As Guerras Samnitas foram três conflitos distintos travados entre a República Romana e os samnitas, um povo que vivia num trecho dos montes Apeninos ao sul de Roma e ao norte da Lucânia entre 343 e 290 a.C.. A primeira delas foi resultado de intervenção romana para resgatar a cidade campânia de Cápua de um ataque samnita. A segunda, de uma intervenção romana na política da cidade de Neápolis e acabou se tornando uma disputa pelo controle da maior parte do sul e do centro da Itália. A terceira e última guerra samnita foi uma continuação e resolução da disputa, com a vitória final dos romanos. As guerras ocuparam toda a segunda metade do século IV a.C. e envolveram povos a leste, norte e oeste de Sâmnio e também outros povos da Itália central que viviam para o norte de Roma, como os etruscos, úmbrios e picenos, além dos gauleses sênones, que vivam na região que futuramente seria a Gália Cisalpina, que se envolveram em graus variados nestes pouco mais de cinquenta anos. Os samnitas foram o primeiro grande adversário de Roma e um dos mais formidáveis.

Contexto Na época da primeira destas guerras, a expansão para o sul do território romano já havia chegado ao rio Liris, que era a fronteira entre o Lácio ("terras dos latinos") e a Campânia. Este rio, atualmente chamado Garigliano, é hoje a fronteira entre as regiões modernas de mesmo nome. Na época, o nome "Campânia" era uma referência à planície entre a costa os montes Apeninos que ia do rio Liris até as baías de Nápoles e Salerno. A porção setentrional desta região era habitada pelos sidicínios, auruncos e ausônios (um subgrupo dos auruncos). As regiões central e meridional eram habitadas pelos campânios, um povo que havia migrado de Sâmnio ("terra dos samnitas") e eram muito próximos dos samnitas, mas que já haviam desenvolvido uma identidade própria. Os samnitas eram uma confederação de quatro tribos que viviam nas montanhas a leste da Campânia e eram a principal potência regional. Os samnitas, campânios e sidicínios falavam línguas oscas, parte da família linguística osco-úmbrica que incluía também as línguas úmbria e sabeliana, faladas ao norte de Sâmnio. Os lucanos, que viviam para o sul da Campânia e Sâmnio, também falavam línguas oscas.

Diodoro Sículo e Lívio relatam que, em 354 a.C., Roma e os samnitas firmaram um tratado,Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica xvi.45.7.Lívio, Ab Urbe Condita vii.19.3–4. mas não lista os termos concordados. Historiadores modernos propuseram que este tratado teria estabelecido o rio Liris como fronteira entre as respectivas esferas de influência, com Roma ao norte e os samnitas ao sul. O acordo ruiu quando os romanos intervieram ao sul do Liris para resgatar a cidade campânia de Cápua, que ficava ao norte de Neápolis, de um ataque samnita.

Primeira Guerra Samnita (343–341 a.C.) thumb|direita|upright=1.3|Mapa das campanhas da Primeira Guerra Samnita em 343 a.C.) Lívio é a única fonte sobrevivente a prover um relato contínuo da guerra que ficou conhecida na historiografia moderna como Primeira Guerra Samnita. Além disso, os Fastos Triunfais relatam dois triunfos referentes a esta guerra e alguns eventos citados por Lívio foram também citados pontualmente por outros autores antigos.

Início da guerra Relato de Lívio Segundo Lívio, a Primeira Guerra Samnita não começou por causa de alguma inimizade entre Roma e os samnitas, mas por força de eventos externos.Lívio, Ab Urbe Condita vii.29.3 O causa imediata foi um ataque não provocado dos samnitas aos sidicínios,Lívio, Ab Urbe Condita vii.29.4 uma tribo que vivia ao norte da Campânia e cuja capital era Teano Sidicino. Incapazes de resistir, os sidicínios buscaram ajuda dos campânios. Porém, os samnitas derrotaram os campânios em território sidicínio e voltaram sua atenção ao território deles. Primeiro eles tomaram os montes Tifata, que dominavam o território perto de Cápua, a capital campânia, e, depois de deixar uma poderosa guarnição para vigiá-los, marchou para a planície e para Cápua,Lívio, Ab Urbe Condita vii.29.5–6 onde derrotaram os campânios novamente. Cercados e protegidos apenas por suas muralhas, os campânios pediram ajuda a Roma.Lívio, Ab Urbe Condita vii.29.5–7

