Uma figura de linguagem, por vezes chamada de figura de retórica, figura de estilo ou recurso expressivo, é uma operação enunciativa que intensifica ou atenua o sentido de algum elemento do discurso, servindo também para a ornamentação do textoFIORIN, 2023b, p. 10.. A definição precisa acerca do que é uma figura de linguagem, bem como a sua classificação, não é unânime, mas é um consenso de que elas constituem a peça central na construção do pathos retórico e do e do desenvolvimento da literatura.
História Segundo José Luiz Fiorin, nos seus livros Argumentação e Figuras de retórica, as figuras de linguagem foram primeiramente estudadas pelos expoentes da retórica clássica, como Aristóteles, Quintiliano e Cícero. Destes, destaca-se Cícero, que, no seu livro De oratore, afirmava que as figuras são a peça central para a construção do ornatus, que é o embelezamento da linguagemFIORIN, 2023a, p. 23.. Observa Fiorin que ornatus não possui o sentido enfeitar, mas sim o de equipar o discurso, o que significa que esses autores compreendiam que havia uma dimensão argumentativa nas figuras de linguagem, isto é, elas serviam também para persuadir e argumentarFIORIN, 2023b, p. 27..
Durante a Idade Média, os autores que se dedicavam ao estudo da retórica fizeram uma distinção clara entre os elementos persuasivos da linguagem (que foram legadas aos estudos da topologia) e as características estéticas e ornamentais do discurso (que foram legadas aos estudos da tropologia). Essa distinção contribuiu para a negação da dimensão argumentativa das figuras de linguagem, que passaram a ser vistas apenas como um "luxo" discursivoFIORIN, 2023a, p. 22-23..
Foi somente a partir da segunda metade do século XX que as figuras de linguagem voltaram à atenção dos estudiosos. O primeiro expoente dessa operação foi o linguista e semiólogo Roman Jakobson, que, em 1956, publicou o texto Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia, onde argumentou que todos os processos simbólicos humanos derivam da metáfora, construída a partir de uma relação de similaridade entre dois entes, e da metonímia, construída a partir de uma relação de contiguidade entre dois entesFIORIN, 2023b, p. 15.. A partir desse estudo, vários outros linguistas e semiólogos passaram a se dedicar ao estudo e à classificação das figuras, dos quais um dos primeiros e mais fundamentais foi Roland Barthes.
Hoje em dia, o estudo das figuras de linguagem é feito geralmente por linguistas no campo da semântica e, principalmente, da pragmática.
Classificação A classificação das figuras de linguagem não é unânime entre linguistas, primeiramente porque há diversas maneiras de classificá-las, e também porque os limites acerca do que é uma figura de linguagem são relativamente vagos, fazendo com que haja discussão sobre se uma operação enunciativa é ou não uma figura de linguagem (por exemplo, alguns argumentam que a alusão é uma figura de linguagem, enquanto outros argumentam que não). De qualquer maneira, as figuras de linguagem são geralmente classificadas em: figuras de sentido ou figuras de palavras ou tropos; figuras de ideias ou figuras de pensamento; figuras de sonoridade; e figuras de sintaxe.
Figuras de sentido (tropos) As figuras de sentido, mais comumente chamadas de tropos nos meios acadêmicos, baseiam-se, segundo Quintiliano, no processo de translatio, que consiste em transpor o sentido de uma palavra, empregando-se o de outra em seu lugar. Segundo o linguista Paul Ricœur, esse processo pode ser visto como uma predicação impertinente, isto é, afirmar que uma coisa é o que ela, objetivamente, não éFIORIN, 2023b, p. 28..
