O Elétrico de Sintra (oficialmente Companhia Sintra-Atlântico) é uma ferrovia sazonal de bitola estreita (1000 mm) e tracção eléctrica por trólei que liga, desde 1904, a vila de Sintra à Praia das Maçãs, na costa do centro de Portugal, ao longo de um trajecto de pouco menos de 13 km, com oito paragens — passando por Colares, Mucifal, Galamares, e perto da Praia Grande. O serviço é operado pela Câmara Municipal de Sintra, funciona durante todo o ano mas com reforço significativo da oferta durante a época balnear.

Caraterísticas left|thumb|Carro n.º 3 circulando no troço inicial, em 2005) thumb|left|Carro n.º 7, o único amarelo, na paragem de Galamares, em 2010. thumb|left|Carro n.º 6, aberto, na paragem de Colares, em 2018. A via é marcadamente campestre e segue paralela a várias estradas (nomeadamente EN247 e EN375) em quase todo o percurso, que é por vezes bastante sinuoso. Apresenta um desnível total apreciável (cerca de 190 m), nomeadamente entre a Estefânia e a ponte sobre a Ribeira de Colares, onde desce dos 200 m de altitude para 70 em menos de 3 km (pendor médio de 3,7‱).

A via é de bitola métrica, a mais habitual neste tipo de transporte, e consiste de carris clássicos assentes em travessas de madeira ou betão sobre balastro, onde passa em canal próprio, protegidos por contra-carris ao cruzar passadeiras para acessos particulares em madeira ou terra batida, ou de carris de encastrar nivelados ao pavimento, onde cruza estradas ou segue em espaço urbanizado. Esta é acompanhada de fiação alimentadora em toda a sua extensão, suspensa sobre a via e esticada maioritariamente de postes metálicos erigidos para o efeito. A rede, de via única em linha aberta, é topologicamente simples, com duplicações para cruzamento de veículos e apenas com curtos ramais técnicos que não fazem serviço regular de passageiros.

As oito paragens estão equipadas com abrigos de passageiros, alguns das quais de construção original do início da linha. Em 2011, planeava-se a recuperação do abrigo da paragem Colares.

Cada viagem dura aproximadamente 45 minutos, com nove viagens por dia. O horário praticado para os serviços regulares é de fim de semana alargado (quintas, ou sextas, a domingos), com os restantes dias disponíveis para alugueres, com a exceção das segundas, para descanso do pessoal e manutenção do equipamento. O calendário de funcionamento, ainda que formalmente sazonal, tem variado a cada ano, sendo frequente desfasar-se com a época balnear, atrasando-se o início dos serviços regulares até julho, que depois se prolongam até outubro. Em 2007-2008 o serviço expandiu-se experimentalmente por todo o ano.“Até à Praia das Maçãs: Eléctrico de Sintra volta a circular a 3 de Agosto” Público (2012.07.26)

A tripulação é tipicamente constituída por um guarda-freio e um ajudante. Este último cobra e vende bilhetes a bordo e inverte a orientação do trólei nos términos de cada carreira, e opera a mudança manual de agulhas. Até à década dos anos 70 este cargo era ocasionalmente confiado a rapazes em período de férias (trolley boys).Alexandre MORGADO: “Os «Trolley-boys» de Sintra”. Época (1972): 5-6. (capa, p.5 (foto), p.6)

Diversos contratempos afetam o regular funcionamento da linha, tais como estragos no terreno causados por mau tempo,“Mau tempo provoca corte na circulação do eléctrico de Sintra” TVI24 ou roubos de cabos de cobre da rede aéreaLuís Filipe SEBASTIÃO: “Furto de cabos e peças em cobre pára eléctrico histórico de Sintra” Público (2012.07.05).“Eléctrico de Sintra - Horário e Preçário” (visita a 2012.06.27)

O ordenamento territorial do canal da linha está regulamentado por postura camarária — Anexo I do “ Regulamento Municipal de Urbanização e Edificação do Concelho de Sintra”, publicado em Diário da República (2.ª Série) 245 (2010.12.21): 61959 — “Regulamento da Linha e do Eléctrico de Sintra”, aprovado pela Assembleia Municipal de Sintra em 24 de Junho de 2010.

