Dario I (persa antigo: 𐎭𐎠𐎼𐎹𐎢𐏁, Dārayavaʰuš; c. 550 a.C. – outubro de 486 a.C.), também chamado de Dario, o Grande, foi o Rei dos Reis do Império Aquemênida e Faraó do Egito de setembro de até sua morte. Era o filho mais velho do sátrapa Histaspes e ascendeu ao trono aquemênida depois de derrubar o monarca Esmérdis, quem ele afirmou ser na verdade um impostor chamado Gaumata. Dario enfrentou revoltas por todo o império no início de seu reinado e posteriormente realizou várias campanhas militares contra inimigos externos. Ao final de seu reinado lançou uma expedição contras as cidades-Estado gregas de Atenas e Erétria por seu envolvimento na Revolta Jônica, porém foi derrotado na Batalha de Maratona. Ele morreu alguns anos depois.
Dario reorganizou o império ao dividi-lo em províncias administrativas, cada uma governada por um sátrapa. Ele organizou a moeda aquemênida como um novo sistema monetário uniforme e fez do aramaico o idioma cooficial do império junto com o persa antigo. Dario também melhorou as estradas e introduziu um novo padrão de pesos e medidas. Por meio destas reformas o Império Aquemênida tornou-se centralizado e unificado. O rei também realizou outros projetos de construção por todo o império, mas focou-se principalmente em Susã, Pasárgada, Persépolis, Babilônia e Egito. Dario fez com que uma enorme inscrição fosse esculpida no Monte Beistum para registrar suas conquistas, algo que séculos depois se tornaria uma importante evidência da antiga língua persa.
Etimologia thumb|esquerda|Nome de Dario escrito em cuneiforme persa antigo em uma inscrição de sua tumba: Dārayavauš () Dario () e Dareu () são as formas em latim do grego antigo Dareu (, Dareîos), por sua vez derivada do persa antigo Daraiauxe (, Dārayauš), que é a forma abreviada de Daraiavauxe (, Dārayavaʰuš). A forma persa mais longa é refletida nas formas elamita Dareamauixe (, Da-ri-(y)a-ma-u-iš), acádio Dareiamuxe (, Da-(a-)ri-ia-(a-)muš) e aramaico Derivevexe (, drywhwš), bem como possivelmente na forma grega longa Dereio (, Dareiaîos). O nome em sua forma nominativa significa "aquele que mantém firme o bem" ou "aquele que mantém firme a bondade", que pode ser verificado pela primeira parte , que significa "quem mantém", e o advérbio , que significa "bondade".
Fontes primárias thumb|200px|Uma das placas de ouro sobre a fundação de Apadana com inscrições em três idiomas Dario deixou a Inscrição de Beistum, um relevo monumental no Monte Beistum, em algum momento durante seu reinado. Ele foi escrito em elamita, persa antigo e acádio, começando com uma breve autobiografia que inclui seus ancestrais e sua linhagem. O rei, para ajudar na apresentação de seus ancestrais, escreveu uma sequência de eventos após a morte de Ciro II. Dario menciona várias vezes que é o rei legítimo pela graça da divindade suprema Aúra-Masda. Além disso, outros textos e monumentos foram encontrados em Persépolis, bem como um tablete de argila contendo um cuneiforme persa antigo de Dario achado em Gherla na Romênia e uma carta do rei preservada em grego do período romano. Ele descreveu a extensão de seu império em grandes termos geográficos nas placas de fundação de Apadana:
O historiador grego antigo Heródoto proporcionou um relato de muitos reis persas e também das Guerras Médicas. Ele escreveu bastante sobre Dario, começando pela deposição do suposto usurpador Gaumata e continuando até o final do reinado do rei.
Primeiros anos Dario era o mais velho dos cinco filhos de Histaspes. A identidade de sua mãe é incerta. Segundo o historiador Alireza Shapour Shahbazi, acreditava-se que a mãe de Dario era uma mulher chamada Rodogune. Já o historiador Lloyd Llewellyn-Jones encontrou textos em Persépolis que indicam que sua mãe era Irdabama, uma rica dona de terras que descendia de uma família de governantes elamitas locais. O historiador Richard Stoneman também diz que Irdabama era a mãe de Dario. A Inscrição de Beistum diz que Histaspes era o sátrapa da Báctria em . Heródoto por sua vez diz que Histaspes era o sátrapa de Pérsis, mas o historiador Pierre Briant diz que isto é um erro. Heródoto também diz que Dario, antes de ascender ao trono, foi lanceiro no exército do rei Cambises II durante a conquista aquemênida do Egito; isto foi interpretado como significando que Dario era o portador da lança do próprio Cambises, uma função importante. Histaspes também foi um oficial do exército Ciro II e um nobre de sua corte.
