Abelisauridae é uma família de dinossauros terópodes ceratossauros que viveram durante os períodos jurássico e cretáceo, e seus fósseis foram encontrados na América do Sul, África, Madagascar, Índia e partes da Europa. Surgiram no Jurássico Médio, evidenciado pela presença do gênero Eoabelisaurus na Argentina e pelo menos três táxons perduraram até o limite do Cretáceo-Paleoceno: Majungasaurus (Madagascar), Chenanisaurus (Marrocos) e um gênero ainda não nomeado do Arenito Lapurr, no Quênia.

Os abelissaurídeos tinham um corpo semelhante aos outros terópodes, porém se diferenciavam por possuírem crânios extremamente curtos, e comumente ornamentados, além da atrofiação dos membros anteriores. A proporção das pernas variava de acordo com o clado, visto que os Brachyrostra apresentavam claras adaptações a uma vida cursorial, com membros longos e vértebras caudais especializadas para a corrida, condição de oposição direta a seus relacionados Majungasauríneos, que apresentavam uma considerável redução dos membros posteriores.

As dimensões alcançadas pelos Abelissaurídeos variavam muito, com Genusaurus e Spectrovenator não passando dos 4 metros, enquanto Pycnonemosaurus, Chenanisaurus e Carnotaurus variando de 8 a 9 metros, com o táxon do Quênia potencialmente alcançando 13 metros. Descrição

Crânio Os crânios dos abelissaurídeos são muito característicos, comumente apresentando ornamentações, uma tendência em Ceratosauria, assim como o encurtamento geral do rostro, atingindo o ápice no gênero Carnotaurus, que possuía um crânio praticamente quadrado em uma perspectiva lateral. Os majungassauríneos apresentavam um chifre no topo do crânio, além de uma rugosidade que indica uma pele semelhante a armadura. Condições semelhantes existem nos Brachyrostra e possivelmente no gênero mais basal Rugops. O táxon Carnotaurus possuia projeções logo acima das órbitas, além de pele queratinizada, comum a todos Brachyrostra. Essas características aparentemente convergentes provavelmente desempenhavam uma função social e reprodutiva, assim como diversos dimorfismos em aves atuais.

A região cervical dos Abelissaurídeos era muito robusta, devido as grandes epipófeses das vértebras cervicais e pontos de anexação na escápula-coracoide, fato que ajudaria a segurar as presas enquanto se debatiam, compensando a mordida relativamente fraca. O conceito da mordida fraca foi recentemente questionado, já que o gênero basal Spectrovenator demonstrou que a mordida dos abelissaurídeos se tornou progressivamente mais forte, indicando que análises posteriores podem estar equivocadas. Essa musculatura fortalecida na região epaxial (Dorso) sugere que o crânio suportava estresses, potencialmente resultantes de combates intraespecíficos, semelhante a rinocerontes. miniaturadaimagem|354x354px|Comparação entre Dilophosaurus wetherilli, um terópode basal com braços longos, e os abelissaurídeos Eobelisaurus mefi e Carnotaurus sastrei, demonstrando o encurtamento dos membros anteriores nos Abelissaurídeos. Tanto Majungassauríneos quanto Brachyrostros possuíam juntas sinoviais nos ossos do crânio que permitiam certa movimentações desses ossos, semelhante, porém menos exagerado, as cobras atuais. Isso pode indicar que eles engoliam as presas inteiras ou que estavam ingerindo grandes pedaços de carne.