História Legenda: sem serviço (—); anual diário (●); estival diário (☀);estival 3 dias/sem. (☼); anual 3 dias/sem. (◯)período→↓troço190419301953195319551955195819581974197419801980199519951997199720042004200620072008200920102011…mar.jul.jul.dez.Vila Velha - estação●●●☀☀——————————estação - Estefânia●●●☀☀☀—————————Estefânia - Ribeira●●●☀☀☀————☼◯◯☼◯Ribeira - Colares●●●☀☀☀———☼☼◯—☼☼Colares - Banzão—●●☀☀☀—☼—☼☼◯—☼☼Banzão - P. Maçãs—●●☀☀☀—☼—☼☼◯—☼☼P. Maçãs - Az. Mar——●☀——————————— Antecedentes e planeamento (1886-1902) Entre 1886 e 1898, foram feitas várias tentativas infrutíferas para a instalação de uma linha de via estreita entre Sintra e a costa. Com efeito, em finais de 1895, previa-se que iria ser lançado um novo concurso para uma linha férrea ligando a vila às Praias das Maçãs, do Magoito e da Ericeira. Em Novembro de 1898, a Câmara Municipal de Sintra concedeu a Nunes de Carvalho e Emídio Pinheiro Borges uma concessão 99 anos para construir e explorar uma ligação ferroviária entre Sintra e a Praia das Maçãs. Em Julho de 1900 foi constituída a Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs.O Eléctrico de Sintra à Praia das Maçãs

Em finais de 1901, a Companhia pediu autorização para efectuar uma alteração no traçado previsto; nesta altura, já se tinham iniciado os trabalhos, com o objectivo de inaugurar o troço até Colares ainda no Verão do ano seguinte. Em Novembro de 1901 é anunciado na imprensa local que ao projeto em curso será adicionado um ramal para Almoçageme, apadrinhado por um dos diretores da companhia, Guilherme Henrique de Sousa — tal acrescento não chegará a ser construído.

Em 1902, a Companhia foi autorizada a modificar o leito da estrada entre Sintra e Colares, de forma a instalar a via férrea. Em Abril, previa-se que este caminho de ferro seria inaugurado em Setembro. Em Maio, a Companhia foi autorizada pela autarquia de Sintra a construir quaisquer novos ramais, de tracção eléctrica, dentro dos limites do concelho. Em Julho, previa-se para breve o início da construção da linha, tendo sido já realizada uma reunião da Companhia, para discutir a obra; esta foi entregue ao empreiteiro geral Duret, sendo o engenheiro director Le Bastard.

Construção e projetos (1902-1904)

Iniciou-se a construção da linha na zona da Estefânia em Agosto de 1902. O material circulante foi fabricado sob encomenda pela J. G. Brill Company de Filadélfia, e chegou no ano seguinte:Frederico CARVALHO: “Valdemar Alves: Guarda-freio : A linha da memória” : Tabu 205 (2010.08.06) Apesar de inicialmente se prever tracção a vapor, a frota inicial foi constituída por sete carros eléctricos, complementados por seis atrelados.Grilo, 1994: p.146 Em outubro, a Companhia previa a conclusão da linha em Maio do ano seguinte, e disponibilizou-se para instalar a iluminação eléctrica nas localidades de Sintra a Colares. Nessa altura, a autarquia de Sintra já tinha autorizado a expropriação da cadeia e do prédio adjacente à torre, como tinha sido solicitado pela Companhia, para poder prolongar a linha. Nos finais do ano, a Companhia já tinha contratado, à sociedade Westinghouse, a construção, fornecimento e montagem de todo o material circulante e das infra-estruturas necessárias para a circulação eléctrica, no troço entre Sintra e Praia das Maçãs, e no planeado troço de Sintra a São Pedro; também deveria ser instalada a iluminação eléctrica em Sintra, São Pedro, e Colares. Segundo o contrato, tudo devia estar montado e pronto a funcionar em 31 de Maio de 1903.

