Woodrow Wilson da Matta e Silva (Garanhuns, 28 de julho de 1916 — Rio de Janeiro, 17 de abril de 1988) foi um umbandista brasileiro, fundador da Tenda de Umbanda Oriental, fixada na Terra da Pedra da Cruz – distrito de Itacuruçá (Rio de Janeiro), a qual veio a tornar-se a primeira Escola Iniciática de Umbanda Esotérica do Brasil.

Durante sua vida escreveu diversas obras mediúnicas de caráter doutrinário a respeito do que ele mesmo gostava de denominar como Umbanda Esotérica. Seus livros expunham conceitos hermenêuticos e filosófico-científicos sobre sua religião, incluindo críticas ao movimento Umbandista de sua época. Opunha-se a rituais de "magia negra" com animais, bebidas alcoólicas em excesso nos terreiros, práticas diversas de dirigentes e pais de santo, rejeitando a falta de metodologia do movimento Umbandista. Mostrava em suas obras os bastidores dos terreiros e dos portentosos "médiuns magistas" que figuravam na religião, mesmo não sendo esse o seu principal objetivo ao escrever os livros. Classificava a Umbanda em três classes, divididas de acordo com a composição e atividades dos terreiros.

Biografia

Em 1921, aos 5 anos de idade, mudou-se com a família para o estado brasileiro do Rio de Janeiro. direita|semmoldura|Matta e Silva (1979) Aos 9 anos de idade no ano de 1925 ocorreram suas primeiras experiências mediúnicas, através de visões de Entidades, as quais ele não compreendia. Nenhum ensinamento de cunho religioso havia sido lhe ensinado, até então, pois os pais não seguiam nenhuma religião. Aos 15 anos de idade, residindo na rua Teixeira da Costa (Vaz Lobo), centro do Rio, e trabalhando como auxiliar em um jornal no Rio de Janeiro, começam as primeiras manifestações do preto-velho "Pai Cândido", assim algum tempo depois iniciou as sessões mediúnicas em noites de quinta-feira, atendendo o público através da incorporação do preto-velho, na república onde morava. Com a chegada dessa Entidade, os fenômenos e visões desapareceram.

Em 1933, aos 17 anos de idade, iniciou sua busca por um local para o desenvolvimento de seu trabalho mediúnico, passando a visitar diversos terreiros de Umbanda.

Matta e Silva relata à página 14 de sua sétima obra "Umbanda e o Poder da Mediunidade":

"Sempre tive uma tendência irrefreável, desde muito jovem, 16, 17 anos de idade, que me impulsionava a ver as chamadas "macumbas cariocas". Claro está que não estava ainda conscientizado do "por que" de semelhantes impulsos (se bem que, desde 9 anos de idade éramos acometidos por fenômenos de ordem espírito-mediúnicos e aos 16 anos já acontecia a manifestação espontânea de nosso "preto-velho", que baixava num quarto onde morávamos, na Rua do Costa..."

Aos 21 anos de idade, no ano de 1937, foi morar no bairro carioca da Pavuna onde montou seu primeiro terreiro (pequenino como sempre). A partir de 1954, agora "Pai Guiné" começa a direcionar sua vida mediúnica. Nessa época, recebe desse “Preto-velho” a mensagem/prédica “Sete Lágrimas de Pai Preto”, que seria um dos marcos da renovação da Doutrina Umbandista. Esta prédica mostrava a realidade do dia-a-dia de um terreiro e as diferentes consciências que a ele vão, em busca de auxilio espiritual.

Nesse ano passou a escrever para o Jornal de Umbanda (já citado anteriormente) localizado à Rua Acre, 47 – 6º andar – sala 608, diversos artigos como por exemplo: A LEI DENTRO DA UMBANDA, A MAGIA NA UMBANDA, A PONTA DO VÉU, A YOXANAN, AOS APARELHOS UMBANDISTAS, APARELHOS UMBANDISTAS... ALERTA!, AS SETE LÁGRIMAS... DE PAI-PRETO, INVOCAÇÃO DE UMBANDA...

Durante esse tempo teve várias visões mediúnicas (transes) na qual via um Velho Payé que folheava um grande livro e junto dele um Colegiado de Mentores Espirituais pleiteando que o momento de começar a escrever obras doutrinárias estava próximo. Enfim, no ano de 1956 é trazida a público a obra intitulada Umbanda De Todos Nós (A lei revelada) causando um tremendo alvoroço no meio Umbandista.

