Beatriz Pederneiras Ramos, conhecida no círculo familiar como Sizete (Rio de Janeiro, — Florianópolis, ), foi uma dirigente assistencial brasileira, primeira-dama do país durante a presidência de seu marido, Nereu Ramos, o 20.º presidente do Brasil entre novembro de 1955 e janeiro de 1956. Anteriormente, exerceu as funções de segunda-dama do Brasil, de 1946 a 1951, e de primeira-dama de Santa Catarina, entre 1935 e 1945.
Sua atuação pública mais documentada ocorreu em Santa Catarina durante a década de 1940. Como presidente da comissão estadual da Legião Brasileira de Assistência (LBA), participou da organização de uma rede de voluntárias, comissões municipais e postos de assistência materno-infantil. Também esteve vinculada à implantação do Centro de Puericultura Beatriz Ramos, inaugurado em Florianópolis em 1945 e assim denominado em reconhecimento à sua participação na estruturação da entidade no estado.
Estudos históricos posteriores situam essas iniciativas no processo de institucionalização da assistência social promovido pelo Estado Novo. Embora tenham ampliado serviços destinados às mães e às crianças pobres, as ações da LBA catarinense também reproduziam concepções médicas, higienistas, maternalistas e tutelares predominantes naquele período.
Origens e família
Beatriz nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1898. Era filha do médico Nicolau Paranhos Pederneiras e de Avelina Francilvina França Leite. No ambiente familiar, era chamada de Sizete.
Casou-se com Nereu de Oliveira Ramos em 15 de agosto de 1916, em Florianópolis. O casal teve quatro filhos: Olga Pederneiras Ramos, nascida em 29 de junho de 1917; Nereu Ramos Filho, nascido em 27 de julho de 1918; Murilo Pederneiras Ramos, nascido em 27 de junho de 1919; e Rubens Pederneiras Ramos, nascido em 13 de dezembro de 1921.
O casamento inseriu Beatriz em uma das famílias politicamente mais influentes de Santa Catarina. Nereu era filho de Vidal José de Oliveira Ramos, que governara o estado entre 1910 e 1914, e integrou uma extensa rede familiar ligada à política, ao direito, à imprensa e à administração pública catarinense.
Primeira-dama de Santa Catarina
Nereu Ramos foi eleito governador constitucional de Santa Catarina e tomou posse em 1.º de maio de 1935. Após o golpe que instituiu o Estado Novo, em novembro de 1937, permaneceu no comando estadual como interventor federal, função que exerceu até 6 de novembro de 1945.
Durante esse período, Beatriz desempenhou o papel social e cerimonial atribuído à esposa do governador e, posteriormente, do interventor. Sua atuação pública concentrou-se principalmente em instituições filantrópicas, campanhas de mobilização civil e iniciativas voltadas à maternidade e à infância.
As fontes produzidas durante o Estado Novo apresentavam a assistência feminina como uma extensão das funções maternas e domésticas. As esposas de governantes eram mobilizadas como intermediárias entre o poder público, as entidades beneficentes e as famílias pobres. Nesse contexto, a visibilidade de Beatriz esteve associada tanto à posição política do marido quanto à expansão das políticas assistenciais centralizadas pelo governo federal.
Legião Brasileira de Assistência
Organização em Santa Catarina
A Legião Brasileira de Assistência foi criada em 28 de agosto de 1942, após a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, a entidade destinava-se ao auxílio das famílias dos militares mobilizados, mas progressivamente ampliou sua atuação para áreas como maternidade, infância, saúde, alimentação e assistência às populações pobres.
A organização da LBA em Santa Catarina começou em setembro de 1942. Em 12 de setembro, realizou-se no Clube Doze de Agosto, em Florianópolis, uma reunião preparatória com representantes do governo estadual e de setores da sociedade civil. A instalação formal da comissão estadual ocorreu em 18 de outubro daquele ano.