Em Roma, os embaixadores campânios receberam permissão para falar ao Senado Romano e, num discurso, propuseram uma aliança entre Roma e os campânios, lembrando o quanto eles, famosos por sua riqueza, poderiam ajudar os romanos e como poderiam ajudá-los a subjugar os volscos, inimigos de Roma. Eles lembraram ainda que nada no tratado de Roma com os samnitas impedia-os de firmarem também um tratado os campânios e alertaram que se eles não aceitasse, os samnitas poderiam conquistar a Campânia, o que acrescentaria a força dos campânios às deles e não à dos romanos.Lívio, Ab Urbe Condita vii.30.1–23 Depois de discutirem a proposta, os senadores concordaram que apesar das muitas vantagens para os romanos num tratado com os campânios e de suas terras férteis poderem se tornar o celeiro de Roma, Roma não poderia se aliar com eles sem quebrarem o acordo com o samnitas e, por isso, a proposta foi recusada.Lívio, Ab Urbe Condita vii.31.1-2 Depois de serem informados da recusa, a embaixada campânia, seguindo as instruções que tinham, renderam o povo da Campânia e a cidade da Cápua incondicionalmente ao poder de Roma.Lívio, Ab Urbe Condita vii.31.3–5 Motivados por esta rendição, os senadores mudaram de opinião e afirmaram que a honra de Roma agora exigia que os campânios e Cápua, que eram, por conta da rendição, possessões romanas, fossem protegidos de ataques samnitas.Lívio, Ab Urbe Condita vii.31.6–7

Emissários foram enviados aos samnitas para exigirem que eles, tendo em vista a amizade mútua com Roma, poupassem o território que havia passado para os romanos e, em caso de negativa, para avisá-los de que samnitas deveriam deixar em paz a cidade de Cápua e o território da Campânia.Lívio, Ab Urbe Condita vii.31.8–10 Os emissários entregaram a mensagem à Assembleia nacional samnita conforme as instruções e receberam uma resposta desafiadora: "...não apenas os samnitas declararam sua intenção de guerrear contra Cápua, mas seus magistrados deixaram a câmara da Assembleia e, num tom de voz alto o suficiente para que os emissários ouvissem, ordenaram que [os exércitos] marchassem imediatamente para o território campânio e o arrasse".Lívio, Ab Urbe Condita vii.31.11–12 Quanto estas notícias chegaram em Roma, os feciais foram enviados para tentar buscar reparações e evitar a guerra. Quando eles também não tiveram sucesso, Roma declarou guerra aos samnitas.Lívio, Ab Urbe Condita vii.32.1–2

Visões modernas thumb|direita|upright=1.3|Soldados samnitas num túmulo em Nola (séc. IV a.C.). A acuracidade histórica do relato de Lívio é tema disputa entre os historiadores modernos. É geralmente aceito que, apesar de Lívio possivelmente ter simplificado a forma na qual sidicínios, campânios e samnitas entraram na guerra, sua narrativa é, pelo menos nos grandes temas, histórica. A fortaleza sidicínia de Teano controlava importantes rotas comerciais regionais, o que teria sido um motivo suficiente para a tentativa de conquista pelos samnitas. A Primeira Guerra Samnita pode ter começado quase que por acidente, exatamente como alega Lívio. Os sidicínios ficavam no território samnita definido pela fronteira do rio Liris e, apesar de um tratado romano-samnita possa ter tratado apenas do curso médio do rio e não a foz, os romanos não parecem muito preocupados com o destino dos sidicínios. Os samnitas podiam, portanto, guerrear com os sidicínios sem medo do envolvimento romano. Foi apenas o imprevisto envolvimento dos campânios que atraiu os romanos para a guerra.

