miniaturadaimagem|Villa Franzan Villa Franzan, situada na contrada de Barcon di Sarcedo, no território situado a noroeste da comuna de Sarcedo, é muito mais que um complexo residencial de villa veneta, sendo um testemunho da antiga e quase desaparecida "civilização da villa veneta" que deixou também em Sarcedo os seus traços evidentes. A sua história não pode ser desligada da localidade na qual foi edificada, tanto que, o nome pelo qual indicavam os edifícios era Il Barcon; por este nome a gente do local chama, ainda hoje, o majestoso complexo arquitectónico que, no século XIX, teve a importante função de hospedar o Seminário de Pádua, embora este se encontre num estado de completo abandono e ruína desde há mais de quatro décadas.
A contrada de Barcon A contrada de Barcon, situada na zona limítrofe da região e de origens muito antigas, conservou em grande parte as suas características originais (sobretudo os campos que se estendem a este da villa até ao ribeiro Igna), ou seja, terrenos planos com funções predominantemente agrícolas. Actualmente, o primeiro testemunho do termo Barcon que emerge dos documentos é extraído do Balanzon (balanço - estimativa das casas e dos terrenos) dos anos 1541-1544, no qual o nobre Rizzardo Alidosio, de Vicenza, aparece como proprietário "campos 75 na contrada de Barchon com uma parcela junto da via comuna", além de outras propriedades em grande número. devemos, pois, acrescentar uma outra data, que se obtém através da inscrição no capitel existente na esquina noroeste do recinto murado de Barcon, o qual recita:
APPARIZIONE DELLA / B. V. M. / DI CARAVAGGIO / XXVI MAG. MCDXXXII / ALLA PIA GIANNETTAAPARIÇÃO / B.M.V. / DE CARAVAGGIO / XXVI MAIO MCDXXXII / À PIA GIANNETTA
Embora este acontecimento, de 1432, que acrescenta à localidade uma aura de sacralidade, não esteja presente noutros documentos, a data antecipa em mais de um século a primeira datação de tais lugares.
Desta nota pode, assim, afirmar-se que este território foi considerado importante pelos seus terrenos férteis e pela sua configuração geográfica, sendo, portanto, certamente habitado e cultivado pelo homem desde tempos antigos.
A sua origem antiga fez com que o próprio termo Barcon (que resumidamente "grande recinto de campos”) Além da contrada da região, fosse aplicado, também, à grandiosa estrutura arquitectónica ali edificada pelos Franzani, por volta do ano de 1665, com o recinto de campos anexo.
A villa
Os Franzani (Franzan) eram originários do Lago di Como e migraram para Thiene, no final do século XVI, para desenvolverem a sua actividade de comerciantes de tecidos ("merzari"); com o passar do tempo, acumularam grande fortuna e investiram os seus capitais na aquisição de numerosas parcelas de terreno nas regiões limítrofes a Thiene. Mais tarde, coroaram a sua ascensão social com a aquisição dum título de nobreza.
A única datação certa que se possui da edificação do complexo de Barcon diz respeito à construção da igreja de Santo António, no ano de 1666. A villa foi seguramente construída no mesmo período, ou até mesmo antes de tal data, visto que em 1665 o Conde Domenico Franzani denunciou a posse em Sarcedo de "uma percela de terra arável e plantada e vedada na contrada do Barcon com casa sobre dominical por mim habitada (...), campos quarenta e cinco quartos uma mesa noventa e nove"una pezza di terra arrativa piantada et videgada posta nelle sudette pertinenzie in contrà del Barcon con casa sopra dominicale da me habitata (...), de campi cento quarantacinque quarti uno tavole novanta nove. A estes 145 campos juntavam-se mais cerca de catorze, para um total de quase 160 campos só nesta contrada; no seu conjunto, os campos possuídos por Domenico em Sarcedo somavam cerca de 395.
