thumb|200px|O fileteado, arte popular de Buenos Aires. O fileteado ou filete porteño é um estilo artístico de pintura e desenho típico da cidade de Buenos Aires. Caracteriza-se por linhas que se transformam em espirais, cores fortes, o uso recorrente da simetria, efeitos tridimensionais mediante sombras e perspetivas, e um uso sobrecarregado da superfície. O seu repertório decorativo inclui principalmente estilizações de folhas, animais, cornucópias, flores, bandeirolas e pedras preciosas.

Nasceu na cidade argentina de Buenos Aires, no final do século XIX, como um simples ornamento para embelezar carroças de tração animal que transportavam alimentos, e com o tempo se transformou em uma arte pictórica própria dessa cidade.

Geralmente se incluem dentro da obra, frases engenhosas, provérbios poéticos ou aforismos engraçados, emocionais ou filosóficos, escritos às vezes em lunfardo, e com letras ornamentadas, geralmente góticas ou cursivas.

Muitos dos seus iniciadores faziam parte das famílias de imigrantes europeus, trazendo consigo alguns elementos artísticos que foram combinados com os do acervo crioulo, criando um estilo tipicamente argentino.

Em 1970 foi organizada a primeira exposição do filete, acontecimento a partir do qual o fileteado ganhou uma maior importância, sendo reconhecido como uma arte da cidade e promovendo a sua extensão a todo tipo de superfícies e objetos.

O "filete porteño" de Buenos Aires foi integrado pela UNESCO na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2015.

História 300px|thumb|right|Carroça fileteada em exposição. Os inícios do fileteado têm origem nas carroças cinzas, puxadas por cavalos, que transportavam alimentos como leite, frutas, verduras e pão, no fim do século XIX.

Uma anedota, relatada pelo fileteador Enrique Brunetti,El filete y los primeros fileteadores, documento de Enrique Brunetti (1988), citado em Los Maestros Fileteadores de Buenos Aires, pág 52, de E.Barugel e N.Rubió (ver a bibliografia). conta que na Avenida Paseo Colón, que naquele então era o limite entre a cidade e o seu porto, existia uma oficina de carroçarias na que trabalhavam, colaborando em tarefas menores, dois meninos humildes de origem italiana que se convertiriam em destacados fileteadores: Vicente Brunetti (quem seria o pai do mencionado Enrique) e Cecilio Pascarella, de dez e treze anos de idade respectivamente. Um dia o dono lhes pediu que dessem uma demão de pintura a uma carroça, que na época estavam todas pintadas de cinza. Talvez por travessura ou só para experimentar, o fato é que pintaram as chanfraduras da carroça de vermelho, e o dono gostou da ideia. Aliás, a partir desse dia outros clientes quiseram pintar as chanfraduras das suas carroças com cores, pelo que outras empresas de carroçaria imitaram a ideia. Deste jeito, segundo o manifestado por Enrique, teria-se iniciado a decoração das carroças; o seguinte passo foi colorir os enquadramentos dos mesmos empregando filetes de diferentes grossuras.

A seguinte inovação foi a inclusão de cartazes nos que figuravam o nome do proprietário, o seu endereço e a especialidade que transportava. Esta tarefa era, em princípio, realizada por letristas franceses que em Buenos Aires se dedicavam a pintar letreiros para os comércios. Como às vezes a demora para incluir essas letras era grande, o dono da oficina na Avenida Paseo Colón encarregou a Brunetti e Pascarella, que tinham visto como trabalhavam os franceses, que realizassem eles mesmos as letras, destacando-se Pascarella na tarefa de fazer os denominados firuletes que ornamentavam os cartazes e se convertiriam em característicos do fileteado.

O pintor que decorava as carroças era chamado de fileteador, pois realizava o trabalho com pincéis de pêlo longo ou pincéis para filetear. Esta é uma palavra derivada do latim filum, que significa fio ou borda de uma moldura; fazendo referência, na arte, a uma linha fina que serve de ornamento.

