a possibilidade de assinatura pelos leitores.
O intuito era criar uma revista moderna inspirada na revista norte-americana Life com conteúdo variado (como contos, crônicas, moda, esporte, cinema, charges, caricaturas, história, cobertura internacional, publicidade) e um layout diferente com muitas ilustrações e fotografias. A revista deixou claro em seu primeiro editorial que se diferenciava de suas “irmãs mais velhas que nasceram das demolições do Rio Colonial”, colocando-se na vanguarda da modernidade aliando seu nome a tecnologias modernas: “Cruzeiro encontrará ao nascer o arranha-céu, a radiotelefonia e o correio aéreo”.
As edições da O Cruzeiro tinham normalmente 48 páginas. A partir dos anos 1930, a revista passou a ter entre 56 e 64 páginas sendo quase metade rotogravura. Nesta época, um exemplar custava 2 mil réis. A publicação foi a primeira a contratar jornalistas, que puderam exercer a função em tempo integral sem precisar de outros trabalhos, e acabar com o "mito" de que a profissão era apenas um 'bico".
Conteúdo Entre seus diversos assuntos, a revista O Cruzeiro contava fatos sobre a vida dos astros de Hollywood, cinema, esportes e saúde. Ainda contava com seções de charges, política, culinária e moda. Porém, havia também um grande destaque para a vida da elite jovem brasileira nas páginas da revista com matérias sobre bailes e festas escolares, diversão na praia, eventos esportivos (incluindo competições de estudantes e militares), concursos de beleza, fotos de modelos e entrevistas com jovens ricas. A revista também publicava contos de revistas estrangeiras sem dar os devidos créditos e ainda copiava as ilustrações. As seções de moda também eram normalmente copiadas de revistas nova-iorquinas ou parisienses.
A revista possuía várias seções voltadas para o público feminino. A seção Da Mulher para Mulher, composta por cartas de conselhos da autora Maria Teresa, falava e ensinava as leitoras sobre as responsabilidades das mulheres no casamento e nas tarefas domésticas, designava as diferenças entre os homens e mulheres e havia também conselhos de como favorecer o homem durante o sexo. Em geral, trazia os valores da sociedade da época Também existia a seção Garotas que era ilustrada por Alceu Penna e escrito por Edgar Alencar e, a partir de 1957, por Maria Luiza Castelo Branco. As histórias das garotas fizeram tanto sucesso que criou várias tendências de moda e comportamento entre as jovens. As personagens viraram referências para as garotas da época. Consultório de Beleza, assinada por Elza Marzullo, cumpria o que o nome prometia, com dicas sobre cosméticos e beleza para mulheres e a seção Lar Doce Lar, assinada por Helena Sangirardi e Thereza de Paula Penna trazia receitas de culinárias para as leitoras. Dona era uma seção que trazia as maiores tendências da moda de Paris, escrita por Mme. Thérèse Clemenceau que deixou seu endereço francês ao dispor das leitoras para quaisquer dúvidas ou conselhos e A Moda em Hollywood divulgava as roupas mais usadas pelos famosos nos Estados Unidos.
As seções de humor também faziam grande sucesso na revista. No começo a revista trazia apenas charges ou ilustrações estrangeiras (seção A Caricatura no Estrangeiro) e só mais tarde passou a ter comediantes brasileiros. Millôr Fernandes estreou na seção humorística Poste Escrito com apenas 14 anos. Na década de 1940, Fernandes fez dupla com Péricles na seção Pif-Paf. Mas o maior sucesso foi a seção lançada em 1943, O Amigo da Onça, de Péricles que até rendeu brinquedos, enfeites, artefatos natalinos e bonecos de açúcar. A seção Estádio cobria competições esportivas como polo, futebol e hipismo e Cinelândia era seção dedicada as fofocas e vida dos artistas. miniaturadaimagem|Guimarães Rosa, 1960 O Cruzeiro também tinha espaço para literatura, em Obras Primas eram lançados textos de Machado de Assis, Eça de Queiroz e Balzac. A revista também promovia concurso de contos e um dos seus primeiros ganhadores foi Guimarães Rosas, que se tornou um dos maiores escritores brasileiros. Para falar de arquitetura, a revista criou a seção Nossa Casa e sobre jardinagem tinha Nosso Jardim, Nossa Chácara. Já para falar de políticos no mundo a revista criou a Pelas Cinco Partes do Mundo e para divulgar eventos de políticos existia o Figuras e Factos da Semana.
Na pequena seção Pequenos Anúncios a revista divulgava endereços de comércios, horário de filmes no cinema e navios para Europa e Estados Unidos. As seções Consultório Médico e Consultório Jurídico eram dedicadas para tirar dúvidas dos leitores sobre esses assuntos. Outras seções que ficaram famosas foram Arquivos Implacáveis, Política nacional e Figuras e Fatos da História do Brasil.
