thumb|Monumento 3 de San José Mogote. Os dois glifos sombreados entre as suas pernas correspondem provavelmente ao seu nome, Terramoto 1 thumb|Pormenor da estela 1 de La Mojarra do século II, mostrando três colunas de glifos. As duas colunas da direita são glifos da escrita ístmica; a coluna da esquerda é a data 8.5.16.9.9 segundo a contagem longa, correspondente a 162 d.C thumb|Glifos maias em estuque no Museo de Sitio em Palenque, México thumb|Lâmina 37 do Códice Vindobonensis, a qual narra o nascimento dos primeiros seres terrestres, os ñuhu, a partir da "Mãe Pochote" no "Vale do Tabaco Ardendo" thumb|Detalhe da primeira página do códice Boturini asteca, mostrando o uso de escrita semasiográfica combinada com elementos fonéticos glíficos O sistema de escrita mesoamericano é logossilábico, combinando o uso de logogramas com um silabário, sendo muitas vezes designado como hieroglífico — dentre os decifrados até agora. A Mesoamérica, tal como a Mesopotâmia, China e Egito, é um dos poucos locais do mundo onde a escrita parece que desenvolveu-se de modo independente.

Encontram-se documentados cinco ou seis diferentes sistemas de escrita na Mesoamérica. Destes, o mais bem documentado e decifrado, e como tal o mais conhecido, é o sistema de escrita maia. Existe também extensa literatura mesoamericana, parte dela escrita em sistemas de escrita autóctones e outra parte em transcrições ibéricas feitas no alfabeto latino.

Origens

Ainda são desconhecidas as origens das escritas mesoamericanas. Existe quase um consenso entre os especialistas de que foi um desenvolvimento independente e original a partir de algum sistema pictográfico usado na região em tempos remotos, e ainda não identificado.Chrisomalis, Stephen. "The Origins and Co-Evolution of Literacy and Numeracy". In: Olson, David R. & Torrance, Nancy. The Cambridge Handbook of Literacy. Cambridge University Press, 2009, pp. 59-71 Os registros seguros de verdadeira escrita mais antigos encontrados foram datados de c. 700-c. 400 a.C., localizados no sul do México. Aparentemente em torno de 500 a.C. já havia dois sistemas em uso na região, o zapoteca e o chamado "do sudeste", que provavelmente derivaram de uma fonte comum, que deve ter iniciado sua formação muitos séculos antes.

Artefatos gravados com uma variedade de figuras, sinais e marcas já existiam na cultura olmeca, que floresceu a partir de c. 1500-1200 a.C., mas ainda não foi provado que constituem um sistema de escrita.Fischer, Steven Roger. História da Escrita. Editora da UNESP, 2009, pp. 188-193Popson, Colleen P. "Earliest Mesoamerican Writing?" In: Archaeology Newsbriefs, 2003; 56 (2) Pode, por outro lado, ter sido um ponto de partida para um desenvolvimento que levou à escrita verdadeira.Davis, Caitlin Reddington. Ritualized Discourse in the Mesoamerican Codices. An Inquiry into Epigraphic Practice. University of Leiden, 2015, p. 26

Algumas evidências sugerem que o sistema mesoamericano possa ter sido uma importação, adaptada de um sistema de escrita chinês.Villajos, Santiago González. "Art and Ritual in Early Chinese and Mesoamerican Cultures". Oxford Brookes University, 2009Zhang, He. "Are Olmec Scripts Chinese? A Study on the Olmec Iconographic Symbols and Mesoamerican Writing". In: Sino-Platonic Papers, 2017 (273) Já foram documentadas similitudes em algumas características importantes de ambos os sistemas, como a organização do texto em colunas verticais, lidas de cima para baixo, escrita que emprega usualmente um sistema de glifos compostos e não simples, com dois ou mais sinais (logogramas compostos), geralmente com leitura logossilábica e o emprego de sinais auxiliares da leitura de caráter fonético, indicando a correta pronúncia e significado para logogramas de uso múltiplo.

