thumb|direita|300px|Cripta da Catedral da Sé de São Paulo, local onde se encontram os restos mortais do cacique Tibiriçá, antepassado de muitos quatrocentões. Quatrocentão (feminino: quatrocentona) é um termo cunhado em meados do século XX relativo à comemoração dos quatrocentos anos de fundação da cidade de São Paulo, Brasil, em 25 de janeiro de 1954, o Quarto Centenário. Designou a elite paulista tradicional, ou seja, a aristocracia e oligarquia paulista. A maioria das famílias quatrocentonas têm origem portuguesa, entre algumas famílias de origem espanhola, francesa, flamenga e inglesa também. O termo quatrocentão designa os chamados paulistas de quatrocentos anos. No passado, os quatrocentões eram referidos como "primeiros povoadores" e "nobreza da terra".Nizza da Silva, Maria Beatriz (2005). Ser nobre na colônia (I ed.). S. Paulo - SP: Editora UNESP. p. 132.
A origem thumb|esquerda|Estátua de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. O termo "família quatrocentona" foi cunhado em 1932 pelo jurista e escritor José de Alcântara Machado de Oliveira, referindo-se, segundo Lima & Motomura, "às famílias que chegaram na época da fundação da vila e resistiram fortes e significativas pela história de São Paulo".Lima, Isabelle Moreira & Motomura, Marina. "Quatrocentão agoniza". Folha de S.Paulo, 02/12/2003 Designa as antigas e tradicionais famílias de São Paulo, descendentes dos primeiros colonizadores e bandeirantes, distinguindo-as dos chamados novos-ricos, descendentes de imigrantes de diversas nacionalidades, relativamente recém-chegados (pois chegaram em fins do Império do Brasil (1822-1889), que ensaiavam formar uma nova categoria social. Muitos quatrocentões são descendentes do português João Ramalho (1493-1580), que casou-se com a índia Bartira, filha do poderoso cacique Martim Afonso Tibiriçá, o primeiro índio a ser catequizado pelo padre José de Anchieta, sendo Tibiriçá o cacique dos guaianases, que dominavam a região de São Paulo juntamente com os tupis e os carijós, sendo estes últimos chefiados por um irmão do cacique Tibiriçá, o cacique Piquerobi; e do também português António Rodrigues (1465), que casou-se com uma filha do cacique Piquerobi; ou do Caramuru ou do Adão Pernambucano. A miscigenação entre portugueses e indígenas aconteceu desde o início do Brasil Colônia (1530-1815). Em 4 de abril de 1755, D. José I, Rei de Portugal, e, portanto, soberano das colônias do ultramar português, assinou um decreto real autorizando o casamento de portugueses com índias, porém, desde a fundação de São Paulo, João Ramalho já estabelecera larga descendência com diversas índias, especialmente com Bartira, cujos descendentes se entrelaçaram com as primeiras famílias de elite habitantes de São Paulo.SILVA LEME, Luís Gonzaga da, Genealogia paulistana, 9 volumes, Editora Duprat e Cia., 1901 e seguintes.
Apesar da globalização e cosmopolitismo, o quatrocentão permanece como lembrança dos bandeirantes e povoadores pioneiros, especialmente os descendentes de Bartira e João Ramalho, com descendência provada através de livros de assentos de batismos e de casamentos paroquiais de São Paulo guardados no arquivo da Cúria da Arquidiocese de São Paulo, de inventários e testamentos depositados no Arquivo Público do Estado de São Paulo e dos livros de genealogia, especialmente os de Pedro Taques de Almeida Paes Leme e os de Luís Gonzaga da Silva Leme, e suas atualizações feitas por Marta Maria Amato. Os paulistas quatrocentões residentes na cidade de São Paulo mantiveram o costume de enterrar seus mortos em jazigos de suas famílias, do Cemitério da Consolação, utilizando-se abundantemente de arte tumular.
