Behaviorismo (do inglês: behavior, "comportamento") é uma abordagem sistemática para a explicação do comportamento de seres humanos e animais. Para o behaviorismo, comportamento é tudo aquilo que um organismo – humano ou animal – faz ou produz, incluindo ações privadas, como sentir ou pensar. Enquanto área de estudo, o behaviorismo busca compreender, principalmente, as causas que levam os processos de aquisição, manutenção e perda de comportamentos de um organismo.
O behaviorismo surgiu no início dos anos 1900 como uma reação à psicologia profunda e outras formas tradicionais de psicologia, que muitas vezes tinham dificuldade em fazer previsões que pudessem ser testadas experimentalmente. Dessa forma, cita-se, por exemplo, Edward Thorndike, um dos pioneiros no behaviorismo. Thorndike diferenciou-se dos demais psicólogos de sua época ao tentar estudar experimentalmente o comportamento. Um de seus experimentos mais icônicos refere-se ao momento onde ele colocou repetidamente gatos famintos em caixas de madeira que eram alimentados todas as vezes que eles conseguissem sair da caixa. Thorndike percebeu que quanto mais vezes os gatos era colocados nas caixas, mais rápido eles conseguiam escapar. Assim, postulou a chamada Lei do efeito, que dizia que um comportamento seria fortalecido caso sua consequência viesse a ser agradável e que um comportamento seria enfraquecido caso sua consequência viesse a ser desagradável. Embora a lei do efeito não seja mais válida atualmente, sua criação expõe elementos essenciais do behaviorismo: uma ciência experimental que busca explicar as causas do comportamento, assim como sua aprendizagem.
Com uma publicação de 1924, John B. Watson concebeu o behaviorismo metodológico, que rejeitou métodos introspectivos e buscou entender o comportamento apenas medindo comportamentos e eventos observáveis. Não foi até a década de 1930 que B. F. Skinner sugeriu que o comportamento encoberto — incluindo cognição e emoções — está sujeito às mesmas variáveis de controle que o comportamento observável, que se tornou a base de sua filosofia chamada behaviorismo radical. Enquanto Watson e Ivan Pavlov investigaram como estímulos neutros (condicionados) eliciam reflexos no condicionamento respondente, Skinner avaliou as histórias de reforçamento dos estímulos discriminativos (antecedentes) que emitem o comportamento; a técnica ficou conhecida como condicionamento operante.
A aplicação do behaviorismo radical – conhecida como análise aplicada do comportamento – é usada em diversos contextos, incluindo, por exemplo, o comportamento animal aplicado e o gerenciamento do comportamento organizacional para o tratamento de transtornos mentais, como autismo e abuso de substâncias. Além disso, embora o behaviorismo e as escolas cognitivas de pensamento psicológico não concordem teoricamente, eles se complementam nas terapias cognitivo-comportamentais, que demonstraram utilidade no tratamento de certas patologias, incluindo fobias simples, TEPT e transtornos do humor.
Precedentes e fundação
thumb|right|Ivan P. Pavlov (1849-1936)
Como precedentes do comportamentalismo podem ser destacados os fisiólogos russos Vladimir M. Bechterev (1857-1927), Verbete Psicologia, subseção d, p. 810. Ivan P. Pavlov (1849-1936), Verbete Behaviorismo, p. 105. o psicológo Edward L. Thorndike (1874-1949), da psicologia animal comparada.
Bechterev, grande estudioso de neurologia e psicofisiologia, foi o primeiro a propor uma Psicologia cuja pesquisa se baseia no comportamento, em sua Psicologia Objetiva.
Pavlov, por sua vez, foi o primeiro a propor o modelo de condicionamento do comportamento conhecido como reflexo condicionado, e tornou-se conceituado com suas experiências de condicionamento com cães. Sua obra inspirou a publicação, em 1913, do artigo Psychology as the Behaviorist views it, de John B. Watson. Este artigo apresenta uma contraposição à tendência até então mentalista (isto é, internalista, focada nos processos psicológicos internos, como memória ou emoção) da Psicologia do início do século XX, além de ser o primeiro texto a usar o termo "behaviorismo". Também é o primeiro artigo da vertente denominada "behaviorismo clássico".
Thorndike foi o criador da lei do efeito. Em sua primeira formulação, em sua tese de doutorado em 1898 (Inteligência Animal), atos são fortalecidos ou enfraquecidos por conta de seu resultado e, respectivamente, seu prazer e desconforto resultante. Em uma formulação posterior (1911, o livro "A lei do efeito"), Thorndike substitiu "prazer" por um termo não hedonista: "satisfação". Thorndike também foi um ávido defensor do método experimental ao propôr o abandono do método anedótico no contexto da psicologia animal comparada (Abib, 2016, Behaviorismos, reflexões históricas e conceituais, volume 1, capítulo 5).
Tipos de behaviorismo Não há acordo amplamente e rigorosamente aceito sobre a presente classificação. Em outras palavras, o trabalho de classificação da diversidade de versões que o termo behaviorismo pode reunir, respeitando-se os fatos históricos e a tradição de revisão por pares no contexto científico, ainda está por ser feito.
Behaviorismo clássico O "behaviorismo clássico" (também conhecido como "behaviorismo watsoniano", menos comumente "Psicologia S-R" e "Psicologia da Contração Muscular" pp. 1-8) apresenta a Psicologia como um ramo puramente objetivo e experimental das ciências naturais. A finalidade da Psicologia seria, então, prever e controlar o comportamento de todo e qualquer indivíduo.
