O Minas Geraes foi um navio couraçado brasileiro, do tipo dreadnought, operado pela Marinha do Brasil e nomeado em homenagem ao estado de Minas Gerais. Construído pelos estaleiros da Armstrong Whitworth, em Newcastle upon Tyne, suas obras se iniciaram em abril de 1907, sendo lançado em setembro do ano seguinte e comissionado em abril de 1910, o que fez do Brasil o terceiro país no mundo a ter um couraçado em sua marinha, iniciando uma corrida armamentista naval na América do Sul.
Dois meses após sua conclusão, em janeiro de 1910, o Minas Geraes foi destaque na revista Scientific American, que o descreveu como "a última palavra em design de encouraçado pesado e [...] o navio de guerra mais poderosamente armado". Em novembro de 1910, o Minas Geraes foi o foco da Revolta da Chibata. O motim, desencadeado por racismo e abuso físico, se espalhou para outros navios da Marinha, incluindo seu irmão São Paulo, o velho navio de defesa costeira Deodoro e o recém-comissionado cruzador Bahia. Liderados pelo "Almirante Negro" João Cândido Felisberto, os amotinados ameaçaram bombardear a capital brasileira do Rio de Janeiro se suas demandas não fossem atendidas. Como não foi possível acabar com a situação militarmente – as únicas forças leais nas proximidades eram pequenos torpedeiros e tropas do exército confinadas em terra – o Congresso Nacional do Brasil cedeu às demandas dos rebeldes, incluindo a concessão de anistia, encerrando pacificamente o motim.
Quando o Brasil entrou na Primeira Guerra Mundial em 1917, a Marinha Real Britânica recusou a oferta do Brasil do Minas Geraes para servir na Grande Frota porque o navio estava defasado; ele não havia passado por obras de modernização desde que entrou em serviço, telêmetros e um sistema de controle de tiro ainda não tinham sido adicionados. O São Paulo passou por uma modernização nos Estados Unidos em 1920; em 1921, o Minas Geraes recebeu o mesmo tratamento. Um ano depois, o Minas Geraes partiu para combater a primeira das revoltas tenentistas. O São Paulo bombardeou o forte dos rebeldes e eles se renderam logo depois; Minas Geraes não disparou. Em 1924, os amotinados tomaram o São Paulo e tentaram persuadir as tripulações do Minas Geraes e vários outros navios a se juntarem a eles, mas não tiveram sucesso.
O Minas Geraes foi modernizado no Estaleiro Naval do Rio de Janeiro na década de 1930, e passou por novas reformas de 1939 a 1943. Durante a Segunda Guerra Mundial, o navio foi fundeado em Salvador como principal defesa do porto, pois era muito antigo para desempenhar um papel ativo na guerra. Nos últimos nove anos de sua vida útil, o Minas Geraes permaneceu praticamente inativo e foi rebocado para a Itália para desmantelamento em março de 1954.
História Antecedentes A partir do final da década de 1880, a Marinha do Brasil caiu em obsolescência, favorecida pela revolução de 1889, que depôs o imperador Dom Pedro II, e revoltas navais em 1891 e 1893 – 94.Barman, Citizen Emperor, 403; Topliss, "The Brazilian Dreadnoughts," 240; Livermore, "Battleship Diplomacy," 32; Martins, "Colossos do mares," 75. Na virada do século XX, estava ficando atrás das marinhas chilena e argentina em qualidade e tonelagem total,Livermore, "Battleship Diplomacy," 32; Martins, "Colossos do mares," 75. apesar de o Brasil ter quase três vezes a população da Argentina e quase cinco vezes a população do Chile.Scheina, "Brazil," 403; Livermore, "Battleship Diplomacy," 32.
