O khat (Catha edulis, família das Celastraceae, também conhecido como cat, qat, quat, gat ou miraa, em árabe: قات; em ge'ez ጫት, transl. tchāt; em somali: Jaad) é uma planta angiosperma, nativa das áreas tropicais da África Oriental e da península Arábica.
O khat contém o alcalóide chamado catinona, um estimulante similar à anfetamina, que causa excitação e euforia. Em 1980 a Organização Mundial da Saúde classificou o khat como uma droga, que pode produzir dependência psicológica, que varia de leve a moderada. A planta vem sendo, recentemente, alvo de organizações antinarcóticos como a Drug Enforcement Administration (DEA) norte-americana. É uma substância controlada ou ilegal na maioria dos países.
Descrição Provavelmente originário da região da atual Etiópia, o khat é um arbusto que cresce, lentamente, até atingir entre 1,5 e 2,0 metros de altura, dependendo da região e da pluviosidade, com folhas persistentes de 5 a 10 centímetros de comprimento e 4 de largura. As flores são produzidas em cimeiras que variam de 4 a 8 centímetros de comprimento, todas com cinco pétalas. O fruto tem o formato de uma cápsula oblonga com três válvulas, que contém de uma a três sementes.
História As origens do khat são controversas. Alguns acreditam que a sua origem esteja na Etiópia, de onde ela teria se espalhado até as terras altas da África Oriental e do Iêmen. Outros acreditam que o contrário teria ocorrido, que o khat teria se originado no Iêmen antes de se espalhar para a Etiópia e os países vizinhos. Segundo Sir Richard Burton, o khat teria sido introduzido no Iêmen por etíopes no século XV.Burton, Richard; First Footsteps in East Africa, 1856 Existem evidências que sugerem que isto possa ter acontecido já no século XIII. Através de análises botânicas, Revri (1983) apóia a tese da origem iemenita da planta. Da Etiópia e Iêmen as árvores se espalharam para a Somália, Arábia, Quênia, Uganda, Tanzânia, Zâmbia e África do Sul."Khat Information" Especulou-se também que os primeiros registros do uso medicinal do khat poderiam estar no Novo Testamento."Adverse effects of Khat: A review"
A primeira descrição documentada do khat data do século XI, num tratado sobre farmácia e materia medica escrito por Albiruni, um cientista e biólogo persa. Sem conhecer sua origem, Albiruni descreveu o khat como:Kiple, Kenneth F. & Ornelas, Kriemhild Coneè (2001), The Cambridge World History of Food, Cambridge University Press, pgs. 672-3, ISBN 0521402166Khat Timeline
Em 1854, o escritor malásio Abdullah bin Abdul Kadir descreveu o hábito de se mascar o khat em Hodeida, no Iêmen:
Cultivo e usos thumb|300px|Maços de khat, capturados pela Drug Enforcement Administration norte-americana em julho de 2006. A planta chamada de khat recebeu inúmeros nomes, como qat e ghat no Iêmen, qaat e jaad na Somália, chat na Etiópia e miraa no Quênia e na Tanzânia. O khat vem sendo cultivado para o uso como estimulante por séculos no Chifre da África e na península Arábica. Lá, o hábito de mascar o khat é mais antigo que o hábito do café, e é utilizado num contexto social similar. Suas folhas frescas são mascadas ou, mais raramente, secas e consumidas na forma de um chá, para atingir um estado de euforia e estímulo; o khat também tem efeitos colaterais anorexígenos. Seu uso não foi inibido pela religião, embora a Igreja Ortodoxa Etíope (juntamente com sua equivalente da Eritreia) tenha proibido os cristãos de usá-lo por seus efeitos estimulantes. Devido à disponibilidade de transporte aéreo rápido e barato, a droga já foi apreendida na Inglaterra, no País de Gales, em Roma, Amsterdã, no Canadá, na Austrália e Nova ZelândiaNew Zealand Herald: Concerns over African methamphetamine-like drug in Hamilton, 13 de dezembro de 2006 e nos Estados Unidos. O público passou a conhecer esta droga através de relatos da mídia sobre as missões das Nações Unidas na Somália, onde o uso do khat é difundido.
