miniaturadaimagem|upright=1.4|Tela "Os Bandeirantes" (1889), de Henrique Bernardelli, exposta no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Bandeirantes é o termo usado para designar os sertanistas do período colonial brasileiro, que, a partir de meados do século XVI, adentraram o interior da América do Sul em busca de riquezas minerais, principalmente ouro e prata, além de capturar indígenas para escravidão ou eliminar quilombos. Sua atuação foi decisiva para a expansão territorial do Brasil além dos limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas (1494), ocupando territórios das atuais regiões Centro-Oeste e Sul. Foram também os responsáveis pela descoberta de jazidas de ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.[Relatos Sertanistas, Afonso de E. Taunay, Ed. da Universidade de São Paulo]

A maioria dos bandeirantes era formada por portugueses e descendentes em São Paulo, incluindo também indivíduos de ascendência galega, castelhana e cristãos-novos.CARVALHO FRANCO, Francisco de Assis, Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Editora Itatiaia Limitada - Editora da Universidade de São Paulo, 1989 As tropas geralmente contavam com uma participação minoritária de índios (escravos ou aliados) e caboclos (mestiços de índios com brancos), que desempenhavam tarefas secundárias.ALDEN, Dauril. The Making of an Enterprise: The Society of Jesus in Portugal, Its Empire, and Beyond, 1540-1750. Stanford University Press. 1996.TAUNAY, Afonso d'Escragnolle, História geral das bandeiras paulistas, 11 volumes, São Paulo, Typ. Ideal, 1924-1950. A bandeira de Nicolau Barreto, em 1602, é um exemplo notável, composta por 270 portugueses, um número elevado para a época.TAUNAY, São Paulo nos Primeiros Anos, São Paulo no Século XVI, página 418, Editora Paz e Terra, 2004.

Darcy Ribeiro afirma que os bandeirantes eram racialmente miscigenados, com a miscigenação com indígenas sendo comum, inclusive entre a elite. As famílias paulistas eram patrilineares e poligâmicas, tendo o casamento católico se consolidou somente mais tarde. A maior bandeira, de Manuel Preto e Antônio Raposo Tavares, em 1629, contava com 69 brancos, 900 mamelucos e 2 mil indígenas.A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO OESTE PAULISTA: ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A INTRODUÇÃO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA1

Além de falarem português, os bandeirantes também se comunicavam na língua geral paulista, derivada do tupi antigo, e muitos nomes de localidades brasileiras têm origem em termos tupis usados por eles, como Jundiaí e Piracicaba.NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. 463 p. Embora sua imagem tenha sido associada à violência, com a escravização e extermínio de milhares de indígenas, sua figura foi glorificada no final do século XIX e nas décadas de 1920 e 1930 como símbolo da bravura paulista.

Origem e uso do termo Embora o termo bandeirante seja amplamente utilizado atualmente, nos séculos XVI e XVII os participantes dessas expedições eram geralmente referidos como "sertanistas" ou "homens do sertão". O termo “bandeira” possui origem incerta, mas a historiografia aponta para a origem na tradição militar portuguesa de organizar pequenas unidades sob uma bandeira ou estandarte ou no costume indígena de levantar um bastão com penas (também chamado de bandeira) para sinalizar guerra ou reunião. Na época, as expedições eram formalmente chamadas de "entradas" quando organizadas pela Coroa, ou "armadas" e "tropas" quando organizadas por particulares para fins de defesa ou apresamento.

Contexto da capitania de São Vicente no período colonial miniaturadaimagem|Mapa de João Teixeira Albernaz da Capitania de São Vicente em 1641. No fundo, à direita, aparece a vila de São Paulo, ponto principal de irradiação das bandeiras. Nos séculos XVI e XVII, a capitania de São Vicente (e também a capitania de Itanhaém, criada a partir da primeira em 1624) vivia em uma situação peculiar. Distante do centro de poder colonial, na Bahia, operava em um cenário de isolamento geográfico e político em relação a Salvador, então capital da colônia. Devido à grande distância e às dificuldades de comunicação, os paulistas mantinham uma relação de quase independência em relação à Coroa Portuguesa, frequentemente desrespeitando ordens reais e autoridades judiciais enviadas pela Metrópole.

