Sandawe ou sandawi, conhecida por seus falantes como "Sandaweegki" (pronúncia /sàndàwěːkìʔìŋ/, literalmente "Língua sandawe") é uma língua tonal ativa falada por cerca de 40 mil pessoas do povo sandawe, na Tanzânia.

A língua é falada nas áreas habitadas pelo povo homônimo, nas periferias da região de Aruxa e principalmente no norte da região de Dodoma, numa área de aproximadamente 65 quilômetros de diâmetro conhecida como "Usandawe". Estima-se que o idioma seja falado por aproximadamente 40 mil pessoas; números entre 70 e 90 mil já foram sugeridos em pesquisas, provavelmente inflacionados devido à presença significativa de outros grupos étnicos vivendo em Usandawe, a exemplo dos gogo e dos massais. Os diferentes agrupamentos constantemente interagem entre si, apesar de primordialmente fazê-lo em suaíle; o sandawe é compreendido, embora raramente falado, por indivíduos de outras etnias.

O idioma não possui ortografia oficial. Comitês de falantes do sandawe de diferentes partes da região onde a língua é falada, juntamente com a SIL International, que vem trabalhando no idioma desde 1996, já se juntaram buscando desenvolver uma ortografia baseada no sistema de escrita latino, mas o enorme inventário consonantal do sandawe dificulta a consolidação de uma ortografia que possa ser usada sem treinamento. Com a exceção dos treinados no uso desse sistema, os sandawe não leêm ou escrevem em sua língua nativa.

O sandawe é conhecido pelo uso de cliques e é uma das três únicas línguas do leste africano a tê-los como consoantes regulares de seu inventário fonológico, juntamente com o dahalo e o hadza. Apesar de a afiliação linguística do idioma ainda não ter sido conclusivamente determinada, a língua costuma ser agrupada na família das línguas khoisan.

Classificação miniaturadaimagem|300px|Distribuição e divisão da hipotética família Khoisan, com hadza e sandawe no canto superior direito|left O sandawe é considerado parte das línguas khoisan, mas essa é uma classificação frequentemente debatida.

A própria existência da família khoisan é questionada; desde sua concepção, o agrupamento de línguas sob o termo é complicado por se sustentar muito no traço tipológico único dos cliques, que podem ser compartilhados por razões independentes, como difusão ou empréstimo. Além disso, nem todas as línguas africanas com clique são incluídas no grupo.

Existe suspeita de que sandawe e hadza sejam agrupadas juntas no ramo Leste Africano da família, mas não há evidência real disso - alguns estudiosos afirmam que o uso do termo "khoisan" para as duas não reflete um relacionamento genético entre elas e é apenas um artifício para suprir a falta de classificação das línguas não-bantu e não-cuxíticas com cliques faladas no sul e no leste da África.

Nenhuma das várias tentativas de provar o relacionamento genético de todas as línguas ditas khoisan foi convincente. Nem mesmo a teoria do relacionamento entre sandawe e hadza é inquestionável: enquanto a primeira possui marcadores de classe de substantivo que funcionam de maneira similar ao resto da suposta família, a segunda não possui nenhuma afinidade nesse sentido.

Etimologia Os sandawe se referem à sua língua como "sandaweegki" (/sàndàwěːkìʔìŋ/), um termo que não possui significado ou uso além de nome da língua, e é de onde surge o exônimo "sandawe".

O endônimo é formado pela denominação do grupo étnico mais o sufixo derivacional usado para marcar nome de língua pelos sandawe, "-kìʔìŋ".

Distribuição Distribuição geográfica miniaturadaimagem|225x225px|Usandawe (em cinza) O topônimo de origem suaíle "Usandawe" é comumente usado por outros e pelos próprios Sandawe para designar a área onde o povo vive e a língua é primordialmente falada. A área tem cerca de 65 quilômetros de diâmetro e é atravessada por duas estradas principais que se cruzam em Kwa Mtoro, seu centro geográfico. A maior parte dos cerca de 60 mil habitantes da região se distribui em povoados ao longo dessas duas vias mais importantes; tais povoações abrigam desde poucas centenas até 4 mil pessoas. A área está dentre as regiões mais pobres da Tanzânia.