Como observa Jakobson, os tropos se dividem em dois grupos: os que se constroem a partir da similaridade entre dois entes, cuja base é a metáfora; e os que se constroem a partir da contiguidade entre dois entes, cuja base é a metonímia. Fiorin afirma que o primeiro grupo realiza um movimento de concentração semântica, isto é, concentra-se o sentido total da palavra em um ou outro sema que ela possuiFIORIN, 2023b, p. 34.; ao passo que o segundo grupo realiza um movimento de expansão ou difusão semântica, isto é, um valor semântico é transferido a outroFIORIN, 2023b, p. 37.. Figura DefiniçãoExemploOperaçãometáfora impura, atributiva ou in praesentia consiste em comparar dois elementos sem o emprego de conectivos e de maneira direta, referindo-os no enunciado por meio de uma oração assertiva."Os seus olhos são duas esmeraldas." Similaridade ou concentração semântica. metáfora pura, indireta ou in absentia consiste em comparar dois elementos de maneira indireta, referindo apenas o elemento comparante."As duas esmeraldas dela me fitaram durante toda a noite."Similaridade ou concentração semântica. comparação ou símile consiste em comparar dois elementos com o auxílio de conectivos, referindo-se aos dois."Os seus olhos são como duas esmeraldas." "Eu vaguei como um lobo pela noite."
"Como a porta gira nos seus gonzos, assim o preguiçoso, na sua cama."Similaridade ou concentração semântica. prosopopeia ou personificação consiste em atribuir características humanas seres não humanos."Deus criou o sol para presidir o dia" (Em um quadrinho, um cachorro falando e andando em duas patas)Similaridade ou concentração semântica. animalização ou reificação consiste em atribuir características não humanas a seres humanos."O investigador farejou a casa inteira atrás de provas"Similaridade ou concentração semântica sinestesia consiste em misturar os cinco sentidos humanos."O piano ostentava um som (audição) doce (paladar)."Similaridade ou concentração semânticahipálageconsiste em atribuir uma característica de um ente a outro ente próximo."Ela me lançou um olhar furioso" (quem está furioso é ela e não o olhar)Similaridade ou concentração semânticametonímiaconsiste em expandir a abrangência de um termo, pela troca de autor e obra, causa e efeito etc."Eu leio Machado de Assis" (os livros de Machado de Assis)Contiguidade, expansão ou difusão semânticaantonomásiaconsiste em referir-se a alguém por meio de uma característica sua."O rei da selva dormia na savana" (leão)Contiguidade, expansão ou difusão semânticaperífraseconsiste em dizer algo de maneira indireta e com mais palavras"Eles são unidos por laços matrimoniais" (casados)Contiguidade, expansão ou difusão semânticaadínatonconsiste em expor uma impossibilidade por meio de uma perífrase, sendo uma variação desta."Só vou fazer isso quando o nosso vizinho pisar na lua"Contiguidade, expansão ou difusão semânticaeufemismoconsiste em atenuar o sentido de um termo forte ou sensível, trocando-o por outro mais leve."Infelizmente, ele já não se encontra entre nós" (morreu)Contiguidade, expansão ou difusão semânticadisfemismoconsiste em empregar um termo chulo, grosseiro ou sarcástico no lugar de outro, com objetivo humorístico, alcançando o efeito contrário ao do eufemismo."Ele bateu as botas" (morreu)Contiguidade, expansão ou difusão semânticahipérboleconsiste em usar de exagero para expressar uma ideia ou sentimento."Eu estou morrendo de amor por você" (amo)Contiguidade, expansão ou difusão semântica
