thumb|Ermida da Memória - Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel thumb|Igreja de N. Sra. da Pedra de Mua - Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel
Nossa Senhora do Cabo ou Santa Maria da Pedra de Mua é uma das invocações de Maria, mãe de Jesus.
É, por vezes, confundido com a devoção a Nossa Senhora da Arrábida, que a tradição afirma datar de 1215 — é documentalmente mencionado pela primeira vez numa carta régia de , datada de 1366, e constitui uma das mais antigas e interessantes manifestações de religiosidade popular em Portugal.
Divulgado o miraculoso achamento da imagem de Nossa Senhora no espigão rochoso do cabo Espichel, muito rapidamente o culto terá levedado, não só entre as localidades mais ou menos vizinhas da margem sul do Tejo, mas sobretudo na margem norte do rio, recobrindo praticamente todo o território da região saloia. Aqui viria a atingir assinalável relevo, ficando conhecido pela designação de "círio saloio", "círio real" ou "círio do bodo", tendo não poucas vezes contado com a especial proteção da Família Real. Em Angola, a devoção encontra-se fortemente enraizada nas comunidades católicas da lagoa do Ibendoa e da ilha de Luanda.
As lendas "históricas" de Nossa Senhora do Cabo Da análise dos relatos lendários — mas com possível base histórica — que nos narram os acontecimentos do Cabo Espichel, podemos distinguir nitidamente duas tradições diferentes: na primeira lenda, a descoberta da imagem é atribuída exclusivamente a homens da Caparica, na margem sul do Tejo; na segunda lenda, o achamento é atribuído a dois anciãos de Alcabideche e da Caparica, localidades que de algum modo representam as duas margens do Tejo em que o culto virá a adquirir forte expressão popular.
Quanto à primeira tradição, Frei Agostinho de Santa Maria narra-a de forma bastante lacónica no seu "Santuário Mariano" (,Santa Maria, Frei Agostinho de — Santuário Mariano, E Historia das Imagens de Nossa Senhora, etc., Tomo II, Livro II, Tít. LXXIV, Lisboa, Of. António Pedrozo Galrão, 1707 a 1723 p. 474):
Frei Agostinho conta-nos esta tradição nos primeiros anos do . Mais de um , Frei Cláudio da Conceição editará a sua "Memória da Prodigiosa Imagem de Nossa Senhora do Cabo", em que menciona as lendas fixadas pelo seu antecessor; todavia, diz preferir uma «outra tradição também constante, e de tempo immemorial, qual é a do Saloio de Alquebideche [Alcabideche], e a mulher de Caparica, cuja tradição he de todos a mais seguida» (,CONCEIÇÃO, Frei Cláudio da — Memória da Prodigiosa Imagem da Senhora do Cabo, etc., Parte I, Lisboa, Impressão Régia, 1817 p. 12). «Sonhou um venturoso homem de Alquebideche, que naquele Promontório (…) via, e admirava uma luz remota (…)»; e então diz «como Moisés, quando o Senhor lhe apareceu em Madian no meio da Sarça, que ardia sem se consummir: é necessário que eu vá reconhecer esta grande maravilha que estou vendo.» Colocando-se a caminho, e sendo a viagem difícil, «da calma procura alivio ao cançado corpo; e aqui se diz tivera o encontro com a devota mulher de Caparica, a qual sabendo também do maravilhoso caso, com indústria apressára os passos, deixando o Saloio entregue ao sono, e chegando primeiro ao sitio do Cabo, ficára para sempre Caparica com a preferência nos Cultos». Finalmente no Espichel, o homem de Alcabideche «vê acordado, o que gozou dormindo: vê a Luz mais pura, goza da claridade mais perfeita. Sim, vê a Prodigiosa Imagem da Mãe de Deus, a quem já adorava a venturosa Caparicana». Logo o saloio «se prostra junto a ela reverente (…); e conhecendo ser vontade de Deus, que se desse Culto a sua Santíssima Mãe naquele lugar retirado, na solidão do deserto assim o prometem, e se tem praticado até ao presente (…).»
A Senhora da Pedra de Mua Paralelamente a essas tradições existe ainda uma lenda claramente mítica, que nos dá conta do milagroso aparecimento da Senhora da Pedra de Mua.
