Marquês de Santa Iria foi um título nobiliárquico português instituído em 1833, no reinado de D. Maria II, para distinguir D. Luís Roque de Sousa Coutinho Monteiro Paim, que já detinha o Condado de Alva.

Ao longo do século XIX e do início do século XX, a linhagem dos titulares acumulou, por via matrimonial, a representação de outras casas nobres, designadamente as de Alva, Óbidos, Palma e Sabugal.

História

A mercê data de 4 de abril de 1833 e foi outorgada por D. Pedro, que exercia a regência em nome da filha, então menor. O agraciado era filho do diplomata D. Vicente Roque José de Sousa Coutinho de Meneses Monteiro Paim, 5.º senhor do morgado de Alva, que representou a Coroa portuguesa em Turim e em Paris, onde chegou a embaixador, e da segunda mulher deste, D. Luísa Inês Isabel de Montboissier Beaufort de Canillac, natural da Auvérnia e filha dos Condes de Canillac. Por via paterna, descendia de D. Rodrigo de Sousa Coutinho Castelo-Branco e Meneses, filho segundo do 9.º Conde de Redondo.

Nascido em Paris a 1 de fevereiro de 1783, durante a missão diplomática do pai, recebeu logo após o parto um batismo de urgência, dado o risco que corria a sua vida. A cerimónia solene decorreu posteriormente em Versalhes e teve como padrinhos os soberanos franceses, Luís XVI e Maria Antonieta. A capa usada nesse batismo, confecionada em seda de tom salmão e guarnecida a dourado, integra o espólio exposto na Casa de Santar e Magalhães.

Em 1799, ingressou no Exército, na arma de cavalaria. Durante a Guerra Peninsular, serviu junto do marechal Beresford e ascendeu ao posto de coronel, tendo sido promovido a brigadeiro em 1820. Afastado do governo militar do Algarve em 1828 em razão das suas convicções liberais, partiu para o exílio e juntou-se às forças liberais nos Açores, onde assumiu o governo militar da ilha de São Miguel logo após a sua ocupação pelas tropas do conde de Vila Flor, mantendo-o até à partida da expedição liberal para o continente. Tomou depois parte no desembarque do Mindelo e, durante o Cerco do Porto, chefiou a cavalaria liberal, na qualidade de inspetor e comandante-geral. Consolidado o triunfo liberal, dirigiu, entre 1833 e 1834, os governos militares do Algarve e da Corte e Estremadura, e em 1836 passou a integrar o Supremo Conselho de Justiça Militar. Tinha assento na Câmara dos Pares desde 1826, foi alcaide-mor de Rio Maior e terminou a carreira militar no posto de tenente-general. Desempenhou ainda as funções de gentil-homem da câmara de D. Maria II e foi agraciado com diversas ordens nacionais e estrangeiras, entre as quais a grã-cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, a Ordem da Torre e Espada e distinções da Bélgica, da Saxónia e de Espanha. Em Lisboa, a família residia num palácio no largo de São Pedro de Alcântara.

A sua mulher, com quem casou em 1800, era também sua sobrinha: D. Mariana Vicência de Sousa Holstein (1784–1829), natural de Turim e falecida em Paris, nascida da união de D. Alexandre de Sousa Holstein com D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho Paim e irmã do futuro 1.º Duque de Palmela. O casal teve sete filhos, um dos quais, D. Alexandre, alferes de caçadores, morreu em combate nas Linhas de Lisboa, em setembro de 1833. A linha do primogénito do casal, o 4.º Conde de Alva, extinguiu-se na geração seguinte, pelo que a chefia da família transitou para os descendentes do terceiro filho, D. Pedro de Sousa Coutinho Monteiro Paim, primeiro-tenente da Armada Real. Foi o matrimónio deste, celebrado em 1839 com D. Eugénia Maria de Assis Castelo Branco e Lancastre, 6.ª Condessa de Óbidos e do Sabugal e 7.ª Condessa de Palma, que associou estes patrimónios nobiliárquicos ao de Santa Iria. Com a casa de Óbidos, cujo título era de juro e herdade e gozava de honras de parente, transitou igualmente para a família o ofício hereditário de meirinho-mor do Reino.