Beatriz assumiu a presidência da comissão estadual. A primeira diretoria também contava com Jáu Guedes da Fonseca e Américo de Campos Souto, além de um conselho consultivo composto por autoridades civis, médicos e representantes de associações locais.
Segundo o relatório apresentado pela comissão catarinense, a seção da capital reuniu inicialmente 678 voluntárias, número que ultrapassou oitocentas integrantes nos meses seguintes. A mobilização foi estendida ao interior por meio da participação das esposas dos prefeitos, responsáveis por organizar comissões locais e recrutar colaboradoras em seus municípios.
A utilização das primeiras-damas municipais permitiu que a LBA formasse uma rede de assistência vinculada à estrutura política do estado. A historiadora Karla Simone Willemann Schütz observa que Beatriz ocupou posição central na articulação dessas relações entre a comissão estadual, as autoridades locais e as mulheres pertencentes às elites municipais.
Campanhas e serviços assistenciais
A comissão catarinense participou de campanhas nacionais relacionadas ao esforço de guerra, como a coleta de borracha, alumínio e livros destinados aos combatentes. Também promoveu cursos de serviço social, hortas comunitárias, confecção de roupas, distribuição de alimentos, auxílio às famílias de soldados e atividades comemorativas como o Natal dos Pobres e a Semana da Criança.
A entidade organizou postos de maternidade e infância nos municípios catarinenses. Dos 43 centros municipais previstos, 31 foram instalados em setembro de 1942 e outros dez no mês seguinte. Os postos distribuíam alimentos, roupas, medicamentos e orientações de higiene, além de encaminharem gestantes, mães e crianças para atendimento médico.
Essas ações combinavam recursos governamentais, trabalho voluntário e doações privadas. Comerciantes, médicos, religiosos, juristas, funcionários públicos e associações femininas participavam das campanhas, formando uma rede na qual a filantropia privada era integrada aos objetivos sociais e políticos do Estado Novo.
A LBA também realizou concursos de robustez infantil, prática difundida em diferentes regiões do país. Em 17 de outubro de 1944, Beatriz presidiu, ao lado de médicos e autoridades sanitárias, a comissão julgadora de uma dessas competições em Florianópolis.
Pesquisadoras contemporâneas relacionam esses concursos às concepções higienistas e eugênicas então presentes nas políticas de saúde pública. A avaliação das crianças considerava aspectos físicos, nutricionais e comportamentais, transformando determinados modelos de corpo, maternidade e organização familiar em padrões de normalidade social.
Reconhecimento contemporâneo
Em outubro de 1944, durante as comemorações do segundo aniversário da LBA catarinense, foram inaugurados na sede da entidade retratos de Beatriz Ramos e de Darcy Vargas, presidente nacional da instituição. A cerimônia, divulgada pelo Diário Oficial do Estado, demonstrava a associação simbólica estabelecida entre a entidade e as esposas dos dirigentes políticos.
Uma reportagem publicada pela revista catarinense Atualidades, em 1946, atribuiu a Beatriz papel de destaque no funcionamento da LBA e nas campanhas em benefício de hospitais, maternidades, creches e instituições de amparo. Por se tratar de um texto elogioso produzido durante o período de projeção política da família Ramos, seu conteúdo constitui sobretudo um registro da imagem pública então construída em torno da antiga primeira-dama.
Centro de Puericultura Beatriz Ramos
Uma das principais iniciativas associadas à comissão estadual da LBA foi a criação de um centro destinado à assistência materno-infantil em Florianópolis. O conselho consultivo decidiu denominar a instituição Centro de Puericultura Beatriz Ramos, como reconhecimento à participação da presidente estadual na organização e na implantação do projeto.
O edifício foi construído na avenida Mauro Ramos e inaugurado em 3 de setembro de 1945. A cerimônia contou com a presença de Nereu e Beatriz Ramos, de autoridades estaduais, representantes da LBA, religiosos, médicos e integrantes de associações assistenciais.
