thumb|253px|Galphimia gracilis. thumb|253px|Flor de Galphimia glauca, mostrando a típica estrutura floral da Malpighiaceae: simetria bilateral, estandarte bem distinto e quatro pétalas laterais livres). thumb|253px|Fruto de Malpighia glabra (fruto conhecido por acerola). thumb|253px|Morfologia típica de uma malpigiácea Malpigiáceas (Malpighiaceae) é uma família de plantas com flor, da ordem Malpighiales, que integra cerca de 73 géneros e mais de 1315 espécies, todas nativas dos trópicos e subtrópicos. Cerca de 80% dos géneros e mais de 90% das espécies ocorrem no Novo Mundo (desde as Caraíbas e o sul dos Estados Unidos até ao norte e centro da Argentina), com o resto no Paleotropis (África, Madagáscar e na região Indomalaia até à Nova Caledónia e às Filipinas). São plantas maioritariamente polinizadas por abelhas especializadas na coleta de óleos florais que ocupam uma grande variedade de habitats, estando presentes na maioria dos biomas terrestres da região neotropical. Descrição A família é caracterizada pela presença de cinco pétalas unguiculadas, alternas às sépalas do cálice, que em geral portam um par de elaióforos na base. Na maioria das espécies, o androceu apresenta dez estames e o gineceu três carpelos uniovulados, cada um contendo um estilete. Os frutos são em geral esquizocárpicos, podendo possuir alas, ou drupáceos.Sebastiani, R. & Mamede, M.C.H. 2010. Estudos taxonômicos em Heteropterys Kunth subsect. Stenophyllarion (Malpighiaceae) no Brasil. Hoehnea 37: 337-366.

Uma característica encontrada em vários membros desta família, e raramente em outras, é a disponibilização aos polinizadores de recompensas diferentes do comum pólen ou néctar, já que muitas destas plantas produzem óleos florais (um tipo de resinas floral), óleos nutricionais utilizados pelas espécies que visitam as flores (estratégia similar à usada pelas espécies da família Clusiaceae).Vogel, S. 1974. Ölblumen und ölsammelnde Bienen. [Tropische und subtropische Pflanzenwelt. 7], 267 pp. A maioria dos polinizadores são espécies do grupo Anthophila, grupo que inclui múltiplas espécies de abelhas especializadas na recolha desses óleos.

A morfologia da flor é relativamente constante dentro da família Malpighiaceae, sendo facilmente reconhecível nas suas características básicas. A morfologia do fruto, pelo contrário, é muito variada, sendo difícil o estabelecimento de um padrão de identificação com valor sistemático. Morfologia São arbustos ou lianas, raramente árvores (como no género Lophanthera), de folhagem perene, com tricomas unicelulares, geralmente medi-fixos ou submedi-fixos com uma forma muito característica, por isso conhecidos por pelos malpiguiáceos. São plantas geralmente hermafroditas, por vezes funcionalmente dioicas (como no género Spachea da Nicarágua).

As folhas são geralmente de filotaxia oposta, lâmina simples, geralmente inteira, raramente lobada ou pseudodentada, com venação geralmente peninérvea. Normalmente apresentam pecíolos articulados e estípulas inter ou intrapeciolares, livres ou concrescidas entre si. Na maioria das espécies as folhas apresentam duas ou mais glândulas multicelulares grandes sobre o pecíolo ou a lâmina foliar (geralmente na face abaxial) ou sobre ambos. As plantas, especialmente as folhas, são pilosas, com numerosos tricomas unicelulares, conhecidos por pelos malpiguiáceos, constituídos por um pé fino, por um segmento recto e alargado e por uma ponta aguçada, o que lhes confere um aspecto semelhante às tradicionais agulhas de bússola. As folhas e o tecido epidérmico possuem células com cristais de oxalato de cálcio, em forma isolada, geminados ou em drusa.

