Isabel I (Madrigal de las Altas Torres, – Medina del Campo, ), apelidada de "Isabel, a Católica", foi a Rainha de Castela e Leão de 1474 até sua morte, além de Rainha Consorte de Aragão a partir de 1479 e Imperatriz titular do Império Bizantino de 1502 até sua morte. Era filha do rei João II e sua esposa Isabel de Portugal.
Casou-se com o seu primo em segundo-grau, o príncipe Fernando de Aragão e, devido ao seu parentesco próximo, tiveram de pedir permissão ao Papa. No entanto, com a ajuda de Rodrigo Bórgia, o acabou por aceitar o casamento, uma vez que considerava a união conveniente para os interesses da Igreja. Isabel e o seu marido Fernando criaram as bases para a unificação política da Espanha através do seu neto, , que se tornaria imperador do Sacro Império Romano.Kutz, Jens Peter, Karl V. (1500-1558) - Kaiserwahl und Kaiseridee, Universität Hannover
Depois de uma luta para reclamar o seu direito ao trono,Elliot, J.H. (2002). Imperial Spain: 1469-1716. New York: Penguin Books. pp. 23. ISBN 0-14-100703-6. Isabel reorganizou o sistema de governo e da administração, centralizando competências ostentadas anteriormente pelos nobres; reformou o sistema de segurança dos cidadãos de tal forma que a taxa de criminalidade desceu drasticamente e levou a cabo uma reforma económica para reduzir a dívida que o reino tinha herdado do seu meio-irmão e predecessor no trono, Henrique IV. As suas reformas e as que realizou com o marido, tiveram grande influência mesmo fora das fronteiras dos seus reinos. Juntamente com o seu marido, Isabel participou na guerra de Granada através da qual conseguiram reconquistar terras muçulmanas, expulsando-os assim da Península Ibérica.Edwards,John. The Spain of the Catholic Monarchs 1474-1520. Blackwell Publishers Inc, 2000, p. 112-130 Posteriormente decretaram também a expulsão dos judeus da região através do Decreto de Alhambra.Liss,Peggy. "Isabel the Queen," Oxford University Press, 1992. p.298 Por estas medidas, tanto Isabel como o seu marido foram reconhecidos pela Santa Sé como "defensores ou protectores da fé", recebendo o título de Reis Católicos.
Contudo, Isabel foi recordada sobretudo pelo apoio incondicional que deu a Cristóvão Colombo na sua busca pelas Índias Ocidentais, uma missão que o levaria a descobrir a América.VERLINDEN, Charles; PÉREZ-EMBID, Florentino. pág. 48-49.ARRANZ MÁRQUEZ, Luis. Págs. 184-186. Este acontecimento levou posteriormente às descobertas e ao surgimento do Império Espanhol.
Primeiros Anos thumb|left|upright|Isabel quando jovem
Isabel de Castela, filha de e da sua segunda esposa, Isabel de Portugal, nasceu em Madrigal de las Altas Torres, na província de Ávila, no dia 22 de abril de 1451, numa Quinta-Feira Santa, no palácio que hoje em dia é ocupado pelo Mosteiro de Nossa Senhora da Graça. O lugar e a data de nascimento foram discutidos historicamente, uma vez que quando nasceu, ninguém suspeitava da importância histórica que teria a menina no futuro.Alguns autores consideram que a futura rainha nasceu em Ávila ou Madrid. Sobre este assunto aconselha-se a leitura do livro de Manuel Foronda y Aguilera: Dónde y cuándo nació Isabel la Católica (1920). Madrigal era na altura uma pequena vila movimentada onde a sua mãe, Isabel de Avis, residia ocasionalmente. Foi da sua mãe que recebeu o nome Isabel que, na altura, ainda não era muito usado em Espanha.
Dois anos depois, em Tordesilhas, nasceu o seu irmão Afonso. Anteriormente, fruto do matrimónio entre João II de Castela e Maria de Aragão, e por tanto irmão paterno de Isabel, tinha nascido Henrique, que ocuparia o trono em 1454 e seria conhecido como Henrique IV, o Impotente.