A crescente demanda por café e borracha trouxe prosperidade à economia brasileira naquela época. O governo do Brasil usou parte do dinheiro extra desse crescimento econômico para financiar um grande programa de construção naval em 1904, que autorizou a construção de um grande número de navios de guerra, incluindo três encouraçados.Scheina, Naval History, 80; English, Armed Forces, 108. O Ministro da Marinha, Almirante Júlio César de Noronha, assinou contrato com a Armstrong Whitworth para a construção de três encouraçados em 23 de julho de 1906.Topliss, "The Brazilian Dreadnoughts," 240–245. Enquanto os primeiros projetos para esses navios foram derivados do navio norueguês de defesa costeira Norge e da britânica (originalmente chilena) classe Swiftsure, os navios contratados deveriam seguir o Design 439 da Armstrong Whitworth (Design 188 nos arquivos da Vickers). Esse projeto previa um encouraçado que deslocaria 11 800 toneladas longas (12 mil toneladas), teria uma velocidade de dezenove nós (35 quilômetros por hora), e seria protegido por um cinturão blindado de 228 milímetros e uma blindagem de convés de 38 milímetros. Cada navio estaria armado com doze canhões de 254 milímetros montados em seis torres gêmeas. Essas torres seriam montadas em uma configuração hexagonal, semelhante à da classe Nassau.Topliss, "The Brazilian Dreadnoughts," 244–246.
Dois desses navios seriam entregues pela Armstrong em Elswick (Minas Geraes e Rio de Janeiro), enquanto o outro seria terceirizado à Vickers em Barrow (São Paulo). No entanto, o novo conceito de dreadnought, que ganhou força em dezembro de 1906 após a conclusão do navio homônimo, tornou os navios brasileiros obsoletos.Topliss, "The Brazilian Dreadnoughts," 246. O dinheiro autorizado para expansão naval foi redirecionado pelo novo ministro da Marinha, contra-almirante Alexandrino Faria de Alencar, para a construção de dois dreadnoughts, com planos para um terceiro após a conclusão do primeiro, dois cruzadores (que se tornaram a classe Bahia), dez contratorpedeiros (classe Pará), e três submarinos (classe Foca).Scheina, Naval History, 81; Journal of the American Society of Naval Engineers, "Brazil," 883. Os três couraçados cuja construção havia acabado de começar foram desmontados a partir de 7 de janeiro de 1907, e o projeto dos novos encouraçados foi aprovado pelos brasileiros em 20 de fevereiro de 1907.
Mesmo que o custo maior desses navios significasse que apenas dois navios poderiam ser entregues imediatamente, os planos seguiram em frente.Whitley, Battleships, 24. Minas Geraes, o navio líder, foi lançado pela Armstrong em 17 de abril de 1907, seguido por São Paulo, treze dias depois, terceirizado para a Vickers.Scheina, "Brazil," 404; Scheina, Naval History, 321; Topliss, "The Brazilian Dreadnoughts," 249. A notícia chocou os vizinhos do Brasil, especialmente a Argentina, cujo ministro das Relações Exteriores comentou que tanto Minas Geraes quanto São Paulo poderiam destruir toda a frota argentina e chilena.Martins, "Colossos do mares," 76. Além disso, o pedido do Brasil significava que eles haviam lançado um dreadnought antes de muitas das outras grandes potências marítimas, como Alemanha, França ou Rússia, e os dois navios fizeram do Brasil o terceiro país a ter dreadnoughts sob construção, atrás do Reino Unido e dos Estados Unidos.Scheina, "Brazil," 403; Whitley, Battleships, 13. Em particular, os Estados Unidos agora tentavam ativamente por o Brasil como aliado; surpresos, os jornais navais dos EUA começaram a usar termos como "pan-americanismo" e "cooperação hemisférica". Jornais de todo o mundo, principalmente na Grã-Bretanha e na Alemanha, especulavam que o Brasil estaria agindo como um representante de outra potência naval que se apoderaria dos dois dreadnoughts logo após a conclusão, pois não acreditavam que um país anteriormente insignificante pudesse adquirir um armamento tão poderoso.Scheina, "Brazil," 404; Martins, "Colossos do mares," 77.
