A Batalha de Matapão foi uma batalha naval travada a 19 de Julho de 1717, entre uma armada de aliados cristãos e a armada do Império Otomano. Foi travada no mar Mediterrâneo no golfo da Lacónia, no extremo sul da Grécia, a cerca de vinte milhas náuticas a nordeste do cabo de Matapão, que lhe deu o nome.

A armada cristã era essencialmente composta pela Armata grossa da República de Veneza, com uma esquadra de auxiliares dos Estados Pontifícios, da Ordem de Malta, do Grão-ducado da Toscana, e de Portugal. Com o desenvolver dos acontecimentos, foram estes últimos que travaram o combate mais importante da batalha, tendo a armada otomana retirado após um dia de combates, principalmente com as naus de guerra portuguesas.

A batalha foi uma vitória táctica dos aliados, mas indecisa do ponto de vista estratégico. No entanto, apesar de não apresentar qualquer resultado estratégico, o desempenho da esquadra portuguesa chefiada pelo seu almirante Lopo Furtado de Mendonça (conde de Rio Grande) prestigiou a Armada Real portuguesa, e toda a campanha pode ser considerada um grande êxito diplomático de D. João V ― apenas, parafraseando Clausewitz, com outros meios.

Nota sobre toponímia Neste artigo são usados os nomes que podemos ler nas fontes primárias e na subsequente historiografia, na sua maioria italiana dada a presença da República de Veneza nestas partes desde a Idade Média. A península do Peloponeso era nesta altura conhecida por Moreia no Ocidente. A província da Lacónia é também conhecida por Lacedemónia; o golfo da Lacónia, por golfo de Cefalónia. A ilha de Zante é a moderna Zacinto; o porto de Modon é a moderna Metoni; Coron é a moderna Coroni; e a ilha de Cérigo é a moderna Cítera, etc.

Contexto histórico A Grande Guerra Turca Em 1683, na guerra que na historiografia alemã é conhecida como a Grande Guerra Turca (Großer Türkenkrieg, 1683-1699) os exércitos do Império Otomano tinham voltado a pôr cerco a Viena, capital do Sacro Império Romano-Germânico, como tinham feito em 1529, no auge do poder dos turcos, com Solimão, o Magnífico. No entanto, os otomanos acabaram por perder a guerra, tendo a Áustria imposto o Tratado de Karlowitz aos turcos em 1697, pelo qual estes perderam importantes territórios. Isto levou o sultão otomano, , a abdicar em favor do irmão em 1703.

thumb|Papa Clemente XI (1700-1721), que organizou as armadas cristãs contra os turcos em 1716 e 1717

Anos mais tarde, depois de ter derrotado o Império Russo, cujo exército fora comandado pessoalmente por Pedro, o Grande, em 1711, o sultão quis recuperar o que o império tinha perdido em 1697. Por esse motivo, invadiu em 1715 a Moreia, a pretexto de que a República de Veneza tentava encorajar uma revolta em Montenegro contra os otomanos. Sem possibilidades de combater os otomanos sozinha, Veneza logo pediu ajuda ao papa e ao imperador.

A Guerra da Sucessão Espanhola No Ocidente, tinha-se acabado de disputar a Guerra da Sucessão Espanhola, de 1702 a 1714. Durante esta guerra, a França e a Espanha tinham lutado contra a Áustria, a Grã-Bretanha e os Países Baixos para colocar um rei no trono espanhol, vago após a morte de Carlos II de Espanha.

Nesta guerra de sucessão, Portugal tinha alinhado em 1703 com a Áustria, tendo o pretendente austríaco, o arquiduque Carlos ― mais tarde Carlos VI, Sacro Imperador Romano-Germânico, e cunhado de D. João V ―, desembarcado em Lisboa em 1704 com um exército aliado anglo-holandês. Este exército, juntamente com o exército português, tomou Madrid em 1706, apenas para sofrer a derrota na Batalha de Almansa em 1707. No ano seguinte, em 1708, o rei de Portugal, D. João V, casou com Maria Ana de Áustria, irmã do imperador e do arquiduque Carlos. Mas a paz chegou em 1713, sem grandes benefícios para Portugal.

