Maria Luísa de Orleães (; Paris, – Madrid, ) foi a primeira esposa do Rei Carlos II e Rainha Consorte da Espanha de 1679 até sua morte.

Nascida uma princesa francesa, filha de Filipe, Duque de Orleães, e de Henriqueta Ana da Inglaterra, Maria Luísa era sobrinha de Luís XIV da França. Contra sua vontade, foi casada por seu tio com o rei Carlos II da Espanha, na esperança de fortalecer a influência francesa na corte espanhola. Entretanto, Maria Luísa não tinha ambições políticas, teve dificuldades para se adaptar ao rígido protocolo da corte e sofreu com o isolamento e a monotonia da vida na corte espanhola. Seu casamento com Carlos II não gerou descendência. Sua morte repentina, em 1689, deu origem a rumores de envenenamento.

Início de vida miniatura|esquerda|Maria Luísa retratada como Íris. Detalhe da obra Retrato Mitológico da Família de Luís XIV, de Jean Nocret, 1670.|210x210px Nascida no Palácio Real, em Paris, filha primogênita de Filipe, Duque de Orleães, e de Henriqueta Ana da Inglaterra, Maria Luísa era uma Neta da França () e detinha o tratamento de "Sua Alteza Real", embora fosse mais conhecida na corte como "Mademoiselle de Orleães".Seus pais inicialmente demonstraram decepção pelo fato de ela ter nascido menina. Segundo relatos da época, sua mãe teria exclamado: "Joguem-na no Sena!". Pouco depois, porém, foi consolada por sua sogra, Ana da Áustria, que observou que, embora a criança não fosse um príncipe, poderia um dia tornar-se rainha da França, já que era apenas alguns meses mais nova que seu primo, o Delfim da França.

miniatura|Maria Luísa retratada ao lado de pai, Filipe, Duque de Orleães, de quem era a filha favorita. Obra atribuída a Jean Nocret, 1672.|223x223px Maria Luísa era a filha favorita do pai, embora houvesse rumores na corte de que seu verdadeiro pai era o rei da França, Luís XIV, ou o Conde de Guiche, e desfrutou de uma infância feliz. Passava a maior parte do tempo entre o Palácio Real e o Castelo de Saint-Cloud, localizado a poucos quilômetros a oeste de Paris. Também costumava passar temporadas com sua avó materna, Henriqueta Maria da França, ex-rainha da Inglaterra que vivia exilada em Colombes. Lá, Maria Luísa conheceu sua prima Ana, futura rainha da Grã-Bretanha, tendo sido companheira de brincadeiras da prima.

Em 1670, sua mãe faleceu. No ano seguinte, seu pai casou-se com Isabel Carlota do Palatinado. Maria Luísa desenvolveu uma relação afetuosa com a madrasta, com quem manteve uma correspondência cordial ao longo da vida.

Maria Luísa recebeu uma educação esmerada, adquirindo habilidades como equitação, dança, música e etiqueta. Os relatos contemporâneos, em geral, descrevem Maria Luísa de maneira bastante favorável:

Casamento esquerda|miniaturadaimagem|263x263px|Maria Luísa retratada em traje adornado com flores-de-lis, símbolo da Casa de Bourbon francesa, e a Coroa Real da Espanha, em alusão à sua nova condição como rainha consorte espanhola. Obra atribuída a Pierre Mignard, 1679. Em julho de 1679, Maria Luísa foi informada por seu pai e por seu tio, o rei da França, Luís XIV, de que estava prometida em casamento ao rei Carlos II da Espanha. Abalada com a perspectiva dessa união, Maria Luísa passou a maior parte do tempo chorando, sobretudo porque havia se apaixonado por seu primo, o delfim. Ela chegou ao ponto de ajoelhar-se diante do tio e suplicar que ele abandonasse o projeto; sorrindo, o rei respondeu que não era apropriado que a futura rainha da Espanha se ajoelhasse aos pés do rei da França. Quando Luís XIV declarou que a estava tornando rainha da Espanha e que não poderia ter feito mais nem mesmo por sua própria filha, Maria Luísa retrucou: "Mas poderia fazer mais por sua sobrinha!"Após a confirmação da conclusão bem-sucedida das negociações do casamento chegar à corte espanhola, em 2 de julho de 1679, Madrid foi tomada por bailes de máscaras e celebrações públicas. O casamento por procuração de Maria Luísa com Carlos II foi celebrado em 31 de agosto de 1679, na capela do Palácio de Fontainebleau. Na cerimônia, o noivo foi representado por seu parente distante, Luís Armando, Príncipe de Conti.Sanchez Belén, Juan Antonio (2009). María Luisa de Borbón-Orleans y Estuardo . In: Diccionario biográfico español, Madrid