Esse uso era tradicionalmente confinado às regiões onde a planta cresce, pois apenas as folhas frescas fornecem os efeitos estimulantes desejados. Nos últimos anos, a melhoria das estradas, a importação de veículos off-road e os transportes aéreos aumentaram a distribuição global dessa mercadoria perecível. É utilizado como uma droga socializante, como no caso no Iêmen, onde mascar o khat é um hábito predominantemente, embora não exclusivamente, masculino.BBC News: Yemen's khat habit soaks up water by Alex Kirby. Escrito em 2007-7-4. Visitado em 2007-8-4. Noutros países, é consumido por indivíduos sozinhos ou em festas. Além do seu uso como droga recreativa, também é usado por fazendeiros e trabalhadores braçais, para reduzir o cansaço físico, e por motoristas e estudantes, para melhorar a atenção. Em certos segmentos de contracultura da elite queniana, o khat (chamado de veve) é utilizado para contrabalançar os efeitos de uma ressaca, de maneira similar ao uso feito pela folha de coca na América do Sul. No Iêmen, algumas mulheres têm seus próprios salões para a ocasião e mascam o khat com seus maridos, nos finais de semana. Em muitos lugares onde é cultivado, o khat se tornou tão aceito pela sociedade a ponto de muitas crianças começarem a mascá-lo antes mesmo de atingir a puberdade.
O khat é tão popular no Iêmen que o seu cultivo consome boa parte dos recursos agriculturais do país. Estima-se que 40% do volume de água utilizado no país seja destinado a irrigar as plantações de khat, e a produção vem aumentando de 10 a 15% a cada ano. O consumo de água é tão elevado que os níveis de água subterrânea da bacia de Sanaa estão diminuindo. Por este motivo, as autoridades governamentais propuseram que parte da população de Sanaa fosse deslocada para a costa do mar Vermelhoa Um dos motivos por que o cultivo de khat é tão difundido no Iêmen é que ele é uma excelente fonte de renda para os agricultores. Alguns estudos realizados em 2001 estimam que a renda do cultivo de khat era de 2,5 milhões de riais iemenitas por hectare, enquanto o cultivo de café ou frutas, no mesmo local, renderia, ao mesmo agricultor, 570 mil riais por hectare.Encyclopedia of Yemen (2nd ed), Alafif Cultural Foundation, págs. 2309–2314, 2003. Por este motivo, entre 1970 e 2000, a área em que se cultivou o khat aumentou de 8.000 para 103.000 hectares. No entanto, estas cifras são apenas estimativas, e o número real pode ser mais alto.
Na Somália, o Conselho Supremo das Cortes Islâmicas, que assumiu o poder da maior parte do país em 2006, baniu o uso do khat durante o Ramadã, provocando protestos em Kismayo. Em novembro do mesmo ano, o Quênia baniu todos os voos para a Somália, sob a alegação de preocupações com a segurança, o que causou protestos dos cultivadores de khat quenianos. Segundo um político da localidade de Ntonyiri, no Distrito de Meru do Norte, a região já havia se especializado no cultivo de khat, de tal maneira que 20 toneladas, valendo cerca de 800.000 dólares, eram enviados para a Somália diariamente, e uma proibição dos voos seria devastadora para a economia local."Kenya bans all flights to Somalia", BBC News, 13 de novembro 2006 Com a vitória do governo provisório, apoiado pelas forças etíopes, no fim de dezembro de 2006, o khat retornou às ruas de Mogadíscio, embora os comerciantes quenianos afirmem que a demanda ainda não é a mesma de antes da proibição."Somali Islamists are gone - so "khat" is back!", Reuters, 2 de janeiro de 2007
Química e farmacologia thumb|direita|Estrutura da catinona O efeito estimulante da planta foi atribuído originalmente à catina, um tipo de fenetilamina que foi isolado da planta. Esta atribuição foi, no entanto, refutada por estudos que mostravam que os extratos retirados das folhas frescas continham outra substância, muito mais ativa do que a catina. Em 1975, um alcaloide aparentado, a catinona, foi isolado, e a sua configuração absoluta foi estabelecida em 1978. A catinona não é muito estável e se decompõe, produzindo catina e norefedrina, substância da família das fenilpropanolaminas, que, por sua vez, são integrantes do grupo das feniletilaminas, aparentadas às anfetaminas e às catecolaminas (epinefrina e norepinefrina). Os dois principais ingredientes ativos do khat, a catina e a catinona, têm estruturas moleculares muito similares à estrutura da anfetamina.
