A língua laklãnõ, xokleng ou xoclengue é uma língua indígena brasileira pertencente à família Jê Meridional, do ramo Jê paranaense, do tronco linguístico Macro-Jê. É falada pelo povo Laklãnõ, habitante da região Sul do Brasil em Santa Catarina, na Terra Indígena do Ibirama.
Em 1997, 723 pessoas se autodeclararam integrantes do povo indígena laklãnõ (censo da FUNAI). Em 2004, o censo da FUNASA contabilizou 887 pessoas do grupo étnico laklãnõ. A UNESCO estima que há menos de 100 falantes do laklãnõ, e classifica a língua como criticamente ameaçada, no estágio 4 de extinção, numa escala de 5. O Ethnologue classifica a situação linguística como de transição para o português.
Etimologia Em fontes anteriores à 1960, o povo Laklãnõ era chamado de Kaingangs de Santa Catarina ou apenas de Kaingangs. Ainda que guardem proximidade linguística, os Kaingangs e os Laklãnõ têm grandes diferenças culturais e não reconhecem parentesco entre si.
O nome xokleng foi popularizado pelos estudos do etnólogo Sílvio Coelho dos Santos, que foram importantes no reconhecimento da identidade própria deste grupo. De origem incerta, o nome xokleng pode ter surgido no costume do povo em abrigar-se em paredões de pedra, em épocas de chuva. Segundo essa hipótese, xokleng deriva de xó ou txó (paredão de pedra, rocha ou gruta de pedra); e de kleng ou klẽ (montanha). Outra hipótese da formação do nome xokleng vem da tradição do povo em carregar carne de boi em mochilas de taquara. Assim, xokleng derivaria de txuklẽg (aranha).
O povo não reconhece o nome xokleng como autodesignação, e o vê com caráter ofensivo. A autodesignação Laklãnõ foi resgatada após a popularização do nome xokleng, e tem etimologia incerta. Segundo o antropólogo Gregory Urban, a autodesignação Laklãnõ surge na contração de ra ydn kra nõ ou la jul klãnõ (povo do lugar que o sol levanta). Assim, Laklãnõ significa "os que são descendentes do Sol", "os do clã do Sol" ou "povo que vive onde nasce o sol".
Distribuição miniaturadaimagem|zág do (pinhão) Os Laklãnõ vivem na Terra Indígena do Ibirama, ao longo dos rios Hercílio (antigo Itajaí do Norte) e Platê, em território compartilhado com os Mbyá, Ñandeva e Kaingangs. +Quadro comparativo entre línguas presentes na Terra Indígena do IbiramaLaklãnõKaingangMbyá1ª pessoa do singularẽnhinhxee2ª pessoa do singulara, ahããndee3ª pessoa do singularti, ta (masculino) zi (feminino)ti (masculino) fi (feminino)ha'e1ª pessoa do pluralãgẽgnhande ou ore2ª pessoa do pluralme ã ãjagpeẽ ou pende3ª pessoa do pluralógag (masculino) fag (feminino)ha'e kuery
História Fontes anteriores a 1960 descrevem o laklãnõ como dialeto do kaingang. A primeira etnografia Laklãnõ, desenvolvida por Jules Henry em 1941, destacava diferenças sociolinguísticas entre os dois povos. Ainda assim, Henry denominava os Laklãnõ de Kaingang.
Em 1978, o antropólogo Gregory Urban afirmou que os Laklãnõ se originaram dos Kaingang: a ruptura se deu devido à separações de suas patri-metades, e que Xokleng é um nome genérico que não lhes dá identidade. Desde então, os Laklãnõ e os Kaingang são considerados povos diferentes, ainda que linguisticamente próximos. O nome Laklãnõ conquistou mais espaço, além de levantar discussões sobre autodenominação de povos indígenas.
O ensino da língua laklãnõ após o contato com os funcionários do Serviço de Proteção aos índios, em 1914, foi conturbado pela implementação de mecanismos de aculturação e incorporação dos indígenas à sociedade dominante. Em 1967, o órgão foi substituído pela FUNAI, que inicialmente implementou poucas alterações à metodologia de ensino.
Finalmente, em 1994, o ensino do laklãnõ foi formalmente introduzido em 5 das 8 escolas de Ensino Fundamental da Terra Indígena do Ibirama. As aulas eram ministradas pelo professor laklãnõ Nanblá Gakran, especializado no estudo da gramática laklãnõ. Em 2004, a Escola Indígena de Educação Básica Laklãnõ foi concluída, e passou a oferecer Ensino Fundamental e Ensino Médio aos laklãnõ e a alguns descendentes de kaingangs. Uma pesquisa feita no mesmo ano revelou que nas turmas de Educação Infantil as professoras falavam apenas em laklãnõ com as crianças, enquanto no Ensino Fundamental os dois primeiros anos não tinham professores falantes de laklãnõ, mas, no terceiro, havia aprendizado secundário do idioma.