As flores em geral ocorrem em inflorescências determinadas, geralmente racemosas, embora também possam ser cimosas. Há contudo alguns géneros que apresentam flores isoladas. As flores são geralmente monoclinas ou bissexuadas, diclamídeas, zigomorfas, com simetria bilateral leve ou marcada, cálice pentâmero dialissépalo com duas glândulas secretoras de óleo na face abaxial de todas as cinco pétalas ou nas quatro sépalas laterais (em geral o estandarte sem glândulas e as quatro sépalas laterais com duas glândulas multicelulares grandes sobre o lado abaxial). As pétalas são também 5 (flores pentâmeras), livres, unguiculadas, alternando com as sépalas, imbricadas, com a posterior (o estandarte) mais interna e muitas vezes diferente das restante quatro. Os estames são geralmente em número de 10, menos por redução em alguns géneros. As anteras são geralmente deiscentes por fendas longitudinais, com grãos de pólen geralmente 3-5 colpados ou 4 a poliporados. O gineceu com ovário súpero, composto por (2)-3 carpelos livres a conatos, cada lóculo fértil com apenas um óvulo anátropo pêndulo de placentação axial. Os estiletes geralmente livres, um por carpelo, algumas vezes conatos ou reduzidos em número. O estigma com morfologia variada entre géneros espécies.

A fórmula floral é K3-5;C4-5;A5+5;G3.

Apesar da morfologia das flores de Malpighiaceae ser muito homogénea, os frutos apresentam extrema diversidade,Anderson, W.R. 1979. Floral conservatism in neotropical Malpighiaceae. Biotropica 11:219-223. ocorrendo frutos indeiscentes, secos e carnosos, e frutos secos deiscentes, que podem ser alados ou sem alas, glabros ou pilosos.Anderson, W.R. 1990. The origin of the Malpighiaceae - the evidence from morphology. Memoirs of the New York Botanical Garden 64:210-224. Nas Malpighiaceae, os frutos carnosos evoluíram separada e repetidamente em diversas épocas; acredita-se que isso ocorreu devido ao advento de pássaros pequenos, típicos dispersores destes frutos. Tal diversidade carpológica torna interessante o estudo desta família. O fruto pode ser do tipo seco ou carnudo, deiscente ou indeiscente, samaroide, nuciforme ou drupáceo, embora a configuração mais comum seja a cápsula esquizocárpica, constituído por três samarídeos (em forma de sâmaras) ou cocas, embora também possa ser drupas ou aquénios). A semente fica na base do samarídeo e em geral não apresenta endosperma.

O género Gaudichaudia, e vários outros géneros próximos, apresenta, para além de flores casmógamas, flores cleistógamas com 1–2 mm de diâmetro, com 5 sépalas eglandulares, 1-(2) pétalas rudimentares, 1-(2) estames diminutos e 2 carpelos sem estiletes. Neste caso o fruto consta de 2 mericarpos semelhantes aos carpelos anteriores das flores casmógamas. Distribuição A família Malpighiaceae apresenta distribuição pantropical, com 75 géneros e cerca de 1300 espéciesDavis, C.C. & Anderson, W.R. 2010. A complete generic phylogeny of Malpighiaceae inferred from nucleotide sequence data and morphology. American Journal of Botany, 97(12):2031–2048.Anderson, William. (2013). Orígenes del Malpighiaceae mexicanas. Acta botánica mexicana. 107-156. 10.21829/abm104.2013.60. distribuídas pelas regiões tropicais e subtropicais, especialmente do continente americano, onde ocorrem 44 géneros e mais de 800 espécies.Anderson, W.R. 1981. Malpighiaceae. Botany of the Guiana Highland - Part XI. Memoirs of the New York Botanical Garden 32:21-305.Ribeiro, J.E.L.S., Hopkins, M.J.G., Vicentini, A., Sothers, C.A., Costa, M.A.S., Brito, J.M., Souza, M.A.D., Martins, L.H.P., Lohmann, L.G., Assunção, P.A.C.L., Pereira, E.C., Silva, C.F., Mesquita, M.R. & Procópio, L.C. 1999. Floresta da reserva Ducke: guia de identificação das plantas vasculares de uma floresta de terra-firme na Amazônia Central. Inpa, Manaus, pp. 505-511.

