Francisca Ribeiro de Abreu Moreira, conhecida na família como Chiquinha (Pedralva, 9 de outubro de 1873 — Santa Rita do Sapucaí, 18 de julho de 1965), foi a primeira-dama do país entre 15 de novembro de 1918 e 28 de julho de 1919, durante o período em que seu marido, Delfim Moreira, exerceu a Presidência da República. Antes disso, foi primeira-dama de Minas Gerais de 1914 a 1918, enquanto Delfim presidiu o estado.

Sua passagem pela esfera federal ocorreu durante a crise sucessória provocada pelo impedimento e pela posterior morte do presidente eleito Rodrigues Alves, vitimado pela gripe espanhola. A documentação sobre a atuação de Francisca nesse período é escassa; uma tese dedicada à história do primeiro-damismo brasileiro assinalou a inexistência de registros substanciais sobre sua vida e sua breve permanência na posição. Informações de caráter pessoal provêm sobretudo da imprensa contemporânea, de bases genealógicas e de depoimentos familiares reunidos em obra publicada em 2019.

Biografia

Origem familiar Francisca nasceu em Pedralva, então denominada Pedra Branca, no sul de Minas Gerais. As fontes divergem quanto ao seu ano de nascimento: a obra de Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo e a base genealógica GeneaMinas registram 1873, enquanto o FamilySearch apresenta 1877. A bibliografia biográfica mais recente dedicada às primeiras-damas brasileiras registra 9 de outubro de 1873.

Era filha do coronel Joaquim Inácio Ribeiro e de Joaquina Felicidade de Abreu, pertencentes a uma família estabelecida na região de Santa Rita do Sapucaí. A imprensa de 1920 descreveu Joaquim Inácio Ribeiro como fazendeiro e capitalista residente em Santa Rita do Sapucaí. Guedes e Melo também situam Francisca em uma família tradicional daquela cidade, onde Delfim Moreira fora criado e iniciaria sua carreira jurídica e política.

Casamento e descendência Em 11 de abril de 1891, aos dezessete anos, Francisca casou-se com seu primo-irmão Delfim Moreira da Costa Ribeiro, então com vinte e dois anos. O casamento ocorreu cerca de um ano depois de Delfim concluir o curso de Direito na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1890. O casal fixou-se em Santa Rita do Sapucaí, local em que Delfim exerceu funções jurídicas e municipais antes de consolidar sua carreira na política estadual.

O casal teve seis filhos. Uma reportagem publicada no dia da morte de Delfim Moreira identificou Antônio, Delfim Moreira Júnior, Antonieta, Aida e Maria entre os filhos vivos, além de informar que Alzira falecera pouco antes. A mesma notícia registrou que Antônio trabalhava como coletor federal em Belo Horizonte, que Delfim Júnior estudava no Colégio Aldridge, no Rio de Janeiro, e que Aida era chamada familiarmente de “Carioquinha” por ter nascido na então capital federal. Delfim Moreira Júnior viria a ser deputado federal por Minas Gerais e ministro do Tribunal Superior do Trabalho, instituição que presidiu entre 1955 e 1960.

Vida pública

Primeira-dama de Minas Gerais Delfim Moreira tomou posse como presidente do estado de Minas Gerais em 7 de setembro de 1914, permanecendo no posto até 7 de setembro de 1918; durante esse quadriênio, Francisca ocupou a posição protocolar de primeira-dama estadual. O governo mineiro foi o ponto culminante da trajetória estadual de Delfim, que anteriormente havia sido deputado, secretário do Interior e representante de Minas no Congresso Nacional.

Primeira-dama do Brasil Nas eleições de 1918, realizadas separadamente para presidente e vice-presidente conforme o sistema constitucional então vigente, Rodrigues Alves foi eleito presidente e Delfim Moreira, vice-presidente. Acometido pela gripe espanhola, Rodrigues Alves não tomou posse em 15 de novembro daquele ano. Delfim assumiu provisoriamente a Presidência, e Francisca tornou-se primeira-dama do país.