Um mapa de 1673 mostra o Barcon como devia apresentar-se naqueles anos, uma vez terminado o projecto construtivo. Neste extraordinário mapa aparece, em voo de ave, um complexo senhorial deveras imponente: o corpo da villa principal, residência dos Franzani, apresenta-se tal e qual como ainda se pode ver actualmente; em parte alinhada com o palácio e em parte em ângulo recto com este encontravam-se galerias com uma longuíssima arcada que, num certo ponto, era interrompida por uma torre colombófila com a altura aproximada da villa; existia, por outro lado, uma terceira ala de edifícios a sul. Nestes edifícios rústicos deviam encontrar-se os estábulos, os palhieiros e os apartamentos dos trabalhadores que serviam as funções de carácter agrícola do complexo. Estão indicados, também, os dois acessos ao pátio fechado por um alto muro a poente: uma porta mais pequena e um grande portão, que se têm mantido com o passar dos séculos; a norte vê-se o oratório de Santo António com a fachada frente à estrada e à área, também recintada por um muro, que servia de horta.
O notável historiador de arte vicentino Renato Cevese afirma que a Villa Franzan é enorme e que as dimensões "são excepcionais mesmo para uma villa seiscentista". Esta é composta por três andares caracterizados por catorze janelas (que se possam contar no mapa escassamente ilustrado) e por uma porta de entrada no piso térreo, por catorze janelas e um grande janelão curvilíneo com parapeito encimado por uma cabeça humana no piano nobile (andar nobre), e por quinze janelas na mansarda. Tais janelas são simples na estremidade, duplas as outras e bastante combimadas as quatro centrais, mais chegas à porta e ao janelão; este ritmo compositivo é repetido nas duas fachada da villa, mas a voltada a sul é enriquecida por um frontão triangular. Um outro frontão triangular conclui o flanco da villa voltado a oeste, o qual se estende ao longo da estrada; aqui encontram-se duas janelas em cada andar, mas as do andar nobre encontram-se ambas realçadas por balaustrada e adornos com cabeças humanas na chave do arco. Cevese considera tal flanco o "momento arquitectonicamente mais alto" do edifício e afirma que "isso obtém beleza pela fina tecedura dos elementos, distanciados em sentido horizontal e vertical, pela variedade das formas e pela felicidade de todas as ligações".
A planta da villa, que se repete no piso térreo e no andar nobre, é composta por uma grande e longa sala mediana, paralela à frente meridional, que se combina com o espaço de entrada da frente norte, dando vida a "uma figura espacial cruzada"; à esquerda da sala maior encontram-se salas menores, enquanto à direita se encontra "a solene escadaria, de duas rampas bastante abruptas, coberta por uma abóbada altíssima". Este contexto planimétrico "que na conexão dos dois espaços medianos encontra uma solução de manifesta monumentalidade", no juízo de Cevese "não parece habitual no panorama da arquitectura seiscentista local".
Consideradas as características estilísticas da villa e do oratório, Renato Cevese põe a hipótese de ambos serem da autoria do arquitecto Antonio Pizzocaro. Por consequência, uma construção de aspecto sóbrio e severo, mas ao mesmo tempo grandiosa e monumental que se impunha de forma incontestada, com os seus anexos rústicos e o oratório nobre, na paisagem rural do Barcon.
A villa foi, ainda, decorada no interior, embora não alcaçando um nível artístico comparável ao de muitas das outras villas do Véneto: além das traves pintadas, "que contribuém para atribuir à villa um aspecto de áurea magnificência", algumas salas do andar nobre apresentam frisos afrescados nos tectos, datados de fianis do século XVII ou inícios do século XVIII.