Ao se tratar de uma tarefa realizada após a finalização do conserto da carroça e imediatamente antes de cobrar o pagamento do cliente, ansioso por recuperar a sua ferramenta de trabalho, o fileteado devia ser realizado com rapidez.

Surgiram então especialistas habilidosos como Ernesto Magiori e Pepe Aguado, ou artistas como Miguel Venturo, filho de Salvador Venturo. Este último, tinha sido um Capitão da Marinha Mercante da Itália, que após se aposentar estabeleceu-se em Buenos Aires, onde se dedicou ao fileteado, incorporando a ele motivos e ideias da sua pátria. Miguel estudou pintura e melhorou a técnica do seu pai, sendo considerado por muitos fileteadores como o pintor que deu forma ao filete. A ele se devem a introdução de pássaros, flores, diamantes e dragões nos motivos e no design das letras nas portas dos caminhões: perante a obrigação de pagar impostos se os cartazes eram muito grandes, Miguel decidiu fazê-los de menor tamanho mas decorados com motivos simétricos, formando flores e dragões, para que fossem mais chamativos, design que se manteve por muito tempo. 250px|thumb|left|Modelo Ford 31 duplo A fileteado como antanho. A aparição do automóvel provocou o fechamento das oficinas de carroças instaladas fora das cidades, fato pelo qual as carroças e sulkies das fazendas e áreas rurais em geral, deveram ser levados às cidades para serem reparados dos danos ocasionais. Como consequência, também começaram a serem ornamentados com o fileteado e, desse jeito, o filete passou do âmbito urbano para o rural, sendo comum ver carroças campestres pintadas de verde e preto com filetes verdes amarelados. Pablo Crotti foi um experto no fileteado de carruagens.

O caminhão eliminou da cena à carruagem de transporte de alimentos e os primitivos fileteados que os mesmos continham perderam-se para sempre, pois ninguém se deu o trabalho de conservar alguma amostra para a posteridade. Por outra parte, o caminhão apresentava um verdadeiro desafio para o fileteador, pelo fato de ser muito maior e estar cheio sinuosidades de difícil acesso. Nas empresas de carroçarias trabalhavam carpinteiros, ferreiros, pintores de tela e fileteadores. Achavam-se fundamentalmente na localidade de Lanús e nos bairros portenhos de Barracas e Pompeya. O caminhão chegava com seu chassi e cabine de fábrica, e no local se fabricava a caixa, que podia ser de madeira dura de ipê ou de pinheiro, bem polida para aparentar uma melhor qualidade. Depois disso, o ferreiro forjava os ferros criando ornamentos.250px|right|thumb|Modelo Ford 31 duplo A fileteado como antanho. O trabalho do fileteador chegava no final; ele pintava sobre andaimes. Costumava decorar os painéis laterais de madeira (tabuões) com flores e dragões, enquanto a tábua principal era ornamentada com algum tema proposto pelo dono. O fileteador assinava no tabuão ou junto ao nome da carroçaria.

Quando os ônibus portenhos (chamados de colectivos) começaram a deixar de ter o tamanho de carros, passando a ser uma espécie de caminhão modificado para transportar pessoas, começaram a serem fileteados. A superfície para pintar carecia de divisões como as da caixa do caminhão, era metálica e o filete era mais elemental, sem figuras. Em troca, usavam-se muito a linha arabesca e os rodapés, em forma horizontal e dando a volta à carroçaria dos ônibus. O nome da empresa era escrito em letras góticas e o número da unidade costumava ser desenhado para que, de alguma maneira, estivesse relacionado com o número da quiniela, espécie de loteria muito popular na Argentina. O motorista do ônibus, não queria que o seu veículo se parecesse com um caminhão de quitanda, portanto as flores eram "proibidas". No interior do ônibus fileteava-se ocasionalmente a parte traseira da poltrona do motorista.

