Bernardino Morandi, conhecido como Orazio Morandi (Roma, 29 de setembro de c. 1570 — Roma, 7 de novembro de 1630) foi um intelectual, alquimista, astrólogo e monge beneditino italiano.
Biografia Batizado Bernardino Morandi, seus primeiros anos são obscuros. Quando adulto manteve contato com uma rica família nobre de Bérgamo que tinha seu sobrenome e parece certo que eram parentes, mas sobre seu pai Lodovico quase nada se sabe além de que pertenceu ao pequeno patriciado romano e muito provavelmente trabalhou para algum membro do alto clero da cidade. O parentesco com outros Morandi ativos em Roma nesta época, alguns proeminentes, não foi estabelecido com segurança.Dooley, Brendan. Morandi's Last Prophecy and the End of Renaissance Politics. Princeton University Press, 2021, pp. 14-35
Ingressou na universidade La Sapienza para estudar Direito, concluindo o curso em 1590.Tabacchi, Stefano. "Morandi, Orazio". In: Dizionario Biografico degli Italiani, Volume 76. Treccani, 2012 No mesmo ano, em 10 de novembro,"Orazio Morandi". Museo Galileo - Istituto e Museo di Storia della Scienza, 14/05/2009 iniciou o noviciado na Abadia de Vallombrosa, perto de Florença, sede de uma Congregação beneditina com uma Regra diferenciada, quando assumiu o nome Orazio.
Na abadia ampliou e aperfeiçoou sua cultura, e possivelmente através do abade, poeta e acadêmico Simeone Finardi, ingressou no círculo de artistas, literatos e intelectuais da Accademia degli Spensierati de Florença. Colaborou com o acadêmico Francesco Allegri na publicação de uma coletânea de poemas de Alessandro Allegri, irmão de Francesco.
Os círculos eruditos que Morandi frequentava cultivavam um intenso interesse pela filosofia platônica, ocultismo e astrologia, e provavelmente foi ali que iniciou seus estudos nessas matérias. A abadia mantinha uma forte ligação com a corte grã-ducal de Florença, e Morandi estreitou amizade com Carlo, Antonio e especialmente Giovanni de Médici, que eram tidos como peritos em astrologia e ocultismo, compartilhando reflexões e fazendo com eles experimentos alquímicos, além de lhes prestar alguns serviços pessoais. O aparecimento da supernova de 1604 provavelmente reforçou o seu interesse nesta área, sendo um evento muito comentado na época por cientistas e astrólogos.
Em 1613, graças à influência dos Médici, voltou a Roma para assumir o importante posto de abade da Abadia de Santa Praxedes, um famoso centro religioso e cultural, e em 1617 foi eleito Geral da Congregação de Vallombrosa e seu procurador junto à Cúria Romana, ocupando estes dois cargos até 1621. Não deu grande atenção aos assuntos monásticos, mas conseguiu obter para a Congregação a confirmação de antigos privilégios e outros benefícios. Sua atividade se concentrou na consolidação de Santa Praxedes como um centro de reunião da elite artística, científica e literária romana, frequentado por artistas como Bernini e Pietro Finelli, literatos como Cassiano dal Pozzo e Paolo Mancini, cientistas como Galileu Galilei e Francesco Ughelli, e também alguns eminentes cardeais e clérigos da Cúria, como Tiberio Muti, Desiderio Scaglia e Marcello Lante, para os quais servia de consultor e fazia horóscopos e deles recebia muitos favores e patrocínio. Sua biblioteca pessoal foi descrita em sua época como vasta e seletíssima (um inventário parcial sobreviveu), contendo obras clássicas e modernas de ciência (matemática, astronomia, medicina, química, teoria da ciência), ocultismo (astrologia, magia, alquimia, quiromancia, divinação, geomancia), literatura, poesia, teatro, moral, política, história, ética, etiqueta, direito, teologia, filosofia, cultura, doutrina e história da Igreja, e outros temas.
Sua fama ultrapassou a Itália e sua correspondência demonstra a formação de uma grande rede de contatos internacionais, fazendo uma legião de admiradores. Benigno Bracciolini publicou em 1626 um panegírico atestando sua larga fama e mostrando-o como dono de doutrina prodigiosa e completamente versado em todas as áreas do saber, além de louvar sua modéstia, generosidade, seus dotes morais, sua disposição de ajudar os outros e sua agradável conversação. Ele documentou o dia de seu nascimento, 29 de setembro, mas não disse em qual ano, além de referir que vinha de uma nobre família do norte.
Morandi, contudo, não se limitou a atividades intelectuais. Em Roma ganhou proeminência também como o principal astrólogo da cidade, e Tommaso Campanella disse que em seu mosteiro se reuniam todos os astrólogos de Roma, além de envolver-se na política, servindo de informante para embaixadores estrangeiros e outras personalidades, fazendo circular textos sobre assuntos do papado, especulando sobre as perspectivas de certos cardeais se tornarem o próximo papa, e usava a astrologia para fazer previsões sobre eventos políticos e a vida de autoridades.
Processo e morte
Em maio de 1630 Morandi divulgou um horóscopo prevendo a iminente morte do papa Urbano VIII. A notícia se espalhou imediatamente gerando controvérsia e escândalo, causou agitação entre vários cardeais da Itália, Espanha e França que ambicionavam o trono, e também caiu na boca do povo, proliferando panfletos com teorias fabulosas e acusações de bruxaria. O evento fatídico previsto não ocorreu, mas apesar da popularidade da astrologia mesmo entre o clero — o próprio papa fazia uso dela —, a astrologia política sempre fora um negócio arriscado.
Urbano VIII havia ficando profundamente irritado com a previsão e em 13 de julho de 1630 ordenou a prisão de Morandi e eventuais cúmplices, e instaurou um inquérito judicial e uma devassa nas atividades da abadia. Os monges de Santa Praxedes esconderam seus livros e escritos e tentaram defendê-lo, mas sem sucesso, sendo traído por Teodoro Ameyden, procurador da abadia, que revelou a localização do material incriminatório. Com isso os monges perderam o ânimo e passaram a colaborar com os inquisidores.Ernst, Germana. "Scienza, astrologia e politica nella Roma barocca: La biblioteca di don Orazio Morandi". In: Canone, E. (ed.). Bibliothecae selectae. Da Cusano a Leopardi, vol. 58. Lessico intellettuale europeo, 1993, pp. 217-252 No processo de coleta de evidências, ficou claro que Morandi desde há muito se dedicava ao ocultismo e lia livros proibidos, além de ser acusado de se imiscuir na política e praticar tráfico de influência e outros crimes. Os autos judiciais somaram mais de 2.800 páginas e foram preservados. Segundo Stefano Tabacchi, "o julgamento de Morandi desenvolveu-se desde o início como um verdadeiro julgamento político, guiado pela vontade do papa de atacar, através dele, as facções que através da astrologia e da divulgação de escritos políticos procuravam desestabilizar o pontificado ou lançar sombra sobre sua figura".
Quando o processo se aproximava de uma conclusão, no fim de outubro de 1630 Morandi começou a sofrer de uma febre, que levou à sua morte em 7 de novembro. Circularam muitos rumores de que havia sido envenenado, embora o médico que assinou o certificado de óbito e o monge que o atendeu em sua doença final o tenham negado.Dooley, pp. 1-6 Com sua imprevista saída de cena, o papa se apressou em encerrar o caso e os outros acusados foram libertos, mas em 1º de abril de 1631 Urbano VIII promulgou severa legislação contra a astrologia política na bula Contra astrologos iudiciarios, impondo a pena de morte para quem se dedicasse a tais práticas.
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