O recinto do Barcon Um outro mapa do ano de 1675 faz compreender melhor como se configurava toda a área do Barcon na segunda metade do século XVII; tal mapa foi desenhado depois duma súplica dirigida pelos condes Franzani aos Oficiais na Rason Vecchie de Veneza, para organizarem o recinto de campos do Barcon e as estradas que o serviam. Ester mostra que o projecto, realizado em seguida, consistia na construção dum único quadrilátero, cercado por um muro, no interior do qual se viriam a situar a villa com as galerias e a ermida, juntamente com a outra propriedade residencial da Palazzina, também essa propriedade dos Franzani na época; este derivará, precisamente, no recinto do Barcon do qual ainda hoje permanecem traços evidentes. Nota-se sobretudo que, no lugar da tortuosa estrada a levante, devia dar-se vida a uma estrada direita e longa que fechava o recinto daquele lado. Desta estrada, que durante a ocupação austríaca do século XVIII viria a ser chamada de "atrás do Barcon" (di dietro al Barcon), não restam quaisquer traços, mas ainda podem ver-se alguns resíduos da muralha que a contornava.
No que diz respeito à antiga casa senhorial denominada de Palazzina, situada a norte da villa e não muito afastada desta, nota-se que no século XVII aparecia dotada de pombal, galeria, horta e pátio, tudo recintado por um muro: estas construções sofreram várias modificações ao longo dos anos, mas foi conservado, por exemplo, o grande arco e poente que permite o acesso à propriedade a partir da estrada proveniente de Thiene.
Para finalizar este visita pelo passado dos edifícios e do território do Barcon serve de ajuda o mapa de orientação napoleónico da comuna de Sarcedo, datato 1809. Na precisa e racional visão do alto dos relevos do mapa pode intuir-se claramente a mole da villa e linha mais ténue representando a galeria, as arcadas e as construções rústicas que dividiam o pátio, a norte e a este, em dois; é importante notar já não existem os edifícios a sul, desmantelados no decurso do século XVIII, provavelmente em consequência duma menor actividade produtiva do complexo. Vê-se, no entanto, a superfície quadrada da torre colombófila, o que, por um lado, testemunha a sua existência ainda nesta data (permanecendo ainda por grande parte do século XIX) e, por outro, confirma a veracidade da representação seiscentista do complexo edificado. Interessante é observar, também, o grande rectângulo formado por 57 campos "cercados de muros", comprimido entre quatro estradas que o fecham ao longo dos quatro pontos cardeais, fruto da organização da propriedade operada depois de 1675.
Esta propriedade, junto com poucas outras, era tudo o que restava no território de Sarcedo do ramo dos "Franzani do Barcon", nos inícios do século XIX, do conjunto de quase quatrocentos campos possuídos por Domenico Franzani em 1665; poucos anos depois, em 1818, o último herdeiro, dom Francesco Franzani, seria o artífice da venda do complexo de edifícios do Barcon.
A igreja de Santo António Ao todo, são três os lugares de culto que estiveram em funções no complexo do Barco. O último, e o menos interessante do ponto de vista artístico, foi edificado na segunda metade do século XX para dar resposta às exigências da numerosa comunidade do Seminário menor de Pádua; tal capela foi acrescentada à extremidade oriental da ala de edifícios em linha com o palácio.
No andar nobre da villa, por outro lado, os Franzani construíram, no século XVII, a sua capela privada, dedicada à Imaculada, que se manteve em funções até aos tempos do Seminário, quando foi utilizada pelos professores-sacerdotes.
A mais importante, artisticamente mas também historicamente, entre as construções religiosas no Barcon, foi o oratório gentilício dedicado à Imaculada Concepção de Maria e a Santo António de Pádua. Tal oratório está voltado para a estrada do Barcon, a poucas dezenas de metros da villa, e apresenta uma porta de entrada com um frontão triangular, emoldurada por quatro lesenas coríntias que, por sua vez, apoiam o próprio frontão. No interior, o oratório apresenta o salão coberto por uma abóbada de berço e o presbitério com abóbada de aresta; o altar seiscentista, esculpido em mármore, é adornado com uma pala oitocentista que representa Santo António ao qual aparece a Virgem. Segundo Cevese "a segurança das informações e o refinamento dos moldes não puderam ser desenvolvidos se não com a intervenção de arquitecto bastante equipado", que ele identifica como Antonio Pizzocaro.