Muitos historiadores tiveram, porém, muita dificuldade em aceitar a historicidade da embaixada campânia a Roma, especialmente a veracidade do relato de Lívio descrevendo os campânios rendendo-se incondicionalmente aos romanos. O fato de Cápua e Roma serem aliados em 343 a.C. é menos controverso, pois esta relação é a causa subjacente de toda a guerra.

Historiadores notaram similaridades entre os eventos que levaram à Primeira Guerra Samnita e os eventos que, segundo Tucídides, provocaram a Guerra do Peloponeso, mas há diferenças também. Há muitos paralelos entre o discurso proferido pelo embaixador campânio ao Senado Romano em Lívio e o discurso do embaixador corcirano à Assembleia ateniense em Tucídides. Mas enquanto os atenienses de Tucídides debatem a proposta corcirana em termos pragmáticos, os senadores de Lívio decidiram rejeitar a aliança campânia com base em argumentos morais. É possível que a intenção do próprio Lívio tenha sido a de que seus leitores, muito educados, percebessem o contraste. O destino miserável dos campânios se rendendo contrasta fortemente com a arrogância campânia, um tema comum na literatura romana. É improvável também que a descrição de Lívio da Assembleia samnita seja baseada em qualquer fonte autêntica, mas não se deve concluir necessariamente que, por conta dos discursos terem sido inventados, uma prática comum dos historiadores antigos, que a rendição campânia também seja uma invenção.

A principal dificuldade do relato, porém, está em quanto a rica Cápua pode ter sido reduzida a uma situação desesperadora pelos samnitas em 343 a.C. a ponto de os campânios estarem dispostos a entregar tudo aos romanos. Durante a Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.), Cápua é famosa por ter se aliado aos cartagineses, e, depois de um longo cerco, por ter sido forçada a se render incondicionalmente aos romanos, o que resultou numa dura punição. Salmon (1967) defende, por isso, que a rendição campânia em 343 a.C. é uma retrojeção de eventos posteriores ao passado por historiadores romanos tardios. Esta invenção serviria ao duplo propósito de exonerar os romanos da quebra do tratado e de justificar a severa punição aplicada em 211 a.C.. O que Roma concordou, em 343 a.C., foi uma aliança em termos similares aos tratados que ela já tinha com latinos e hérnicos. Cornell (1995) aceita a rendição como histórica. Estudos demonstraram que a submissão por uma das partes em um conflito era uma característica usual da diplomacia desta época. Da mesma forma, Oakley (1998) não acredita que a rendição em 343 a.C. seja uma retrojeção e não encontrou muitas similares entre os eventos 343 e 211 a.C.. Os historiadores antigos relataram muitos casos similares e cuja historicidade não é disputada, no qual um estado apelou a Roma por ajuda numa guerra contra um inimigo mais poderoso. A evidência histórica mostra que Roma considerava estes suplicantes como tendo, tecnicamente, o mesmo status de um inimigo rendido, mas, na prática, Roma certamente não desejava abusar de potenciais aliados. Forsythe (2005), como Salmon, defende que a rendição é uma retrojeção, inventada para justificar melhor os atos romanos e para, em boa medida, transferir a culpa pela Primeira Guerra Samnita aos manipuladores campânios.

Lívio retrata os romanos como tendo altruisticamente assumindo o fardo de defender os campânios, mas este é um tema literário comum nas histórias republicanas romanas, cujos autores desejavam revelar que as guerras romanas teriam sido justas. O sucesso militar era a principal causa de prestígio e glória na competitiva aristocracia romana. Evidências de períodos posteriores, muito melhor documentados, revelam um Senado capaz de manipular circunstâncias diplomáticas para criar um casus belli para uma guerra de expansão ou conquista. Não há razão para acreditar que este não tenha sido o caso na segunda metade do século IV a.C. Há também relatos de episódios nos quais os romanos recusaram pedidos de ajuda, o que implica que eles tinham a chance de rejeitar qualquer ajuda aos campânios em 343 a.C.

Três vitórias romanas

Relato de Lívio