Rodrigues Alves morreu em 16 de janeiro de 1919. Como a vacância ocorrera antes de transcorrida metade do quadriênio, o artigo 42 da Constituição de 1891 determinava a realização de nova eleição. Delfim Moreira continuou a exercer a Presidência até a posse de Epitácio Pessoa, em 28 de julho de 1919, delimitando o período em que Francisca foi primeira-dama.

A passagem de Francisca pelo posto não deixou registro de agenda pública própria, associação assistencial ou intervenção institucional documentada. Uma imagem mais pessoal foi preservada por tradição oral familiar. Segundo Renata Borlido, bisneta de Francisca entrevistada por Guedes e Melo, Chiquinha tinha personalidade forte, era ativa, acompanhava reuniões políticas e expressava opiniões, comportamento incomum para os padrões sociais reservados às mulheres de sua geração. A descendente também transmitiu a lembrança de que Francisca mantinha hábitos simples durante a estada no Rio de Janeiro, incluindo o costume de varrer a entrada da residência ou do palácio; por se tratar de memória familiar, o episódio deve ser entendido como testemunho, e não como registro oficial.

Retorno à vice-presidência e a Minas Gerais Com a posse de Epitácio Pessoa, Delfim Moreira deixou o exercício da Presidência e retornou à Vice-Presidência da República. O casal voltou a Santa Rita do Sapucaí, embora Delfim permanecesse formalmente vice-presidente até a morte.

A família enfrentou duas perdas em poucos meses. Alzira, de doze anos, morreu em 14 de janeiro de 1920. Em 1.º de julho do mesmo ano, Delfim Moreira faleceu em Santa Rita do Sapucaí, cercado por familiares. O jornal A Noite, ao noticiar o falecimento, identificou Francisca como viúva do vice-presidente e apresentou informações sobre seu pai e os filhos do casal, constituindo uma das principais fontes primárias sobre a composição da família naquele momento.

Viuvez e últimos anos Francisca permaneceu em Santa Rita do Sapucaí após a morte do marido. Viveu por mais quarenta e cinco anos e, segundo a pesquisa de Guedes e Melo, acompanhou o crescimento de vinte e nove netos. Parte de sua memória familiar foi preservada pelos descendentes de Delfim Moreira Júnior, que associavam Chiquinha a uma postura independente e à participação informal nas conversas políticas da família.

Morreu em Santa Rita do Sapucaí em 18 de julho de 1965, aos noventa e um anos, de acordo com o ano de nascimento de 1873 registrado pela obra biográfica de 2019. O FamilySearch confirma a data e o local da morte, embora utilize 1877 como ano de nascimento e, consequentemente, lhe atribua idade diferente.

Registro histórico A trajetória de Francisca exemplifica as dificuldades de documentação das primeiras-damas da Primeira República. A historiadora Dayanny Deyse Leite Rodrigues observou que não há registros substanciais sobre sua vida e sua curta passagem pelo posto, contraste marcante com a documentação existente para algumas de suas antecessoras e sucessoras. O livro de Guedes e Melo ampliou o perfil conhecido ao incorporar entrevista com uma bisneta, mas parte dessas informações permanece baseada em memória oral e deve ser apresentada com atribuição explícita.

As fontes também apresentam divergências genealógicas. Além da diferença entre 1873 e 1877 para o nascimento, compilações on-line chegaram a atribuir ao casal nove ou dez filhos. O verbete biográfico de Delfim Moreira elaborado pelo CPDOC/FGV, entretanto, informa seis filhos, número compatível com os seis nomes identificáveis na imprensa de julho de 1920. Por esse motivo, a reconstrução biográfica deve privilegiar as fontes institucionais e contemporâneas, registrando as divergências sem transformar dados genealógicos incertos em afirmações categóricas.

Ver também Lista de primeiras-damas do Brasil Lista de primeiras-damas do estado de Minas Gerais Delfim Moreira Delfim Moreira Júnior

Bibliografia

Ligações externas

Acervo presidencial de Delfim Moreira no Arquivo Nacional Edição de A Noite sobre a morte de Delfim Moreira, na Hemeroteca Digital Brasileira

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