Deficiência auditiva se caracteriza como a perda parcial ou total da capacidade de ouvir e tende a se manifestar em graus, sendo eles: leve, moderado, severo e profundo. Os graus da perda auditiva fazem referência a redução da sensibilidade ou da discriminação auditiva do indivíduo.
É a alteração sensorial mais frequente da humanidade, afetando pessoas de todas as idades, em todos os segmentos da população e níveis socioeconômicos. A deficiência auditiva pode ter como causa doenças genéticas ou doenças adquiridas e fatores ambientais. Exemplos dessas causas são: genética ou hereditariedade, envelhecimento (presbiacusia), exposição a ruído (perda auditiva induzida pelo ruído – PAIR), infecções (as do complexo TORCHNICÁCIO, Dayla Brito et al (2015). Toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e hepatite: a enfermagem na atenção durante o pré-natal. Maceió: Cadernos de graduação.), complicações perinatais, traumas físicos, medicamentos e agentes ototóxicos. As perdas auditivas de etiologia (origem) genética, em sua maior parte, são de grau severo e profundo, enquanto que a maioria das perdas de causa ambiental são de grau leve e moderado.
Cerca 466 milhões de pessoas sofrem de perda auditiva com marcas de invalidez no mundo e, deste total, 34 milhões são crianças. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), este quadro pode piorar até 2050, quando mais de 900 milhões de pessoas deverão registrar perda de audição nesse mesmo nível. No Brasil, existe cerca de 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva, de acordo com um estudo feito em 2019 pelo Instituto Locomotiva e a Semana da Acessibilidade Surda. Em países desenvolvidos, existe predomínio das causas genéticas de perda auditiva, já nos países em subdesenvolvimento e em desenvolvimento as causas adquiridas são mais predominantes.
Dentre todas as privações sensoriais, a perda auditiva é a que produz o maior impacto no processo da comunicação. As consequências negativas das perdas auditivas não estão limitadas apenas à perda na audição, mas também limitação e restrição de participação em atividades de situação de vida diária. Por exemplo, crianças com deficiência auditiva, congênita ou adquirida, podem apresentar dificuldades com a aquisição e desenvolvimento da linguagem oral caso não ocorra o processo de intervenção e reabilitação auditiva. Através da intervenção precoce e da reabilitação, têm-se como objetivo minimizar as dificuldades de aquisição promovendo o desenvolvimento da linguagem oral por meio da audição.SOBREIRA, Ana Carolina de Oliveira et al (2015). Desenvolvimento de fala e linguagem na deficiência auditiva: relato de dois casos. São Paulo: Rev. CEFAC.
Entendendo a deficiência auditiva A audição é possível pela integridade do sistema auditivo, que capta os sons do ambiente, conduzindo-os por todas as estruturas da orelha até que o estímulo sonoro seja percebido e interpretado no córtex cerebral.
Qualquer distúrbio que aconteça entre as etapas do processo normal de audição, provocará uma alteração auditiva, que é definida como deficiência auditiva. Independente de suas causas, tipo ou severidade, as alterações auditivas devem ser evitadas em qualquer fase da vida do ser humano.BEVILACQUA, Maria Cecília (1998). Conceitos básicos sobre a audição e deficiência auditiva. Bauru: HPRLLP-USP.
A deficiência auditiva também pode ser entendida como uma diminuição na capacidade de ouvir, interferindo na audibilidade dos sons em intensidades sonoras adequadas, que são percebidos por pessoas com audição funcional.Elzouki, Abdelaziz Y (2012). Textbook of clinical pediatrics (2 ed.). Berlin: Springer.