Técnica 200px|thumb|right|Cores fortes e uso sobrecarregado da superfície. O fileteador utilizava para desenhar sua obra um "espúlvero", um papel sobre o qual era desenhada a obra. Depois, esse papel perfurava-se com um alfinete seguindo o traço do desenho, colocava-se sobre a superfície a pintar e, por último, polvilhava-se com giz ou carvão em pó, ao estilo dos mestres renascentistas, com o intuito de que indicasse por onde devia ser feito o traço com o pincel. Após isto, utilizava-se o reverso do "espúlvero" para repetir os mesmos passos em outra seção da superfície a pintar, para obter a mesma imagem mas ao avesso. Deste jeito, conseguiam-se as imagens simétricas tão características do fileteado.

Para pintar os "filetes" retos se usa um pincel de pêlo longo (6 cm) e cabo curto (ou sem cabo) chamado de "bandita". Para as letras e ornatos se utilizam pincéis especiais para letras, com pêlos de 3,5 cm de longo. No começo utilizava-se óleo de linho, cola e cores naturais. Depois esmalte sintético. O uso do verniz transparente foi uma ideia de Cecilio Pascarella: ao misturá-lo com apenas umas gotas de preto e vermelhão, é aplicado sobre o desenho já pintado seguindo as pinceladas da pintura base, conseguindo assim um efeito de relevo. O efeito de volume também se obtém ressaltando as luzes e sombras com brilhos e esfumados.

Temas recorrentes Dado que os fileteados eram realizados em veículos de transporte pertencentes a particulares, deviam se adequar às exigências dos donos. Tanto estes quanto os fileteadores eram muitas vezes imigrantes, em sua maioria italianos e espanhóis, de condição humilde. Por esta razão os motivos dos ornamentos aludiam freqüentemente a desejos e sentimentos similares, relacionados com a saudade que eles sentiam da sua pátria de origem e também com o agradecimento e esperança de poder melhorar as suas condições de vida no novo país, com o duro trabalho de cada dia.

Por outro lado, ao nascerem sob as mesmas condições de humildade próprias dos albergues e hospedarias onde surgiu o tango, em zonas que na época eram subúrbios de Buenos Aires, os motivos do fileteado se relacionaram com essa música.

Os elementos que costumam se repetir são: Flores As mais comuns são as de quatro e cinco pétalas iluminadas desde cima. Raramente aparecem as flores-de-lis ou as rosas. São freqüentemente acompanhadas por estilizações de folhas de acanto.

Naus Símbolo de saudade, expressando o desejo de voltar ao país de origem. Atualmente já não se utilizam.

Sol De formato parecido com o do Brasão da Argentina. Às vezes é desenhado como sol nascente, dando uma ideia de prosperidade. 150px|right|thumb|O dragão, animal fictício muito recorrente. Cenário Duas cortinas entreabertas, como no teatro, deixando ver as iniciais do dono do veículo. Mãos apertadas Geralmente com alguma alusão à famosa frase do poema Martín Fierro, de José Hernández: "Los hermanos sean unidos/Porque esa es la ley primera/Tengan unión verdadera/En cualquier tiempo que sea/Porque si entre ellos pelean/Los devoran los de ajuera"

Personagens Fundamentalmente a do ídolo do tango, Carlos Gardel, ou também a da Virgem de Luján, senhora e padroeira da Argentina e protetora dos caminhos.

Fitas, bandeiras ou laçarotes Alguns destes elementos estão presentes em qualquer obra, com as cores da Argentina (azul celeste e branco) e às vezes acompanhada pela de algum outro país, ou clube de futebol. 150px|right|thumb|O cavalo, um dos animais mais solicitados. Animais Fictícios, como pássaros de espécies inexistentes ou dragões, alegoria do machismo portenho. Acredita-se que Miguel Venturo os incorporou inspirado nos exteriores do Teatro Cervantes de Buenos Aires. Reais: fundamentalmente o leão, símbolo de inteireza e força perante as adversidades. Também é utilizado o cavalo, geralmente o de corrida mas em alguns casos também o crioulo, moldurado em uma ferradura como símbolo de boa sorte.

Os objetos pintados costumam aparecer acompanhados por filigranas, arabescos, borlas, pergaminhos, cálices ou cornucópias.

Letras e frases