Famílias
Cornélio Pires, em seu livro Conversas ao Pé do Fogo, sugere que alguns dos descendentes dos "primeiros povoadores, fidalgos ou nobres empobrecidos" com indígenas, como alguns dos descendentes de João Ramalho com Bartira, descendentes estes que em vez de viverem como europeus permaneceram como indígenas - os chamados caboclos -, também se orgulhavam da sua ascendência: "Se o caipira branco diz: "Eu sou da família Amaral, Arruda, Campos, Pires, Ferraz, Almeida, Vaz, Barros, Lopes de Sousa, Botelho, Toledo", ou outra, dizem os caboclos: "Eu sou da raça, de tal gente!".PIRES, Cornélio, Conversas ao Pé do Fogo, Imesp, edição fac-símile, São Paulo, 1986
Papel histórico thumb|Veridiana da Silva Prado, filha do Barão de Iguape e destacada integrante da elite cafeeira. Por via da sua bisavó Maria Leme Prado, esposa do seu bisavô Martinho da Silva Prado, ela era descendente de João do Prado, aristocrata que veio nas caravelas com Martim Afonso de Sousa, chegando no Brasil em 1531.
Os quatrocentões são os descendentes dos bandeirantes e dos colonizadores pioneiros, fundadores de São Vicente (em 1532), de São Paulo (em 1554) e demais vilas quinhentistas paulistas, e que sentaram poderosas raízes econômicas e sociais. Constituindo-se nos grandes responsáveis pelo desenvolvimento social, econômico, urbano e cultural dessas cidades e de outras tantas do estado de São Paulo, por mais de trezentos anos, desde a fundação das primeiras cidades, no século XVI. Os bandeirantes e os povoadores pioneiros - ancestrais dos quatrocentões -, foram os grandes responsáveis pela expansão do Império Português na América do Sul. Também foram os descobridores do ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, sendo os grandes responsáveis pelo chamado ciclo do ouro do Brasil, que durou todo o século XVII e quase todo o século XVIII. Por séculos, desde quase o descobrimento do Brasil, eles desbravaram o atual território brasileiro de norte a sul, de leste a oeste, em busca de metais preciosos (especialmente ouro e prata), pedras preciosas e indígenas para escravização; fundando diversas cidades por onde passavam. Contribuíram, em grande parte, para a expansão territorial do Brasil além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas, ocupando os territórios adentrados.[Relatos Sertanistas, Afonso Taunay, Ed. da Universidade de São Paulo]
Várias famílias mais tarde deram origem aos chamados barões do café, os grandes cafeicultores, e também a detentores dos títulos nobiliárquicos de barão (baronesa), visconde (viscondessa), conde (condessa), marquês (marquesa), da nobreza do Império do Brasil.
Muitos, também, por muito tempo dominaram o sistema bancário do estado de São Paulo e do Brasil. Por sua vez, as famílias tradicionais paulistas tiveram seu apogeu político nacional durante a República Velha (1889-1930), com a política do Café com Leite (São Paulo/Minas Gerais (1898-1930), período em que se alternaram políticos do Partido Republicano Paulista e do Partido Republicano Mineiro na Presidência da República. No entanto, muitos quatrocentões se posicionam e se posicionavam a favor da monarquia constitucional vigente durante o Império do Brasil (1822-1889), tendo algumas famílias quatrocentonas, quando do exílio da família imperial, enviado muitas cartas a Dom Pedro II, imperador do Brasil, e a demais membros da família imperial brasileira.
Até hoje alguns quatrocentões têm um papel importante no desenvolvimento do estado de São Paulo e do Brasil. No entanto, desde a depressão de 1929, quando muitos deles perderam suas fortunas, e o período posterior à Revolução de 1932, quando os mesmos perderam muito poder político, as famílias quatrocentonas decaíram apenas do ponto de vista econômico e político, sem nunca, todavia, deixarem de ser a elite paulista tradicional.
