Eugénia de Montijo (nome completo em castelhano: María Eugenia Ignacia Agustina de Palafox y Kirkpatrick; Granada, – Madrid, ) foi a esposa do Imperador Napoleão III e Imperatriz Consorte dos Franceses de 1853 até a abolição da monarquia em 1870. Ela também foi a chefe de Estado "de facto" da França entre 28 de julho e 4 de setembro de 1870, sendo considerada a última mulher a fazê-lo.
Nascida em uma família da nobreza espanhola, Eugénia foi educada na França, Espanha e Inglaterra. Como imperatriz, usou sua influência para defender políticas autoritárias e clericalistas. Seu envolvimento na política lhe rendeu muitas críticas de seus contemporâneos. Napoleão e Eugénia tiveram um filho, Napoleão Eugénio, Príncipe Imperial. Graças à sua beleza e elegância, Eugénia contribuiu de modo significativo para a construção da imagem pública e do prestígio do regime imperial. Seu interesse pela vida da Rainha Maria Antonieta favoreceu a difusão da moda neoclássica, um estilo amplamente apreciado durante o reinado de Luís XVI. Após a queda do Império, a família imperial se exilou na Inglaterra. Eugénia sobreviveu ao marido e ao filho e passou o resto da vida dedicando-se a preservar a memória deles e a do Segundo Império Francês.
Juventude miniatura|esquerda|220px|Eugénia (1.ª dir.) com sua mãe, Dona María Manuela, e sua irmã, María Francisca Nascida em Granada, Espanha, em 5 de maio de 1826, ao meio-dia, na rua Grazia, María Eugenia Ignacia Agustina de Palafox y Kirkpatrick era filha de Dom Cipriano de Palafox y Portocarrero, Conde de Montijo e Teba, e de Dona María Manuela Kirkpatrick de Closeburn y de Grévignée. Ela tinha uma irmã mais velha, María Francisca, conhecida pelo apelido de Paca e matriarca da Casa de Alba.
Pressentindo o início das Guerras Carlistas, sua mãe enviou as duas filhas para a França em 1834, onde Eugénia foi educada em Paris, na escola do Convento do Sacré-Coeur, instituição na qual recebeu a formação tradicional destinada à aristocracia católica da época. Em 1837, Eugénia e Paca frequentaram brevemente um internato para meninas na Royal York Crescent, em Bristol, Inglaterra, com o objetivo de aprender inglês. Eugénia era apelidada de "Cenouras" devido aos seus cabelos "castanho-ticiano" e chegou a tentar fugir para a Índia, tendo inclusive embarcado em um navio nos cais de Bristol. Em agosto de 1837, ambas retomaram seus estudos em Paris.
miniatura|220px|Eugénia, por Federico de Madrazo y Kuntz, 1849 Em março de 1839, após a morte de seu pai em Madrid as jovens deixaram Paris para reunir-se com a mãe na Espanha. Eugénia cresceu e tornou-se uma jovem obstinada e fisicamente audaciosa, dedicando-se à equitação e a diversos outros esportes. Em certa ocasião, foi salva de um afogamento e, após decepções amorosas, tentou suicídio duas vezes. Demonstrava grande interesse por política e passou a apoiar a causa bonapartista. Em razão do papel de sua mãe como anfitriã da alta sociedade espanhola, Eugénia teve a oportunidade de conhecer a Rainha Isabel II, o primeiro-ministro Ramón Narváez e intelectuais proeminentes, diplomatas, escritores, músicos, toureiros e outras celebridades da época. Sobre Eugénia, o romancista Juan Valera escreveu, em 1847:
Dona María Manuela, cada vez mais preocupada em encontrar um marido adequado para a filha, levou-a novamente a Paris em 1849 e, posteriormente, à Inglaterra em 1851.
Casamento miniatura|esquerda|220px|Eugénia e Napoleão III Eugénia conheceu o príncipe Luís Napoleão Bonaparte pela primeira vez após ele assumir a presidência da Segunda República, acompanhada de sua mãe, durante uma recepção oferecida pelo "príncipe-presidente" no Palácio do Eliseu em 12 de abril de 1849. Napoleão perguntou-lhe "qual é o caminho mais curto para seus aposentos?" Ao que ela respondeu com humor "pela capela, meu senhor, pela capela".
