thumb|Representação da alma deixando o corpo no momento da morte: The Grave, ilustrado por William Blake e gravado por Luigi Schiavonetti, 1808

Na religião e na filosofia, a alma é o aspecto imaterial ou a essência de um ser vivo. Geralmente se acredita que seja imortal e que exista separadamente do mundo material. Antropólogos e psicólogos constataram que a maioria dos seres humanos acredita na existência de uma alma ou de um espírito e que, em diferentes culturas, distingue a alma — ou espírito — do corpo material.

As religiões concebem a alma de maneiras diferentes. O budismo geralmente ensina a inexistência de um eu permanente (anatta), em contraste com a crença do cristianismo em uma alma eterna, para a qual a morte constitui uma transição à presença de Deus no céu. O hinduísmo considera o ātman ("eu", "essência") idêntico ao Brahman em algumas tradições, enquanto o islã emprega dois termos — rūḥ e nafs — para distinguir o espírito divino da disposição pessoal. O jainismo considera a alma (jīva) uma forma eterna, embora mutável, até alcançar a libertação, enquanto o judaísmo utiliza vários termos, como nefesh e neshamah, para se referir à alma. O siquismo considera a alma parte de Deus (Waheguru), o xamanismo frequentemente adota o dualismo da alma, com "almas corporais" e "almas livres", e o taoismo reconhece dois tipos de alma, hun e po.

A alma é uma área central de interesse da filosofia desde a antiguidade. Sócrates concebia a alma como dotada de uma faculdade racional, cujo exercício seria a atividade humana mais semelhante à divina. Platão acreditava que a alma fosse o verdadeiro eu da pessoa, um habitante imaterial e imortal de nossa vida, que continua existindo e pensando mesmo após a morte. Aristóteles descreveu a alma como a "primeira atualidade" de um corpo naturalmente organizado — a disposição de forma e matéria que permite aos seres naturais aspirar à plena realização.

Os filósofos medievais desenvolveram essas bases clássicas. Ibn Sina distinguiu a alma do espírito e argumentou que a imortalidade da alma decorre de sua natureza, em vez de ser uma finalidade a ser cumprida. Seguindo princípios aristotélicos, Tomás de Aquino compreendeu a alma como a primeira atualidade do corpo vivo, mas sustentou que ela poderia existir sem o corpo, pois realiza operações independentes dos órgãos corpóreos. Na filosofia moderna, as três principais teorias que descrevem a relação entre a alma e o corpo são o interacionismo, o paralelismo psicofísico e o epifenomenalismo. Durante o iluminismo, Immanuel Kant definiu a alma como o "eu" no sentido mais técnico e sustentou que se pode demonstrar que "todas as propriedades e ações da alma não podem ser reconhecidas a partir da materialidade".

Etimologia O substantivo português alma deriva do latim anĭma, -ae, termo que significava “sopro”, “ar”, “respiração”, “princípio vital” e, por extensão, a parte imaterial do ser humano. A forma portuguesa provavelmente se desenvolveu por meio da variante do latim vulgar da Península Ibérica *alima. Nessa evolução, ocorreu uma dissimilação: o som representado por n em anima transformou-se em l para se diferenciar do m, outra consoante nasal próxima. Posteriormente, a vogal medial foi suprimida, resultando na forma alma. Entre os cognatos derivados do mesmo termo latino encontram-se o espanhol alma, o francês âme, o italiano anima e o romeno inimă.

Religião Budismo thumb|O bhavachakra representa o ciclo do samsara; a roda da vida é impulsionada pelo apego a um eu, dando origem a renascimentos em um dos seis reinos da existência.

O conceito de anātman — não eu — é fundamental para o budismo. Os primeiros budistas desconfiavam do valor espiritual atribuído a uma alma. Pretendiam rejeitar claramente o dualismo entre um corpo mortal e uma alma eterna postulado pelo jainismo, que levava ascetas a morrer de inanição para libertar a alma de sua prisão mortal.McClelland, N. C. (2018). Encyclopedia of Reincarnation and Karma. Ukraine: McFarland, Incorporated, Publishers. p. 17. Em perspectiva histórica, a doutrina do anātman desenvolveu-se a partir de duas grandes crenças filosófico-religiosas: o eternalismo (sassata-vāda) e o aniquilacionismo (anuyoga).Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 55. Os eternalistas afirmam a eternidade da alma, a pureza ritual, a existência de seres celestes, do céu e do inferno, a mortificação do corpo e outras ideias.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 58. Em contraste, os aniquilacionistas negam a imortalidade da alma e acreditam que ela exista apenas enquanto o corpo existe. Como acreditam que a alma morra juntamente com o corpo, prescrevem a prática da autoindulgência (kamasukhallikanuyoga) para desfrutar dos prazeres experimentados pelos sentidos. O Buda rejeita ambas as concepções e identifica suas origens em dois desejos: o desejo de imortalidade conduz ao eternalismo quando a vida é prazerosa, enquanto estados desagradáveis conduzem ao aniquilacionismo devido ao desejo de descontinuidade do eu. O Buda identifica as duas concepções como teorias da alma, pois ambas definem um eu por meio do desejo.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. pp. 63–64.