A intervenção de D. João V em 1716 Em 1715, quando Veneza pediu auxílio contra os turcos, a Áustria e os Estados Pontifícios responderam ao pedido. Mas enquanto a Áustria poderia colocar um forte exército no campo de batalha, não dispunha de uma armada significativa. O papa Clemente XI pediu assim ajuda aos principais reinos católicos ― a Espanha, a França, e Portugal ― contra o invasor muçulmano. A França, no entanto, não quis ajudar a Áustria, com quem acabara de estar em guerra. Mas a Espanha enviou uma esquadra de seis naves ao Mediterrâneo.

D. João V, certamente para não querer ficar atrás do rei espanhol, e ainda como uma maneira de promover Portugal no panorama internacional, enviou uma das mais grandiosas embaixadas de todos os tempos a Roma. Chefiada pelo Marquês de Fontes, dois anos depois premiado com o título historicamente mais importante de Marquês de Abrantes, esta pôde a 8 de julho de 1716 comunicar ao papa que uma esquadra de cinco naus de guerra e uma fragata, para além de embarcações auxiliares, seria esse mesmo verão enviada contra os turcos.SATURNINO MONTEIRO, Armando da Silva: Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vol. VII, p. 97. A esquadra, comandada pelo Conde do Rio Grande, era composta pelos seguintes navios principais:ESPARTEIRO, António Marques: Catálogo dos Navios Brigantinos.

thumb|upright=1.0|O cerco e a batalha naval de Corfu, a 8 de julho de 1716. Quando a esquadra portuguesa esse ano chegou a Corfu em Agosto, já os otomanos tinham levantado o cerco. Nossa Senhora da Conceição (80 peças);

Nossa Senhora da Assunção (66 peças);

Nossa Senhora das Necessidades (66 peças);

Santa Rosa (66 peças);

Rainha dos Anjos (56 peças);

Uma fragata.

Esta esquadra tinha na realidade já largado do Tejo três dias antes da audiência papal, a 5 de Julho, rumo ao Mediterrâneo. Dirigiu-se primeiro a Livorno, na Itália, onde chegou a 12 de Agosto, para pedir instruções a Clemente XI. A 21 de Agosto chegou a resposta: a esquadra deveria dirigir-se a Corfu, que estava sitiada pelos turcos. As naves do Conde do Rio Grande dirigiram-se de imediato para o Levante, mas chegariam tarde demais: após uma batalha naval indecisa entre a armada aliada cristã e a turca a 8 de Julho, os exércitos imperiais do príncipe Eugénio de Saboia tinham vencido um exército otomano às margens do Danúbio a 5 de Agosto, e como resultado os turcos tinham levantado o cerco a Corfu. O Conde do Rio Grande decidiu por isso regressar a Lisboa, e a esquadra estava de volta ao estuário do Tejo a 28 de Outubro.SATURNINO MONTEIRO, Armando da Silva: op. cit., Vol. VII, p. 99.

Esta primeira intervenção de D. João V no Mediterrâneo em 1716 não teve assim qualquer resultado prático. No entanto, mostrou ao cunhado, o imperador, ao papa, e a Veneza que poderiam contar com a ajuda de Portugal na guerra contra os turcos. Como recompensa, Clemente XI elevou a arquidiocese de Lisboa, criando o Patriarcado de Lisboa com a bula In supremo apostulatos solio de 7 de Novembro de 1716. Este era agora um de apenas três patriarcados da Igreja Católica no Ocidente. Os outros dois eram justamente Roma e Veneza.

A esquadra portuguesa em 1717 miniaturadaimagem|245x245px|Quadro de D. João V, onde se vê ao fundo os navios na Batalha de Matapão. Muito possivelmente várias obras alusivas à batalha do Matapão terão sido pintadas para o rei, mas devido ao Terramoto de 1755, practicamente nenhumas chegaram aos nossos dias. Ainda em Dezembro de 1716, o papa voltou a escrever ao monarca português, pedindo-lhe nova ajuda no ano seguinte. D. João V respondeu afirmativamente, e iniciou logo preparações, para poder enviar uma esquadra ao Mediterrâneo mais cedo do que fora o caso em 1716, para assim ter maior probabilidade de participar em acções contra o inimigo.Id., Ibid.

