Mamonas Assassinas, comumente abreviado como Mamonas, foi uma banda brasileira de rock cômico formada em Guarulhos, São Paulo. O grupo foi fundado em 1989 sob o nome Utopia pelos irmãos Sérgio Reoli (bateria e vocal de apoio) e Samuel Reoli (baixo e vocal de apoio) e o amigo Bento Hinoto (guitarra e vocal de apoio), mas se tornou conhecido nacionalmente somente em 1995 após uma mudança de visual e estilo, adotando o nome Mamonas Assassinas e já com Dinho (vocal e violão) e Júlio Rasec (teclado, percussão, vocal ocasional e vocal de apoio) em sua formação.
Notabilizaram-se por suas composições que conciliavam pop rock com gêneros musicais populares, tais como sertanejo, heavy metal, pagode romântico, vira e forró, e também por suas apresentações irreverentes e excêntricas. Tais fatores tornaram o grupo um notável expoente do rock cômico, gênero antagônico ao rock alternativo que seus integrantes vinham aplicando no repertório da banda Utopia. Hinoto e os irmãos Reoli formaram a banda Ponte Aérea, que se tornou Utopia e, por fim, Mamonas Assassinas. Durante uma apresentação, se juntaram ao vocalista Dinho. Júlio Rasec, tecladista, foi o último a entrar, substituindo Márcio Cardoso de Araújo, que saiu devido à falta de tempo.
Em seus pouco mais de oito meses de trajetória, eles gravaram um único álbum de estúdio, Mamonas Assassinas (1995), que vendeu mais de 3 milhões de cópias no Brasil, feito que lhes rendeu um certificado de disco de diamante comprovado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD). O disco foi produzido pelo músico Rick Bonadio, que recebeu da banda o apelido de Creuzebek. Duas músicas desse disco, "Vira-Vira" e "Pelados em Santos", foram incluídas entre as 10 canções mais ouvidas do país no ano de 1995. Além disso, foram lançados de forma póstuma, reunindo tanto materiais inéditos quanto gravações antigas, álbuns como: Atenção, Creuzebek: a Baixaria Continua! (1998), Ao Vivo em Valinhos (2002), Mamonas Ao Vivo (2006), One: 16 Hits (2009) e Pelados em Santos (2011).
A banda esteve em atividade durante menos de um ano, pois, em 1996, devido a um acidente aéreo de comoção nacional, todos os membros da banda e outros tripulantes morreram quando a aeronave na qual voavam com destino a Guarulhos se chocou contra a Serra da Cantareira. O grupo foi um dos pioneiros do gênero de rock cômico no Brasil, e continua sendo celebrado até hoje, influenciando o cenário nacional da música mesmo muito tempo após seu fim. Atualmente, o seu único disco lançado prevalece como um dos dez álbuns mais vendidos do Brasil em todos os tempos.
Carreira
1989–94: Utopia miniaturadaimagem|A banda Utopia, em 1990. Da esquerda para a direita: Bento Hinoto, Samuel Reoli, Dinho, Júlio Rasec, Sérgio Reoli e Márcio Araújo.|esquerda|237x237px Em março de 1989, Sérgio "Reoli" Reis de Oliveira, ao trabalhar na empresa de máquinas de escrever Olivetti, conheceu Maurício Hinoto, irmão de Alberto "Bento" Hinoto. Ao saber que Sérgio era baterista, Maurício decidiu lhe apresentar ao irmão, que tocava guitarra. Ao se conhecerem, os músicos decidiram criar uma banda. Na época, Samuel Reis de Oliveira (que mais tarde adotaria o nome artístico de Samuel Reoli), irmão de Sérgio, não se interessava pela música, mas sim pelo desenho, em especial por aviões. Contudo, ao ver Sérgio e Bento ensaiarem em sua casa, Samuel se interessou pela música e passou a tocar baixo elétrico. Os três formaram o grupo Utopia, especializado em "covers" de grupos como Ultraje a Rigor, Legião Urbana, RPM, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Rush, entre outras.