Em 22 de janeiro de 1853, já como imperador, Napoleão III anunciou formalmente seu noivado, declarando: "Preferi uma mulher que amo e respeito a uma mulher desconhecida, cuja aliança traria vantagens misturadas com sacrifícios." O casal se casou em 29 de janeiro de 1853, em uma cerimônia civil nas Tulherias, seguida no dia seguinte por uma cerimônia religiosa mais grandiosa na Catedral de Notre-Dame. Eugénia ousou em ser uma das primeiras noivas a casar-se de branco, seguindo o exemplo da rainha Vitória do Reino Unido, em uma época em que as noivas se casavam de azul, verde e até de vermelho:
miniatura|220px|A imperatriz Eugénia com seu filho, Napoleão Eugénio, Príncipe Imperial O casamento só se concretizou após longas negociações e diversas recusas de princesas estrangeiras à proposta de Napoleão, devido à posição da Casa de Bonaparte, ainda vista com desconfiança por algumas cortes europeias. A decisão final foi alvo de críticas em diversos setores, já que Eugénia era considerada socialmente inferior por alguns. A imperatriz enfrentou dificuldades significativas para gerar um herdeiro. Em 1853 sofreu um aborto espontâneo aos três meses, o que a deixou assustada e abalada. Em 16 de março de 1856, após um parto longo e arriscado de dois dias, que colocou em perigo tanto sua vida quanto a do bebê, Eugénia deu à luz seu único filho, Napoleão Eugénio Luís João José Bonaparte, que recebeu o título de Príncipe Imperial.
Após o casamento, não demorou para que Napoleão III se envolvesse em diversos relacionamentos extraconjugais. A imperatriz, que considerava o sexo com ele "nojento", provavelmente resistiu a novas investidas do marido mesmo após lhe dar um herdeiro. Em contrapartida, Napoleão manteve uma série de amantes, entre as quais se destacam a soprano belga Bernardine Hamaekers, Virginia Oldoini, Condessa de Castiglione, a empregada doméstica Eléonore Vergeot e Marie-Anne Walewska, Colonna-Walewski – esta última chegou a servir como primeira-dama de honra da imperatriz entre 1868 e 1870, sendo a última pessoa a desempenhar essa função na França.McQueen, Alison (2011). Empress Eugénie and the Arts
Imperatriz
Eugénia cumpriu fielmente os deveres de uma imperatriz, entretendo convidados e ao acompanhar o imperador a bailes, óperas e peças de teatro. Após o seu casamento, as suas damas de companhia eram compostas por seis (mais tarde doze) damas do palácio, a maioria das quais escolhidas entre as conhecidas da imperatriz antes do casamento, encabeçadas pela Grand-maitresse ("dama de companhia sênior") Anne Debelle, Princesa d'Essling, e pela Dame d'honneur ("dama de honra") Pauline de Bassano. Em 1855, Franz Xaver Winterhalter pintou a Imperatriz Eugénia rodeada por suas damas de companhia, onde retratou Eugénia sentada, num cenário campestre, com oito das suas damas de companhia.
A imperatriz era notória por sua beleza. Madame Carette, que mais tarde se tornaria sua leitora, descreve o reflexo vívido de sua sedução:
Além de sua beleza, Eugénia destacou-se por sua atuação política. Viajou ao Egito por ocasião da inauguração oficial do canal de Suez e representou o marido sempre que ele se ausentava da França. Devido à regência que exerceu durante a Guerra Franco-Prussiana, em 1870, ela é considerada a última mulher a ter governado a França com as prerrogativas de chefe de Estado. Em 1860, visitou Argel ao lado de Napoleão. Defendeu de forma enfática a igualdade de direitos para as mulheres e pressionou o Ministério da Educação Nacional a conceder o primeiro diploma de bacharelado a uma mulher. Também tentou, sem sucesso, persuadir a Academia Francesa a eleger a escritora George Sand como sua primeira integrante feminina.