Na cerimônia de despedida, realizada em 20 de setembro de 1679, Luís XIV declarou à sobrinha que se despedia dela para sempre e que seria uma grande desgraça se algum dia ela voltasse a ver sua terra natal.Lurgo, Elisabetta (2021.) Marie-Louise d'Orléans. La princesse oubliée nièce de Louis XIV . Paris, Perrin, 380 p. Na mesma ocasião, o rei dirigiu uma reprimenda à grã-duquesa da Toscana, Margarida Luísa de Orleães, presente à cerimônia, lembrando que ela havia abandonado o marido, Cosmo III de Médici, e retornado à França em 1675.Marie-Louise d’Orléans (1860) . In: Nouvelle biographie générale. Volume 33, Col. 665

Maria Luísa encontrou o marido pela primeira vez em 18 de novembro de 1679. Como ela não falava castelhano e Carlos II não dominava o francês, o casal precisou de um intérprete durante o primeiro contato. No mesmo dia, celebraram o casamento em Quintanapalla, em uma cerimônia simples oficiada por Antonio de Benavides, patriarca das Índias Ocidentais e capelão real. De Burgos, o casal seguiu para Madrid, recebendo ao longo do caminho festividades suntuosas organizadas pelas autoridades locais. Maria Luísa escreveu ao monarca francês relatando que seu marido era mais amável do que havia imaginado.Marie-Louise . In: Biography universale ancient and modern, 2ª edição, 1843-65, vol. 26, pp. 630-631 Para celebrar o casamento, realizou-se um auto de fé em Madrid, no qual 22 pessoas foram queimadas vivas e outras 60 submetidas a castigos corporais. Rainha da Espanha Retratos de Maria Luísa como rainha, trajando a moda espanhola

Apesar da relutância inicial de Maria Luísa em se casar, o casamento do casal real espanhol transcorreu relativamente bem; muitos observadores da época acreditavam que Carlos II amava genuinamente sua esposa.Marie Louise d’Orléans. In: Brigitte Hamann (org.): Die Habsburger . Ein biographisches Lexikon, 1988, p. 330 No entanto, Maria Luísa teve dificuldades para se adaptar à rígida etiqueta da corte espanhola, estabelecida por Filipe IV. Seus confidentes limitavam-se aos membros de sua pequena comitiva francesa, que incluía sua ama de leite, Nicolase Duperroy; quatro ou cinco damas de companhia (escolhidas pela rainha francesa Maria Teresa); seu confessor, o padre jesuíta Airault; vários médicos; e um tratador de cavalos. Ela também trouxera da França um professor de língua irlandesa, que lhe ensinava espanhol. O rei também ensinava espanhol à esposa e, em troca, recebia aulas de francês dela.Marie-Louise, in: Louis Gabriel Michaud (org.): Biographie universelle ancienne et moderne , 2ª edição, 1843-65, vol. 26, pág. 629 As acusações contra os criados franceses de Maria Luísa, somadas às dificuldades do rei espanhol para pagar seus salários, levaram muitos deles a deixar a corte. Apenas o confessor da rainha, duas damas de companhia e alguns outros criados franceses permaneceram.

Maria Luísa exercia pouca influência na vida da corte, embora tivesse voz em algumas nomeações para altos cargos do Estado. O poder era exercido principalmente por sua sogra, Maria Ana da Áustria, e por seus ministros. Ainda assim, Luís XIV via Maria Luísa como uma figura-chave em suas tentativas de enfraquecer a Espanha. Em carta enviada a seu embaixador em Madrid, instruiu-o a informar a rainha espanhola de que ela deveria fazer tudo ao seu alcance para impedir a nomeação de um novo primeiro-ministro mais competente que o anterior. No entanto, ao contrário de sua mãe, Maria Luísa não tinha ambições políticas e não conseguiu corresponder às expectativas de Luís XIV. Além disso, apesar do casamento de sua sobrinha com Carlos II, o rei francês não estava disposto a abandonar novas campanhas militares contra a Espanha.Albrecht Graf von Kalnein: Karl II., in: Walther L. Bernecker, Carlos Collado Seidel, Paul Hoser (org.): Die spanischen Könige , C. H. Beck, Munique 1997, p. 128. O Conde de Rébénac, embaixador francês na corte espanhola, afirmou que, em 1689, pouco antes de sua morte, Maria Luísa conseguiu inicialmente persuadir o marido a não participar da Guerra dos Nove Anos ao lado dos inimigos da França. Entretanto, o isolamento diplomático de Luís XIV levou o Conselho de Estado espanhol a aderir, por fim, à coalizão antifrancesa.