Segundo lenda, antes de Ciro e seu exército cruzarem o rio Aras para enfrentar os armênios, o rei elevou Cambises a comonarca caso não retornasse. Entretanto, pouco depois, Ciro sonhou com Dario com asas e de pé nos confins da Europa e Ásia, que era o mundo conhecido na época. O rei concluiu ao acordar que havia um grande perigo para o futuro do Império Aquemênida, pois significava que Dario governaria o mundo um dia. Entretanto, Cambises era o herdeiro do trono e assim Ciro suspeitou que Dario talvez estivesse armando alguma traição ou outra trama. Isto fez com que Ciro ordenasse que Histaspes voltasse para Pérsis e ficasse de olho em seu filho até o retorno do rei.
Ascensão thumb|esquerda|260px|"Gaumata" sendo pisoteado por Dario na Inscrição de Beistum. O texto diz: "Este é Gaumata, o Mago. Ele mentiu, dizendo 'Sou Esmérdis, o filho de Ciro, eu sou rei'". Há diferentes relatos sobre a ascensão de Dario ao trono, transmitidos tanto pelo próprio Dario quanto por historiadores gregos. Os registros mais antigos contam uma complexa sequência de eventos em que Cambises perdeu a sanidade, fez com que seu irmão Esmérdis fosse morto e morreu de uma infecção em uma ferimento na perna. Dario e um grupo de seis nobres em seguida viajaram para Sikayauvati com o objetivo de matarem o mago Gaumata, que tinha tomado o trono fingindo ser Esmérdis.
O relato de Dario foi colocado na Inscrição de Beistum e afirmava que Cambises matou seu irmão Esmérdis, mas este assassinado não era de conhecimento público. Um aspirante a usurpador chamado Gaumata veio e mentiu para o povo persa, dizendo ser Esmérdis. O sentimento de revolta contra o governo de Cambises tinha crescido entre o povo e assim uma revolta contra o rei estourou em 11 de março de em sua ausência. O povo escolheu em 1º de julho ficar sob um reinado de Gaumata, fingindo ser Esmérdis. Nenhum membro da dinastia aquemênida ousou enfrentar Gaumata por temer por sua vida. Dario, que tinha servido como lanceiro de Cambises até a morte do rei, rezou por ajuda e foi para a fortaleza de Sikayauvati, onde matou Gaumata em setembro de com o auxílio de seus cúmplices Otanes, Intafrenes, Gobrias, Hidarnes, Megabizo e Aspatines.
O relato de Heródoto é bastante duvidoso, dizendo que Dario e os outros seis nobres se reuniram para conversar sobre o destino do império vários dias após o assassinato de Gaumata. Todos inicialmente discutiram a forma de governo: Otanes era a favor de uma república democrática, Megabizo defendeu uma oligarquia, já Dario preferia uma monarquia. Este em certo momento afirmou que uma república seria consumida por corrupção e disputas internas, já uma monarquia seria liderada com uma obstinação impossível de ser encontrada em outras formas de governo, desta forma conseguindo convencer os outros seis de seu ponto de vista.
thumb|260px|Desenho do selo cilíndrico de Dario, mostrando-o caçando em uma biga e com a inscrição "Sou Dario, o Grande Rei"; a palavra "grande" aparece apenas em acádio Eles então concordaram com um teste para determinar quem seria o monarca, mas Otanes se absteve porque não queria ser rei. Eles se reuniram do lado de fora do palácio e montaram seus cavalos ao amanhecer e o homem cujo cavalo relinchasse primeiro em reconhecimento ao Sol seria o rei. Segundo Heródoto, Dario tinha um escravo chamado Oebares que passou a mão nos genitais da égua que o cavalo de Dario mais gostava. Quando todos os pretendentes se reuniram, Oebares colocou a mão ao lado da narina do cavalo, que se excitou com o cheiro e relinchou. Isto foi seguido por trovões e raios, fazendo os outros desmontarem e ajoelharem diante de Dario em reconhecimento a sua aparente Divina Providência. Neste relato, o próprio Dario afirma ter conquistado o trono por astúcia em vez de trapaça, erguendo uma estátua de si mesmo em cima de um cavalo relinchando com a inscrição: "Dario, filho de Hispastes, obteve a soberania da Pérsia pela sagacidade de seu cavalo e o engenhoso artifício de Oebares, seu lacaio".