A ideia de uma alma imutável entra em conflito com os princípios da originação dependente e da cessação dos cinco agregados.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 170. Devido à sua impermanência, eles são considerados "vazios" ou "sem essência".Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 170. Sob a perspectiva da impermanência, os budistas reconhecem que todos os fenômenos, físicos ou mentais, encontram-se em um ciclo contínuo de surgimento e dissolução e que nada é permanente, inclusive a percepção de um eu ou de uma alma.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 69. No budismo, o único absoluto é a śūnyatā.Buddhist Text and Anthropological Society Journal of the Buddhist Text and Anthropological Society, Band 5, Teil 1 The Society, 1897 digitalized: 21. May 2014. p. 1. O eu constitui uma avaliação retrospectiva da experiência sensorial. Essa experiência conduz então ao desejo e à formação do pensamento "isto é meu", criando a noção de um eu.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 169. É a continuidade desse desejo por um eu que dá origem a um novo nascimento.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 303. Os budistas consideram equivocada a identificação de uma alma independente com a percepção, pois nossa percepção do mundo depende dos órgãos dos sentidos.McClelland, N. C. (2018). Encyclopedia of Reincarnation and Karma. McFarland. pp. 16–17. No Cetana-sutta, o fluxo da consciência mantém a ligação entre um nascimento e outro, e também determina as condições da concepção no útero materno, quando as pessoas se esquecem de suas vidas anteriores.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. pp. 305–308. O Mahāvedalla-sutta menciona três modos de continuidade do eu: o modo sensual (kāma-bhava), o modo de matéria sutil (rūpa-bhava) e o modo imaterial (arūpa-bhava); os dois últimos ocorrem entre aqueles que praticam meditações de absorção (jhāna) e se tornam brahmas.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 295.

Entretanto, nem mesmo essa transmissão da consciência pode ser identificada com uma alma, pois a própria possibilidade de perder a consciência se tornaria inexplicável. Caso existisse uma alma, os budistas teriam de associá-la a algo inteiramente desprovido de sensibilidade; tal entidade, contudo, não possuiria base alguma para ser identificada como "eu". Outro argumento contra uma alma autônoma é que ela poderia determinar que nunca morreria nem adoeceria; a morte e a doença, porém, ocorrem contra a vontade dos indivíduos.Gethin, R. (1998). The foundations of Buddhism. Oxford University Press. p. 137. O argumento final é que, no pensamento budista, nada foi identificado como imutável ou permanente. Como a própria consciência também é impermanente, não pode existir uma alma imutável.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 302.McClelland, N. C. (2018). Encyclopedia of Reincarnation and Karma. McFarland. p. 16. Assim, cada indivíduo constitui uma interação complexa de fenômenos físicos e mentais, todos dependentes de inúmeras condições; removidos esses fenômenos e condições, nenhum eu duradouro pode ser encontrado.Gethin, R. (1998). The foundations of Buddhism. Oxford University Press. p. 139.

Questão não respondida O Buda deixou dez perguntas sem resposta, uma das quais dizia respeito à existência de uma alma: "A alma é uma coisa e o corpo outra?" e "Quem é que renasce?".Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 298.Karunadasa, Y. (2015). Early Buddhist teachings (New ed.). Simon and Schuster. p. 143. Isso levou algumas pessoas a acreditar que o Buda teria rejeitado somente uma alma definida por um ou mais dos cinco agregados.The Routledge Handbook of Philosophy of Pain. Vereinigtes Königreich, Taylor & Francis, 2017. p. 294.McClelland, Norman C. Encyclopedia of Reincarnation and Karma. Ukraine, McFarland, Incorporated, Publishers, 2018. p. 18.Somaratne, G. A. The Buddha's Teaching: A Buddhistic Analysis. Singapur, Springer Nature Singapore, 2021. p. 168. Outra interpretação sustenta que ele permaneceu em silêncio por considerar a pergunta irrelevante para a busca da iluminação. Se conhecia ou não a resposta continua sendo objeto de debate.Karunadasa, Y. (2018). Early Buddhist teachings (New ed.). Simon and Schuster. pp. 153–154. Outra interpretação afirma que o Buda permaneceu em silêncio porque a própria pergunta é inválida.

Os que argumentam que o Buda afirmou um eu independente do corpo e da mente, como propunham eternalistas ou aniquilacionistas, sustentam que a alma transcende os cinco agregados.Gowans, C. (2004). Philosophy of the Buddha: An introduction. Routledge. pp. 56; 67–68. Alguns budistas da tradição maaiana acreditam que a alma não seja absoluta, mas imortal: embora influenciada pelo carma, não poderia morrer, pois seria não nascida e incondicionada.Buddhist Text and Anthropological Society. Journal of the Buddhist Text and Anthropological Society, Band 5, Teil 1. The Society, 1897, digitalized: 21 May 2014. p. 1. Em apoio a essa interpretação, Christopher Gowans aponta textos budistas que possivelmente implicam alguma forma de eu, como referências a pronomes pessoais,Gowans, Christopher. Philosophy of the Buddha: An introduction. Routledge, 2004. p. 68. e a necessidade de um eu que sofre para que se possa buscar a libertação no nirvana. Devido a essas referências implícitas nas doutrinas budistas, Gowans também rejeita a ideia de que elas sejam apenas convenções linguísticas; segundo ele, a maneira mais coerente de compreender os ensinamentos do Buda seria distinguir um eu substancial de um eu em constante transformação, além dos cinco agregados.Gowans, Christopher. Philosophy of the Buddha: An introduction. Routledge, 2004. pp. 72–73. O Buda teria rejeitado o primeiro, mas implicitamente afirmado o segundo.