Segundo Steven Fischer, de todos os sistemas de escrita conhecidos no mundo, somente o chinês e o mesoamericano compartilham de todos esses traços, e em sua opinião, "a semelhança [...] é, de fato, grande demais para ser coincidência". Contudo, a hipótese de um contato entre Ásia e Mesoamérica depois da grande migração ocorrida na Pré-História mais de 10 mil anos atrás, cruzando o Estreito de Behring, nunca foi provada, e para a maioria dos pesquisadores parece implausível. Também foram apontadas algumas semelhanças entre o estilo de artefatos chineses e alguns artefatos da civilização olmeca, embora também este ponto permaneça controverso.

Escrita olmeca

Peças de cerâmica olmeca mais antigas mostram representações daquilo que parecem ser códices, sugerindo que os códices de amate, e por extensão uma escrita bem desenvolvida, existiam já no tempo dos olmecas. Era também pensado desde há muito tempo que muitos dos glifos presentes em esculturas monumentais olmecas, tais como os do chamado "Monumento do Embaixador" (monumento 13 de La Venta), representavam uma forma antiga da escrita olmeca. Esta suspeita foi reforçada em 2002 pelo anúncio da descoberta de glifos semelhantes em San Andrés.

Em Setembro de 2006, um relatório publicado na revista Science anunciou a descoberta do bloco de Cascajal, um pequeno bloco de escrita de serpentina com 62 caracteres diferentes de quaisquer outros até então conhecidos na Mesoamérica. Este bloco foi descoberto por habitantes actuais da área nuclear olmeca e foi datado pelos arqueólogos de aproximadamente 900 a.C., com base em outros detritos. Se a autenticidade e a datação puderem ser comprovadas, tratar-se-á da mais antiga escrita da Mesoamérica.

Escrita zapoteca

Outro candidato a sistema de escrita mais antigo da Mesoamérica é os sistema de escrita da civilização zapoteca. Surgida no final do período pré-clássico após o declínio da civilização olmeca, os zapotecas da actual região de Oaxaca, construíram um império em redor de Monte Albán. Em alguns monumentos deste sítio arqueológico, os arqueólogos descobriram textos extensos num sistema de escrita glífico. Alguns sinais podem ser reconhecidos como informação calendárica mas o sistema de escrita como tal permanece indecifrado. Lido em colunas de cima para baixo, a sua execução é de algum modo mais tosca que a da escrita maia clássica o que levou os epigrafistas a pensar que este sistema de escrita era também menos fonético que o largamente logossilábico sistema de escrita maia.

O mais antigo monumento com escrita zapoteca é uma pedra de danzante oficialmente conhecida como monumento 3, encontrada em San José Mogote, Oaxaca. Apresenta um relevo do que parece ser um cativo morto e ensanguentado com dois sinais glíficos entre as suas pernas, provavelmente o seu nome. Inicialmente datada de 500 - 600 a.C., já foi considerada a mais antiga escrita da Mesoamérica. No entanto, têm sido levantadas dúvidas sobre esta datação e o monumento pode ter sido reutilizado. O sistema de escrita zapoteca deixou de ser utilizado apenas no final do período clássico.

Escrita epiolmeca

Um pequeno número de artefactos encontrados no istmo de Tehuantepec mostram exemplos de outro antigo sistema de escrita mesoamericano. Podem encontrar-se neles informações calendáricas, no entanto tudo o mais encontra-se por decifrar. Os mais longos destes textos encontram-se na estela 1 de La Mojarra e na estatueta de Tuxtla. O sistema de escrita utilizado está muito próximo da escrita maia, utilizando glifos afixais e datas na contagem longa, mas é lido coluna a coluna tal como o sistema zapoteca. Foi sugerido que este sistema de escrita epiolmeca ou ístmico é o antecessor directo do sistema de escrita maia, dando assim uma origem não-maia ao sistema de escrita maia. Outro artefacto com escrita epiolmeca é a estela de Chiapa de Corzo, a qual é o monumento das Américas com a mais antiga data inscrita: a data na conta longa inscrita na estela data-a de 36 a.C.

Num texto publicado em 1997, John Justeson e Terrence Kaufman apresentaram uma decifração da escrita epiolmeca. Porém, no ano seguinte, a sua interpretação foi disputada por Stephen Houston e Michael D. Coe, que não conseguiram aplicar com sucesso o sistema de decifração de Justeson e Kaufman a uma inscrição epiolmeca encontrada numa máscara até então desconhecida.