Em uma apresentação no Parque Cecap em 1990, o trio Samuel, Sérgio e Bento tocava quando o público solicitou que executassem a canção "Sweet Child o' Mine", da banda norte-americana Guns N' Roses. Por não saberem falar a língua inglesa, perguntaram se alguém da plateia sabia, e o baiano Alecsander "Dinho" Alves subiu ao palco e cantou com os músicos. Ao verem o positivo resultado da apresentação, escolheram por efetivar Dinho como vocalista do grupo. No mesmo ano, Sérgio convidou o tecladista Márcio Cardoso de Araújo para integrar a banda. Márcio aceitou o convite e permaneceu no conjunto até pouco antes do lançamento do disco Utopia (1992), no qual aparece na capa mas não toca em nenhuma música. Araújo saiu por não conseguir conciliar os estudos e a música e foi substituído por Júlio Rasec, que era roadie e percussionista da banda. Com essa formação, permaneceram até o ano de 1994, quando decidiram fazer uma drástica mudança de perfil e na forma como se apresentavam.
1994–1995: Mudança de perfil e gravação da demo tape
Após perceberem que eles deveriam mudar de perfil, adotando uma veia mais cômica, gravaram uma fita demo com duas canções. Rodrigo Castanho, produtor e técnico de masterização, foi quem acompanhou a gravação, que ocorreu em uma madrugada do mês de outubro de 1994, no antigo estúdio do produtor Rick Bonadio, na zona norte de São Paulo. Os músicos gravaram as faixas “Mina (Minha Pitchulinha)”, que mais tarde seria conhecida como “Pelados em Santos”, e “Robocop Gay”. Segundo Castanho, boa parte das letras foram criadas naquele momento. A canção "Robocop Gay", começou a ser escrita em setembro de 1994 sob encomenda para um "showmício".esquerda|miniaturadaimagem|169x169px|A fita demo do grupo.Na manhã seguinte, Castanho encontrou-se com o produtor Rick Bonadio, e elogiou as canções, dizendo que havia "dado risada a noite inteira". Bonadio, então, escutou as faixas e adorou as canções (segundo o próprio, "a coisa mais engraçada que já havia ouvido na vida"). Ao ouvir a primeira faixa, Rick imaginou que ela poderia ser a primeira canção de trabalho da banda, mas ela teria que ficar menos brega e ganhar uma sonoridade mais rock n' roll.
Rick Bonadio se reuniu com o grupo e sugeriu que a mudança de perfil, além da composição das canções, deveria ser completa, a começar pelo nome. Os nomes sugeridos pelos próprios músicos foram: "Um Rapá da Zé", "Tangas Vermelhas", "Coraçõezinhos Apertados" e "Os Cangaceiros de Teu Pai". Por fim, o baixista Samuel sugeriu "Mamonas Assassinas do Espaço", que foi reduzido para "Mamonas Assassinas". Além do nome, como a banda passou a adotar uma via mais cômica, os integrantes trocaram seus nomes e seus figurinos, que passou a ser menos rock n' roll, e mais caricato. Em 2010, a Rede Record, numa matéria de Arnaldo Duran para o Jornal da Record, mostrou a primeira apresentação do Utopia em um programa de televisão. Foi no programa Sábado Show, no quadro "Oficina", aberto a bandas de garagem. Nas imagens, é possível perceber o figurino dos músicos do Utopia. Bento, por exemplo, aparece com o cabelo curto e de boné. E os outros com cabelos bem compridos.
A partir da mudança de perfil, eles passaram a sempre se apresentar vestidos de Chapolin Colorado, de presidiários, bonés extravagantes e cabelos pintados, e, claro, com uma postura mais brincalhona no palco. Uma nova gravação da demo foi feita. "Mina (Minha Pitchulinha)" ficou mais pesada e passou a ser chamada "Pelados em Santos". "Robocop Gay" ganhou uma nova mixagem e "Vira-Vira" foi gravada pela primeira vez. A banda enviou a fita demo com as três canções ("Pelados em Santos", "Robocop Gay" e "Vira-Vira") para três gravadoras, entre elas Sony Music e EMI. Rafael Ramos, baterista da banda Baba Cósmica e filho do diretor artístico da EMI, João Augusto Soares, gostou tanto da sonoridade da banda que insistiu na contratação. Rafael dava dicas para o pai sobre bandas novas que enviavam suas canções para a gravadora.