A nova escola substituiu 5 das escolas antigas, e opera até hoje, subsidiada pela Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina. Em 2010, a Escola Isolada Indígena Vanhecú Patté passou a oferecer Ensino Fundamental e Médio para alunos que vivem longe da Escola de Educação Básica Laklãnõ.
Fonologia Vogais Há 18 fonemas vocálicos em laklãnõ, que podem ser agrupados quanto a: abertura (fechadas, médias ou abertas); avanço da língua (anteriores, centrais ou posteriores); e movimentação do palato mole (orais ou nasais). Não há consenso científico acerca da existência de vogais longas em laklãnõ.
+Fonemas vocálicos orais do laklãnõAnteriorCentralPosteriororalnasaloralnasaloralnasalFechadaiĩɨɨ̃uũMédiaeẽəə̃oõɛɛ̃ɔɔ̃Baixaaã Consoantes O laklãnõ possui 13 fonemas consonantais, contrastando labialização para as oclusivas dorsais e mostrando pré-nasalização em oclusivas e africadas sonoras. Os fonemas consonantais podem ser divididos de acordo com sonoridade (surdos e sonora), sendo as sonoras pré-nasalizadas; ponto de articulação (labiais, coronais, dorsais e glotais); modo de articulação (oclusivas, africadas, fricativas, nasais e aproximantes). +Fonemas consonantais da língua laklãnõLabialCoronalDorsalGlotalplanalabializadaOclusivaPlanapt̪kkʷʔPré-nasalisadaᵐbⁿd̪ᵑgᵑgʷAfricadaPlanatʃPré-nasalisadaⁿdʒFricativaðhNasalmn̪ɲAproximantePlanaʋjLaterall
Fonotática A sílaba canônica em laklãnõ é ((C1)(C2) V (C)). Encontros de consoantes homorgânicas são proibidos em laklãnõ, em uma mesma sílaba ou em fronteira silábica. Assim, consoantes de mesmo ponto e modo de articulação, porém de sonoridades diferentes, não são encontradas juntas. Os encontros consonantais permitidos são: /pl, kl, ml, ŋl/. As consoantes que ocorrem à direita de sílabas mediais são /k/, /m/, /n/, /ŋ/, /j/ e /l/, enquanto à direita das sílabas finais ocorrem apenas /m/, /n/, /ŋ/, /j/ e /l/.
Ortografia O alfabeto laklãnõ foi desenvolvido por Nanblá Gakran e Terezinha Bublitz, em 1997. É baseado no alfabeto latino e possui 20 letras, sendo que x e w apenas são usados nos dígrafos /tx, gw, kw/.
As consoantes são b, d, dj, g, gw, h, j, k, kw, l, m, n, nh, p, t, tx, v, z. As vogais são a, á, e, é, i, o, ó, u, y, com uso de til para representação de nasalidade. +Correspondências dos fonemas e grafemas das consoantes em laklãnõFonemaLetrasOclusivas ppttkkʔ'kwkwFricativas e africadastʃtxʋvðzhhNasaismmnhŋnhAproximanteslljjPré-nasalisadasmbbnddŋggŋgwgwLateralllAproximantejj +Correspondências dos fonemas e grafemas das vogais em laklãnõFonemaLetrasAltasiiĩĩɨyɨ̃ỹuuũũMédiaseeəáooBaixasɛ éɛ̃ẽaaããɔóɔ̃õ Gramática Pronomes Em laklãnõ, os pronomes desempenham mesma função que nomes e sintagmas nominais.