Início de carreira 170px|miniaturadaimagem|Superestrutura e canhões principais do Minas Geraes em 1910; observe a presença de torres de artilharia em ambos os lados da superestrutura O Minas Geraes foi batizado por Regis de Oliveira, esposa do ministro brasileiro na Grã-Bretanha,"Launch Greatest Warships," New York Times, 11 September 1908, 5. e lançado em Newcastle-on-Tyne em 10 de setembro de 1908. Durante a montagem, foi transferido para o Walker Yard de Vickers, e milhares viram o navio incompleto passar por baixo e através de pontes suspensas e móveis."New Brazilian Battleship," Times (London), 17 August 1909, 10b. Após a conclusão, o Minas Geraes foi entregue pela Armstrong em 5 de janeiro à Comissão Brasileira, enquanto a tripulação do navio foi reunida no convés. A Marinha Real Britânica realizou seus testes de artilharia a pedido da Armstrong e com a anuência do governo brasileiro.Tupper, Reminiscences, 185. Embora a ideia de ter torres de superdisparo não fosse nova - os encouraçados americanos da classe South Carolina também foram projetados e construídos dessa maneira na mesma época – os testes atraíram o interesse de algumas nações, que enviaram representantes para observar. Eles queriam resolver duas questões principais: o efeito que o disparo das torres superiores de superdisparo teria sobre os tripulantes dos canhões inferiores e se a fumaça do disparo dos canhões inferiores prejudicaria as capacidades de mira da torre superior. Os testes resolveram satisfatoriamente ambas as questões."The Brazilian Battleship Minas Geraes", Scientific American 102, no. 12, 19 March 1910, 240–241 (New York: Munn & Co., Inc.
O Minas Geraes deixou Tyne em 5 de fevereiro de 1910 e viajou para Plymouth antes de iniciar uma viagem para os Estados Unidos em 8 de fevereiro."Naval and Military Intelligence," The Times, 7 February 1910, 4f; "Naval and Military Intelligence," The Times, 9 February 1910, 8c. Quando o navio chegou em Norfolk, na Virgínia, escoltou o cruzador blindado norte-americano , que transportava o corpo do ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos Joaquim Nabuco (falecido em Washington, D.C., em 17 de Janeiro) para o Rio de Janeiro.Martins, "Colossos do mares," 76; "Minas Geraes Fogbound," The New York Times, 3 March 1910, 13; Whitley, Battleships, 27–28. Os dois navios zarparam no dia 17 março de 1910 e chegaram ao Rio de Janeiro um mês depois,Whitley, Battleships, 27–28. onde foi comissionado na Marinha do Brasil em 18 de abril.
Logo após sua chegada ao Brasil, a prosperidade do país começou a diminuir e uma severa depressão atingiu a economia brasileira.Scheina, "Brazil," 404. As dificuldades econômicas, o racismo prevalecente em todos os ramos das Forças Armadas brasileiras,Smallman, Fear & Memory, 28 e a severa disciplina imposta a todos os navios da Marinha geraram um motim conhecido como Revolta da Chibata, entre os marinheiros dos mais poderosos navios.Smallman, Fear & Memory, 28; Scheina, Latin America's Wars, 74.
Revolta da Chibata A centelha inicial foi dada em 16 de novembro de 1910, quando o marinheiro afro-brasileiro Marcelino Rodrigues Menezes foi brutalmente açoitado 250 vezes por insubordinação. As costas do marinheiro foram posteriormente descritas por José Carlos de Carvalho, um capitão aposentado da Marinha designado para ser o representante do governo brasileiro junto aos amotinados, como "uma tainha cortada para salgar".Morgan, "The Revolt of the Lash," 41. Muitos marinheiros afro-brasileiros eram filhos de ex-escravos, ou ex-escravos libertados pela Lei Áurea (abolição), mas forçados a entrar na marinha. Eles planejavam uma revolta há algum tempo, e Menezes se tornou o catalisador. A revolta começou a bordo do Minas Geraes por volta das 10 da noite de 22 de novembro; o comandante do navio e vários tripulantes leais foram assassinados no processo. Logo depois, o São Paulo, o novo cruzador Bahia, o navio de defesa costeira Deodoro, o República, o navio-escola Benjamin Constant e os torpedeiros Tamoio e Tymbira se revoltaram com pouca violência. Os primeiros quatro navios representavam os navios mais novos e mais fortes da marinha; Minas Geraes, São Paulo e Bahia haviam sido concluídos e comissionados apenas alguns meses antes. Deodoro tinha doze anos e tinha passado por uma reforma. As tripulações dos navios de guerra menores representavam apenas dois por cento dos amotinados, e alguns se mudaram para os navios maiores após o início da revolta.Love, Revolt, 20, 28–31, 35–36; Morgan, "Revolt of the Lash," 32–38.