A proposta de Watson era abandonar, ao menos provisoriamente, o estudo dos processos mentais, como pensamento ou sentimentos, mudando o foco da Psicologia, até então mentalista, para o comportamento observável. Para Watson, a pesquisa dos processos mentais era pouco produtiva, de modo que seria conveniente concentrar-se no que é observável, o comportamento. No caso, comportamento seria qualquer mudança observada, em um organismo, que fosse consequência de algum estímulo ambiental anterior, especialmente alterações nos sistemas glandular e motor. Por esta ênfase no movimento muscular, alguns autores referem-se ao "behaviorismo clássico" como "Psicologia da Contração Muscular"
O behaviorismo clássico partia do princípio de que o comportamento era modelado pelo paradigma pavloviano de estímulo e resposta conhecido como condicionamento clássico. Em outras palavras, para o behaviorista clássico, um comportamento é sempre uma resposta a um estímulo específico. Esta proposta viria a ser superada por comportamentalistas posteriores, porém. Ocorre de se referirem ao comportamentismo clássico como Psicologia S-R (sendo S-R a sigla de Stimulus-Response (estímulo-resposta), em inglês).
É importante notar, porém, que Watson em momento algum nega a existência de processos mentais. Para Watson, o problema no uso destes conceitos não é tanto o conceito em si, mas a inviabilidade de, à época, poder analisar os processos mentais de maneira objetiva. De fato, Watson não propôs que os processos mentais não existam, mas sim que seu estudo fosse abandonado, mesmo que provisoriamente, em favor do estudo do comportamento observável. Uma vez que, para Watson, os processos mentais devem ser ignorados por uma questão de método (e não porque não existissem), o comportamentismo clássico também ficou conhecido pela alcunha de "behaviorismo metodológico".
Watson era um defensor da importância do meio na construção e desenvolvimento do indivíduo. Ele acreditava que todo comportamento era consequência da influência do meio, a ponto de afirmar que, dado algumas crianças recém-nascidas arbitrárias e um ambiente totalmente controlado, seria possível determinar qual a profissão e o caráter de cada uma delas. Embora não tenha executado algum experimento do tipo, por razões óbvias, Watson executou o clássico e controvertido experimento do Pequeno Albert, demonstrando o condicionamento dos sentimentos humanos através do condicionamento responsivo.
Neobehaviorismo mediacional
O behaviorismo clássico postulava que todo comportamento poderia ser modelado por conexões S-R (Estímulo-Resposta); entretanto, vários comportamentos não puderam ser modelados desta maneira. Em resposta a isso, vários psicólogos propuseram modelos behavioristas diferentes em complemento ao behaviorismo watsoniano. Destes podemos destacar Edward C. Tolman, primeiro psicólogo do comportamentalismo tradicionalmente chamado Neobehaviorismo Mediacional.
Edward C. Tolman Tolman publicou, em 1932, o livro Purposive Behavior in Animal and Men. Nessa obra, Tolman propõe um novo modelo behaviorista baseando-se em alguns princípios dissoantes perante a teoria watsoriana. Esse modelo apresentava um esquema S-O-R (estímulo-organismo-resposta) onde, entre o estímulo e a resposta, o organismo passa por eventos mediacionais, que Tolman chama de variáveis intervenientes (em oposição às variáveis independentes, i. e. os estímulos, e às variáveis dependentes, i. e. as respostas). As variáveis intervenientes seriam, então, um componente do processo comportamental que conectaria os estímulos e as respostas, sendo os eventos mediacionais processos internos.
Baseado nesses princípios, Toolman apresenta uma teoria do processo de aprendizagem sustentada pelo conceito de mapas cognitivos, i. e., relações estímulo-estímulo, ou S-S, formadas nos cérebros dos organismos. Essas relações S-S gerariam expectativas no organismo, fazendo com que ele adote comportamentos diferentes e mais ou menos previsíveis para diversos conjuntos de estímulos. Esses mapas seriam construídos através do relacionamento do organismo com o meio, quando observa a relação entre vários estímulos. Os processos internos que permitem a criação de um mapa mental entre um estímulo e outro são usualmente chamados gestalt-sinais.
Como se vê, Toolman aceitava os processos mentais, assim como Watson, mas, ao contrário desse, efetivamente os utilizava no estudo do comportamento. O próprio Tolman viria a declarar que sua proposta behaviorista seria uma reescrita da Psicologia mentalista em termos comportamentalistas. Tolman também acreditava no caráter intencional do comportamento: para ele, todo comportamento visa alcançar algum objetivo do organismo, e o organismo persiste no comportamento até o objetivo ser alcançado. Por essas duas características de sua teoria (aceitação dos processos mentais e proposição da intencionalidade do comportamento como objeto de estudo), Tolman é considerado um precursor da psicologia cognitiva.
Clark L. Hull Em 1943, a publicação, por Clark L. Hull, do livro Principles of Behavior marca o surgimento de um novo pensamento comportamentalista, ainda baseada o paradigma S-O-R, que viria a se opor ao behaviorismo de Tolman.
Hull, assim como Tolman, defendia a ideia de uma análise do comportamento baseada na ideia de variáveis mediacionais; entretanto, para Hull, essas variáveis mediacionais eram caracterizadamente intra-organísmicas, i. e., neurofisiológicas. Esse é o principal ponto de discordância entre os dois autores: enquanto Tolman efetivamente trabalhava com conceitos mentalistas como memória, cognição etc., Hull rejeitava os conceitos cognitivistas em nome de variáveis mediacionais neurofisiológicas.
Em seus debates, Tolman e Hull evidenciavam dois dos principais aspectos das escolas da análise do comportamento. De um lado, Tolman adotava a abordagem dualista watsoniana, onde o indivíduo é dividido entre corpo e mente (embora assumindo-se que o estudo da mente não possa ser feito diretamente); de outro, Hull, embora mediacionista, adota uma posição monista, onde o organismo é puramente neurofisiológico.
Behaviorismo filosófico