Nessa época, a capitania de São Vicente era a região mais pobre do Brasil Colônia. Diferentemente do litoral do Nordeste açucareiro, enfrentava uma severa carência de recursos financeiros e metais preciosos. Havia uma completa escassez de cédulas na capitania, tanto que a moeda mais comum era o escambo. Como não tinham condições de importar africanos escravizados, seus habitantes utilizavam da mão-de-obra indígena escravizada (apelidados de “negros da terra”) na lavoura de subsistência, que era a principal atividade econômica.

O isolamento da capitania de São Vicente era agravado pela barreira natural da Serra do Mar, que separava o litoral do Planalto de Piratininga. Esse obstáculo físico isolava os moradores do planalto do comércio atlântico e da fiscalização da metrópole, transformando a vila de São Paulo em um reduto de autossuficiência e pobreza material.

O tráfico de indígenas escravizados sempre esteve presente na São Paulo colonial, desde antes da fundação da vila de São Vicente por Martim Afonso de Sousa em 1532, quando existia na ilha de mesmo nome um porto para o tráfico de escravizados ameríndios, conhecido como “Porto dos Escravos”, operado por João Ramalho e o enigmático Bacharel de Cananeia.

A população da Capitania era fruto da intensa miscigenação entre os colonos portugueses e mulheres indígenas, assim surgindo uma cultura mestiça. Os bandeirantes herdaram do luso a ambição de domínio e do ameríndio a adaptação instintiva ao meio selvagem. Esse processo permitiu que esses exploradores dominassem técnicas nativas essenciais, como a orientação pelo Sol, o uso de redes de dormir, o consumo de farinha de guerra (mandioca ou milho) e a medicina da floresta baseada em raízes e ervas. Essa mistura cultural foi o que possibilitou a sobrevivência e a mobilidade das bandeiras em territórios onde um europeu típico não sobreviveria.

O historiador britânico Russell-Wood identificou os paulistas como pertencendo a um grupo étnico, em oposição à metrópole, ligado à terra, e com sentimento nativista: “Os paulistas eram uma anomalia para os portugueses metropolitanos. De um lado, eram de ascendência portuguesa, falavam português, praticavam o catolicismo, eram capazes de feitos heroicos, demostravam coragem indiscutível, e sua vila de São Paulo tinha os equipamentos administrativos e institucionais e edifícios públicos — tanto civis quanto religiosos — de uma vila portuguesa. De outro lado, muitas vezes, tinham sangue ameríndio, falavam as línguas indígenas, tomavam índias como esposas e concubinas, opunham-se às autoridades civis e religiosas e mostravam desdém aos representantes da Coroa e aversão a leis, alvarás e ordens régias. Debate é acirrado sobre se é a ascendência comum ou a cultura e consciência de pertencimento compartilhadas a característica diferencial mais importante. De acordo com qualquer uma das definições, os paulistas constituem um grupo étnico. Foi precisamente este senso de ‘ser outro’ que perturbava, no Brasil, a Coroa portuguesa e até os colonos portugueses natos. Autossuficiência, distância, inacessibilidade, mobilidade e independência de espírito tornavam-nos refratários ao controle régio”.Identidade, etnia e autoridade nas Minas Gerais do século XVIII: leituras do Códice Costa Matoso

As primeiras bandeiras Foi decisivo para a militarização da vila de São Paulo, fundada em 1554 pelos jesuítas, o ataque de 9 de julho de 1562, conhecido como o Cerco de Piratininga. Uma coalização de indígenas guaianases, tamoios e carijós se rebelou contra a aliança entre o cacique Tibiriçá e os colonos portugueses, sitiando a vila com o objetivo de destruí-la. A aliança indígena foi derrotada, graças à defesa liderada pelo cacique e os primeiros colonos, a qual foi fundamental para a sobrevivência de São Paulo.