A esquadra de 1717 estaria novamente às ordens do Conde do Rio Grande. Decidiu-se enviar as mesmas cinco naus da esquadra de 1716, reforçadas por duas naus acabadas de construir: a Nossa Senhora do Pilar, uma nau de 80 peças tal como a Nossa Senhora da Conceição, a nau capitana do Conde do Rio Grande; e uma menor de 58 peças, esta em vez da fragata do ano anterior. A Nossa Senhora do Pilar, construída em Salvador (Bahia), foi armada pelo Infante D. Francisco, o mais velho dos irmãos de D. João V, que era de longe o maior entusiasta de questões navais na família real.Diario e Relação da Armada que foy a Italia em Socorro dos Venezianos..., 1717

Na primavera de 1717 fizeram-se assim todos os preparativos necessários, a que os monarcas assistiram pessoalmente. No dia 25 de Abril de 1717, um Domingo, as majestades e o infante D. Francisco foram a bordo, assistindo aos últimos preparativos. O dia seguinte foi também passado no mar por D. Francisco. Por fim, às sete da manhã de 28 de Abril de 1717, a esquadra largou rumo ao Mediterrâneo. A bordo da almiranta ia o infante D. Francisco, que permaneceu a bordo até ao fim da tarde, quando regressou a terra a bordo de um iate;Ibidem a sua despedida foi marcada por uma salva de 21 tiros de todas as naus da esquadra, a saber:ESPARTEIRO, António Marques: op. cit.

A esquadra portuguesa na Batalha de Matapão Nossa Senhora da Conceição (80) ― Capitânia; construída em 1707, e abatida em 1724;

Nossa Senhora do Pilar (80) ― Almiranta; construída em 1715, e abatida em 1740; miniaturadaimagem|Nau capitânia Nossa Senhora da Conceição.|253x253px Nossa Senhora da Assumpção (66) ― Fiscal; construída em 1705, e abatida em 1731; Nossa Senhora das Necessidades (66) ― Construída em 1708, e abatida em 1737;

Santa Rosa (66) ― Construída em 1715, e perdida por incêndio em 1726, ao largo de Pernambuco, no Brasil; miniaturadaimagem|Nau Nossa Senhora da Assunção.São Lourenço (58) ― Construída em 1716, e abatida em 1734;

Rainha dos Anjos (56) ― Construída em 1714, e perdida por incêndio em 1722, no porto do Rio de Janeiro, quando regressava de uma missão diplomática à China a serviço da Santa Sé (ver D. João V).

Para além das naus de guerra, a esquadra incluía ainda as seguintes embarcações: São Tomás de Cantuária (20) ― Destinado a servir como navio-hospital; transportava ainda sobressalentes, etc.; Santo António de Pádua (8) ― Destinado, se propício, a servir como brulote; Santo António de Lisboa (8) ― Idem; Uma tartana para avisos (18).

Era assim uma esquadra de sete naus de guerra e quatro naves auxiliares, de 526 canhões no total e cerca de 3840 homens de guarnição. Na hierarquia da esquadra, a Nossa Senhora da Conceição era a nau capitana; levava o Conde do Rio Grande como almirante da esquadra. A Nossa Senhora do Pilar, uma nau mais recente e maior ― e outras vezes armada com 84 peças ―, era a almiranta; levava o Conde de São Vicente como vice-almirante da esquadra. Ambas estas naus principais levavam cerca de 700 homens de guarnição: 390 marinheiros, 220 soldados, e 90 artilheiros. A Nossa Senhora da Assumpção era a fiscal, ou terceira na hierarquia; levava Pedro de Castelo-Branco como capitão. Estas três naus, juntamente com a Santa Rosa e a veneziana Fortuna Guerriera de 70 peças, travariam o combate mais importante contra as naus turcas na Batalha de Matapão.