thumb|right|350px|Pedro Weingärtner: Tempora mutantur, 1898, óleo sobre tela, acervo do MARGS

A pintura no Rio Grande do Sul teve uma evolução tardia em relação ao centro do país. Até o início do o Rio Grande do Sul era um território ainda em fase de povoamento, com fronteiras maldefinidas e cultura incipiente. O único episódio cultural significativo em sua história anterior ocorreu entre os séculos XVII e XVIII no ambiente das Missões jesuíticas no noroeste do estado, que na época ainda era um território da Coroa espanhola. Passando por diversas turbulências políticas e militares ao longo dos séculos XVIII e XIX, os rio-grandenses mal tiveram tempo, recursos e mesmo bases educativas suficientes para gerar muita cultura neste período.

Neste panorama despojado, sem uma tradição anterior, as primeiras evidências de arte pictórica no estado apareceram como decoração de templos religiosos e de alguns edifícios públicos ou palacetes das elites. A pintura, como arte independente, só teria condições de iniciar um florescimento, em linhas acadêmicas, a partir do final do século, iniciado em Porto Alegre, a capital, e dois outros centros regionais importantes: Pelotas e Rio Grande, portas de entrada do estado por via marítima. Então surgem os primeiros nomes de relevo da pintura local.

Nos anos 1920 o modernismo iniciou sua penetração, entrando em choque contra a tradição acadêmica e setores culturais conservadores, e abrindo uma polêmica pública que iria se arrastar por décadas até a vitória dos modernos nos anos 1950. Nesta mesma época, principalmente através da atuação do Instituto de Belas Artes, a pintura como gênero artístico autônomo já estava firmemente estabelecida e prestigiada, formava-se um mercado, multiplicavam-se os pesquisadores e críticos, cada vez mais se incorporavam atualizações de fora e se definia pela primeira vez um caráter original para a produção sulina. Mas mal o modernismo havia conseguido assegurar seu predomínio, entre os anos 1960 e 1970 a pintura gaúcha entrou em crise, como em todo o mundo. Novas estéticas entravam em ação, como a arte pop e a nova figuração, e logo as vanguardas conceituais questionavam a primazia da pintura e o próprio conceito de obra de arte, preocupando-se mais com a ideia e o processo criativo do que com a construção material da obra, passando a predominar o hibridismo de várias técnicas e materiais usados em combinações incomuns, dando-lhes novos significados. Neste momento, foi tamanha a queda da importância relativa da pintura na hierarquia de prestígio das artes que alguns chegaram a dizer que a pintura estava morta.

Mas acompanhando outra tendência internacional, nos anos 1980, parecendo esgotadas as possibilidades do conceitualismo, a pintura voltou no estado com grande força e exuberância, revisitando o passado criticamente ao mesmo tempo em que se globalizava e consagrava a pluralidade como a linguagem típica dos tempos atuais. Em fins do a pintura gaúcha se tornara já uma referência nacional, colocando-se em sintonia com as tendências nacionais e internacionais e respondendo de formas criativas. Paralelamente, na curta história da pintura no estado sempre houve artistas importantes que não ficaram insensíveis aos apelos do regionalismo e abordaram o imaginário formado em torno da figura quase mítica do gaúcho e de cenários e personagens históricos ou lendários.

Considerando seus inícios pouco auspiciosos, em relativamente pouco tempo se formou no Rio Grande do Sul um vasto e ricamente diversificado acervo de pintura, um público para apreciá-lo, e um grande grupo de instituições capacitadas para estudá-lo, preservá-lo e exibi-lo. Porto Alegre continua de longe como o centro mais importante, mas em quase todo o interior a pintura já encontra espaço, mesmo que tímida e amadoristicamente. A técnica em seus elementos básicos faz parte do currículo escolar e se tornou um domínio público. Já é grande a bibliografia produzida sobre determinados aspectos da pintura riograndense, mas estudos gerais ainda não existem, sobre muitos particulares quase nada já foi dito, e muita pesquisa ainda precisa ser feita para que ela seja conhecida com a profundidade e amplitude que sua riqueza estética e importância social merecem.

Inícios e primeira maturidade

A história do Rio Grande do Sul até o início do foi marcada pelo militarismo. O seu território estava sendo conquistado à Espanha, e a maior preocupação do governo era a estabilização e defesa de fronteiras sempre em mudança e o controle de bandos de gaúchos errantes que se entregavam a pilhagens e escaramuças na zona da campanha. O único acontecimento cultural notável no território até sua conquista definitiva pelos portugueses em 1821 foi patrocinado por jesuítas espanhóis, que no fundaram, na região centro-noroeste, várias reduções para enraizamento e aculturação de índios, onde floresceu uma rica cultura híbrida orientada pelos missionários, que parece ter praticado pintura consistentemente. Desta produção pouco foi relatado e nada sobreviveu, mas seguramente deve ter sido destinada para a catequese e para o culto católico. No restante do estado, a população era escassa e pobre, se concentrava em meia dúzia de vilas e na diminuta capital, Porto Alegre, e poucas condições havia para que a arte pudesse florescer, uma situação que permaneceu em essência inalterada até passada a Revolução Farroupilha, outro evento militar que se estendeu entre 1835 e 1845 e transtornou toda a sociedade estadual. Neste contexto de asperezas e privações, as primeiras notícias sobre pintura ligada à esfera portuguesa são datadas do final do , falando de alguns pintores artesanais que deixaram decoração mural em algumas igrejas, dos quais não se guardou o nome.Costa, Eimar Bones da (ed). História Ilustrada do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores, 1998Damasceno, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1971, pp. 67-68Gastal, Susana. "Arte no ". In Gomes, Paulo (org.) Artes Plásticas no Rio Grande do Sul: Uma Panorâmica. Porto Alegre: Lahtu Sensu, 2007, pp. 30-49 thumb|left|180px|Antônio Cândido de Menezes: Retrato de Dom Pedro II, meados do , óleo sobre tela, acervo do Museu Júlio de Castilhos