Dialetos e línguas relacionadas O sandawe possui dois dialetos principais, que se diferenciam de maneira leve e gradual. Estudos de Eric ten Raa (1970) indicaram que as duas variantes seriam chamadas de Dtelha (literalmente, "sandawe genuíno") e Bisa ("sandawe grosseiro"). Entretanto, outras pesquisas mais recentes demonstraram a inexistência de qualquer Sandawe que estivesse disposto a descrever as variedades como "Dtelha" ou "Bisa", levando linguistas a preferirem qualificá-los como, respectivamente, "sandawe oriental" e "sandawe ocidental". As diferenças entre as variantes são singelas e incluem, principalmente: velocidade de fala, léxico, fenômenos gramaticais e uso de linguagem considerada tabu. O sandawe oriental pode ser dividido em mais dois sub-dialetos, com diferenças menos consideráveis. Falantes de variantes diferentes não reportam qualquer problema com inteligibilidade mútua.

miniaturadaimagem|225x225px|Distribuição do suaíle na África; em azul mais escuro, a região na qual a língua é oficial: a Tanzânia|left

Na porção centro-norte da Tanzânia, o sandawe está em contato com diferentes línguas cuja influência pode ser facilmente observada em estrangeirismos incorporados à língua: são evidentes, por exemplo, a presença de vocabulário pecuarista de línguas cuxíticas, terminologia de caça da língua gogo e termos técnicos do suaíle. Essa última é a segunda língua mais falada pelos Sandawe e é evidentemente um fator importante no contato linguístico - apesar de o sandawe ser a língua primária no cotidiano de Usandawe, o suaíle, como língua oficial da Tanzânia, é a língua franca usada em escolas e instituições administrativas.

Muitos sandawe têm pouca estima de sua língua e cultura, e o idioma que falam tem pouco prestígio fora da área primordial que ocupam - por seu uso de cliques, ela é facilmente reconhecível fora da região, o que faz com que muitos falantes nativos, conversando entre si, prefiram o suaíle ao sandawe quando em espaços públicos fora de Usandawe.

História História da língua No início dos anos 2000, descobertas arqueológicas no sudeste africano fundamentaram a teorização de que exista uma longa história biológica do Homo sapiens nessa região. Pesquisadores sequenciaram o genoma dos san, o grupo de caçadores-coletores que vivem na região do deserto Kalahari do qual os Sandawe fazem parte, e concluiu-se que descenderiam da mais velha linhagem da espécie; o coletivo teria se separado dos outros ramos de filogenia humana há cerca de 350 mil anos atrás.

Também existe uma ideia de que o trato vocal teria se desenvolvido gradualmente ao longo de um extenso período, e os estágios de sua evolução determinariam os tipos de sons que poderiam ser produzidos; no tempo teorizado como da separação dos san, a única parte dele que estaria fisiologicamente desenvolvida a ponto de produzir som seria a área da boca. O único som de fala que poderia ser produzido apenas na cavidade oral à época seria o "som de estalo" - os cliques. Dessa forma, alguns teóricos sustentam que o ser humano, em sua origem, falava uma língua de cliques. Essa é uma ideia complementada pela persistência da ocorrência dessas consoantes em alguns idiomas africanos - principalmente os do grupo khoisan, do qual os san e o sandawe são parte.

miniaturadaimagem|300px|Representação simplificada da filogenia do Homo sapiens; em verde, os san|right

Atualmente, os sandawe mantêm uma identidade separada da de seus grupos vizinhos, e se consideram descendentes de ancestrais caçadores-coletores do sul africano; diz-se que a primeira vez que o povo observou similaridades entre sua língua e outra do continente africano foi ao ouvir Nelson Mandela (um Xhosa, falante de língua que também usa sons de clique) falar na rádio.

A língua e o povo sandawe tem uma história construída intensamente por meio do contato histórico com povos de fora: Usandawe já foi central numa longa rota de comércio, então muitos mascates árabes passaram pela área ao longo do século XIX; além disso, missionários franceses chegaram à região em 1908. Devido a tais interações, fusões sociais e linguísticas ocorreram entre os sandawe e quem os avizinhava.

