A Fortaleza de Sagres, também referida como Castelo de Sagres ou Forte de Sagres, é um monumento militar, situado junto da vila de Sagres, no município de Vila do Bispo, na região do Algarve, em Portugal. A fortaleza foi construída no século XV, durante o período do Infante D. Henrique. Foi muito danificada pelo Sismo de 1755, tendo sido reconstruída nos finais dessa centúria, embora de forma muito modificada. Foi alvo de grandes obras de remodelação nas décadas de 1960, 1990, e 2010. No seu interior destaca-se a Igreja de Nossa Senhora da Graça, igualmente construída durante o período henriquino.

A fortaleza é de grande importância histórica, devido à sua ligação ao Infante D. Henrique e aos Descobrimentos Portugueses, tendo em 2018 sido o monumento mais visitado no Algarve, e provavelmente em toda a região a Sul do Tejo.

Vista panorâmica de fortaleza

Descrição Localização O forte situa-se no Cabo de Sagres, um promontório escarpado a Leste do Cabo de São Vicente com cerca de um quilómetro de comprimento, 300 m de largura e 40 m de altitude. O local de implantação foi escolhido em função da sua posição privilegiada para controlar uma grande extensão de costa. Atualmente, o local faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, possuindo uma complexa biodiversidade, tanto do ponto de vista da fauna como da flora, com exemplares únicos na região.

Composição thumb|Portão de entrada da fortaleza, em 2012. Muralha e portão monumental A fortaleza apresenta arquitectura renascentista e maneirista. Na sua totalidade, o complexo apresenta uma forma sensivelmente poligonal, incluindo uma cortina amuralhada, e seis baterias viradas contra o oceano. As muralhas são rematadas em ambos os lados por baluartes, e no centro têm uma torre em cavaleiro, no qual está situada a porta principal da fortaleza. Desta forma, fechava-se completamente a entrada do promontório, sendo os baluartes utilizados igualmente para proteger as duas baías de ambos os lados da fortaleza. Esta configuração, com a fortificação a fechar a única entrada de um promontório rochoso, melhorava consideravelmente as condições de defesa, existindo outros exemplos no Sul do país, embora utilizando cursos de água em vez da faixa litoral, como o Castelo de Paderne e o Ribat de Arrifana, igualmente no Algarve,PORTUGAL. Decreto nº 25, de 25 de Julho de 2013. Presidência do Conselho de Ministros. Publicado no Diário da República n.º 142, Série I, de 25 de Julho de 2013. e os castelos de Cola e Mértola, no Alentejo.

Em 1843, a torre tinha tinha cerca de 50 palmos (11.43 m) de altura, e era de formato quadrangular, mas com os parapeitos a formarem um pentágono, virado para o exterior da fortaleza. Estes parapeitos tinham aberturas para servirem de canhoneiras. Além destas estruturas, a fortaleza também possui várias baterias, e diversos canhões sobre carros de apoio. O portal, no estilo neoclássico, tem cunhais em pedra de alvenaria trabalhada, sendo duas pedras almofadadas, enquanto que a terceira funcionava como base. Os cunhais foram modificados durante obras da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, tendo a sua largura sido alterada de 60 cm para 1 m. Pela porta principal da fortaleza acede-se a um túnel, que desemboca num torrão central. Este túnel já existia em 1843, passando nessa altura por baixo dos reparos e da torre central, por um compartimento em abóbada. Esta sala dava acesso ao interior da fortaleza através de uma porta, perto da qual também estava a entrada para o corpo da guarda, adossada à torre. Nas sondagens arqueológicas, foram descobertos vestígios de um fosso e de uma ponte levadiça, na entrada da fortaleza.

thumb|left|Interior da Fortaleza, em Maio de 1996. No centro está a chamada Rosa dos Ventos, vendo-se à direita os edifícios dos anos 60, que foram substituídos na década de 1990.

Terrapleno e edifícios No interior da fortaleza existiam vários edifícios, incluindo um grupo conhecido como correnteza, que estavam adossados a uma muralha no lado Sul da praça de armas. Estes edifícios eram formados pela Casa do Cosmógrafo, a Casa do Governador e a Casa do Infante. Posteriormente, foram ocupados pela Casa dos Capitães, e várias residências e camaratas. Fora da praça de armas, mais a Sul, estava um outro imóvel que foi identificado como um paiol, e que depois foi utilizado como cavalariça, do qual restaram as ruínas. Também existiam vários armazéns, diversas baterias com canhões, e uma cisterna, que é um dos poucos vestígios originais da Vila do Infante.

A Oeste da igreja estava um edifício de planta rectangular, com cobertura de quatro águas e um só pano na fachada principal, com nove portas. O edifício central era de forma quadrangular, e era composto originalmente por dois corpos principais, ambos de dois pisos, ligados por uma cortina de muralha. A fachada principal do primeiro corpo não tinha embasamento e terminava numa cornija e beiral, e estava rasgada por três portas e duas janelas no piso térreo, enquanto que o primeiro andar possuía cinco janelas. O segundo corpo, a Este do primeiro, era conhecido como Casa do Governador, e apresentava uma planta de forma rectangular, cuja fachada principal também não tinha embasamento e era rematada por um beiral, tendo duas portas no piso térreo e duas janelas no superior. A fortaleza possui igualmente um auditório.