Pouco depois também começaram a circular alguns artistas viajantes, os primeiros a dar uma contribuição significativa à corrente principal da pintura riograndense. Dentre eles é de se notar a presença, no início do , de João de Deus, paulista, o primeiro cenógrafo notável a atuar no estado; Alphonse Falcoz, francês diplomado na Academia Imperial de Belas Artes; Manoel José Gentil, baiano, provável autor de pelo menos parte da série de retratos oficiais de sócios beneméritos da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre; Eduardo Timoleon Zalony, ativo em Rio Grande e Porto Alegre, introdutor da técnica de pintura sobre vidro; Jean-Baptiste Debret, integrante da Missão Francesa, e Herrmann Wendroth, mercenário alemão, ambos deixando importante registro visual em aquarela da paisagem e dos tipos humanos do estado. Na verdade, em meados do já havia muitos interessados em arte, especialmente em Pelotas e Porto Alegre, já havia alguns professores em atividade, e alguns viajantes acabaram por se fixar na terra, como Guilherme Litran e Frederico Trebbi, de grande prestígio no ambiente pelotense, posição ocupada em Porto Alegre por Bernardo Grasselli, Ricardo Albertazzi e Balduíno Röhrig. Eles já puderam viver de sua arte, lançaram as bases para a educação do gosto local e para a formação de um pequeno mercado, e também formaram vários discípulos que continuariam seu legado, mas o cenário até a década de 1890 foi dominado principalmente pelo amadorismo. A situação começaria a mudar, lentamente, a partir da atuação de Antônio Cândido de Menezes, o primeiro pintor de mérito nascido e ativo no estado, formado na Academia Imperial de Belas Artes e depois desenvolvendo intensa atuação na capital como artista e professor, e a partir do surgimento de Pedro Weingärtner, cuja importância será detalhada mais adiante.Damasceno, pp. 67-119

Em fins do a economia riograndense já estava razoavelmente estruturada e crescia, a sociedade começava a mostrar interesses variados em arte, cultivando o teatro, a música erudita, inclusive ópera, os saraus literários, e o grande afluxo de imigrantes europeus fornecia elementos culturais adicionais para desencadear os primeiros movimentos consistentes no terreno da pintura, ainda que isso ocorresse quase exclusivamente na capital, que por volta de 1880 possuía mais de 40 mil habitantes e economicamente já era a cidade mais importante do estado. Começava a se definir uma burguesia com poder aquisitivo, que podia comprar arte e decorava suas residências com pinturas murais, sinalizando seu status social. Foi importante então, abrindo mais espaço para o cultivo e apreciação das artes, o entusiasmo da sociedade Partenon Literário, ativa desde 1868, formada pela flor da intelectualidade gaúcha, e a realização em 1875, por inspiração de Carlos von Koseritz, do primeiro salão de artes, incluído na Grande Exposição Comercial e Industrial, onde expuseram Grasselli, Menezes e Theodor Bischoff. Em 1883 surgiu em Porto Alegre a primeira ideia de se criar uma escola de artes estruturada nos moldes das academias europeias, proposta do cenógrafo Oreste Coliva acolhida com calor pela imprensa e os círculos ilustrados. Mas o projeto, precoce demais para o momento histórico, não frutificou.Damasceno, pp. 112-145 De qualquer maneira, se percebia uma maior abertura para o campo da arte em geral, que começava a ser levada a sério. Disse Athos Damasceno:

"As atividades artísticas, pouco a pouco, deixam de ser consideradas mera distração de diletantes e pessoas desocupadas para impregnar-se do sentido de um poderoso instrumento de ação educativa e valorizadora do homem e da sociedade. [...] Vários seriam os artistas - pintores, escultores, arquitetos, marmoristas, entalhadores, cenógrafos, ornamentistas - que então demandariam o Rio Grande do Sul em busca de trabalho. Não se dirigiam apenas à sua capital mas também a cidades do interior, onde muitos deles se fixariam, oferecendo-nos a proveitosa orientação da experiência e dos recursos de que eram portadores".Damasceno, p. 115

Surgia também a primeira geração de professoras de pintura, incluindo Edilia Azarini, Margarida Ahrons e Dorothea Alruz. Aliás as mulheres perfaziam o maior número de praticantes nesta época, sendo numerosa e aplaudida sua participação nos salões que se seguiram, embora muitas vezes sua produção se aproximasse mais das artes decorativas e das prendas domésticas. Uma significativa amostra desta fase de afirmação, de perfil mais erudito, está nas importantes séries de retratos oficiais de sócios beneméritos da Beneficência Portuguesa e da Santa Casa de Misericórdia, pouco conhecidas pelo grande público, mas que estão entre o melhor da retratística gaúcha na passagem do para o . Figuras menores isoladas e semi-amadoras como Pietro Stangherlin e Antônio Cremonese também fizeram interessantes ensaios de pintura em cidades de fundação muito recente como Caxias do Sul e Farroupilha, o primeiro ainda falando um idioma barroquizante, e o segundo, com estilo de caráter popular.Damasceno. pp. 128-131; 260-269; 389-418Frantz, Ricardo André. "Os retratos oficiais da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre: uma coleção a resgatar". Academia.edu, 2014

Os primeiros sinais de uma identidade thumb|left|Pedro Weingärtner: Carreteiros gaúchos chimarreando, óleo sobre tela, 1911. Pinacoteca Aldo Locatelli