Os primeiros estrangeiros a entrar em Usandawe foram os pecuaristas alagwa, cuxíticos; cerca de 10 gerações atrás, esses se casaram e estabeleceram entre os sandawe, levando a mudanças na língua local, principalmente pela inclusão de vocabulário de pecuária. Posteriormente, os nyaturu, falantes de língua bantu, influenciaram o povo ao ensinar seus membros a agricultar e consequentemente promover mudanças vocabulares, agora relacionadas à incorporação lexical de termos de agricultura. Atualmente, o sandawe é fortemente influenciado pelo suaíle, língua oficial da Tanzânia, e termos técnicos relacionado a inovações tecnológicas incorporados à linguagem advêm do suaíle.

História da documentação O primeiro estudo sobre os sandawe e sua língua foi efetuado entre 1891 e 1893 por O. Baumann, líder de uma missão alemã anti-escravista que atuou em Usandawe.

A classificação do sandawe é abordada em diversos trabalhos, incluindo Greenberg, Ehret e Sands.

Trabalhos antigos em fonética da língua podem ser encontrados em Dempwolff e Copland. Estudos mais recentes incluem a comparação fonética realizada entre as três línguas do leste africano com clique: sandawe, dahalo e hadza, por Tucker e Bryan. Wright et al. investigou os cliques do idioma.

A fonologia tonal do sandawe foi estudada por Elderkin. Um estudo abrangente da fonologia foi produzido por Hunziker et al, e um mais recente rascunho da fonética da língua é Eaton.

A gramática sandawe inclui os antigos estudos de Dempwolff e van de Kimmenade (1936). Kagaya trabalhou ordem de sentenças e marcação de sujeito. Eaton discutiu a relação entre marcação de objeto e aspecto; um rascunho da gramática foi produzido por Elderkin, que usou uma abordagem diacrônica sobre seus dados.

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o antropólogo Eric ten Raa realizou importantes estudos na cultura e na linguagem do povo sandawe. Fonologia Consoantes +Fonemas consonantais não-cliques da língua sandawe BilabialLabiodentalAlveolarPós-AoveolarPalatalAlveolar LateralVelarLabio-VelarGlotalPlosivasimples ejetivaaspiradaAfricada<small>simples ejetivaaspiradaNasalTepeFricativaAproximante As plosivas bilabiais, pós-aoveolares e velares são todas articuladas de três diferentes maneiras: desvozeada (p, t, k), vozeada (b, d, g) e aspirada (pʰ, tʰ, kʰ). O vozeamento e a aspiração não são previsíveis na língua, sendo fonêmicos. A plosiva glotal se diferencia notavelmente das outras plosivas da língua por ser a única a ocorrer em posição de coda, ou seja, como último fonema da sílaba.

Existe uma diferença dialetal na realização das africadas pós-aoveolares. No sandawe oriental, /ʧ/ e /ʤ/ por vezes sofrem frontição, virando /ts/ e /dz/. Menos frequentemente, /tʃʰ/ também vira /ts/ e /ʤ/ pode sofrer lenição e tornar-se /z/ no dialeto do leste.

A africada velar ejetiva /kɬʼ/ ocorre apenas antes de /u/ e /w/ e está complementarmente distribuída com o [tɬʼ], sendo ambos considerados alofones do mesmo fonema.

A nasal velar // é encontrada apenas no meio das palavras antes de plosivas velares, sendo considerada uma variação alofonética de /m/ e /n/.

Dentre as fricativas, apenas /s/ e /x/ ocorrem em posição de coda, existindo indícios de que tais consoantes já tenham sido seguidas por uma vogal elisada; acredita-se que o mesmo tenha acontecido com o /ɾ/, que também aparece excepcionalmente em fins de sílaba.

+Cliques da língua sandawe DentalPós-AoveolarLateralSimplesAspiradoǀʰǃʰǁʰVozeadoǀ̬ǃ̬ǁ̬GlotalizadoǀʼǃʼǁʼNasalizadoǀ̃ǃ̃ǁ̃