Em razão da deficiência existente, poderão ocorrer interferências no desenvolvimento das pessoas que a possuem. É preciso que haja uma estimulação das vias auditivas para que a aquisição e desenvolvimento da linguagem aconteçam. Quanto mais tardia for essa estimulação, menos eficiente será a habilidade de linguagem.Redondo, Maria Cristina da Fonseca, Carvalho, Josefina Martins (2000). Deficiência auditiva. Brasília: MEC. Secretaria de Educação a Distância.NOTHERN, Jerry L., DOWNS, Marion P. (1989). Audição em Crianças. São Paulo: Manole.
Dependendo do momento em que a deficiência surge, ela pode ser considerada como congênita, pois a pessoa nasceu com a deficiência, ou adquirida, em que a deficiência se instalou no decorrer da vida. Na literatura acadêmica pode ser encontrada com os seguintes termos: deficiência auditiva pré-lingual e pós-lingual.
Causas As causas de deficiência auditiva são as mais variadas. Para determinar o momento em que ocorreram, costumam ser divididas em: pré-natais, se ocorrem antes do nascimento; perinatais, no momento do nascimento; e pós-natais, quando a deficiência se dá durante o desenvolvimento da criança, adolescente ou adulto.
Causas pré-natais
Genética - Os fatores genéticos são muito importantes, pois casos de deficiência auditiva na família podem ser transmitidos de geração para geração. Além disso, uniões consanguíneas são um fator de risco para a deficiência auditiva. Algumas síndromes genéticas cursam com a deficiência auditiva como a síndrome de Waardenburg, síndrome de Pendred, síndrome de Usher, Síndrome de Down , Síndrome de Edwards, Síndrome de Crouzon, Síndrome de Treacher Collins, Síndrome de Klippel-Feil, Síndrome de Fraser, Síndrome de Pendred, Síndrome brânquio-otorrenal, Mucopolissacaridose, Neurofibromatose tipo 2, entre outras.
Doenças - Algumas doenças contraídas durante a gestação como a rubéola, sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus e herpes, se não tratadas adequadamente afetarão o desenvolvimento do feto, provocando a deficiência auditiva.
Medicamentos e drogas – O uso pela mãe de alguns medicamentos que afetam o sistema auditivo, como a talidomida, e drogas que atingem o sistema nervoso central, são prejudiciais e de grande risco para o surgimento da deficiência auditiva.
Causas perinatais Durante o nascimento, assim como outros traumas que aconteçam no parto, o uso do fórceps pode lesionar o cérebro da criança provocando (além de outras alterações) a deficiência auditiva. Também pode faltar oxigênio para a criança, ou haver uma diminuição dele, causando um quadro de anóxia ou hipóxia, respectivamente.
Causas pós-natais
Infecções Infecções que surgem após o nascimento na orelha externa ou média, causam distúrbios na audição, como as otites muito comuns nos bebês. Doenças como meningite e caxumba ocasionam diversos problemas na criança ou adulto, deixando sequelas variadas que dependem do quadro clínico individual.
Ruído O ruído em excesso e em intensidades muito fortes são fatores que acompanham a sociedade na atualidade. Seja no ambiente de trabalho, em festas ou nos fones de ouvido, o som alto lesa as células ciliadas do órgão de Corti e reduzem a capacidade de ouvir. O uso de equipamento de proteção individual (EPI) no trabalho e de protetores auriculares em ambientes ruidosos podem diminuir as chances de adquirir deficiência auditiva.
Idade O envelhecimento é parte natural do desenvolvimento. Os idosos são a parcela populacional com a maior incidência de deficiência auditiva, ocorrendo em um terço da população segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).³ A deficiência auditiva provocada pelo avanço da idade é chamada de presbiacusia.
Fármacos Os fármacos podem provocar ototoxicoses, que são afecções provocadas por medicamentos de forma iatrogênica levando ao comprometimento da função auditiva e/ou do sistema vestibular.