Segundo outros historiadores gregos, Cambises deixou o mago Patizeites como regente e partiu para o Egito. Ele então enviou seu conselheiro Prexaspes para assassinar Esmérdis. Em seguida Prexaspes colocou seu irmão Gaumata, um mago que era parecido com Esmérdis, no trono. Otanes descobriu que Gaumata era um impostor e, junto de Dario e outros seis nobres, criou um plano para derrubar o usurpador. Eles mataram Gaumata, Patizeites e outros magos, com Dario sendo coroado rei no dia seguinte.
Historiadores modernos de forma geral consideram como falsos os detalhes sobre a ascensão de Dario, que criou uma história para esconder a realidade de que ele derrubou e matou Esmérdis, o legítimo sucessor de Cambises. Dario, a fim de legitimar seu reinado, fabricou uma ascendência em comum entre si e Ciro ao designar Aquêmenes como o fundador da Dinastia Aquemênida. Dario na realidade não era oriundo da mesma casa real que Ciro e seus antepassados, os governantes de Ansã.
Início de reinado miniaturadaimagem|Darius I no inicío de reinado
Primeiras revoltas Dario foi coroado na cidade de Pasárgada e então foi para Ecbátana. Ele logo descobriu que o apoio para Esmérdis ainda era alto pelo império, com revoltas estourando em Elão e Babilônia. Dario derrotou a revolta elamita quando Aschina, seu líder, foi capturado e executado em Susã. A revolta babilônica também terminou após três meses. O rei descobriu enquanto estava na Babilônia que outra revolta tinha começado na Báctria, uma satrapia que sempre o tinha apoiado e inicialmente até enviou um exército para acabar com a rebelião. Depois disso, mais revoltas começaram em Pérsis, novas em Elão e Babilônia, e depois também na Média, Pártia, Assíria e Egito.
Havia revoltas contra Dario em quase todo o império em meados de , deixando o país em um tumulto. O rei aparentemente não tinha o apoio da população geral, mas tinha um exército leal liderado por seus conselheiros mais próximos, incluindo os seis nobres que tinham ajudado na deposição de Esmérdis. Dario foi capaz de subjugar as revoltas em um ano. Nas suas próprias palavras, ele matou nove "reis mentirosos" nessas rebeliões. Dario deixou um relato detalhado dessas revoltas na Inscrição de Beistum.
Eliminação de Intafernes Um dos acontecimentos significativos do início do reinado de Dario foi o assassinato de Intafernes. Os sete fizeram um acordo em que todos poderiam visitar o novo rei sempre que quisessem, excepto quando este estivesse com uma mulher. Uma noite, Intafernes foi ao palácio para se encontrar com Dario, mas foi travado por dois oficiais que afirmaram que Dario estava com uma mulher. Furioso e sentindo-se insultado, Intafernes desembainhou a espada e cortou as orelhas e o nariz dos dois oficiais. Ao sair do palácio, pegou no freio do seu cavalo e amarrou os dois oficiais.
Os oficiais foram ter com o rei e mostraram-lhe o que Intafernes lhes tinha feito. Dario começou a temer pela sua própria segurança; pensou que todos os sete nobres se tinham unido para se revoltarem contra ele e que o ataque contra os seus oficiais era o primeiro sinal de revolta. Enviou um mensageiro a cada um dos nobres, perguntando-lhes se aprovavam as ações de Intafernes. Negaram e repudiaram qualquer ligação com as ações de Intafernes, afirmando que mantinham a sua decisão de nomear Dario como Rei dos Reis. A opção de Dario de perguntar aos nobres indica que ainda não estava completamente certo da sua autoridade.