O Reino das Astúrias foi a primeira região da Península Ibérica que se libertou do domínio dos mouros aquando da invasão por estes da Península Ibérica. Protegidos por uma imponente cadeia montanhosa, os cristãos que escaparam à conversão islâmica imposta pela invasão dos mouros refugiaram-se naquele pequeno território do norte da Península, a partir do qual dariam início ao processo de Reconquista Cristã, inicialmente mediante pequenas escaramuças, até aos confrontos directos com os estandartes dos vários reinos cristãos que se foram formando.

Foi, portanto, a primeira entidade política cristã estabelecida na Península depois da capitulação do Reino Visigótico, na sequência da morte de Rodrigo, último rei visigodo, na batalha de Guadalete. A designação de Reino das Astúrias foi inicialmente ostentada por Pelágio das Astúrias.

Em 910, como a Reconquista fez alargar muito o seu território, este foi dividido pelos filhos do Rei Afonso III, o Grande. Tendo Fruela ficado com as Astúrias, Ordonho com o Reino da Galiza e Garcia com o Reino de Leão.

Em determinada altura a Galiza e as Astúrias estiveram integradas no reino de Leão, dada a morte sem descendentes dos seus soberanos, tendo o rei Fruela passado a controlar toda a vasta área do Noroeste Peninsular cristão.

Mas, ao conquistar cada vez mais área para si, na verdade acabaram depois por separar de novo. Mais tarde, podemos considerar que a partir dele surgiram outros reinos como o Reino de Pamplona, Aragão e Castela que derivou em Reino de Leão e Castela e o Condado Portucalense, subsequentemente Reino de Portugal.

Indígenas da região

direita|200px|legenda=Reino das Astúrias (a amarelo) no ano 750, no fim do Califado Omíada O Reino Asturiano teve como região os territórios ocidentais e centrais da Cordilheira Cantábrica, particularmente os Picos de Europa e a área central das Astúrias, zonas onde tiveram lugar os principais acontecimentos político-militares durante as primeiras décadas de existência do reino. Segundo as descrições de Estrabão, Dião Cássio e outros geógrafos greco-romanos, estas zonas estavam habitadas já antes da era cristã por diferentes povos, entre os quais se podem citar os seguintes: vadinienses, que habitavam os Picos de Europa e cuja área de assentamento se foi deslocando lentamente em direcção ao Sul durante os primeiros séculos da nossa era, tal como o testemunham as numerosas estelas; os orgenomescos, fixados na costa oriental asturiana; os selinos que, como o próprio nome indica, se distribuíam por todo o vale do Sela (Sália); os lugões, cujo território se estendia entre os rios Sella e Nalón e cuja capital se situava em Luco dos Ástures (Lugo de Llanera); os ástures propriamente ditos, que habitavam a zona interior das Astúrias, situada entre os actuais concelhos de Piloña e Cangas del Narcea; e os pésicos, que moravam na zona costeira de Astúrias Ocidental, entre a foz do Navia e a actual cidade de Gijón.

thumb|esquerda|300px|Imagem do lado do Valle (Somiedo). Aqui pode-se observar as conhecidas cabanas de teito, não muito diferentes das residências dos antigos ástures

As informações que nos dão os geógrafos clássicos acerca da filiação étnica destes povos são confusas: Ptolomeu assinala que os ástures habitavam a zona central da actual Astúrias, a que se estende entre os rios Návia e Sela, situando-se a oriente deste rio a fronteira com o território dos Cântabros. No entanto, já no , a Cosmografia de Júlio Honório posiciona a nascente do Ebro em território dos ástures (sub asturibus). Em qualquer caso, e deixando de lado os detalhes relativos às fronteiras entre as diferentes etnias cantábricas, o próprio Estrabão assinala em Geographia que todos os povos do Norte da Hispânia, desde os Galaicos aos vascões, tinham cultura e estilos de vida similares.

