250px|thumb|Uma bandeira cerimonial bordada com lantejoulas, do artista haitiano Georges Valris, que retrata o símbolo vèvè do loá Loko Atison; esses símbolos desempenham um papel importante nos rituais do vodu. O vodu haitiano é uma religião da diáspora africana que se desenvolveu no Haiti entre os séculos XVI e XIX. É resultado de um processo de sincretismo entre diversas religiões tradicionais da África Ocidental e Central e o catolicismo. Não há uma autoridade central que controle a religião e existe grande diversidade entre os praticantes, conhecidos em crioulo haitiano como vodwizan ("voduístas").

O vodu ensina a existência de uma divindade criadora transcendente, Bondye, debaixo de quem estão espíritos conhecidos como loás. Esses loás geralmente derivam seus nomes de divindades tradicionais da África Ocidental e Central, são associados a santos católicos e dividem-se em grupos chamados nanchon ("nações"), sendo os mais notáveis ​​os Radá e os Petro. Essa teologia tem sido descrita tanto como monoteísta quanto como politeísta. Os praticantes do vodu frequentemente são iniciados em um unfò (templo), dirigido por um hungã (sacerdote) ou uma manbô (sacerdotisa), onde são realizadas cerimônias em grupo. Alternativamente, o vodu também é praticado em grupos familiares ou em sociedades secretas, como a Bizango. Os adeptos buscam o auxílio dos loás e dos espíritos dos mortos oferecendo-lhes frutas, bebidas alcoólicas e animais sacrificados. A comunicação com os loás é buscada por meio da adivinhação e de um ritual principal no qual os praticantes tocam tambores, cantam e dançam para incentivar um loás a "montar", ou possuir temporariamente os dançarinos. Rituais de cura e a preparação de remédios à base de ervas e de talismãs também desempenham um papel importante.

O vodu haitiano compartilha elementos com outras religiões e manifestações religiosas, como a santería e o palo em Cuba, o vodu da Louisiana (Estados Unidos) e no Brasil, ao candomblé jeje (Bahia), ao tambor de mina, ao terecô e ao babaçuê (Maranhão e Pará).

História

200px|thumb|Assentamentos de vodu em Porto Príncipe, no Haiti O vodu haitiano desenvolveu-se entre comunidades africanas escravizadas que foram levadas à força para a ilha de Hispaniola entre os séculos XVI e XIX. Sua estrutura é resultado da fusão das religiões tradicionais dos africanos escravizados da África Ocidental e Central trazidos para a ilha de Hispaniola — entre eles os povos congo, fon e iorubá. Na ilha, a religião absorveu influências da cultura dos colonizadores franceses que controlavam a colônia, que então era chamada de São Domingos, destacando-se o catolicismo romano e a maçonaria.

Muitos adeptos do vodu participaram da Revolução Haitiana (1791–1801), que derrubou o governo colonial francês, aboliu a escravidão e transformou São Domingos na República do Haiti. A ausência da Igreja Católica na ilha durante várias décadas após a revolução permitiu que o vodu se tornasse a religião predominante no Haiti. No século XX, a crescente emigração difundiu o vodu pelo exterior. O final do século XX testemunhou o fortalecimento de vínculos entre o vodu e tradições correlatas na África Ocidental e nas Américas, como a santería cubana e o candomblé brasileiro, ao passo que alguns praticantes, influenciados pelo movimento da negritude, buscaram eliminar as influências católicas.

Uma cerimônia vodu de grande relevância histórica foi a cerimônia de Bois Caïman (Bwa Kayiman em crioulo haitiano) que teria ocorrido na noite de 14 de agosto de 1791. Essa é considerada a primeira grande reunião de africanos escravizados na ilha, durante a qual foi planejada a primeira grande insurreição de escravizados - que resultaria na Revolução Haitiana. Conta-se que nessa cerimônia, um porco preto foi ofertado a Ezili Dantor e todas as pessoas presentes comprometeram-se com a luta pela liberdade. Estudiosos como Léon-François Hoffmann questionam a historicidade desse relato.

O vodu haitiano cresceu fora do Haiti de forma significativa, sobretudo nos Estados Unidos, a partir do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970 com as levas de imigrantes haitianos fugindo dos regimes opressivos de François Duvalier e Jean-Claude Duvalier. Os imigrantes haitianos estabeleceram-se principalmente em Miami, Nova Iorque e Chicago.

Definições e terminologia O vodu é uma religião, por vezes chamada de "religião nacional" do Haiti. Sua estrutura principal deriva de religiões tradicionais da África Ocidental e Central, trazidas ao Haiti por africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX, especialmente pelos povos congo, fon e iorubá. Na ilha, essas religiões africanas misturaram-se a tradições de origem europeia, como o catolicismo e a maçonaria, assumindo a forma do vodu por volta de meados do século XVIII. Nesse sentido, o vodu é sincrético, uma simbiose ou um produto da crioulização.

O vodu haitiano representa "uma nova religião" que diferia em muitos aspectos das religiões tradicionais africanas que a influenciam. Por isso, o estudioso Leslie Desmangles classificou o vodu como uma "tradição de origem africana", Ina J. Fandrich denominou-o "religião neoafricana" e Markel Thylefors chamou-o de "religião afro-latino-americana". Várias outras religiões da diáspora africana nas Américas formaram-se de maneira semelhante e, devido às suas origens comuns nas religiões tradicionais da África Ocidental, o vodu haitiano tem sido caracterizado como uma "religião irmã" da santería cubana e do candomblé brasileiro.