A maioria, entretanto, hoje em dia tem poder aquisitivo de classe média alta. Tendo aqueles que preservam suas fortunas, como os Vilelas (que descendem dos Sousa Aranha) e os Setúbal, do banco Itaú, os Simonsen e os Silveira Mello, entre outros. Com o tempo, diversos quatrocentões casaram-se com descendentes de imigrantes italianos, alemães, franceses, polacos e libaneses que teriam imigrado para São Paulo em fins do Império brasileiro (1822-1889) em busca de melhores condições de vida, ainda que de início tenha havido muita rejeição entre os quatrocentões "puros" para com estes imigrantes outrora pobres, muitos dos quais vieram por contrato para trabalharem como colonos das fazendas, carentes de mão de obra após a abolição da escravatura (1888).
Os quatrocentões e os imigrantes A condição de quatrocentão se opõe à dos novos ricos, burgueses descendentes de imigrantes inicialmente pobres, alguns dos quais também bem sucedidos nos negócios a partir dos anos 1880 mais ou menos, como o terceiro rei do café, o prussiano Francisco Schmidt (1850-1924), e o quinto rei do café, o italiano Geremia Lunardelli (1885-1962).
A elite paulista e paulistana tradicional inicialmente tentou singularizar-se, separando-se dos imigrantes através de escolas e clubes destinados àqueles que, anos mais tarde, teriam seus descendentes classificados como quatrocentões. A despeito do seu esforço, essa chamada elite paulista e paulistana tradicional acabou por miscigenar-se aos imigrantes."Família: Primeiros colonizadores têm milhões de descendentes espalhados no país". Folha de S.Paulo, 28/11/2003}}
No início do século XX, tinham o Club Athletico Paulistano, o Jockey Club de São Paulo, a Sociedade Hípica Paulista, o Automóvel Clube de São Paulo e o Velódromo de São Paulo. Aos poucos os estrangeiros começaram a ser recebidos, embora com reservas, nesses clubes fechados, frequentados exclusivamente pelas antigas e tradicionais famílias de São Paulo.
Mas os imigrantes criaram seus próprios clubes, como o Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros) dos alemães; o Palestra Itália (atual Palmeiras) e o Juventus dos italianos; o Corinthians dos imigrantes e estrangeiros em geral (não importando a sua origem), e o São Paulo Athletic Club e o Nacional dos ingleses. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Germânia e o Palestra Itália se viram forçados a mudar seus nomes.
O grande número de imigrantes na capital paulista assustava o homem do interior, incluindo o caipira. Cornélio Pires recolheu, em seu livro Sambas e Cateretês, uma modinha, de 1911, de Dino Cipriano, que descreve a impressão que o homem do interior tinha da capital paulista:
Só úa coisa aquí in S. Pólo que eu já ponhei in reparo: que só se vê é estrangero! Brasilêro é muito raro!PIRES, Cornélio. Sambas e Cateretês. Editora Unitas Ltda., São Paulo, 1932
Segundo Raimundo Faoro, em seu livro Os donos do poder, no início do século XX, muitos dos novos-ricos, habitantes da cidade de São Paulo, principalmente os de origem italiana, tinham sido colonos nas grandes fazendas de café dos quatrocentões. Outros, de origem árabe, trabalhavam na incipiente indústria e no comércio.
A peça teatral Os ossos do barão, de Jorge Andrade, ele mesmo amargurado por ser afetado pessoalmente pela queda financeira familiar, retrata os conflitos do período em que a miscigenação se inicia. A ação se passa no momento em que as famílias tradicionais paulistas são afetadas pela queda da Bolsa de Nova York, em 1929, que derrubou os preços do café. Os fazendeiros paulistas, chamados barões do café - nem sempre tendo o título legítimo de barão -, não encontrando compradores para sua produção, empobrecidos, veem-se obrigados a vender algumas de suas fazendas. Em muitos casos, elas foram compradas por antigos empregados. Na peça de Jorge Andrade, a filha de um fazendeiro casa-se com um filho de colonos italianos, ex-empregados de seu pai. O rapaz, apesar de ter estudado e obtido um diploma de "doutor", não tinha pedigree e só consegue ser recebido pela alta sociedade através do casamento com moça das famílias quatrocentonas, que aceitava o consórcio para dourar o brasão.