Escritas de Abaj Takalik e Kaminaljuyú

Nos sítios arqueológicos das terras altas maias de Abaj Takalik e Kaminaljuyú foram encontradas inscrições datadas do tempo da cultura de Izapa. É possível que nesta área no tempo do período pré-clássico fosse falada uma forma antiga da língua mixe-zoque, e as inscrições ali encontradas podem estar escritas em tal língua e não numa língua maia. Alguns glifos destas escritas são legíveis pois são idênticos a glifos maias mas o sistema de escrita permanece indecifrado. O elevado grau de ruína e destruição nestes sítios arqueológicos torna improvável a possibilidade de serem descobertos mais monumentos contendo esta escrita que tornassem a sua decifração possível.

Escrita ñuiñe

Pouco se avançou no conhecimento do sistema de escrita ñuiñe, empregue na Mixteca Baja durante o período Clássico. As similaridades entre este sistema e a escrita zapoteca dificultam o trabalho de decifrar o código, pois acrescenta a complexidade de delimitar qual é o âmbito de distribuição de ambos os sistemas de escrita Urcid Serrano, 1997: 43. De acordo com Rodríguez Cano Rodríguez Cano, 2003, as produções gráficas Ñuiñe encontram-se distribuídas num território que abrange os distritos de Silacayoapan, Huajuapan de León, e Juxtlahuaca, em Oaxaca, bem como a região de Acatlán no estado de Puebla.

Assim como o sistema zapoteco, a escrita ñuiñe emprega o sistema de pontos e raias para representar os numerais —onde um ponto representa a unidade e uma barra representa o número cinco, signos que com iguais valores foram empregues na numeração maia— e compartilha com o primeiro alguns glifos correspondentes aos vinte dias do calendário pré-colombiano que foi empregue nessa região. A informação contida nas mensagens pictográficas ñuiñe basicamente corresponde a informação de calendário, e dá conta do emprego dos dois calendários comuns aos povos pré-colombianos da Mesoamérica — um solar, de 360 dias, e outro ritual, de 260.Rodríguez Cano, 2003 Estas mensagens foram recolhidos de estelas e pinturas rupestres na Mixteca Baja. Entre eles seria preciso assinalar as pinturas de Puente Colosal, no vale de Coixtlahuaca.Urcid, 2004

Escrita mixteca

A escrita mixteca conserva-se em vários objetos arqueológicos que sobreviveram à Conquista espanhola. Entre eles encontram-se quatro códices pré-colombianos trabalhados sobre pele de veado curtida e recoberta com estuque. Estes códices leem-se em sentido de bustrofédon, ou seja, em ziguezague, seguindo umas linhas vermelhas que indicam o caminho da leitura Jansen, 1982. A maior parte do conhecimento atual sobre a escrita dos mixtecas é produto da obra de Alfonso Caso, que empreendeu a tarefa de decifrar o código baseado num conjunto de documentos pré-colombianos e coloniais da cultura mixteca.

Ver também

Bloco de Cascajal Escrita maia

Bibliografia

Jansen, Maarten, Huisi Tacu. Estudio interpretativo de un libro mixteco antiguo. Codex Vindobonensis Mexicanus I, 2 vols., Centro de Estudios y Documentación Latinoamericanos, Amsterdam, 1982 Michael D Coe & Justin Kerr, The Art of the Maya Scribe, Thames and Hudson. 1997 Martinez, Ma. del Carmen Rodríguez; Ponciano Ortíz Ceballos; Michael D. Coe; Richard A. Diehl; Stephen D. Houston; Karl A. Taube; Alfredo Delgado Calderón; "Oldest Writing in the New World", in Science, 15 September 2006: Vol. 313. no. 5793, pp. 1610 - 1614 Nielsen, Jesper , Under slangehimlen, Aschehoug, Denmark, 2000 Sampson, Geoffrey; Writing Systems: A Linguistic Introduction, Hutchinson (London), 1985 Urcid Serrano, Javier (1997): “La escritura zapoteca prehispánica”, en Arqueología mexicana, V(26): 42-53

Ligações externas

Mesoamericano