"Umbanda de Todos Nós" foi lançada em edição paga pelo próprio autor, através da Gráfica e Editora Esperanto, a qual se situava na época, à Rua General Argolo, 130, Rio de Janeiro. A primeira edição saiu com 3.5000 exemplares e rapidamente se esgotou. A partir da segunda edição a obra foi lançada pela Livraria Freitas Bastos.

Em 1957, ainda pela Editora Esperanto, publica sua outra obra intitulada Umbanda Sua Eterna Doutrina, com 200 páginas, trazendo diversos mapas explicativos e conceitos esotéricos pouco divulgados. No mesmo ano, encerra as atividades públicas da Tenda Umbandista Oriental, conforme o relato do mesmo na página 12 do livro Umbanda De Todos Nós.

Em 2 de abril de 1958 o espirito de um preto-velho que se identificava com o nome de "Pai Guiné de Angola" desce na Gira de Umbanda pela primeira vez para auxiliar o anterior Guia Espiritual de Matta e Silva, "Pai Cândido", e assume a partir daí, a responsabilidade de sua mediunidade.  Na mesma época, risca seu famoso ponto com suas Ordens e Direitos de Trabalho. (retirado do livro Umbanda de Todos Nós -1960, 2ª edição – pag.7)

No mês de abril do ano de 1961 lança sua terceira obra intitulada Lições de Umbanda (e Quimbanda) na Palavra de um Preto Velho, livro com 170 páginas e diversos quadros ilustrativos, obra muito bem recebida, que apresenta o diálogo entre um discípulo de nome Cícero com um Preto-Velho.

Em 1962 publica mais uma obra intitulada Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda com 210 páginas, obra que aprofunda os conceitos com relação à Mediunidade, Magia e Oferendas, em linguagem simples e acessível.

No mês de junho do frutífero ano de 1964 lança sua quinta obra intitulada Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda. Obra ilustrada com 158 páginas e diversos desenhos de pontos riscados. Faz uma abordagem de forma prática de alguns rituais da Magia de Umbanda. Emenda no mesmo ano de 1964 o lançamento de sua outra obra intitulada Umbanda e o Poder da Mediunidade onde explica, em suas 160 páginas, a necessidade da restauração da Umbanda no Brasil, mostrando suas verdadeiras origens. Aborda ainda, aspectos importantes da Magia.

Prontamente no ano de 1966 depois de grandes serviços prestados a coletividade Umbandista, tanto por suas obras elucidativas quanto pelos incessantes trabalhos em seu terreiro, já era tido como um renomado escritor, mas ainda não se dando por satisfeito, se permite e através de vários transes mediúnicos dá inicio a obra que mostraria uma nova visão da Umbanda aos seus leitores, sob a orientação de uma corrente astral liderada por uma Entidade que se identificou como "Caboclo Velho Payé". Todavia, devido a sua resistência às revelações que recebia do astral, pela profundidade das informações a respeito da doutrina interna da Umbanda, passou mais de um ano recebendo projeções elucidativas de Mentores astrais sobre tais assuntos, através de imagens e quadros explicativos em seu campo mental, além das informações por via intuitiva.

No mês de abril do ano de 1967 publica finalmente a tão aguardada obra intitulada Doutrina Secreta da Umbanda. Com 204 páginas, essa obra veio complementar e ampliar os conceitos tratados em seu outro livro “Umbanda Sua Eterna Doutrina”.

Neste mesmo ano adquire um terreno baldio contíguo à sua residência, para instalação definitiva da "Tenda de Umbanda Oriental" que a maioria de seus "filhos-de-fé" posteriores frequentaram entre os anos de 1967 e 1988, e sobre o qual hoje tanto se fala.

Após muito trabalho em seu novo terreiro, consegue arrumar tempo no meio de sua atribulada rotina para mais uma produção literária, essa, como o próprio autor se referia, uma obra de fôlego. No mês de janeiro do ano de 1969 vem à tona o seu mais novo lançamento intitulado “Umbanda do Brasil” livro que sintetizava os sete anteriores. Com 368 páginas a obra esgotou seis meses após o lançamento.

Chega o ano de 1970 e com ele o último livro de Matta e Silva é publicado. A obra intitulada Macumbas e Candomblés na Umbanda foi publicada com 196 páginas e dezenas de fotografias onde se fez o registro das vivências místicas e ritualísticas dos Cultos Afro-Brasileiros.

