Gil Vasques I de Soverosa (c. 1165 - c. 1240) foi um nobre medieval português, rico-homem na corte dos reis , e . Exerceu o cargo de tenente em várias terras: Basto (pelo menos em 1207 e 1234-5); Sousa e Barroso (entre 1207 e 1240); e Panóias em data desconhecida. Teve numerosas propriedades na região de Guimarães e foi senhor do Castelo de Sobroso na Galiza.

Foi enterrado no Mosteiro de Pombeiro, mas já no final do não havia vestígios da sua sepultura.

Primeiros anos Gil era filho do rico-homem Vasco Fernandes de Soverosa e de Teresa Gonçalves de Sousa, filha de Gonçalo Mendes de Sousa, padroeiro do Mosteiro de Pombeiro, e de Dórdia Viegas. Foi através deste matrimónio que o pai trouxe a honra de Soverosa para a posse da família. Gil era, portanto, bisneto materno de Egas Moniz IV de Ribadouro, o célebre aio de Afonso Henriques.

Primogenitura duvidosa Gil Vasques começou por permanecer nas suas terras galegas em O Bierzo, junto dos pais, que recebem algumas doações de Fernando II de Leão. A morte do pai, por volta de 1194, pode tê-lo levado de imediato à chefia da família. Contudo, se o seu irmão Martim Vasques I de Soverosa for o filho mais velho de Vasco Fernandes e Teresa Gonçalves, dado ser o primeiro dos filhos do casal a deter cargos palatinos, então talvez tenha sido ele a suceder ao pai, embora por pouco tempo, dado que falece na sequência da Batalha de Alarcos (1196). Contudo, nem sempre o primeiro filho a deter cargos na corte é o primogénito, como é o caso da Casa de Baião.

Por volta de meados da década de 1190, Gil Vasques era já, com toda a certeza, o chefe da família, e assim se apresenta na sua primeira aparição na corte portuguesa, em 1205.

Na corte de Sancho I, 1205-1211 Gil Vasques surge pela primeira vez na cúria portuguesa a confirmar um diploma de Sancho I de Portugal em 1205, ainda sem nenhum cargo curial. Na altura o seu primo, Gonçalo Mendes II de Sousa, encontrava-se ausente da corte, pois havia sido substituído no cargo de Mordomo-mor por João Fernandes de Riba de Vizela, irmão do então Alferes-mor de Portugal, Martim Fernandes de Riba de Vizela. Entre 1205 e 1211, a presença de Gil na cúria régia viria a ser relativamente assídua.

Em 1207 recebe a tenência de Basto, ligada à sua família materna e que também já havia sido detida pelo pai, como confirma uma doação de Gil ao Mosteiro de Telões, onde é referido como tenente ipsam terram. Nessa altura o seu primo Sousão já recuperara o cargo de mordomo-mor, mas Gil só regressa à corte em janeiro de 1208, onde junto ao primo confirma duas doações em agosto desse ano.

Entre 1209 e 1210, uma grave crise veio a abalar a aparente calma e paz na corte portuguesa. Sancho I entrou em conflito com os nobres de Entre Douro e Minho, e com os bispos do Porto e de Coimbra. Este conflito tinha a sua origem na definição de poderes, jurisdições e competências nos âmbitos senhorial e eclesiático, num reino ainda jovem e em formação. A aproximação ao Reino de Castela através do pacto matrimonial do seu filho, o infante Afonso e a infanta Urraca, filha de Afonso VIII de Castela e Leonor de Inglaterra, vinha perigar a influência de vários aristocratas portugueses, tendo a sua maioria relações próximas, propriedades e/ou interesses económicos no Reino de Leão, com especial destaque para a região galega, pelo que a maioria dos nobres portugueses olharam com receio para esta ingerência portuguesa em assuntos castelhanos. Entre eles estavam, claramente, Gil Vasques e Gonçalo Mendes, tendo o primeiro, inclusivamente concertado matrimónio com uma anterior barregã do monarca, a galega Maria Aires de Fornelos, filha de Aires Nunes de Fornelos e Maria Pais de Bravães, por forma a fortalecer os seus interesses económicos e patrimoniais na fronteira galega.

