O gótico clássico é uma das quatro etapas estilísticas do gótico no campo arquitetônico. Foi praticado no campo da arquitetura religiosa e civil principalmente, embora também haja um grande número de obras como esculturas, murais, vidraças, manuscritos e em outras obras decorativas. A Catedral de Chartres é considerada o edifício-chave na afirmação do gótico maduro (igualmente designado por gótico clássico, etapa que se inicia no ano de 1194), tornando-se de imediato um verdadeiro modelo para as catedrais da mesma época. Em Chartres, a estrutura românica original foi destruída por um incêndio a 10 de junho de 1194 e reconstruída segundo o novo gosto que se propagava pela Île-de-France. Chartres era, por outro lado, uma rica sede episcopal, cuja catedral albergava a túnica que se acreditava ter sido usada pela Maria no nascimento de Jesus. O culto mariano era particularmente forte e desempenhava um papel importante na economia da cidade: o bispo e o seu cabido organizavam anualmente quatro feiras por ocasião das quatro principais festividades marianas (Natividade, Anunciação, Purificação e Assunção).
A reedificação da catedral, que voltaria a acolher a relíquia salva milagrosamente do incêndio, foi tornada possível graças às doações provenientes da nobreza e dos proprietários locais, mas também dos trabalhadores da cidade. A Catedral de Chartres era, assim, simultaneamente o símbolo da fé religiosa e da prosperidade económica da comunidade, além de servir de cenário para várias atividades civis, como o comércio e a administração da justiça. Apresenta três naves com um transepto que se posiciona perfeitamente a meio; prosseguindo em direção ao presbitério, as naves passam a cinco e é criado um duplo deambulatório para enfatizar o verdadeiro centro da igreja. Além disso, aproveita-se ao máximo a presença dos arcobotantes, que permitem descarregar as forças diretamente sobre os contrafortes exteriores, eliminando o peso que sobrecarregava o matroneu ou a tribuna. Este nível é, assim, suprimido, acentuando-se a leveza da nave. Os níveis verticais passam a três: as arcadas altas, o trifório baixo e o clerestório. A substituição da antiga abóbada sexpartida pela abóbada quadripartida, que cobre um único tramo retangular, revelou-se estruturalmente mais simples, leve e resistente, funcionando como um esqueleto lógico de pedra que sustenta o empuxo da cobertura em pontos isolados. A verticalidade da estrutura é enfatizada também pelos pilares fasciculados que se elevam do pavimento até à linha de arranque das abóbadas ou saimel onde se fundem em feixes com as nervuras.
A fachada da catedral apresenta elementos tardo-românicos, remanescentes da estrutura anterior ao incêndio (construídos por volta de 1134–1150). As fachadas dos transeptos são, por sua vez, do século XIII. O projeto inicial previa sete torres, mas apenas duas foram construídas; a torre de noroeste, em particular, tem início por volta de 1140 (concluída em meados do século XII) e é a primeira torre em estilo gótico, à qual foi adicionada, em 1507, uma agulha em estilo gótico flamejante.
Se a de Chartres foi o símbolo da prosperidade, ainda maior foi o prestígio da Catedral de Reims, que foi o local de coroação dos reis Capetíngios na Île-de-France, região que no século XIII tinha assumido grande importância política e económica. Iniciada em 1211 (ano que marca o fim do gótico clássico, delimitado entre 1194 e 1210), apresenta, tal como Chartres, um alçado de três ordens, com abóbadas quadripartidas, arcobotantes e pilares polistilos, decorados e enriquecidos por numerosas esculturas que quebram a sobriedade do espaço interno. Para equilibrar as pressões, os contrafortes externos receberam maior peso e força estrutural através da adição de pesados pináculos de pedra no topo, frequentemente decorados com estátuas de anjos. Podem também admirar-se os cogulhos, as gárgulas — que surgem como bicas ornamentais para canalizar as águas pluviais longe dos muros — e vários motivos vegetais esculpidos nos portais e capitéis. Em Reims fazem a sua primeira aparição os traforos vazados: as biforas possuem uma única vidraça sobre a qual é inserido um traforo de seis lóbulos (hexalobado). Das sete torres previstas originalmente, apenas duas seriam construídas na fachada no século XV. A fachada é obra, provavelmente, de Jean le Loup: foi projetada por volta de 1235 e terminada no fim do século XIII, enquanto a galeria superior foi ultimada no século XV. Os seus três portais salientes são moldados com base no motivo do arco do triunfo, identificando majestosamente as entradas da catedral.
Outro exemplo clássico do gótico maduro é a Catedral de Amiens, iniciada em 1220 e com o corpo principal concluído por volta de 1269. Também esta foi reconstruída após um incêndio, seguindo um projeto do arquiteto Robert de Luzarches que remonta a 1220. Tomou-se como modelo a catedral de Reims, mas foram realizadas abóbadas mais altas, atingindo uma elevação máxima de 42,30 metros, apoiadas subtilmente em finas e tensas membranas de pedra. Em Amiens, os traforos foram ainda mais desenvolvidos. Aqui, as quadriforas são encimadas por três traforos, de tal forma que a parede da catedral parece dissolver-se numa imensa vidraça, evocando a conceção neoplatónica de Deus como a «Luz Supraessencial» e convertendo o interior num espaço sobrenatural de exaltação mística. Os trifórios, por sua vez, acabam por se assemelhar a uma fileira de janelas que replicam o clerestório sobreposto, permitindo que a luz natural inunde por completo o interior através do trifório envidraçado. A sua fachada ocidental, construída numa única campanha de obras, apresenta uma unidade artística invulgar com três portais profundos (dedicados ao Juízo Final ao centro, a São Firmino à esquerda e à Virgem Maria à direita) e uma galeria de 22 reis da Árvore de Jessé.
Segundo David Watkin, o conjunto das grandes catedrais francesas do século XIII — de Bourges, Reims e Amiens, juntamente com Notre-Dame de Paris, Soissons e outras — constitui «o maior ciclo de edifícios num estilo definido e altamente desenvolvido já produzido pelo homem», representando também «a mais notável demonstração» da capacidade humana de conciliar perfeição material, beleza e significado espiritual sob o impulso de uma fé religiosa dominante.David Watkin, Storia dell'architettura occidentale, Zanichelli, Bolonha, 2007.
A Catedral de Saint-Étienne em Bourges foi iniciada simultaneamente à catedral de Chartres: o coro foi terminado em 1210, enquanto a nave central exigiu mais tempo e foi concluída por volta de 1255–1260. A particularidade desta catedral reside no facto de os seus construtores não terem aderido ao modelo de Chartres, mesmo após este se ter imposto em muitos estaleiros, prosseguindo com o projeto inicial. Nasceu assim um edifício extremamente original, caraterizado pela essencialidade da conceção espacial. Este aspeto foi parcialmente retomado por outros construtores, por exemplo na catedral de Le Mans, no coro da catedral de Coutances e na Catedral de Toledo, em Espanha. A planta da catedral de Bourges é desprovida de transepto, com naves laterais duplas e duplo deambulatório, seguindo o modelo de Notre-Dame de Paris. Trata-se, porém, de um edifício muito leve, com volumes escalonados em altura, naves laterais muito altas que sustentam a nave central e arcobotantes no exterior, distanciando-se, portanto, da grandiosidade de Chartres.
Ligações externas
Categoria:Arquitetura gótica