Num primeiro momento, João Augusto Soares se negou a assinar com a banda. Mas Rafael insistiu, e conseguiu que em 7 de abril de 1995 seu pai assistisse a um show da banda. Conforme relata o livro Mamonas Assassinas: Blá, Blá, Blá - A Biografia Autorizada, "quando João Augusto de Macedo Soares, 39 anos, vice-presidente da gravadora EMI Odeon, seu filho Rafael, 16, e o produtor independente Arnaldo Saccomani enfim chegaram, a boate Lua Nua estava quase vazia. Eram dez e trinta da noite meio fria de 7 de abril de 1995". Após assistir ao show, imediatamente João Augusto assinou contrato com eles.
Maio a dezembro de 1995: O álbum homônimo e o sucesso comercial Mas antes de gravar o disco, surgiu um problema: a EMI queria pelo menos 10 canções para o álbum. A banda disse que já tinham 7 canções e que em uma semana poderiam compor as demais, mas na verdade eles só tinham as 3 enviadas à gravadora. Porém, em uma semana, eles conseguiram compor 12 canções, totalizando 5 a mais do que o mínimo exigido pela gravadora. Em maio de 1995, a EMI mandou todos os integrantes para Los Angeles, nos Estados Unidos, para gravar o seu único disco. Inicialmente, o álbum teria 15 canções, porém uma delas, a canção "Não Peide Aqui Baby", paródia da canção "Twist and Shout", dos Beatles, foi excluída do álbum devido à grande quantidade de palavras de baixo calão. Ricardo "Rick" Bonadio (apelidado pela banda de "Creuzebek") ficou responsável por gravar, lançar os músicos e também vender os shows. Após gravar o disco, lançado no dia 23 de junho de 1995, a banda ainda passou desapercebida nas lojas. Porém, no dia seguinte, quando a 89 FM A Rádio Rock tocou a canção "Vira-Vira", o álbum ganhou reconhecimento pela mídia. Foi o disco de estreia que mais vendeu no Brasil.
Apesar das letras politicamente incorretas, os Mamonas fizeram um tremendo sucesso entre o público infantil. Segundo Eduardo Vicente, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (em seu artigo Segmentação e consumo: a produção fonográfica brasileira - 1965-1999), "aparentemente, o fenômeno Mamonas demarcou uma tendência diferenciada na canção infantil, pela qual o visual clean e as letras inofensivas de apresentadoras (como Angélica, Xuxa e Eliana) foram substituídas pela incorreção política (e gramatical), pelas expressões de duplo sentido e pela aparência quase ofensiva de figuras como Tiririca (Sony, 1996) e ET & Rodolfo (Virgin, 1998)".
Mesmo assim, houve censura nas canções do grupo. Por considerar as letras das canções indecentes demais, um então diretor da Radiobrás resolveu proibir a execução delas na rede oficial de rádio. A determinação foi retirada por ordem da presidência da empresa e o diretor foi demitido.
Com o estrondoso sucesso comercial, saíram em uma turnê, apresentando-se em diversos programas, como Jô Soares Onze e Meia, Domingo Legal, Programa Livre, Domingão do Faustão e Xuxa Park. Em fevereiro de 1996, foram destaque da capa da Billboard, em reportagem sobre as inéditas vendagens do disco de estreia.
Janeiro a março de 1996: Últimas apresentações No dia 6 de janeiro de 1996, eles tocaram no Thomeuzão, em Guarulhos, que anos antes os havia rejeitado. Este show ficou marcado por conta da banda de abertura desse show terem sido os próprios Mamonas Assassinas porém vestidos de acordo com a banda Utopia e tocando músicas do antigo grupo (realizando o desejo deles de anos antes) e também por vídeos amadores que mostram o momento em que Dinho senta no palco e, em tom de desabafo, manda uma mensagem energética, repleta de energia positiva e críticas àqueles que não acreditaram no seu trabalho, dizendo que nunca se deve deixar de acreditar nos seus sonhos, pois ele e os demais integrantes sempre quiseram se apresentar ali porém eram rejeitados. A apresentação recebeu um público de dezoito mil pessoas. "Um juiz não queria deixar as crianças entrarem, mas tanta gente protestou que ele liberou depois", diz Ana Paula Rasec, irmã de Júlio.
Os cinco integrantes preparavam uma carreira internacional, com partida para Portugal agendada para 3 de março de 1996, porém faleceram num acidente aéreo um dia antes.
Acidente aéreo e morte dos integrantes
miniaturadaimagem|Um jato Learjet 25D, semelhante à aeronave em que a banda viajava no momento do acidente que matou todos os integrantes.