Membros Anteriores Assim como o encurtamento do crânio é geralmente visto em Ceratosauria, o encurtamento dos membros anteriores, principalmente dos ossos do antebraço, Radio e Ulna, é característico de ceratosauria e encontra o pico nos abelissaurídeos. Material dos braços de Abelissaurídeos são conhecidos nos táxons Eoabelisaurus, Aucasaurus, Carnotaurus e Majungasaurus, possibilitando uma análise concreta da evolução dos membros anteriores dos táxons desse grupo. Eoabelisaurus, o táxon mais antigo e primitivo, possui os ossos do úmero, rádio e ulna em certa condição de plesiomorfia, sendo semelhantes aos ceratossauros mais basais, enquanto sua “manus” já é mais derivada e possui metacarpais e carpais extremamente reduzidos, com ausência de ungueais e ossos carpais. Essas informações indicam que a modificação dos membros anteriores nos abelisaurídeos começou pelos elementos distais e posteriormente passou para os elementos proximais. Os táxons mais derivados, como Aucasaurus, Majungasaurus e Carnotaurus possuem, além da “manus”, os ossos do antebraço absurdamente reduzidos, chegando a 25% do comprimento do úmero em Carnotaurus, que além de proporções bizarras, também possuía uma articulação na cabeça proximal do úmero muito peculiar, com formato de bola, que permitia que esse osso se movesse para fora do corpo, algo incomum entre os terópodes. Essa adaptação provavelmente estava ligada a rituais de acasalamento.

Membros Posteriores miniaturadaimagem|359x359px|Sexta Vértebra Dorsal de Carnotaurus sastrei nas vistas Lateral (A), Anterior (B) e Dorsal (C). Os membros posteriores de abelissaurídeos não recebem tanta atenção quanto os braços ou crânio, porém mostram adaptações muito peculiares que ajudam a demonstrar o modo de vida desses seres. Os ossos astrágalo e calcâneo eram fusionados entre si e com a tíbia, osso da canela, formando uma estrutura conhecida como tibiotarsus. O pes era o padrão terópode, com três dígitos funcionais e o hálux, o primeiro dedo, suspenso do solo. A anatomia do resto dos membros posteriores variava muito de acordo com o clado de abelissaurídeos, com uma dicotomia entre Majungassauríneos x Brachyrostros, onde os primeiros apresentavam membros atarracados e fortes, enquanto os brachyrostros tinham membros longos e esbeltos, que lhes conferiam grande capacidade cursorial.

Os Majungassauríneos provavelmente usavam de seus membros atarracados como apoio para caça de saurópodes, como evidenciado por marcas de dentes, presumivelmente do táxon Majungasaurus crenatissimus, em ossos do saurópode contemporâneo Rapetosaurus. esquerda|miniaturadaimagem|299x299px|Corte transverso da parte anterior da cauda de um Carnotaurus sastrei, demonstrando o tamanho exagerado da musculatura retratora da coxa. Já seus relativos sul-americanos, os brachyrostros, por conta de suas adaptações opostas, tinham grande capacidade de arrancada e provavelmente eram bons corredores, evidenciado pela angulação das costelas caudais das vértebras do início da cauda, que dariam espaço para um músculo Caudofemuralis longus enorme, responsável por retrair o fêmur e consequentemente propulsionar o animal para frente. Esses processos transversos, como são chamados no meio acadêmico, acabavam por limitar os movimentos laterais da cauda e consequentemente comprometiam a agilidade e capacidade de fazer curvas muito fechadas.

Revestimento externo e tegumento

Diferentemente da maioria dos outros grupos de terópodes, os abelissaurídeos possuem certo registro de seu revestimento externo, pois o holótipo do gênero Carnotaurus preservou impressões da pele do animal, revelando que esse táxon era coberto por pequenas escamas de aproximadamente 14mm, ligadas por tecido intersticial, intercaladas por estruturas semelhantes a bolotas, com cerca de 5 cm de diâmetro e 5 de altura. Essas estruturas eram distribuídas irregularmente pelo pescoço, dorso e cauda. Essas estruturas se tornavam progressivamente maiores quanto mais perto da região dorsal. Antes da descrição completa em 2021, essas escamas modificadas eram consideradas osteodermas, que são escamas ossificadas, algo que não se tornou realidade após cuidadosas inspeções. Presumivelmente, se baseando no método de “bracketing” filogenético, todos os outros abelissaurídeos deviam apresentar pele semelhante. As penas, com o conhecimento atual, são puramente especulativas, mas não são totalmente incorretas, já que provavelmente representam o padrão ancestral de tegumento a todos os dinossauros e, possivelmente, ornitodiros.