Figuras de pensamento As figuras de pensamento baseiam-se no jogo entre as ideias presentes no enunciado. Elas geralmente operam pela repetição e pela acumulação, com o intuito de dar mais vigor a uma ideia. Fiorin elenca algumas delas (mais especificamente a apóstrofe, o oximoro, a ironia e a lítote) como troposFIORIN, 2023b, p. 33-34.. Figura DefiniçãoExemploOperaçãoapóstrofe consiste em trazer uma terceira pessoa à cena enunciativa por meio de um vocativo, tratando-a como o interlocutor."Oh! meu Deus! Até quando eu clamarei e tu não me ouvirás?" Similaridade ou concetração semânticaantíteseconsiste em aproximar duas ideias opostas em um enunciado, mas sem gerar contradição."Eu estava entre a vida e a morte!"Acumulaçãooximoroconsiste em unir, numa mesma expressão, termos opostos, de maneira a gerar uma contradição aparente, que se resolve pela concentração do sentido de um dos termos."Amor é um contentamento descontente (contentamento que traz prejuízos)"Similaridade ou concentração semânticaironiaconsiste em afirmar algo querendo indicar o seu oposto."O menino é um santo (bagunceiro)!"Contiguidade, expansão ou difusão semântica.lítoteconsiste em negar o contrário daquilo que se quer afirmar."Você não é nada burro (é inteligente)"Contiguidade, expansão ou difusão semântica.paráfraseconsiste em reformular aquilo uma afirmação com outras palavras."A minha namorada é a mulher mais bonita e mais deslumbrante que eu já conheci."Repetiçãopleonasmoconsiste em repetir unidades formalmente distintas, mas idênticas do ponto de vista semântico, gerando uma ambiguidade."Só acredito naquilo que vejo com meus próprios olhos"Repetiçãoantanáclaseconsiste em repetir o mesmo lexema, mas com significados diversos."No verso (parte de trás) da folha estão escritos alguns versos (linhas de poemas)"Repetiçãoparadiástoleconsiste em distinguir os vários sentidos de um mesmo termo."Desconfiar por temor é covardia, mas desconfiar por cautela é prudência"Repetiçãoconglobaçãoconsiste em enumerar os diversos aspectos de um ente."Eu quero beijar as suas bochechas, os seus lábios, o seu pescoço, os seus seios..."Acumulaçãometáboleconsiste em estender o enunciado com muitos sinônimos de um mesmo termo."Analice era bela, linda, majestosa..."Acumulaçãogradaçãoconsiste em sequenciar palavras a partir de uma escala emocional, quantitativa etc."Eu o esperei por um, dois, três, quatro dias, mas ele não apareceu."Acumulaçãoconcatenaçãoconsiste em uma gradação, onde o elemento anterior é retomado no seguinte."O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu; e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu; e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu."Acumulação
Figuras de sonoridade As figuras de sonoridade baseiam-se na manipulação dos fonemas e sílabas presentes no enunciado, de maneira a criar padrões ou sugerir ideias. Operam geralmente pela repetição, pela troca, pelo acréscimo e pela diminuição. A onomatopeia pode muito bem ser considerada um tropo derivado da metáfora, mas não há nenhum autor que trabalhe essa ideia. Figura DefiniçãoExemploOperaçãoaliteração consiste em reiterar consoantes ou traços fônicos consonânticos."O rato roeu a roupa do rei de Roma" (aliteração em /R/) "A folha voou foi levada pelo vento" (aliteração em labiodentais) Repetiçãoassonânciaconsiste em reiterar vogais ou traços fônicos vocálicos."Desci o rio triste da vida" (assonância em /i/) "Quando me assento no chão do quintal, contemplo a manhã" (assonância em nasais)Repetiçãopaqueremaconsiste em terminar uma palavra com a sílaba inicial da próxima."O palhaço sorri risadas de dor."Repetiçãohomeoteleuto ou rimaconsiste em aproximar termos cujos finais apresentem igualdade sonora."Ela era uma quarentona bonitona, mas não largava a poltrona."Repetiçãoparanomásiaconsiste em aproximar termos de sonoridade muito semelhante."Antes sofria, hoje sou fria"Repetiçãoonomatopeiaconsiste em reproduzir um som externo por meio de fonemas."O gatinho fez miau (miado de gato) pra gente quando passamos por ele"Repetiçãometaplasmosconsiste em alterar a fonética das palavras."Eu tentava acalmar o bebê, mas ele quelia mamá"Troca, acréscimo e diminuição.metagrafosconsiste em alterar a ortografia das palavras."Ela me mandou mensagem perguntando se "vc quer alguma coisa". Respondi que não"Troca
Figuras de sintaxe As figuras de sintaxe baseiam-se na manipulação dos elementos sintáticos do texto, de maneira a criar padrões e otimizar o fluxo de leitura. Operam pela repetição, pela diminuição, pela transposição e pela troca, e, segundo Fiorin, alguns deles podem ser classificados como tropos.