Nesse período, a instabilidade tomou conta da corte e do reino. Sancho não conseguia controlar os seus nobres, que na sua maioria o haviam abandonado. Apenas permaneceram junto a ele Gonçalo Mendes II de Sousa e Martim Fernandes de Riba de Vizela, respetivamente mordomo e alferes do reino, e Lourenço Soares de Ribadouro, cuja família detinha uma especial relação com a monarquia desde o século anterior. Gil Vasques provavelmente apoiaria o primo, mas durante o período mais convulso da crise, preferiu ausentar-se da corte, onde não surge durante até dezembro de 1210.

O testamento de Sancho I e o conflito sucessório Contudo, o problema que realmente se encontrava por detrás de toda esta tensão não eram querelas governativas, mas sim a sucessão do monarca. A crise intensificara-se, não só pelo agravamento da saúde do rei, mas também pela crescente intervenção política do infante Afonso, que não era ainda um herdeiro unânime. O infante era um homem afetado pela lepra desde cedo, e a sua saúde e a possibilidade de chegar ao trono e dar a continuidade desejada no trono foram sempre motivo de uma certa desconfiança entre entre os nobres nortenhos. Havia igualmente outros candidatos a considerar: o infante Pedro, irmão de Afonso, e o irmão bastardo de ambos, o infante Fernando Afonso, que deixara a chefia da Ordem do Hospital e regressara a Portugal em 1207, tendo sido assassinado pouco depois. Poderia também ser alvo de discussão a possível candidatura do infante leonês Fernando, neto de Sancho I, dado ser filho da infanta Teresa, rainha de Leão até à anulação, em 1194, do seu matrimónio com Afonso IX de Leão, sendo Fernando um dos filhos do casal.

Antecedentes: o testamento e a divergência nobiliárquica Em 1209, Sancho I mandara lavrar testamento, segundo o qual dava às suas filhas, as infantas Teresa, Sancha e Mafalda, respetivamente, a posse dos castelos de Montemor-o-Velho, Alenquer e Seia, com as respectivas vilas, termos, alcaidarias e rendimentos. Em outubro de 1210, e para resolver a instabilidade na corte, o monarca redige um segundo testamento, no qual nomeou, de forma inequívoca, o seu filho, o infante Afonso, como herdeiro do trono, mantendo os castelos e propriedades para as filhas e doando ainda aos filhos, os infantes Pedro e Fernando, uma soma de dinheiro. É possível, que, estando o rei tão doente, que Gil Vasques e o seu primo, Gomes Soares de Tougues tenham influído na decisão do monarca de nomear Afonso como herdeiro do trono e de afastar o poderoso infante Pedro da pretensão.

Para legitimar o testamento, Sancho I nomeou como seus testamenteiros Gonçalo Mendes II de Sousa e Martim Fernandes de Riba de Vizela, seu mordomo e alferes, respetivamente, e ainda o Arcebispo de Braga, o prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e os mestres das Ordens do Templo e do Hospital, ficando, cada um dos seis, com uma cópia do testamento e com a missão de a guardar. Contudo, a instabilidade não pareceu acalmar, pelo que o monarca ainda ditou um documento que impunha que o herdeiro jurasse cumprir o testamento, apelando a Gonçalo Mendes II de Sousa, Gomes Soares de Tougues e a Lourenço Soares de Ribadouro (e provavelmente a outros nobres, como Pedro Afonso de Ribadouro e Gonçalo Soares), que, se o infante se recusasse a cumprir o testamento, os ditos deveriam recusar-se a entregar os castelos que tinham ao novo monarca, isto é, não lhe deveriam render vassalagem.

Gil Vasques esteve ao lado do monarca, e por inerência, do primo Sousão pelo menos desde dezembro de 1210 até à morte do monarca, em março de 1211. Gil estava junto do novo monarca, Afonso II de Portugal, em Coimbra, quando este emitiu o seu primeiro documento, apenas uns dias depois da morte de Sancho I. Junto a Gil estavam Gomes Soares de Tougues e o alferes Martim Fernandes de Riba de Vizela, que Afonso veio mais tarde como novo mordomo, depois de expulsar Gonçalo Mendes II de Sousa. Também Lourenço Soares de Ribadouro se terá mantido do lado do novo rei, sendo esta posição compreensível dado o estreito vínculo que unia a Casa de Ribadouro à Casa Real: Afonso I de Portugal fora pupilo de Egas Moniz, o Aio; e mais tarde várias damas daquela família haviam educado infantes (como o caso de Urraca Viegas de Ribadouro, tia de Lourenço, que educara a Rainha Mafalda).