thumb||left|90px|Carris: vignole e de ranhuraNos inícios de 1903, a Companhia pediu, ao Governo, autorização para prolongar a linha até São Pedro, e para alterar o tipo de carril utilizado, de ranhura para vignole, para facilitar a construção da via. O relatório da Companhia, apresentado em 14 de Março, noticiava que, em 26 de Fevereiro, as terraplanagens da via já tinham sido feitas até à Praia das Maçãs, e que os carris já tinham sido instalados entre a Estação de Sintra e Colares. Além do assentamento dos carris entre aquela localidade e a Praia, faltava colocar os desvios, e fazer uma entrada na Estação de Sintra; depois de terminar estas obras, o que se calculava que fosse realizado brevemente, devia começar-se a construir os dois ramais, para o centro de Sintra e para São Pedro, que já tinham sido aprovados e que se previam de construção rápida. Nesta altura, já tinha sido assinado um contrato com a autarquia de Sintra para prosseguir com a iluminação, e para a compra de um terreno, na Quinta das Marcas, para construir as instalações necessárias. A Companhia previa que a linha estaria a funcionar no Verão.

O troço de ligação a São Pedro projetado na fase inicial da construção da linha, ainda em 1902, tinha uma extensão de 2350 m e derivava no Largo Afonso de Albuquerque, seguindo pela Av. D. Francisco de Almeida, Estrada do Chão de Meninos, Rua Primeiro de Dezembro, e Largo Dr. Manuel de Arriaga (onde haveria uma estação de mercadorias e uma duplicação de via), terminando no Largo de São Pedro. (Este ramal nunca chegaria a ser construído.)

Em 1903, os peticionários para a construção de uma linha de tracção eléctrica entre Mafra e a estação daquela localidade solicitaram, ao Estado, a autorização para prolongar a concessão da linha até à Ericeira e Sintra; também foi noticiado que a Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs tinha ponderado em continuar a linha da Praia das Maçãs até à Ericeira, mas que não tinha chegado a entregar o requerimento para este projecto.

Na assembleia geral da Companhia, já em 25 de Novembro de 1903, discutiu-se, entre outros assuntos, a construção de um ramal para o Monte Estoril e Cascais. Apesar de ainda ventilado posteriormente, este prolongamento nunca se viria a construir — tal como nenhum dos alvitrados (Mafra, Almoçageme, e Cascais via São Pedro), com exceção do de Azenhas do Mar.

A via foi assente pela casa Daras. A energia era fornecida por várias máquinas, construídas pela empresa berlinense Franz Scheiffer, cada uma com 450 cavalos, e alimentadas por geradores multitubulares da casa Belleville, de Saint Denis. Os dínamos foram montados pela Westinghouse, e recebiam os movimentos dos motores por um veio, aonde se encontrava o volante, na configuração transversal.

Em meados de 1903, os trabalhos já se encontravam bastante adiantados, prevendo-se a inauguração em Agosto; calculou-se, igualmente, que a projectada ligação entre Sintra e Cascais estaria concluída em Janeiro do ano seguinte. No entanto, em outubro, a linha ainda não estava aberta, prevendo a Companhia que entrasse ao serviço em Novembro; nesta altura, já tinha recebido 8 carros eléctricos, vindos de Nova Iorque, e previa abrir a linha em Novembro. Em 13 de Novembro, realizaram-se as primeiras experiências dos carros, com bons resultados, entre a cocheira, na Ribeira, e a Estefânia. No dia 22 desse mês, realizou-se outra experiência do material circulante; este ensaio, ao qual assistiu o conselho de administração da Companhia, vários jornalistas, vários convidados, e os representantes das empresas construtoras, consistiu numa viagem entre a central eléctrica até à Estação de Sintra, passando junto a Colares. Foi utilizado um dos carros, transportando 39 pessoas, tendo sido experimentadas todas as velocidades, e as travagens pelos freios manual e eléctrico; o veículo venceu, sem dificuldade, as rampas, e inseriu-se correctamente nas curvas, sem provocar solavancos. Previa-se, nessa altura, a substituição do freio eléctrico por um electromagnético, que era mais seguro para os passageiros. A Companhia pretendia, naquela altura, inaugurar pelo menos o troço entre Sintra e Colares no Natal, ou nos princípios do ano seguinte. Em Dezembro, previa-se a inauguração da linha para 1 de Janeiro.

Inauguração e expansão (1904-1947)