Culcita macrocarpa C.Presl 1836, conhecido pelos nomes comuns de feto-de-cabelinho ou feto-abrum, é uma espécie de pteridófito pertencente à família Culcitaceae (anteriormente era incluído na família Dicksoniaceae) com distribuição restrita à região biogeográfica macaronésica e ao oeste da Península Ibérica,Erik Sjögren, Plantas e Flores dos Açores. Edição do autor. 2001. onde poderá ter sido introduzida. É o único membro da ordem Cyatheales que é nativo da Europa. Descrição A Culcita macrocarpa é um grande pteridófito homospórico que pode atingir até 2 m de altura, com frondes que medem até 2 m de comprimento, com um rizoma grosso e rastejante, caracteristicamente coberto por páleas piliformes, delgadas e finas, parecendo pêlos, de cor avermelhada. Os rizomas podem atingir mais de um metro de comprimento e ser bifurcados.

Os rizomas são densamente revestidos por longos pêlos sedosos e castanhos claros, daí o nome de feto-de-cabelinho. Os estipes têm em geral um terço do comprimento da lâmina foliar, com estípulas e ráquis glabras e uma lâmina foliar triangular verde brilhante, coriácea no topo. Os soros são protegidos pelos lóbulos curvos da lâmina.

As frondes podem ultrapassar os 2 metros de comprimento, com lâminas bi- a pentapinadas, com lobos lanceolados de consistência coreácea. O pecíolo tem em geral o mesmo comprimento que a lâmina.

Produz soros reniformes marginais, no extremo das nervuras, protegidos por um indúsio formado por duas valvas, uma formada por um verdadeiro indúsio e outra formada por um prolongamento da própria lâmina. Os esporângios são piriformes, com maturação basípeta e anel oblíquo, esporos triléticos.

Distribuição e habitat Este pteridófito é um caméfito robusto, geralmente prostrado, que vive em zonas de elevada humidade do solo e da atmosfera e com pequenas oscilações térmicas. O substrato ideal para o desenvolvimento de C. macrocarpa são os solos orgânicos ácidos ricos em húmus situados em locais sombrios e rochosos. O habitat mais favorável são os bosques ripários das zonas costeiras.

Esta espécie paleomediterrânica é uma relíquia dos bosques tropicais do Terciário europeu.Pichi-Sermolli, R. E. G. 1979. "A survey of the pteridological flora of the Mediterranean region". Webbia, 34:175-242. Actualmente é um endemismo ibero-macaronésico com as suas populações ameaçadas e reduzidas a algumas áreas relíquia na Península Ibérica (Maciço Cantábrico e zona norte da Galiza; montanhas na região de Algeciras, na Andaluzia; e Serra de Pias, na região montanhosa do Douro), Açores (todas as ilhas com exceção da Graciosa, sendo muito raro na ilha de Santa Maria), Madeira e Tenerife (Canárias).

Na Península Ibérica, encontra-se nas costas do norte da Cantábria e das Astúrias, no norte da Galiza e nas zonas montanhosas da área metropolitana do Porto e da província de Cádis. As populações encontradas na Península Ibérica podem ser o resultado de uma introdução.

Cresce em encostas rochosas siliciosas, especialmente em vales profundos sob florestas sempre verdes e perto de zonas costeiras, por vezes em matagais até 1100 m de altitude. Encontra-se normalmente perto de quedas de água ou riachos que fornecem humidade sob a forma de salpicos ou em florestas de nuvens. Esta espécie requer sombra e temperaturas moderadas durante todo o ano, com elevada humidade atmosférica para esporular.

Cresce em todos os tipos de solos, mas evita substratos calcários e é especialmente comum no estrato herbáceo das florestas montanhosas de altitude dos Açores.

Conservação A Culcita macrocarpa está ameaçada pela perda de habitat que resulta da conversão das florestas naturais em plantações. A criação da rede de parques naturais dos Açores, veio permitir melhorar o estatuto de conservação da espécie naquele arquipélago. As subpopulações nos Açores ultrapassam os 10 000 indivíduos e parecem estar estáveis.

No norte de Portugale na Galiza, onde as populações existentes poderão ser resultado de introdução remota, a espécie está classificada como criticamente em perigo, sendo aí os fogos florestais a principal ameaça à espécie, a que se juntam as plantações de eucalipto que causam a dessecação dos solos que impede o crescimento da espécie.

Foi registada uma perda em termos de área, qualidade e extensão do habitat e do número de indivíduos adultos desta espécie devido a ameaças como incêndios, plantações florestais e centrais hidroelétricas. As suas subpopulações em Espanha e Portugal diminuíram seriamente, mas não se conhece a taxa deste declínio nas últimas três gerações, especialmente porque os indivíduos são muito longevos. A espécie está protegida por lei em Portugal. Neste país, o fogo é a principal ameaça à espécie e as plantações de eucalipto provocam a dessecação do solo, levando à alteração do seu habitat ótimo.

No entanto, a área de ocupação desta espécie rara é inferior a 2 000 km2 e a área de distribuição natural está a diminuir. Como resultado, a espécie é considerada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como Quase Ameaçada, e está em vias de ser classificada como Ameaçada. De acordo com a IUCN, os habitats da espécie precisam de ser protegidos e a sua biologia requer mais investigação.

A Culcita macrocarpa está incluída no Anexo II da Diretiva Habitats e no Anexo I da Convenção sobre a Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa. Também consta do Livro Vermelho de Espanha como em perigo (EN), o mesmo acontecendo nas Ilhas Canárias. Nos Açores é uma espécie protegida.Decreto Legislativo Regional n.º 15/2012/A, de 2 de abril, que aprova o Regime jurídico da conservação da natureza e proteção da biodiversidade.

Referências

Bibliografia Erik Sjögren, Plantas e Flores dos Açores. Edição do autor. 2001.

Ligações externas

Fotografia de C. macrocarpa

Atlas y Libro Rojo de la Flora Vascular Amenazada de España , 2009: Spore maturation and release of two evergreen macaronesian ferns, Culcita macrocarpa and Woodwardia radicans, along an altitudinal gradient. American Fern Journal, Oct 1, 2009 Treeferns Global Biodiversity Information Facility

Culcita, Macrocarpa Categoria:Culcitaceae Categoria:Plantas descritas em 1836 Categoria:Flora de Portugal Categoria:Flora dos Açores