Distribuição centro|miniaturadaimagem|524x524px|Distribuição dos abelissaurídeos conhecidos. América do Sul miniaturadaimagem|413x413px|Representação do táxon brasileiro Pycnonemosaurus nevesi, por Mário Lanzas. Esse continente provavelmente foi o local de origem dos abelissaurídeos, já que o primeiro táxon confirmado desse grupo, Eoabelisaurus mefi, foi encontrado na formação Cañadón Asfalto, datando do Aaleniano-Bajociano, da Argentina. A morfologia desse organismo é a esperado de um animal basal e é importantíssimo nos estudos da evolução das características clássicas dos abelissaurídeos. Após Eoabelisaurus, outro abelissaurídeo ainda não nomeado é conhecido da formação Cañadón Calcáreo, também Argentina, datado do Oxfordiano-Kimmeridgiano. Esse animal pode na verdade representar um abelissauróideo basal, mas provavelmente representa um abelissaurídeo. Os próximos registros desse grupo datam do cretáceo inferior, mais especificamente do Berriasiano-Valanginiano da formação Bajada Colorada, novamente da Argentina. O gênero Spectrovenator, formação Quiricó, no Brasil, sucede os abelissaurídeos argentinos e data do Barremiano- Aptiano. O Holótipo e único espécime descrito até o momento provavelmente trata-se de um juvenil e foi encontrado abaixo do holótipo do Tapuiasaurus. Por ser um animal descrito cientificamente temos mais informação sobre sua osteologia e anatomia, fato que nos ajuda a compreender a evolução dos abelissaurídeos.O Táxon Tralkasaurus foi recentemente descrito e provavelmente representa um abelissaurídeo mais basal de Brachyrostra, da mesma idade que Rugops. Após esse ponto, os fósseis referentes a esse grupo começam a ser encontrados no cenomaniano da Argentina e Brasil, e todos os táxons provavelmente pertencem ao clado Brachyrostra. Mais de 10 táxons são conhecidos após o cenomaniano, e tem certa divisão temporal, já que os Brachyrostros não Furileussauros aparentemente foram extintos até o turoniano, dando lugar aos derivados abelissaurídeos cursoriais. De forma geral percebe-se que mesmo antes da extinção dos Carcharodontossaurídeos e Espinossaurídeos no limite do Cenomaniano-Turoniano esse grupo já era diverso e provavelmente estava espalhado por toda a América do Sul. Após o Coniaciano os abelissaurídeos se tornaram os predadores de topo em virtualmente todos ecossistemas terrestres do continente, alcançando dimensões impressionantes, como o brasileiro Pycnonemosaurus nevesi, que chegaria a 8,9 metros, o maior abelissaurídeo descrito até o momento. O grupo perdurou até o fim do cretáceo no continente, como evidenciado pela presença de dentes diagnósticos de abelisauridae na Bacia Magdalena, Colombia, datando do Maastrichtiano. centro|miniaturadaimagem|714x714px|Comparação de tamanho entre os Brachyrostros Sul-Americanos.

África Os primeiros registros de abelissaurídeos na África datam do Jurássico superior, da formação Tendaguru, localizada na Tanzânia. Esse registro costumava ser levado com criticismo, porém após a descrição do Eoabelisaurus e do táxon de Cañadón Calcáreo, um abelissaurídeo africano do jurássico superior se tornou mais provável e até mesmo esperado. Após isso, fósseis da formação Líbica Cabao são colocados em abelisauridae e não tem datação exata, com dados variando do Berriasiano ao Barremiano. Infelizmente esses táxons carecem de nomeação e descrição científica apropriada, o que impossibilita mais informações de serem extraídas desses fósseis. O gênero Kryptops, da formação Elrhaz do Níger, foi considerado como um abelissaurídeo basal do Albiano, porém foi posteriormente postulado como quimérico e provavelmente representa partes do Carcharodontossaurídeo basal Eocarcharia. esquerda|miniaturadaimagem|352x352px|Reconstrução do holótipo de Rugops primus.