Maria Luísa procurava dedicar-se cada vez mais aos seus passatempos favoritos, sobretudo à equitação, que praticava em excesso. A infertilidade de Maria Luísa deu origem, por volta de 1686, a muitos comentários maldosos e versos satíricos. Ela sofria por ser responsabilizada pela ausência de filhos e fingiu estar grávida em diversas ocasiões. Vários escândalos envolvendo seu círculo íntimo também lhe custaram grande parte da simpatia de que desfrutara inicialmente. Sua vida monótona e entediante, marcada pelo isolamento, pela solidão e pela rígida etiqueta da corte, tornou-se um pesado fardo para a rainha espanhola, acostumada às numerosas e suntuosas celebrações de sua terra natal. Ela passou a sentir uma saudade cada vez maior da vida que levava na França, desenvolveu um enorme apetite e acabou tornando-se obesa.Marie-Louise, in: Louis Gabriel Michaud (org.): Biographie universelle ancienne et moderne , 2ª edição, 1843-65, vol. 26, pág. 630

Morte miniaturadaimagem|315x315px|O corpo de Maria Luísa em exposição numa câmara ardente no Real Alcázar de Madrid. Obra de Sebastián Muñoz, c. 1689-1690. Maria Luísa morreu subitamente em 12 de fevereiro de 1689, dois dias após adoecer e vomitar violentamente depois de beber um jarro de leite. Ela foi sepultada no Panteão dos Infantes, no Mosteiro do Escorial.

A notícia de sua morte chegou a Versalhes em 19 de fevereiro de 1689 e causou grande comoção. Assim como sua mãe, Maria Luísa morreu aos 26 anos e, da mesma forma, surgiram imediatamente suspeitas de que ela tivesse sido envenenada. A corte espanhola realizou uma autópsia em seu corpo antes do sepultamento para dissipar os rumores de envenenamento.

Essa hipótese, contudo, encontrou ampla aceitação, sobretudo entre os simpatizantes da França. Na própria França, Madame de La Fayette e Madame de Sévigné, entre outros, estavam convencidas de que Maria Luísa havia sido envenenada. A Áustria e a rainha-mãe, Maria Ana, foram apontadas como possíveis responsáveis pela conspiração. Embora Maria Ana inicialmente preferisse outra candidata para se casar com seu filho, Carlos II, posteriormente desenvolveu um bom relacionamento com a nora bourbon e ficou profundamente consternada com sua morte inesperada.

Em suas Memórias, o Duque de Saint-Simon, acusou a corte de Viena de ter orquestrado o suposto envenenamento. Segundo ele, os austríacos temiam que Maria Luísa, por meio de sua influência sobre Carlos II, rompesse definitivamente a tradicional aliança entre a Espanha e a Áustria. A astuta Condessa de Soissons e mãe do célebre príncipe Eugénio de Saboia, que havia deixado a França, conquistou a confiança de Maria Luísa e, de acordo com Saint-Simon, conspirou com o embaixador imperial em Madrid, o Conde von Mansfeld, para envenenar a rainha espanhola com leite gelado. Após o suposto crime, a Condessa de Soissons fugiu para a Alemanha, enquanto o Conde von Mansfeld foi chamado de volta a Viena.

Atualmente, porém, considera-se mais provável que Maria Luísa tenha morrido de gastroenterite causada por uma infecção por salmonella, contraída após consumir ostras acompanhadas de leite gelado.Marie Louise d’Orléans. In: Brigitte Hamann (org.): Die Habsburger . Ein biographisches Lexikon, 1988, p. 331 Segundo outra teoria, sua morte teria sido consequência de uma queda de cavalo. Ainda no século XVIII, Voltaire já contestava a hipótese do envenenamento.

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