Pedro Casaldáliga CMF, nascido Pere Casaldàliga i Pla (Balsareny, província de Barcelona, 16 de fevereiro de 1928 — Batatais, 8 de agosto de 2020) foi um bispo católico espanhol naturalizado brasileiro. Foi o primeiro bispo da Prelazia de São Félix, sendo conhecido internacionalmente por defender os direitos humanos, especialmente dos povos indígenas e marginalizados, e também por suas posições políticas e religiosas a favor dos mais pobres.

Biografia Dom Pedro Casaldáliga nasceu em uma família de agricultores em Balsareny, na província de Barcelona, na Espanha, em 16 de fevereiro de 1928. Ingressou na Congregação Claretiana (Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria) em 1943, sendo ordenado sacerdote em Montjuïc, Barcelona, no dia 31 de maio de 1952. Depois de ordenado, foi professor de um colégio claretiano em Barbastro, assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris.

Em 1968, mudou-se para o Brasil para fundar uma missão claretiana no Estado do Mato Grosso, uma região com um alto grau de analfabetismo, marginalização social e concentração fundiária (latifúndios), onde eram comuns os assassinatos.La Teologia de La Liberacion Juan Jose Tamayo , em espanhol, acesso em 26 de abril de 2016. Já no primeiro dia no local, encontrou quatro bebês mortos deixados em caixas de sapato diante de sua casa para serem enterrados. Muitas vezes, sem vinho e hóstia, precisava improvisar as missas com cachaça e bolacha.

Foi nomeado administrador apostólico da prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso) no dia 27 de abril de 1970. Nesse mesmo ano, publicou a primeira das denúncias que o tornariam conhecido no país e fora dele, chamada "Escravidão e Feudalismo no norte de Mato Grosso", denunciando a situação da região e enviado para as autoridades da Igreja e do governo. Já então passou a ser acusado de agente comunista.

O Papa Paulo VI o nomeou bispo prelado de São Félix do Araguaia, no dia 27 de agosto de 1971. Sua ordenação episcopal deu-se a 23 de outubro de 1971, pelas mãos de Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia; de Dom Tomás Balduíno, OP; e Dom Juvenal Roriz, CSSR.

Sua atividade como bispo teve as seguintes características: Evangelização sem colonialismos, vinculada à promoção humana e à defesa dos direitos humanos dos mais pobres; Criação de comunidades eclesiais de base com líderes que sejam fermento entre os pobres; Encarnação na vida, nas lutas e esperanças do povo; Estrutura participativa, corresponsável e democrática na diocese.

Outra característica marcante de sua atuação como bispo foi o fato de preferir não utilizar os tradicionais trajes eclesiásticos, em vez da mitra, um chapéu de palha, no lugar do báculo um cajado indígena, em vez de um anel de ouro, utilizava um anel de tucum - que acabou se tornando símbolo da Teologia da Libertação.

Na década de 1970, ajudou a fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi)Pedro, Pedra e Dom – 88 anos de Dom Pedro Casaldáliga, acesso em 27 de abril de 2016. e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras sobre antropologia, sociologia e ecologia.

miniaturadaimagem|271x271px|Santuário dos Mártires da Caminhada, construído dez anos após o assassinato do Padre João Bosco, é a única igreja do mundo dedicada aos "Mártires".

Em 1973, foi detido para interrogatório, juntamente com uma dezena de padres, na Catedral da Prelazia de São Félix do Araguaia. Na ocasião, chegou a receber um soco no estômago desferido por um dos soldados.violações de direitos humanos nas igrejas cristãs, acesso em 14/02/2021.

Dom Pedro foi alvo de inúmeras ameaças de morte. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu em Ribeirão Cascalheira (Mato Grosso). Ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erigido dez anos depois, o Santuário dos Mártires da Caminhada.

Por cinco vezes foi alvo de processos de expulsão do Brasil durante a ditadura militar, tendo saído em sua defesa o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns e o Papa Paulo VI. Manteve relação estremecida também com o Papa João Paulo II, ferrenho crítico do comunismo, sendo defendido dessa vez pela CNBB.

Em 1994, apoiou a revolta de Chiapas, no México, afirmando que quando o povo pega em armas deve ser respeitado e compreendido.Chiapas visto por Pedro Casaldáliga, 31 de janeiro de 94 Em 1999, publicou a "Declaração de Amor à Revolução Total de Cuba".Declaração de amor à Revolução Total de Cuba, 20 de fevereiro de 1999.

Seu amor à liberdade inspirou sua luta contra a centralização do governo da Igreja, pois considerava que a visão de Roma é apenas uma entre as várias possíveis, e que a Igreja deveria ser uma comunhão de igrejas. Achava que se deve falar da Igreja que está em São Félix do Araguaia, assim como se fala da Igreja que está em Roma, pois unidade não tem que ser sinônimo de centralização e sim de descentralização.Pedro Casaldáliga, obispo y poeta, 5 de julho de 2001.