Classificações A avaliação audiológica tem como objetivo principal determinar a integridade do sistema auditivo, além de identificar tipo, grau e configuração da perda auditiva em cada orelha. Antes que se realize avaliação, é necessário que se faça a Inspeção do meato acústico externo e anamnese ou entrevista. Nos resultados dos testes audiológicos, as deficiências auditivas devem ser classificadas quanto ao tipo, grau, configuração e lateralidade. miniaturadaimagem|Orelha humana (região verde - orelha externa, região vermelha - orelha média e região roxa orelha interna).
Tipo A classificação do tipo da perda auditiva tem como objetivo realizar o topodiagnóstico da lesão. Assim, dependendo do local da lesão no sistema auditivo as deficiências auditivas serão classificadas em tipos específicos.BEVILACQUA, Maria Cecília (1998). Conceitos básicos sobre a audição e deficiência auditiva. Bauru: HPRLLP-USP.
Em casos de perda auditiva condutiva, a alteração se encontra na orelha externa e/ou média, como por exemplo, rolhas de cera no canal auditivo ou otite na cavidade timpânica. Dessa forma, existe um problema durante a condução do som, não permitindo que ele chegue normalmente até a cóclea. As deficiências auditivas condutivas podem ser reversíveis se forem realizados tratamentos medicamentosos ou cirúrgicos precoces e apropriados.
Em casos de perda auditiva neurossensorial, o acometimento está no nível sensorial e/ou neural do sistema auditivo, ou seja, acontecem desde lesões nas células ciliadas do órgão de Corti da orelha interna, responsáveis por converter as vibrações sonoras em estímulos nervosos, ou em fibras no nervo auditivo, que conduzirão os estímulos nervosos até o córtex cerebral. Geralmente, estas deficiências são irreversíveis.
Mista – como o próprio nome já diz, as alterações se encontram tanto na orelha externa e/ou média quanto na orelha interna. Reúnem tudo o que foi dito anteriormente, assim como podem ocorrer devido a malformações cranianas devido a fatores genéticos, que acometem os ossículos da orelha média (martelo, bigorna e estribo) e a cóclea.
Central – quando as alterações se encontram a partir do tronco encefálico até as regiões subcorticais e córtex cerebral, as deficiências auditivas são classificadas como centrais. São totalmente irreversíveis.
Classificação do tipo de perda auditiva (Silman e Silverman, 1997) +Tipo de perdaCaracteristicasPerda auditiva condutivaLimiares de via óssea menores ou iguais a 15 dB NA e limiares de via aérea maiores que 25 dB NA, com gap aéreo-ósseo maior ou igual a 15 dBPerda auditiva sensorioneuralLimiares de via óssea maiores do que 15 dB NA e limiares de via aérea maiores que 25 dB NA, com gap aéreo-ósseo de até 10 dBPerda auditiva mistaLimiares de via óssea maiores do que 15 dB NA e limiares de via aérea maiores que 25 dB NA, com gap aéreo-ósseo maior ou igual a 15 dB
Grau Outra forma de classificação é quanto ao grau de comprometimento. O grau da deficiência auditiva leva em consideração os limiares tonais, que são definidos como a menor intensidade de som que o indivíduo conseguiu detectar 50% dos estímulos apresentados. Os limiares são obtidos através da audiometria tonal liminar, um exame em que são feitas várias mensurações de intensidade sonora em relação a diferentes frequências. Os autores classificam os graus de deficiência auditiva de diferentes maneiras, alguns classificam com base nos limiares auditivos das frequências de 500, 1000 e 2000 Hz, outros porém, tomam por base as frequências de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, por exemplo, além de considerarem variações para crianças e adultos. A escolha da classificação fica a critério do profissional.
Classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2014) para crianças: +DenominaçãoCaracterísticaSem deficiência auditivalimiar tonal até 15 dBDeficiência auditiva levelimiar tonal entre 16 e 30 dBDeficiência auditiva moderadalimiar tonal entre 31 e 60 dBDeficiência auditiva severalimiar tonal entre 61 e 90 dBDeficiência auditiva profundalimiar tonal acima de 91 dB