Outros testemunhos manifestam que nem os lugões nem os Pésicos se identificavam originalmente com os ástures; assim, no Paroquial Suévico, verifica-se a distinção entre ástures e Pésicos, como se fossem tribos diferenciadas, e numa lápide encontrada no concelho de Piloña - a piedra de los Ungones - assinala-se a fronteira entre os lugões e os ástures. Parece, portanto, que não existia nenhuma identidade supratribal de onde divergissem as tribos do futuro território asturiano.

Contudo, este cenário começou a modificar-se com a queda do Império Romano e durante as migrações dos povos germânicos: a luta, primeiro contra os romanos e mais tarde contra os vândalos asdingos e visigodos, foi forjando uma identidade comum entre os povos da futura Astúrias. Neste contexto, diversas escavações arqueológicas encontraram restos de fortificações ao redor do castro de Carisa (concelho de Lena). Os peritos consideram que a dita linha defensiva, disposta estrategicamente na bacia do rio Caudal — via de entrada natural nas Astúrias desde a Meseta —, prova a existência de uma resistência organizada, no seio da qual deverão ter cooperado todos os habitantes das Astúrias central. Neste sentido, os ditos especialistas descobriram em Carisa dois níveis arqueológicos distintos, um dos quais corresponde às Guerras Cantábricas e um segundo período 675-725 em que se deram a expedição do rei visigótico Vamba contra os ástures e a conquista das Astúrias por Muça ibne Noçáir.

A identidade asturiana, que progressivamente se ia forjando, cristalizaria de maneira definitiva após a coroação de Pelágio, a vitória em Covadonga e a subsequente consolidação do Reino das Astúrias. Neste sentido, a crónica Albeldense, ao narrar patrioticamente os sucessos de Covadonga, afirma que, após essa batalha, «nasceu por divina providência o Reino das Astúrias».«Asturorum Regnum divina providentia exoritur»

Evolução histórica Ocupação islâmica e revolta astúrica thumb|A Santa Cova em Covadonga, santuário que remonta a Pelágio das Astúrias

No decorrer da Invasão muçulmana da Península Ibérica, as principais cidades e centros administrativos da Península foram caindo nas mãos das tropas muçulmanas. O domínio das regiões centrais e meridionais, como os vales do Guadalquivir ou do Ebro apresentou poucos problemas aos recém chegados, que se fizeram valer da ajuda das estruturas administrativas visigodas existentes, de origem romana. No entanto, nas montanhas do Norte, os centros urbanos eram praticamente inexistentes e a submissão da nação far-se-ia de forma progressiva, praticamente de vale a vale. Por vezes, os muçulmanos faziam reféns para se assegurar da pacificação do terreno recém conquistado.

Após a primeira incursão de Tárique, que no ano 711 chegou até Toledo, o vice-rei do Iémen de Ifríquia, Muça ibne Noçáir, cruzou no ano seguinte o Estreito de Gibraltar e levou a cabo uma maciça operação de conquista que o levaria a capturar, entre outras, as cidades de Mérida, Toledo, Saragoça e Lérida. Na última fase da sua campanha militar chegou ao noroeste da Península, onde conseguiu apoderar-se das povoações de Lugo e Gijón. Nesta última cidade instalou um pequeno destacamento berbere, encabeçado por um governador, Munuza, cuja missão consistiria em consolidar o domínio muçulmano sobre as Astúrias. Como garantia da submissão da região, alguns nobres, entre eles Pelágio, foram levados como reféns para Córdova.

Porém, segundo nos relatam tanto a Crónica Rotense como a de Almacari, Pelágio conseguiu evadir-se da cidade durante o governo do uale Alhor (717-718) e, no regresso às Astúrias, instigou uma revolta contra as autoridades muçulmanas de Gijón. O caudilho dos ástures — cuja origem é discutida pelos historiadoresSão atribuídas origens astúricas, visigóticas, galegas, cantábricas, cordovesas, e mesmo britânicas — teria então residência em Bres (concelho de Piloña) e para lá foram enviadas as tropas de Munuza, a mando do general Alcama. Tão cedo foi recebida a notícia da chegada dos muçulmanos, Pelágio e os seus companheiros cruzaram apressadamente o rio Piloña e dirigiram-se ao monte Auseva, onde se refugiaram numa das suas covas, Covadonga, e aí conseguiram emboscar o destacamento sarraceno, que foi aniquilado. A vitória — relativamente pequena, já que nela apenas intervieram poucas centenas de soldados berberes — outorgou um grande prestígio a Pelágio e provocou a insurreição maciça dos ástures. Munuza, ao deparar-se vulnerável com a região progressivamente hostil, decidiu abandonar Gijón e dirigir-se à Meseta através do Caminho da Mesa. Contudo, seria interceptado e morto pelos ástures em Olalíes (actual concelho de Grado).