Após a morte do seu pai em 1454, Isabel retirou-se com a sua mãe e irmão Afonso para a vila de Arévalo, onde assistiria aos ataques de loucura da sua mãe, Isabel. Esta foi uma época de dificuldades, inclusivamente económicas, pois embora o seu pai tivesse deixado disposições importantes no testamento a favor da sua mãe, o rei Henrique IV não as cumpre reiteradamente. Nesta adversidade, Isabel fortaleceu-se com leituras católicas e livros religiosos. A sua amizade com Santa Beatriz de Silva também a ajudou. Mais tarde, já rainha, Isabel ajudou-a a fundar a Ordem da Imaculada Conceição e ofereceu-lhe os palácios de Galiana na cidade de Toledo. Outras personagens importantes, neste momento e em geral durante a sua vida, foram Gutierre de Cárdenas, e a sua esposa Teresa Enríquez y Gonzalo Chacón.
Em 1461, Isabel e o seu irmão Afonso mudaram-se para Segóvia, lugar onde se encontrava a Corte, por estar para breve o nascimento da filha dos reis, dona Joana de Castela. Logo que nasceu, apelidaram a criança de Joana, a Beltraneja porque, segundo rumores da época, era filha da rainha, dona Joana de Portugal, e de Beltrán de La Cueva.
Os nobres, ansiosos por poder, colocaram o seu irmão Afonso, na altura apenas com doze anos de idade, contra o seu meio-irmão Henrique, exibindo-o na "farsa de Ávila". Em 1468, o seu irmão Afonso morreu, provavelmente envenenado, em Cardeñosa. Inicialmente, pensou-se que tinha sido vítima da peste, mas o médico que examinou o seu cadáver não encontrou indícios de tal doença.
Apesar das pressões dos nobres, Isabel recusou proclamar-se rainha enquanto Henrique IV estivesse vivo. Pelo contrário, conseguiu fazer com que o seu irmão lhe concedesse o título de princesa das Astúrias, numa cerimónia discutida que aconteceu nos Toros de Guisando a 19 de setembro de 1468, conhecida como a Concórdia de Guisando. Diz-se que dom Andrés de Cabrera, tesoureiro real, disse ao rei: "A virtude e as modéstia da infanta obrigam-nos a esperar que não terá mais vontade do que a vossa nem alimentará a ambição dos Grandes, pois se não tivesse recusado o título de rainha que lhe ofereceram, contentando-se com o de princesa que, a seu ver, lhe pertence".
Isabel tornou-se assim herdeira da coroa, à frente da sua sobrinha e afilhada Joana a quem a nobreza não considerava legítima para ocupar o trono devido às dúvidas que existiam em relação à sua paternidade. A partir deste momento, Isabel passa a residir em Ocaña, uma vila que pertencia a dom Juan Pacheco, marquês de Villena. O rei inicia contactos diplomáticos com outras casas reais para conseguir um acordo matrimonial que lhe trouxesse benefícios.
Acordos matrimoniais thumb|upright|Isabel de Castela
Desde os três anos de idade Isabel esteve comprometida com Fernando, filho do rei João II de Aragão.
No entanto, Henrique IV acabou com este acordo seis anos depois para comprometer a irmã com Carlos, príncipe de Viana. O casamento não chegou a realizar-se devido à oposição férrea de João II de Aragão. Também foram inúteis as tentativas de Henrique IV de casá-la com o rei Afonso V de Portugal, primo em segundo-grau de Isabel e quase vinte anos mais velho do que ela. Em 1464, conseguiu reuni-los no Mosteiro de Guadalupe, mas Isabel recusou-o devido à diferença de idades entre ambos.
Mais tarde, quando tinha dezesseis anos, Isabel ficou comprometida de Pedro Girón, Mestre de Calatrava e irmão de dom Juan Pacheco. Diz-se que Isabel rogou aos céus para que não se realizasse o seu casamento com este varão de quarenta e três anos. Dom Pedro morreu de apendicite durante a viagem para se encontrar com a sua prometida.
A 18 de setembro de 1468, Isabel foi proclamada princesa das Astúrias através da Concórdia dos Touros de Guisando, revogando assim a anterior decisão de Henrique IV em oferecer este título à sua filha Joana. Depois da cerimónia, Isabel passou a viver em Ocaña tendo pouco contacto com a corte. Henrique IV voltou a sugerir o enlace entre Isabel e o rei Afonso V de Portugal, já que o Tratado dos Touros de Guisando tinha relembrado que o casamento de Isabel devia realizar-se com a aprovação do monarca castelhano. A proposta também incluía o projecto de casar a sua filha Joana com o príncipe-herdeiro João, filho de Afonso de Portugal. Desta forma, Isabel teria que mudar-se para o reino vizinho e, quando o seu marido morresse, os tronos de Portugal e Castela passariam para o rei João II de Portugal e para a sua esposa Joana.