Dom Pedro, que sofria da doença de Parkinson, apresentou sua renúncia à Prelazia, conforme o Can. 401 §1 do Código de Direito Canônico, em 2005.Entrevista de Pedro Casaldáliga, 15 de junho de 2011. No dia 2 de fevereiro de 2005 o Papa João Paulo II aceitou sua renúncia ao governo pastoral de São Félix. Mesmo depois da renúncia, não perdeu a combatividade e a franqueza, afirmando, por exemplo que o governo Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres,Entrevista a Pedro Casaldáliga: “los obispos no son toda la Iglesia” , 28 de junho de 2008. apoiando o MST e a Via Campesina,Onde não há utopia, não há futuro, 15 de junho de 2008. criticando a hierarquia da igreja que deveria se abrir ao diálogo em lugar de excomungar e proibir,Mons. Casaldáliga critica a la jerarquía católica que supuestamente excomulga y prohíbe, 3 de março de 2012. defendendo a ordenação de mulheres e afirmando ser contra o celibato sacerdotal.Mons. Dom Pedro Casaldáliga diz que igreja precisa rever celibato , 3 de março de 2012.

Morreu no dia 8 de agosto de 2020 em Batatais, aos 92 anos, devido a problemas respiratórios agravados pela doença de Parkinson. Seu corpo foi sepultado em 12 de agosto em São Félix do Araguaia, no Cemitério Karajá, as margens do Rio Araguaia, onde peões e índios que resistiam à grilagem em MT eram enterrados.

Sucessão Dom Pedro Casaldáliga, o primeiro prelado de São Félix, foi sucedido por Dom Frei Leonardo Ulrich Steiner OFM.

Sobre as tensões havidas com o Vaticano para a nomeação do seu sucessor, Dom Pedro fez questão de não deixar dúvidas a respeito: "Há algumas semanas, o núncio Lorenzo Baldisseri enviou um bispo para me perguntar onde eu iria, porque se eu ficasse em São Félix, causaria um constrangimento ao novo bispo (...) Não posso deixar de dizer que sou contra o sistema atual de nomeação de bispos que é secreto e autoritário, que não respeita a opinião das igrejas locais. Parece-me um sistema pouco evangélico".

Em setembro de 2011, Dom Leonardo Ulrich Steiner foi transferido para a Arquidiocese de Brasília como bispo auxiliar. Para a Prelazia de São Félix, foi nomeado Dom Adriano Ciocca Vasino.

Ameaças de morte No início de dezembro de 2012, Dom Pedro Casaldáliga deixou sua residência em São Félix do Araguaia e foi levado por policiais federais para um local não revelado em razão da intensificação das ameaças de morte feitas a ele por invasores da Terra Indígena de Marãiwatsédé (norte de Mato Grosso), área ocupada pelos Xavantes até os anos 1960.Bispos que defendem índios recebem Prêmio Direitos Humanos, por Mariana Jungmann. Agência Brasil 16 de dezembro de 2012.Pedro Casaldáliga, alvo dos latifundiários. Por Ana Helena Tavares. Outras Palavras, 12 de dezembro de 2012.

Na década de 1960, os Xavantes foram expulsos de suas terras para que elas fossem ocupadas por grandes projetos agropecuários. A área foi depois comprada pela italiana Agip, que, posteriormente, durante a Eco-92, anunciou que a devolveria aos índios. No entanto, latifundiários, políticos e comerciantes da região ocuparam a área e instalaram ali um povoado e seus negócios. Depois de vinte anos a desocupação foi iniciada, e também a intensificação das ameaças.Fazendas são retomadas na Terra Indígena Marãiwatsédé, por Aline Leal. Agência Brasil, 17 de dezembro de 2012.

Legado

Sua morte recebeu ampla cobertura da imprensa, que em geral salientou sua vida simples e despojada, sua opção pelos pobres, sua dedicação à defesa dos direitos humanos e sua coragem diante de diversas ameaças e dificuldades,Gonçalves, Alfredo J. "Dom Casaldáliga: os 3 Ps do Pedro". Revista Humanitas — Unisinos, 11/08/2020 Collet, Andressa. "Igreja no mundo se despede de dom Pedro Casaldáliga, falecido hoje, aos 92 anos". Vatican News, 08/08/2020"Morre dom Pedro Casaldáliga, o bispo que apoiou índios e atacou a ditadura". Veja, 08/08/2020"Bispo dom Pedro Casaldáliga morre aos 92 anos, em Batatais, São Paulo". Agência Brasil, 08/08/2020"Morre dom Pedro Casaldáliga, o bispo do povo". Deutsche Welle, 08/08/2020 e notas de pesar nos mesmos termos foram divulgadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Conselho Indigenista Missionário, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o Instituto Socioambiental,"Dom Pedro Casaldáliga". Instituto Socioambiental, 09/08/2020 a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso,Ávila, Layse. "Dom Pedro Casaldáliga, presente!". Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind, 08/08/08 a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação,"Nota de pesar: Dom Pedro Casaldáliga, presente!" Direção Executiva da CNTE, 11/108/2020 os ex-presidentes do Brasil Lula e Dilma, os políticos Ciro Gomes, Eduardo Suplicy, Marcelo Freixo,Maisonnave, Fabiano. "Morre dom Pedro Casaldáloga, obospo dochapéu depálha que enfrentou latifundiários na Amazônia". Folha de S.Paulo, 08/08/08 Randolfe Rodrigues, Paulo Paim,"Senadores lamentam morte de Dom Pedro Casaldáliga" Agência Senado, 11/08/2020 o reitor da Unicamp Marcelo Knobel,Levy, Clayton. "Dom Pedro Casaldáliga, o Doutor Honoris Causa que enfrentou a ditadura". Atualidades Unicamp, 08/08/08 e outras personalidades e entidades.