O complexo da fortaleza inclui igualmente uma estrutura circular conhecida como Rosa dos Ventos, descoberta no século XVII, não existindo teorias definitivas sobre qual seria o seu significado, podendo ter sido um relógio solar. É composta por várias pedras de dimensões desiguais, formando uma estrela radiada com 32 rumos. A Rosa dos Ventos pode estar ligada a uma ermida de planta circular dedicada a Santa Maria, que teria sido construída por ordem do Infante no interior da vila.

No sentido de orientar e informar os visitantes, foram criados vários roteiros com painéis descritivos sobre as várias partes do monumento, e espécies vegetais e animais no promontório. Também foi instalada uma passadeira com cerca de dois quilómetros, destinada aos visitantes de mobilidade reduzida.

thumb|Igreja de Nossa Senhora da Graça, em 2010.

Igreja de Nossa Senhora da Graça

No interior da fortaleza encontra-se a Igreja de Nossa Senhora da Graça, fundada durante o período henriquino, sendo originalmente dedicada a Santa Maria. O edifício é de planta longitudinal, com uma só nave e uma cabeceira quadrangular, tendo ao Sul a sacristia, de forma semelhante. O interior da nave é coberto por uma abóbada de canhão, protegida por um telhado de duas águas, enquanto que a capela-mor é rematada por uma cúpula sobre trompas. As fachadas não possuem embasamento, sendo a principal de dois panos, sendo um destes relativo ao edifício da igreja em si, onde se situa o portal de entrada com lintel, enquanto que o outro corresponde ao campanário. A fachada Sul também possui dois panos, um para a sacristia e outro para a nave da igreja, abrindo-se neste último uma janela. A fachada virada a Este é igual à do Sul, igualmente com uma janela, e inclui uma escada para aceder ao campanário. No interior da igreja descata-se um conjunto de lápides sepulcrais.

thumb|left|Ruínas do antigo paiol da pólvora, em 2018. Conservação e importância A Fortaleza de Sagres foi classificada como Monumento Nacional por um Decreto de 16 de Junho de 1910. A Zona Especial de Protecção foi delimitada pela Portaria n.º 469/87, publicada no Diário do Governo n.º 128, Série I, de 4 de Junho de 1987. Recebeu igualmente as distinções Lugar Internacional de Cultura e Paz, do Observatório Internacional de Direitos Humanos, e Marca do Património Europeu, da União Europeia.

Em 31 de Janeiro de 2017, a fortaleza foi candidatada a Património Mundial da UNESCO, como parte da lista Lugares da Primeira Globalização. Em 2018, a Fortaleza de Sagres era o monumento mais visitado do Algarve e provavelmente na zona a Sul do Rio Tejo, tendo nesse ano registado quase meio milhão de visitantes. A gestão do edifício foi entregue à Direcção Regional de Cultura do Algarve pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República n.º 163, Série I, de 24 de Agosto de 2009.

Espólio O espólio encontrado durante as escavações arqueológicas pertence maioritariamente a cronologias modernas, e inclui contentores em cerâmica, faianças, materiais de construção, pedaços de vidros, e peças em metal.

História thumb|Conjunto da Rosa dos Ventos, no interior da fortaleza. Antecedentes Ao longo da História, o Cabo de Sagres teve um importante papel do ponto de vista espiritual, devido à sua localização geográfica, longe dos núcleos populacionais, e à sua forma, como um grande promontório onde a terra penetra no mar. As referências mais antigas ao cabo foram feitas pelo historiador grego Éforo de Cime, no século IV a.C., que o denominou de Hieron Akroterion. Este termo foi posteriormente traduzido para latim como Promontorium Sacrum (Promontório Sagrado) por Plínio, o Velho na sua obra História Natural. A ocupação humana da região remonta pelo menos até ao Neolítico antigo, segundo os vestígios encontrados na Estação arqueológica de Cabranosa, a Noroeste da aldeia de Sagres. Durante o período romano, é possível que fosse um local de culto ao deus Saturno ou a Hércules. Com efeito, foram encontrados vários vestígios romanos nas proximidades, incluindo na Praia do Beliche, nos Ilhéus da Baleeira ou do Martinhal, e na própria Praia da Baleeira. O cabo adquiriu uma maior importância do ponto de vista espiritual em função de uma lenda que teria sido aí o local de sepultura de São Vicente, após ter sido martirizado pelo oficial romano Públio Daciano. Durante o período muçulmano poderá aí ter existido um edifício dedicado ao culto daquele santo, que foi descrito pelo geógrafo Idrisi como o Templo do Corvo. Este templo teria sido principalmente frequentado por moçárabes e teria funcionado até ao século XII, quando os despojos mortais do santo foram transladados para Lisboa, por ordem do rei D. Afonso Henriques.

Século XV