O centro de diversidade do grupo centra-se na América do Sul em áreas de cerrado, estando representada no Brasil por 44 géneros e mais de 561 espécies.Mamede, M.C.H., Sebastiani, R., Almeida, R.F., Francener, A, Amorim, A.M.A. 2015.Malpighiaceae.In: Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em . Usos Uma das espécies de Malpighiaceae mais conhecidas é Malpighia emarginata, geralmente conhecida por acerola, cultivada pelo seu fruto de polpa carnosa com grande valor nutricional, rico em vitamina C, comercializada num mercado global onde atinge grande importância económica.

Outro membro conhecido da família é Banisteriopsis caapi, conhecido por caapi ou yagé, planta rica em alcalóides narcóticos utilizada na preparação da tisana com características enteogénicas conhecida por ayahuasca.

Alguns géneros dessa família são têm utilização conhecida na região nordeste do Brasil, entre os quais o género Byrsonima cujo fruto, conhecido como murici, é utilizado na culinária, sendo a madeira utilizada na construção civil e a casca na industria têxtil.

Várias outras espécies são utilizadas como plantas ornamentais e para fins medicinais. Algumas espécies contém fitotoxinas que são utilizadas para envenenar peixes na pesca em rios e lagoas. Filogenia e sistemática O nome Malpighia foi criado por Carolus Linnaeus, em homenagem ao botânico e professor bolonhês Marcello Malpighi (1628-1694), que também escreveu uma ópera em latim em homenagem às plantas.

Filogenia Um estudo de filogenética molecular, realizado em 2012, usou dados resultantes da análise de um número alargado de genes e por essa via obteve uma árvore filogenética com maior resolução que a disponível nos estudos anteriormente realizados. Nesse estudo foram analisados 82 genes de plastídeos de 58 espécies (a problemática família Rafflesiaceae não foi incluída), usando partições identificadas a posteriori pela aplicação de um modelo de mistura com recurso a inferência bayesiana. Esse estudo identificou 12 clados adicionais e 3 clados basais de maior significância.Catalogue of Organisms: Malpighiales: A Glorious Mess of Flowering Plants A posição da família Malpighiaceae no contexto da ordem Malpighiales é a que consta do seguinte cladograma:

Evolução Há basicamente duas hipóteses para explicar a diversificação de Malpighiaceae: (1) Stefan Vogel (1925–2015) propôs a hipótese aborígene gondwaniana,Vogel, S. (1990) History of the Malpighiaceae in the light of pollination ecology. Memoirs of the New York Botanical Garden 55: 130-142. em que a actual distribuição da família resultou da fragmentação do supercontinente Gondwana;Davis, C.C., Bell, C.D., Matheus, S. & Donoghue, M.J. 2002. Laurasian migration explains gondwanan disjunctions: evidence from Malpighiaceae. Proceedings of the National Academy of Sciences 99(10):6833–6837. e (2) outros botânicos sugerem a hipótese de colonização americana, em que Malpighiaceae se diversificou no nordeste da América do Sul em isolamento da África e se dispersou em direção ao leste, ao longo do Oceano Atlântico, pelo menos duas vezes.

Esta última hipótese pressupõe que a divergência das linhagens do Novo Mundo e do Velho Mundo é mais recente do que a última conexão entre a América e a África, o que está de acordo com as indicações de vários autores.

De acordo com uma análise filogenética da família realizada em 2002, a família Malpighiaceae é dividida em dois grandes grupos, sendo um deles a subfamília Byrsonimoideae do Novo Mundo, e o outro, maior, contendo as demais espécies da família, agrupando espécies que se distribuem tanto no Novo Mundo como no Velho Mundo. Um fóssil de Tetrapterys encontrada nos Estados Unidos é datada do início do Oligoceno (de há cerca de 33 milhões de anos) e sugere que a divergência entre este género e suas linhagens irmãs ocorreu durante este período. Este facto pressupõe que a idade mínima de Malpighiaceae seja estimada em 63,3 milhões de anos.Davis, C.C. & Anderson, W.R. 2010. A complete generic phylogeny of Malpighiaceae inferred from nucleotide sequence data and morphology. American Journal of Botany 97: 2031-2048.