Quando Isabel recusou a proposta, o rei intentou entregá-la a Carlos, duque de Berry, irmão do rei ; Isabel voltou a recusar o matrimónio. O monarca francês pediu então a mão de Joana para o seu irmão com o objectivo de afastá-lo do trono de França uma vez que o considerava uma ameaça para ele. O noivado celebrou-se em Medina del Campo em 1470, mas o duque morreu em 1472, em circunstâncias misteriosas antes de conhecer a noiva.
Entretanto, o rei João II de Aragão tratava de negociar em segredo com Isabel o casamento com o seu filho Fernando. Isabel e os seus conselheiros consideraram que ele era o melhor candidato para seu esposo, mas havia um impedimento legal uma vez que os dois eram primos em segundo-grau (os seus avôs, e eram irmãos). Por isso, precisavam de uma bula papal que os exonerasse do impedimento. No entanto, o Papa não chegou a assinar este documento, temendo as possíveis consequências negativas que esse acto lhe poderia trazer (atraindo a aversão dos reinos de Castela, Portugal e França, todos envolvidos nas negociações para desposar da princesa Isabel com outro pretendente).
thumb|left|Isabel com o marido, Fernando
Apesar de tudo, o Papa era a favor desta união por gostar da princesa Isabel, uma mulher de carácter marcadamente religioso, devido à ameaça que os muçulmanos representavam para os seus Estados Pontifícios. Por essa razão, ordenou que dom Rodrigo Bórgia se dirigisse a Espanha como legado para facilitar a união.
As dúvidas de Isabel para casar-se e a autorização papal impediam a realização da cerimónia. Com a conivência de dom Rodrigo Bórgia, os negociadores apresentaram uma suposta bula emitida em junho de 1464 pelo Papa anterior, Pio II, a favor de Fernando, na qual era permitido a Fernando contrair matrimónio com qualquer princesa com quem tivesse laços de consanguinidade até ao terceiro grau. Isabel aceitou e assinaram-se as capitulações matrimoniais em Cervera, a 5 de março de 1469. Para que se realizasse a cerimónia, e temendo que Henrique IV acabasse com os seus planos, em maio de 1469, com a desculpa de visitar o túmulo do seu irmão Afonso, que repousava em Ávila, Isabel escapou de Ocaña onde era rigorosamente vigiada por dom Juan Pacheco. Por seu lado, Fernando atravessou Castela em segredo, disfarçando-se de moço de mulas de comerciantes.Isabel la Católica (1983) Basilio Losada. Ed. Auriga. pág. 26 Finalmente, a 19 de outubro de 1469, Isabel contraiu matrimónio no Palácio de los Vivero em Valladolid com Fernando, rei da Sicília e príncipe de Gerona.
O matrimónio custou a Isabel o confronto com o seu meio-irmão que chegou a paralisar a bula papal de dispensa por parentesco. Finalmente, e depois da mediação do arcebispo de Toledo, Alonso Carrillo, no dia 1 de dezembro de 1471, o Papa Sisto IV acabou com as dúvidas em relação à legalidade canónica da união através da Bula de Simancas, que dispensava os príncipes Isabel e Fernando da sua consanguinidade.
Isabel, Rainha de Castela thumb|upright|Isabel já rainha
Isabel ascendeu ao trono depois de vencer a Guerra de Sucessão Castelhana, ocorrida entre 1475 a 1479, enfrentando os partidários da sua sobrinha Joana. No entanto, após a vitória fez-se justiça, mas também se ofereceu o perdão real a todos aqueles que o pediram. Foi então que se construiu o Mosteiro de São João dos Reis.Isabel la Católica. Basilio Losada. pág. 44
Isabel proclama-se rainha de Castela no dia 13 de dezembro de 1474 em Segóvia, usando como base o Tratado dos Touros de Guisando. Da Fortaleza de Segóvia dirigiu-se para a Igreja de São Miguel, junto à praça maior. Depois de jurar por Deus, pela Cruz e pelos Evangelhos que seria obediente aos mandamentos da Santa Igreja, os presentes juram-lhe lealdade. De seguida entrou no templo segurando o escudo de Castela e abraçada às suas dobras.