Quando a folha do khat seca, a substância mais potente, a catinona, evapora em menos de 48 horas, deixando para trás a substância mais leve, a catina. Assim, os agricultores e comerciantes transportam as folhas e ramos de khat em sacos plásticos ou os enrolam em folhas de bananeira para preservar a umidade e manter a potente catinona. Também é comum que se molhe a planta regularmente durante o transporte, ou então que se faça uso de transporte sob refrigeração.
Quando as folhas de khat são mascadas, a catina e a catinona são liberadas e absorvidas pelas membranas mucosas da boca e pelas paredes do estômago. A ação de ambas da catina e da catinona na recaptação da epinefrina e da norepinefrina foi demonstrada em experimentos com animais de laboratório, mostrando que a presença de uma ou das duas substâncias faz com que o corpo recicle esses neurotransmissores mais lentamente, o que resulta no estado de alerta e insônia associado ao uso do khat.
Os receptores de serotonina mostram uma grande afinidade pela catinona, sugerindo que essa substância seja responsável pela sensação de euforia experimentada por quem masca o khat. Em testes com ratos, verificou-se que a catinona produz os mesmos comportamentos associados à anfetamina: os animais andam nervosamente de um lado para o outro e se coçam repetitivamente. Os efeitos da catinona têm seu ápice depois de 15 ou 30 minutos, quando quase 98% da substância é metabolizada pelo fígado na forma de norefedrina.
Já a ação da catina é bem menos conhecida. Acredita-se que aja sobre os receptores alfa, causando a liberação de epinefrina e norepinefrina. Nos humanos, a catina tem uma meia-vida de cerca de 3 horas, .
Efeitos O consumo de khat induz a uma leve sensação de euforia e excitação. As pessoas que o consomem costumam falar bastante, quando estão sob a influência da droga, e podem parecer fora da realidade ou emocionalmente instáveis. O khat pode induzir comportamentos maníacos, bem como hiperatividade. É um anorexígeno, e o seu uso provoca prisão de ventre. Os usuários apresentam as pupilas dilatadas (midríase), o que reflete os efeitos simpatomiméticos da droga, que também podem ser percebidos no aumento da frequência dos batimentos cardíacos e no aumento da pressão sanguínea. Um estado de alucinações sonolentas (alucinações hipnagógicas) também pode resultar do uso de khat. Os sintomas de abstinência que se seguem ao uso da droga incluem letargia, alguma depressão, pesadelos e leves tremores. A longo prazo, o uso contínuo pode precipitar os seguintes efeitos: impacto negativo nas funções do fígado, escurecimento permanente dos dentes (com uma coloração esverdeada), suscetibilidade a úlceras, e diminuição da libido. O khat não é uma droga cujo uso cause a dependência química do usuário, embora aqueles poucos que se tornam dependentes geralmente não suportem ficar sem a substância por mais que três ou quatro dias, sentindo-se cansados e com dificuldades para se concentrar.
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