miniatura|220px|Imperatriz Eugénia em trajes de corte, por Winterhalter Ela foi uma firme defensora do poder temporal do Papa na Itália e do ultramontanismo. Por essa razão, tentou dissuadir energicamente o marido de reconhecer o novo Reino da Itália, formado em 1861 após a anexação, pelo Reino da Sardenha, do Reino das Duas Sicílias, governado pelos Bourbon, e de quase todo o território papal fora de Roma. Também apoiou a manutenção de uma guarnição francesa em Roma para assegurar a continuidade do domínio papal sobre a cidade. Sua oposição ao processo de unificação italiana rendeu-lhe a inimizade do Rei Vítor Emanuel II, que declarou: "O imperador está visivelmente enfraquecendo e a imperatriz é nossa inimiga e trabalha com os sacerdotes. Se eu a tivesse em minhas mãos, ensinaria-lhe bem para que servem as mulheres e em que ela não deve se intrometer." Eugénia também entrou em conflito com o ministro das Relações Exteriores da França, Édouard de Thouvenel, a respeito da presença da guarnição francesa em Roma. Para grande desagrado da imperatriz, Thouvenel negociou um acordo para reduzir a presença militar francesa em troca de uma garantia de soberania papal por parte do novo reino italiano. O Jean Gilbert Victor Fialin, duque de Persigny, atribuiu à influência de Eugénia a demissão de Thouvenel pelo imperador e declarou a Napoleão: "Você se deixa governar por sua esposa, assim como eu. Mas eu só comprometo o meu futuro... enquanto você sacrifica os seus próprios interesses, os do seu filho e os do país em geral."
Eugénia também foi amplamente responsabilizada pelo fracasso da intervenção francesa no México e pela posterior morte do Imperador Maximiliano I. A imperatriz incentivou a intervenção por enxergar nela a possibilidade de estabelecer um poder católico na América do Norte, capaz de conter a influência dos Estados Unidos, majoritariamente protestante, e de favorecer, por uma espécie de 'efeito dominó', o surgimento de outras monarquias conservadoras e católicas governadas por príncipes europeus na América Central e do Sul.Histoire-Recherche: "Le réve mexicain de Napoléon III vire au cauchemar"
Exílio, velhice e morte miniatura|esquerda|220px|Eugénia em vestido de luto Em 1870, Eugénia figurou entre as defensoras mais incisivas da guerra contra a Prússia, empenhando-se até o final em prol de uma intervenção austríaca em favor da França na Guerra Franco-Prussiana. Apesar de não gozar de ampla popularidade junto ao público francês, que a denominava l'Espagnole ("a espanhola"), logrou consolidar-se socialmente como referência e influenciadora nas questões de moda e estilo.Aubry, Octave (1931). L'imperatrice Eugénie . Paris: Fayard
Quando o Segundo Império foi derrubado após a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana, a imperatriz, acompanhada de seu marido e de seu filho, refugiou-se definitivamente na Inglaterra, estabelecendo residência em Camden Place, em Chislehurst, Kent. Seu marido, Napoleão III, morreu em 1873. Seu filho faleceu em 1879 enquanto lutava na Guerra Anglo-Zulu, na África do Sul.
Ela passou o restante da vida em reclusão até sua morte. Dividia seu tempo entre Farnborough, em Hampshire, e a Villa Cyrnos, localizada em Cap Martin, nas proximidades de Mónaco. Ainda assim, frequentava a corte da rainha Vitória, onde era tratada com o respeito cerimonial considerado apropriado a uma imperatriz. O afeto da rainha Vitória pela imperatriz exilada era compartilhado por seus filhos e netos. Uma neta da Rainha Vitória, Vitória Eugénia de Battenberg, futura esposa do rei Afonso XIII da Espanha, recebeu o seu nome em homenagem à imperatriz francesa.
miniatura|220px|Túmulo de Eugénia na Abadia de São Miguel, em Farnborough Apesar de manter-se completamente alheia à política, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela doou seu iate a vapor Thistle à Marinha Real Britânica. Ela financiou um hospital militar em Farnborough Hill, além de fazer grandes doações a hospitais franceses, pelas quais foi nomeada Dama-Grã-Cruz da Ordem do Império Britânico (GBE) em 1919.
A ex-imperatriz faleceu em julho de 1920, aos 94 anos, enquanto visitava seu sobrinho-neto, Jacobo Fitz-James Stuart, Duque de Alba, em seu Palácio de Liria, em Madrid. Ela foi sepultada na cripta imperial da Abadia de São Miguel, em Farnborough. Seu marido e seu filho também foram sepultados nesta cripta. O rei Jorge V do Reino Unido compareceu à sua missa de réquiem.
Influência na cultura