No que respeita ao testamento, Afonso II não concordou com o conteúdo do mesmo e recusou-se a entregar os ditos castelos às irmãs, o que motivou violentos conflitos internos entre o rei e as suas irmãs Teresa, Mafalda, e Sancha. Afonso, tentando evitar a supremacia da influência dos nobres no seu governo, pretendia centralizar o seu poder, mas para isso incorria contra as irmãs e em último caso contra o testamento paterno, do qual os testamenteiros haviam sido encarregues de defender. Contudo, Gonçalo Mendes II de Sousa, grande companheiro de Sancho I, parece ter sido o único dos testamenteiros que de facto se dedicou a as suas últimas vontades de Sancho, empenhando-se em fazê-las cumprir e jurá-las solenemente. Assim é perfeitamente compreensível que Gonçalo Mendes tivesse defendido intensamente a posição das infantas, sobretudo nas terras onde dominava como tenente: Montemor-o-Novo, Sesimbra, Lisboa, Sintra, Torres Vedras, Abrantes e Óbidos, além das já referidas, inaugurando um período no qual os Sousas, firmes apoiantes da realeza portuguesa, se lhe opunham pela primeira vez.

Na corte de Afonso II, 1211-1223 O conflito sucessório, 1211-1212

Entre abril e julho de 1211 celebrou-se em Coimbra as cortes que vieram a definir o ordenamento jurídico pretendido pelo novo monarca. O novo monarca bem tentava apaziguar os conflitos, mas novos conflitos latentes surgiam. Em junho desse ano, Gonçalo foi retirado do cargo de mordomo, e substituído pelo então alferes, Martim Fernandes de Riba de Vizela. Na alferesia foi nomeado um primo deste, Soeiro Raimundes de Riba de Vizela, rapidamente substituído por Martim Anes de Riba de Vizela, sobrinho do então mordomo. A saída de Gonçalo Mendes pôs fim à hegemonia dos Sousas na corte. Despeitado, e talvez até então receoso de se opor ao rei, Gonçalo Mendes encontrou neste ato a justificação para se assumir abertamente como dedicado defensor dos direitos das infantas irmãs do rei, e como acérrimo inimigo da política centralizadora de Afonso II.

Gil Vasques permaneceu ao lado do monarca, e, apesar de não ocupar nenhum cargo destacado, figurava sempre entre os primeiros nas listas de confirmantes dos diplomas régios. Ainda antes do final do ano, Gil Vasques rompeu definitivamente relações com o primo, afastando-se assim da política dos Sousas. Vários membros desta família exilaram-se então em vários reinos peninsulares.Há várias referências, neste período, a membros da família em outras cortesː Gonçalo Mendes refugiou-se em Leão; Garcia Mendes II, o irmão de Gonçalo, ter-se-ia refugiado em Leão ou na Galiza; há notícias também do sobrinho, Gonçalo Garcia, na corte aragonesa. Por seu lado, Gil aproximou-se dos Silvas, que entravam em força no círculo cortesão: Martim Fernandes, o mordomo, aliara-se a Estevainha Soares da Silva, filha de Soeiro Pires da Silva e o irmão desta, Estêvão Soares da Silva, veio a ser nomeado Arcebispo de Braga em 1213.

Em novembro de 1211, Afonso II cercou o fortíssimo e quase inexpugnável castelo de Montemor-o-Velho, na altura na posse da sua irmã, a infanta Teresa, e onde se encontravam também recolhidas as suas irmãs, Sancha e Mafalda. Teresa não hesitou em escrever ao seu ex-marido, Afonso IX de Leão, em busca de auxílio.

Como resposta, Gonçalo Mendes de Sousa sai, ainda em novembro, de Castrotarafe, liderando uma hoste de vinte e cinco cavaleiros em direção a Montemor-o-Velho, em defesa das infantas. As tropas reais, sob comando de Martim Fernandes de Riba de Vizela, e onde se encontrava também Gil Vasques de Soverosa, enfrentaram a hoste do Sousão em Coimbra. Os Livros de Linhagens contam que a batalha foi travada junto a uns terrenos pantanosos algures entre Coimbra e Montemor. Durante a batalha, Gonçalo constrangia Martim Fernandes a manter-se no pântano enquanto lutava, tendo o novo mordomo provavelmente falecido exangue devido às sanguessugas que o atacaram.