O Vodu não possui autoridade institucional central, líder único ou doutrina sistematizada. Consequentemente, não apresenta ortodoxia, liturgia central ou credo formal. O vodu haitiano passou por diversas mudanças com o passar do tempo, e apresenta variações tanto em nível regional quanto local, incluindo diferenças entre o Haiti e a diáspora haitiana, bem como entre diferentes congregações de uma certa região. É praticado no âmbito doméstico, por famílias em suas próprias terras, mas também por congregações que se reúnem comunitariamente, sendo esta última modalidade denominada "vodu de templo".

Muitos haitianos praticam tanto o vodu quanto o catolicismo romano, sendo que os adeptos do vodu geralmente se consideram católicos romanos. No Haiti, alguns adeptos do vodu também praticaram o protestantismo, o mormonismo e a maçonaria; em Cuba, envolvem-se com a santería e, nos Estados Unidos, com o paganismo moderno. Em Cuba, alguns adeptos adotaram elementos do espiritismo. Influenciados pelo movimento da Negritude, outros adeptos do vodu buscaram eliminar influências católicas romanas e outras influências europeias de sua prática religiosa.

Terminologia Em crioulo haitiano, os praticantes do vodu são chamados de vodouyizan ("voduístas"). Outro termo para os adeptos é sèvitè ("servos"), refletindo a forma como se descrevem: pessoas que sèvi lwa yo ("servem os loás"), os seres sobrenaturais centrais no vodu.

A palavra vodou deriva da língua fon, da África Ocidental, assim como muitas outras palavras usadas no contexto da religião. Essa palavra foi registrada pela primeira vez no catecismo católico Doctrina Christiana de 1658, e era usada no reino daomeano da África Ocidental para designar um espírito ou divindade. Inicialmente, em crioulo haitiano, o termo vodou designava um estilo específico de dança e percussão, e mais tarde, passou a ser usado por pessoas de fora da religião para se referir, de modo genérico, a grande parte das religiões afro-haitianas. Atualmente, a palavra vodou abrange "uma variedade de tradições e práticas religiosas haitianas de origem africana", incorporando "um conjunto de práticas que os próprios praticantes não agrupam sob uma mesma categoria".

Vodou é a grafia comum utilizada por estudiosos, pela ortografia oficial do crioulo haitiano e pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos para se referir à religião. A grafia voodoo é hoje evitada por praticantes e estudiosos ao se referirem à religião haitiana. Isso ocorre tanto para evitar confusão com o voodoo da Louisiana — uma tradição relacionada, porém distinta do vodu haitiano— quanto para diferenciá-la das conotações negativas que o termo voodoo carrega na cultura popular ocidental.

Muitos praticantes descrevem seu sistema de crenças como ginen ("guiné"), termo que denota uma filosofia moral e um código de conduta sobre como viver e servir aos espíritos.

Bondye e os loás O vodu é monoteísta, ensinando a existência de um único Deus supremo. Essa entidade é chamada de Bondye, nome derivado do termo francês Bon Dieu ("Bom Deus"). Esse Deus também é chamado por voduístas de Gran Mèt ("grão-mestre"), termo derivado da maçonaria. Para os adeptos do vodu, Bondye é a fonte suprema de poder, o criador do universo e o mantenedor da ordem cósmica. Os haitianos, voduístas ou não, frequentemente usam a expressão si Bondye vle ("se Bondye quiser"), sugerindo a crença de que todas as coisas ocorrem de acordo com a vontade dessa divindade. Para os voduístas, Bondye é um ser transcendente e distante, que não se envolve nos assuntos humanos; por conta disso, eles veem pouco sentido em dirigir-se diretamente a Ele. Embora os adeptos do vodu frequentemente equiparem Bondye ao Deus cristão, o vodu não incorpora a crença em um antagonista poderoso que se oponha ao ser supremo, tal como a noção cristã de Satanás.

O vodu também tem sido caracterizado como politeísta. Ele ensina a existência de seres sobrenaturais chamados loás, comparáveis aos orixás do candomblé e das religiões iorubá. Esses loás também são chamados por voduístas como "mistérios", "anjos", "santos" e "invisíveis", sendo muitas vezes equiparados aos anjos e santos da cosmologia cristã. Voduístas reconhecem a existência de mais de mil loás, embora apenas uma pequena parcela deles seja mais popular, estando presentes na maioria dos santuários. Atuando como intermediários de Bondye, eles se comunicam com os humanos por meio de sonhos ou pela possessão direta. Os voduístas acreditam que os loás são capazes de oferecer ajuda, proteção e conselhos em troca de serviços rituais. Cada loá tem sua própria personalidade e está associado a cores, dias da semana e objetos. Esses espíritos não são considerados exemplos morais a serem imitados pelos praticantes. Os loás podem ofender-se, por exemplo, se lhes forem oferecidos alimentos que não gostam. Acredita-se que, quando irritados, os loás retiram sua proteção dos devotos ou os infligem com infortúnio, doença ou loucura.

Embora existam exceções, a maioria dos loás deriva seus nomes das línguas fon e iorubá e eram originalmente venerados na África Ocidental ou Central. No entanto, novos loás são incorporados ao panteão; tanto talismãs quanto seres humanos são considerados capazes de se tornar loás. Os praticantes de vodou frequentemente referem-se aos loás como habitantes do mar ou dos rios, ou como moradores de Ginen ("Guiné"), um termo que engloba uma noção generalizada da África como a terra ancestral do povo haitiano.

As nanchon Os loás são categorizados em nanchon, ou "nações". Esse sistema de classificação deriva da maneira como os africanos escravizados eram divididos em "nações" ao chegarem ao Haiti, geralmente com base no porto africano de partida, e não na sua identidade etnocultural. O termo fanmi ("família") é às vezes utilizado como sinônimo de nanchon ou, alternativamente, como uma subdivisão desta última categoria. Afirma-se frequentemente que existem 17 nanchon, sendo a Radá e a Petro as maiores e mais dominantes.