O centro reunia serviços de acompanhamento de gestantes, atendimento pediátrico, orientação às mães, distribuição de alimentos e assistência às crianças pequenas. Sua estrutura também abrigou uma creche, razão pela qual estudos sobre a história da educação infantil o identificam como uma das primeiras experiências institucionais desse tipo em Santa Catarina.
Embora representasse uma ampliação concreta dos serviços oferecidos às famílias pobres, a instituição seguia um modelo médico-assistencial e filantrópico. A assistência era acompanhada por orientações sobre higiene, alimentação, comportamento materno e organização doméstica, dentro de uma concepção segundo a qual o Estado e as elites beneficentes deveriam tutelar e disciplinar as famílias atendidas.
Segunda-dama do Brasil
Com a deposição de Getúlio Vargas em outubro de 1945 e a redemocratização do país, Nereu Ramos foi eleito senador por Santa Catarina. Em 19 de setembro de 1946, o Congresso Nacional elegeu-o vice-presidente da República, cargo que permanecera vago desde a promulgação da Constituição de 1946.
Beatriz tornou-se, assim, segunda-dama do Brasil. Permaneceu nessa condição até 31 de janeiro de 1951, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. O cargo de segunda-dama não possuía atribuições constitucionais, administrativas ou estrutura institucional própria.
Em 1949, durante uma viagem oficial de Dutra ao exterior, Nereu exerceu interinamente a Presidência da República. A substituição decorreu de sua posição de vice-presidente e não representou o início de um novo mandato presidencial.
Após o término do governo Dutra, Nereu continuou atuando na política nacional. Foi presidente da Câmara dos Deputados, ministro da Justiça e Negócios Interiores e presidente do Senado Federal.
Primeira-dama do Brasil
Beatriz tornou-se primeira-dama do Brasil em 11 de novembro de 1955, quando Nereu Ramos assumiu a Presidência da República em meio à crise política que antecedeu a posse de Juscelino Kubitschek.
O presidente Café Filho afastara-se por motivo de saúde em 3 de novembro. O presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, assumiu interinamente, mas foi impedido pelo Congresso Nacional após os acontecimentos de 11 de novembro. Como primeiro vice-presidente do Senado, Nereu foi chamado a ocupar a chefia do Poder Executivo.
Em 22 de novembro, o Congresso confirmou a permanência de Nereu na Presidência após considerar Café Filho impedido de reassumir o cargo. O principal objetivo do governo transitório era assegurar a continuidade institucional e a posse dos candidatos eleitos Juscelino Kubitschek e João Goulart.
O período de Beatriz como primeira-dama durou aproximadamente dois meses e vinte dias, encerrando-se em 31 de janeiro de 1956. Diferentemente de sua atuação anterior na LBA catarinense, as fontes institucionais e os estudos sobre o governo de transição concentram-se na crise político-militar e não registram a criação de um programa assistencial autônomo dirigido por ela durante o curto mandato.
Viuvez e preservação da memória de Nereu Ramos
Nereu Ramos morreu em 16 de junho de 1958, no acidente aéreo ocorrido nas proximidades de São José dos Pinhais, no Paraná. Também morreram no desastre o governador catarinense Jorge Lacerda e o deputado federal Leoberto Leal.
Após a morte do marido, Beatriz participou da preservação de sua memória política. Ela doou ao Museu da República um conjunto documental que passou a constituir o Fundo Nereu Ramos.
O acervo compreende documentos textuais e iconográficos produzidos entre 1947 e 1957, incluindo fotografias, diplomas, condecorações e registros relacionados às atividades políticas e protocolares de Nereu. A doação realizada por Beatriz contribuiu para a conservação e para a disponibilização pública de parte da documentação referente à trajetória do ex-presidente.
Beatriz permaneceu viúva até sua morte, ocorrida em Florianópolis em 1991.