Reportagens sobre a cobertura da inauguração do Cristo Redentor, em 1930, e reportagem sobre o conflito no Oriente médio (a primeira feita pela imprensa brasileira) foram um sucesso. Além disso, coberturas sobre concursos de belezas eram bem recorrentes, principalmente depois que a brasileira Yolanda Pereira venceu o Miss Universo. Entre os assuntos abordados pela revista também existiam coisas exóticas como receitas de ração para marrecos, guias de como cuidar de coriza de coelhos ou de inflamações em cascos de cavalo.
As propagandas também faziam parte da publicação chegando a ocupar de 30% a 35% de suas páginas. A melhoria na impressão de imagens coloridas ajudou muito a promover anúncios comerciais ou até matérias patrocinadas. Na versão da O Cruzeiro Internacional também tinham anúncios e, às vezes, acontecia da publicação trazer produtos só encontrados em São Paulo ou Rio de Janeiro, mesmo a revista sendo destinada para o exterior.
Tradição e Modernidade na virada da década de 1930 Desde o primeiro número da revista O Cruzeiro, a seção “Carta de Mulher”, trazia o embate entre o o tradicional e o moderno, o campo e a cidade onde uma "tia da roça" e a uma "moça moderna" encenavam o velho e o novo. O jazz, o tango e o maxixe, o cabelo cortado curto, a boca pintada de batom vermelho e o cigarro, uma flapper norte-americana eram as imagens encarnadas por Lucia, a sobrinha que viva no Rio de Janeiro, e por Iracema, a sua antagonista e sua tia. Em 1929, Iracema, a tia, revela que sua sobrinha moderna não existiu, explica que criou a personagem para alertar as mães acerca dos perigos da vida moderna e conta que diversas mães “dos estados” escreveram à Iracema pedindo para cessar de publicar esse “pernicioso exemplo” invejado por “moças que ainda se conservam fiéis á antiga disciplina familiar”. A dramatização da modernidade, pela construção do um inverso, a tradição, é interessante porque em uma ideia e em outra, ao longo das cartas, vão sendo depositados elementos que não são apresentados no que pudessem ser contínuos, mas como opostos. Tais elementos são os hábitos, as vestimentas, os sentimentos, os lugares frequentados, as músicas, a diferença de idade, os espaços cindidos entre o rural e o urbano, dentre outros aspectos tomados como índices. Na troca de cartas ente tia e sobrinha, podemos observar o ensaio do imaginário civilizado, migrando da Europa, no caso a França, para o Norte Americano, algo como do flaneur ao sportsmen. E nesse aspecto, ao menos, podemos relacionar aquelas cartas com o conteúdo da revista como um todo naqueles seus primeiros anos. São as fotografias do espaço da praia — como espaço de sociabilidade era algo recente —, as ilustrações de edifícios no projeto de Alfred Agache para um plano diretor para a Cidade do Rio de Janeiro, receitas de remédios para cascos de cavalos e de ração para gansos. É possível que nem mesmo Iracema existisse, pois este era o pseudônimo de Carlos Malheiro Dias na seção “Cartas de Mulher”, no plural, na Revista da Semana, que circulou entre 1914 e 1918; e, em 1928, Carlos Malheiro Dias fundou O Cruzeiro.URSINI, Leslye Bombonatto. 2000. A revista O Cruzeiro na virada da década de 1930. Campinas: UNICAMP. http://repositorio.unicamp.br/Acervo/Detalhe/186755 https://doi.org/10.47749/T/UNICAMP.2000.186755 Há anunciado na Internet o leilão, ocorrido em 2017, da obra atribuída a Carlos Malheiro Dias, tendo como autora Iracema, sem sobrenome, intitulada Cartas de Mulher, editada pela Livraria Francisco Alves, sem data.
Prêmio Esso A reportagem de Mario de Moraes e Ubiratan de Lemos intitulada Uma tragédia brasileira — os paus-de-arara publicada no dia 22 de outubro de 1955 foi o primeiro trabalho jornalístico homenageado pelo prêmio Esso de jornalismo. A dupla de jornalistas se aventurou durante 11 dias em caminhão de oito toneladas com mais 104 nordestinos que vinham em buscar de emprego no Sudeste e Sul. A reportagem se tornou uma denúncia das condições subumanas e da exploração que esses nordestinos sofriam durante seu trajeto. A história publicada no O Cruzeiro culminou na proibição dos paus-de-arara.
Quando chegou no Rio de Janeiro, Mario de Moraes quase morreu, ficando três meses de cama, pois, durante a viagem, adquiriu tifo, doença causada por beber água contaminada na beira da estrada.
Fotografia e ilustrações