Pessoais Os pronomes pessoais são usados em referência ao falante (eu/ nós), ao ouvinte (você/ vocês) e às outras pessoas e às coisas, identificadas ou não. O falante e o ouvinte estão obrigatoriamente presentes na situação, enquanto a terceira pessoa, que pode estar identificada ou não, pode ter a si atribuída a noção de definida/indefinida. +Pronomes pessoais em laklãnõ LaklãnõPortuguês1ª pessoa do singularẽnheu2ª pessoa do singulara, ahãtu3ª pessoa do singularti, ta zi ele ela1ª pessoa do pluralãgnós2ª pessoa do pluralme ã vocês3ª pessoa do pluralógeles elas Há também os pronomes pessoais enfáticos, usados em construções estativas. +Pronomes pessoais enfáticos em laklãnõ LaklãnõPortuguês1ª pessoa do singularẽnh jaeu mesmo2ª pessoa do singulara ahatu mesmo3ª pessoa do singularti vũ zi vũ ele mesmo ela mesma1ª pessoa do pluralãg hanós mesmos2ª pessoa do pluralme a ha vocês mesmos3ª pessoa do pluralóg haeles mesmos elas mesmas
Possessivos Os pronomes pessoais em laklãnõ também são usados em construções possessivas com nomes relativos da subclasse 1a, e são costumeiramente traduzidos para os pronomes possessivos do português. No entanto, é mais adequada a tradução literal livre, exemplificada abaixo:
ti katxol = cachorro de ele. zi katxol = cachorro de ela. óg katxol = cachorro de eles.
Das duas formas existentes para expressar a 3ª pessoa do singular masculina, a forma ta nunca assume função de objeto direto, nem de sintagma pósposicionado e nem é usada em construções possessivas; nesses caso, sempre se usa ti. A forma ahã, que denota 2ª pessoa do singular, também não é usada em construções de posse.
Demonstrativos Os pronomes demonstrativos são empregados conforme proximidade e visibilidade do demonstrado, ambas referenciadas no locutor. +Pronomes demonstrativos em laklãnõ+ próximo + visível- próximo + visível- próximo +/- visíveltóghã taũ ta Bem como no português, no laklãnõ um pronome demonstrativo pode assumir função de sujeito: tóg vũ blaj mũ = este quebrou.
Também é possível associar posposições aos pronomes demonstrativos. Diferentemente do que ocorre no português, com aglutinação de preposição e demonstrativo, no laklãnõ o demonstrativo se conserva como unidade sintática independente. +Uso de posposição após pronome demonstrativoLaklãnõulétógki takutãkũtymũFunção'lagoa'dem.posp.3ª pessoa do singular'cair'conj.'morrer'perf.Portuguêsele caiu nesta lagoa e morreu. Relações de posse A estrutura geral das relações de posse em laklãnõ é [possuidor] [possuído]. Demais estruturas como posposições e classificadores genéricos podem ser usadas, a depender da subclasse a qual o nome pertence.
Nomes e Sintagmas Nominais Conforme definido por Nanblá Gakran, os nomes em laklãnõ podem ser classificados conforme denotem humanos ou não humanos, seres femininos ou masculinos e, dos não humanos, os que são animados ou não animados. Essas palavras podem ser possuídas, intensificadas ou atenuadas, e seus referentes podem existir no atual, retrospectivo ou progressivo. Os nomes podem ser agrupados em: nomes relativos não absolutos; nomes não relativos e não absolutos; e nomes absolutos não relativos. Um nome relativo e não absoluto pode ser possuído diretamente, mas um nome não relativo e não absoluto só pode ser possuído por meio de um mediador de posse; já um nome absoluto e não relativo nunca pode ser possuído.
Nomes relativos não absolutos Os nomes relativos denotam partes que configuram um todo, como as partes do corpo humano, partes de animais e de plantas. É possível dividir os nomes relativos entre aqueles que se ligam aos pronomes pessoais para criar sentido de posse, os nomes da subclasse 1a; e aqueles que nunca se combinam aos pronomes, os nomes da subclasse 1b.
Subclasse 1a Esses nomes, quando combinados aos pronomes pessoais (exceto ahã, ta), geram sentido de posse. As seguintes construções exemplificam este processo:
ẽnh kónã = meu olho a kónã = seu olho/olho de você ti kónã = olho dele Algumas destas construções apenas são possíveis se o nome for usado com sentido metafórico, como em by, que significa rabo, mas também pode significar frigideira (rabo corresponderia ao cabo da frigideira).
Subclasse 1b Esses nomes não são combinados com pronomes, já que denotam partes de frações de um todo. Por exemplo, o nome kágki, que significa cabelo ou pena, e está sempre atribuído à outra parte do corpo. +Construção com nome da subclasse 1bLaklãnõẽnh jẽgga zéj Funçãopron. poss.mãodedoPortuguêsdedo de minha mão.
Nomes absolutos não relativos Esses nomes denotam sensações ou relações de criação de animais. Os nomes absolutos não relativos dividem-se em subclasse 2 e 3.
Subclasse 2 Esses nomes podem ser possuídos em uma relação estabelecida com o nome classificador genérico mãg. O classificador mãg pode ser comparado ao xerimbabo, do tupi-guarani, e media a determinação nominal de nomes de animais.