Neste mesmo ano, Matta e Silva passa a residir em Volta Redonda, viajando para o Rio de Janeiro às quintas-feiras, sextas ou aos sábados, conforme seus compromissos.

Em 1977 é convidado por Rogério Sganzerla (o mesmo produtor do filme “O Bandido da Luz Vermelha”) a participar de um curta metragem, com o título de Ritos Populares – Umbanda no Brasil, exibido anos depois no "23º Festival de Cinema de Turim - Tribute to Rogério Sganzerla", na Itália, em 2005 e na Mostra Cinema do Caos CCBB, no Rio de Janeiro, também em 2005. Em junho de 2010, o Itaú Cultural em São Paulo exibiu o documentário na mostra "Ocupação Rogério Sganzerla", com curadoria do cineasta e documentarista Joel Pizzini.

A produção tem 18 minutos de duração e sua consecução durou 9 anos de 1977 a 1986.

O documentário registra o depoimento de Matta e Silva, em passeios pelas ruas do Rio de Janeiro, onde narra sua própria trajetória e a criação da Umbanda Esotérica, alternando com cenas de transe e de rituais filmados na mata e na "Tenda de Umbanda Oriental", em Itacuruçá. Mostra também o Mestre com suas obras na Livraria Freitas Bastos, no Rio de Janeiro.

Dando continuidade aos seus trabalhos, Matta E Silva resolve no ano de 1984 voltar a morar em Itacuruçá.

O Terreiro

A "Tenda de Umbanda Oriental" (TUO) existiu durante, aproximadamente, 40 anos. De 1938 a 1957 na Rua Afonso Terra nº 1191 no Bairro da Pavuna e depois de reaberto em 1967 na cidade de Itacuruçá, no Estado do Rio de Janeiro, funcionou até 1988.

O terreiro de Itacuruçá tinha uma construção simples e humilde, em um prédio de 50 m². A área reservada aos rituais tinha o piso de areia e a área reservada aos consulentes tinha alguns poucos bancos. commoldura|T.U.O. - Itacuruçá, RJ. Segundo relatos de seu discípulo e iniciado "Ivan Horácio da Costa", o "Mestre Itaoman", o mais antigo Mestre de Iniciação da TUO, o terreiro era localizado na Rua Boa vista, 117 no bairro Brasilinha, em Itacuruçá, Rio de Janeiro e o descreve da seguinte maneira:

"Nessa casa, no último pequeno aposento dos fundos, plantou o Axé da 2ª etapa da T.U.O., firmado numa "Otá" (pedra alongada de cachoeira), fincada à meia altura da parede, sobre a qual repousava a estátua de São Miguel, pois naquela época, ainda se orava a São Miguel e não a Micael, o Arcanjo e ainda se "batia" um pouquinho de "atabaque", vez por outra, coisa pouca!  Tão pequeno era o espaço físico disponível naquele aposento que se abria para a imensidão do Astral Superior e para a Ancestralidade da Umbanda!"

O terreiro de "Pai Guiné" estava sempre lotado. No início era frequentado apenas pelo povo simples e humilde da região. Muitos recorriam ao atendimento terapêutico de Matta e Silva pela falta de médicos na região, e este ministrava medicamentos da flora local e muitas vezes comprava com seus próprios recursos medicamentos alopáticos, doando aos necessitados.

Além de "Pai Guiné de Angola" e de seu mentor espiritual Yapacani, Matta e Silva era assistido por outras Entidades Espirituais, como o "Caboclo Juremá", "Caboclo Pedra Preta", "Caboclo Ogum de Lei", "Caboclo Guaracy", "Pai Chico", "Pai Mané Carrero", "Zé Pretinho", "Zambetinha", "Exu Senhor das Sete Encruzilhadas" e a "Pomba Gira Sialú".

Durante a divulgação de seus livros e no decorrer dos anos subsequentes, muitos foram os Umbandistas que para lá se dirigiam, assim como alguns Chefes de Terreiro de várias partes do Brasil, que lá iam em busca de ajuda ou de uma filiação espiritual que legitimasse a sua própria Entidade.

Depois da morte de Matta e Silva, seus últimos herdeiros físicos desfizeram-se da propriedade do terreno e do Santuário de Umbanda Esotérica, a pedido do mesmo.

Obras Umbanda de todos nós (1956)