thumb|esquerda|300px|Vista do reservatório do monte Curiechos, em La Carisa

Recentemente, no Pico Homón — próximo do Puerto de la Mesa — e em Carisa (situada uns 15 quilómetros mais a Este, no concelho de Lena, dominando os vales do Huerna e Pajares), foram levadas a cabo escavações por uma equipa de arqueólogos, onde se encontraram fortificações cuja datação, segundo os dados proporcionados pelo Carbono 14, se situa nos finais do e princípios do VIII: Aqui foram encontradas atalaia e fossos de quase dois metros, em cuja construção e vigilância tiveram que participar milhares de soldados, o que requeria um grande nível de organização e liderança firme, provavelmente do próprio Pelágio. Por esse motivo, os especialistas consideram muito provável que a construção da dita linha defensiva tenha tido como objectivo impedir a entrada dos muçulmanos nas Astúrias através dos portos da Mesa e Pajares.

Decorrida a vitória de D. Pelágio na batalha de Covadonga (722) sobre os muçulmanos, estabelece-se uma pequena entidade territorial nas montanhas asturianas que dará lugar mais tarde ao Reino das Astúrias. A liderança de Pelágio não era comparável à dos reis visigodos: com efeito, os primeiros reis das Astúrias se autotitulavam alternativamente entre princeps (príncipes) e rex (reis) e não seria senão na época de Afonso II que este título se consolidaria definitivamente. De salientar que o título de princeps tinha uma grande tradição nos povos indígenas do norte da Península e o seu uso constata-se na epigrafia cantábrica, na que aparecem expressões como princeps albionumNícer, Príncipe dos Albiões. O escritor asturiano Juan Noriega fez dele um dos protagonistas principais na sua novela histórica La Noche Celta, ambientada no castro de Coaña. (numa inscrição no concelho de Coaña) e princeps cantabrorumDoviderio, Príncipe dos Cântabros. (sobre uma lápide vadiniense no município de Cistierna, em Leão). Na realidade, o reino das Astúrias surgiu como uma caudilhagem sobre os povos de La Cornisa cantábrica que haviam resistido tanto aos romanos como aos visigodos e que não estavam dispostos a submeter-se ao governo do Império Omíada. A influência dos imigrantes provenientes do Sul, em fuga do Alandalus, irá impregnando o reino asturiano de goticismo. Note-se, contudo, que ainda no princípio do , no testamento de Afonso II, se renegavam os visigodos, culpando-os da perda da Hispânia. As crónicas nas que se baseia o conhecimento desta época, escritas todas no tempo de Afonso III quando a influência ideológica goticista era já importante, são a Sebastianense, Albeldense e Rotense.

thumb|300px|direita|A famosa Ponte Romana da localidade de Cangas de Onís, primeira capital do Reino das Astúrias

Durante as primeiras décadas, o controlo asturiano sobre as diferentes regiões do reino era ainda bastante lasso, e por isso devia ser fortalecido continuamente através de alianças matrimoniais com outras famílias poderosas do norte da Península: é desta forma que Ermesinda, a filha de Pelágio, contraiu matrimónio com Afonso I, filho de Pedro, Duque da Cantábria. E, por sua vez, os filhos de Afonso, Fruela e Adosinda fizeram respectivamente o mesmo com Munia, uma basca originária de Álava e Silo, um chefe local pésico da área de Flavionavia (Pravia).

Após a morte de Pelágio, no ano 737, o seu filho Fávila é eleito monarca. Fávila é morto, segundo as crónicas, por um urso, durante provas de valor normalmente exigidas à nobreza da época.

Expansão inicial