O cerco à vila demonstrou a fragilidade de sua defesa e forçou os moradores a organizarem expedições armadas constantes para afastar a ameaça indígena das suas fronteiras, criando o embrião da estrutura das futuras bandeiras. Após esse episódio, as incursões paulistas no sertão deixaram de ser apenas pequenas explorações de reconhecimento e passaram a ter um caráter de represália e defesa ativa. No final do século XVI, a necessidade de braços para a lavoura e de garantir a segurança das vilas de São Paulo e São Vicente levou à formação de milícias que buscavam combater grupos hostis à colonização. Com o passar das décadas, esse modelo de expedição militarizada foi evoluindo, pois os colonos perceberam que o aprisionamento de indígenas vencidos em combate poderia suprir a falta de mão de obra, transformando a "guerra defensiva" no lucrativo "ciclo de preação" que caracterizaria as primeiras grandes bandeiras do século XVII.

Diferente das grandes colunas do século XVII, as primeiras bandeiras eram grupos extremamente rústicos. Segundo os inventários da época, os expedicionários partiam com parcos recursos, muitas vezes apenas com um arcabuz de mecha e uma foice, dependendo inteiramente do conhecimento geográfico dos aliados indígenas para navegar pela mata fechada. A precariedade econômica da Capitania de São Vicente impunha que a própria sobrevivência da expedição dependesse da capacidade de viver "à moda da terra", o que consolidou desde cedo a hibridização de técnicas europeias e ameríndias.

Bandeiras de preação miniaturadaimagem|Ciclo da caça ao índio (1922), de Henrique Bernardelli, exposto no Museu Paulista em São Paulo. Com a chegada do século XVII, as bandeiras assumiram um caráter predominantemente comercial, com foco na captura sistemática de indígenas para suprir a carência de mão de obra na lavoura vicentina e em outras regiões da colônia. Este período, conhecido como "ciclo de preação", foi impulsionado pela incapacidade econômica da Capitania de São Vicente em adquirir africanos escravizados, cujo preço era proibitivo para os padrões locais. Os indígenas, referidos nos documentos da época como "negros da terra", tornaram-se o principal item de valor nos inventários e testamentos, sendo considerados o "remédio" para a sobrevivência econômica da região.

As bandeiras de apresamento eram colunas militares rústicas, formados por alguns brancos e mamelucos que comandavam centenas de indígenas aliados - conhecidos na época como "índios de serviço", hoje chamados como auxiliares nativos. Para capturar grupos hostis ou estabelecidos em aldeamentos, os bandeirantes utilizavam táticas de cerco e surpresa, muitas vezes valendo-se da língua geral paulista em que se comunicavam para enganar as populações locais. Uma vez capturados, os indígenas eram conduzidos em longas marchas a pé até as vilas. A logística dessas jornadas se adaptava às condições do ambiente: os expedicionários sobreviviam da caça e do plantio de pequenas roças temporárias ao longo do caminho.

Com o extermínio das populações indígenas das proximidades da vila de São Paulo, os bandeirantes começaram a captura de indígenas de regiões cada vez mais distantes dali, chegando às missões jesuíticas espanholas no Paraguai, Guairá (atual Paraná), Itatins (Mato Grosso do Sul) e Tape (Rio Grande do Sul), que se tornaram o foco das expedições de captura de indígenas para escravizar, pois as populações ameríndias ali estabelecidas já viviam em grandes aldeamentos e estavam adaptadas ao trabalho disciplinado, o que tornava a captura em massa muito mais eficiente do que a busca por grupos dispersos na mata. Nessas incursões, os paulistas não apenas capturavam os indígenas, mas destruíam as estruturas das missões, forçando os jesuítas e os sobreviventes a fugirem para o sul.