Em 1945, com a morte do último Conde de Óbidos, a representação de todas estas casas passou para o sobrinho do falecido, José Luís de Vasconcelos e Sousa, filho de uma irmã daquele. Natural de Lisboa, onde nascera em 1888, era filho de Luís de Vasconcelos e Sousa, fidalgo cavaleiro da Casa Real, e de D. Eugénia Maria das Dores de Melo de Assis Mascarenhas, por cuja ascendência materna se ligava às linhagens dos Mascarenhas e dos Sousa Coutinho.

O arquivo da família, com documentos compreendidos entre 1384 e 1908, foi adquirido em hasta pública em 1995 e encontra-se atualmente à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

A ligação da família à vila de Santar, no concelho de Nelas, resulta do casamento, em 1947, de José Luís de Andrade de Vasconcelos e Sousa com Maria Teresa de Lancastre de Melo, filha dos 3.os Viscondes de Taveiro e representante da Casa de Santar e Magalhães. A partir de 2013, os descendentes deste casal promoveram a iniciativa Santar Vila Jardim, que interligou vários jardins históricos da vila e os tornou acessíveis ao público, segundo um plano do paisagista espanhol Fernando Caruncho.

Marqueses de Santa Iria (1833)

# Titular Datas Títulos Notas Ref. 1 D. Luís Roque de Sousa Coutinho Monteiro Paim 1783–1850 1.º Marquês de Santa Iria Primeiro titular. Oficial de cavalaria de orientação liberal, atingiu o posto de brigadeiro e, mais tarde, o de tenente-general, exerceu governos militares no Algarve e em Lisboa e foi membro da Câmara dos Pares. 2 José Luís de Vasconcelos e Sousa 1888–1966 2.º Marquês de Santa Iria Trineto do 1.º Marquês por via feminina, descendia deste através do terceiro filho, D. Pedro de Sousa Coutinho Monteiro Paim; a representação da casa coube-lhe por morte do último Conde de Óbidos, seu tio materno. Nasceu em Lisboa, a 7 de outubro de 1888. Pelo pai, Luís de Vasconcelos e Sousa, descendia da Casa de Castelo Melhor; a mãe era D. Eugénia Maria das Dores de Melo de Assis Mascarenhas. Serviu em Moçambique durante a Primeira Guerra Mundial. Em fevereiro de 1922, contraiu matrimónio em Lisboa com D. Emília van Zeller de Andrade, de quem teve descendência. Faleceu a 6 de outubro de 1966.

Representantes do título na República

Após a implantação da República, em 1910, cessou a concessão de títulos nobiliárquicos pelo Estado. (art. 3.º, n.º 3) Desde então, reivindicaram a representação do título os seguintes membros da família:

# Representante Datas Títulos pretendidos Notas Ref. 3 José Luís de Andrade de Vasconcelos e Sousa 1924–2006 3.º Marquês de Santa Iria Primeiro filho varão do 2.º marquês, nasceu a 9 de setembro de 1924. Foi cavaleiro de honra e devoção da Ordem Soberana e Militar de Malta. Em 1947, casou em Lisboa com D. Maria Teresa de Lancastre de Melo, filha do 3.º Viscondes de Taveiro, união que ligou a família à Casa de Santar e Magalhães. 4 José Luís de Melo de Vasconcelos e Sousa n. 1959 4.º Marquês de Santa Iria Primeiro filho varão do anterior, nasceu em Lisboa, a 14 de fevereiro de 1959. Formado em Economia pela Universidade de Lausana, tendo dirigido em Portugal o banco Edmond de Rothschild Europe. Juntamente com o irmão, Pedro, está na origem do projeto Santar Vila Jardim. Integra os órgãos sociais da Associação dos Amigos do Jardim Botânico da Ajuda, na qualidade de presidente do conselho fiscal. Em setembro de 2026, foi tema de um episódio da rubrica televisiva Sangue Azul, da SIC.

Árvore genealógica

O árvore genealógica seguinte resume a filiação dos titulares e dos representantes do título, desde o pai do 1.º Marquês até à atualidade. As linhas contínuas indicam filiação e as tracejadas, casamento.

Referências

+Santa Iria Categoria:Títulos criados por Maria II de Portugal Categoria:Fundações em Portugal em 1833