Frei Agostinho de Santa Maria (17, Tomo II, p. 474) narra-a com pormenores: «(…) afirmam que a Senhora aparecera na praia que lhe fica embaixo da mesma penha, onde se edificou a Ermidinha, e que aparecera sobre sua jumentinha, e que esta subira pela rocha acima, e que ao subir ia firmando as mãos, e os pés na mesma rocha, deixando impressos nela os vestígios das mãos, e pés (…)». Sublinhando que «de ser isto assim o afirmava a tradição dos que viram estes mesmos sinais, que hoje já tem gastado, e consumido o tempo», acrescenta que a Ermida «se fundou no lugar aonde a Senhora parou, naquela liteirinha vivente que a levava» e que a capela «desfez muitas vezes o tempo; mas a devoção dos que a servem, a reformou outras tantas vezes, apesar dos seus rigores.»
Saliente-se ser frei Agostinho de Stª Maria o único autor antigo a mencionar essa tradição. Todavia, a lenda surge-nos igualmente contada — com alterações — nos azulejos historiados da Ermida da Memória: aí se lê, em autêntica banda desenhada setecentista, que foram os dois velhos de Alcabideche e da Caparica que presenciaram o milagre da subida de Nossa Senhora pela arriba, montada na sua mula e transportando o menino ao colo. Esses azulejos relatam, assim, uma versão composta das duas tradições: a da subida da Virgem e das pegadas da mula, narrada por Agostinho de Stª Maria, e a dos dois anciãos que descobriram a imagem, narrada por Cláudio da Conceição.
As pegadas atribuídas à burra de Nossa Senhora são, na realidade, registos icnofósseis de dinossauros. É nos terrenos de transição do Jurássico Superior (145-150 milhões de anos) para o Cretácico Inferior (110-120 milhões de anos) que se encontram os vestígios desses animais. Os estudos realizados no Jurássico Superior na jazida conhecida por Pedra da Mua (praia dos Lagosteiros) permitiram detectar aqui abundantes pistas de saurópodes e terópodes. Trata-se, aliás, do «primeiro exemplo convincente de comportamento gregário nos saurópodes, reconhecido numa jazida icnológica europeia, bem como o melhor testemunho conhecido de tal comportamento entre saurópodes juvenis» (12, p. 27). Esses saurópodes "viajavam evidentemente em dois subgrupos constituídos por pequenos animais (…) e por animais maiores (…). Mas todos viajavam na direcção sudeste. Nenhum outro exemplo de pegadas de um grupo gregário de brontossauros é atualmente conhecido em que os indivíduos apresentam marcas de pés tão pequenas" (p. 34). Num outro trilho da pequena calheta dos Lagosteiros, do Cretácico Inferior, situado na parte superior da arriba norte da praia e que foi inicialmente uma laguna abrigada por recifes coralíferos, observam-se pistas idênticas às anteriormente descritas, nomeadamente as pegadas de ornitópodes, de um terópode bípede com três dedos e o rasto de uma cauda.
É precisamente a primeira dessas pistas — uma laje calcária no lado sul da praia dos Lagosteiros, com mais de 40º de inclinação, quase a prumo sob a Ermida da Memória – que foi interpretada como o rastro milagroso deixado por uma mula gigante que teria transportado a Virgem do mar até ao topo da arriba; e por isso ficou o local conhecido por Pedra de Mua, antiga forma de mula, feminino de mula ou macho, atualmente ainda reconhecível na expressão gado muar ou no verbo "amuar". Daqui proveio a invocação de Santa Maria da Pedra de Mua, equivalente às de Santa Maria do Cabo e Nossa Senhora do Cabo.
Um culto medieval É possível — até provável — que o culto a Nossa Senhora do Cabo constitua a cristianização tardia de cultos muito anteriores que houvessem já sobrenaturalizado o local, num contínuo de sucessivas sacralizações que se estendem desde a época pré-histórica até ao domínio muçulmano. A zona saloia onde a devoção à Senhora do Espichel irá assumir eloquentíssima expressão é, precisamente, uma região cultural e antropológica de forte substracto mouro; e a vizinha localidade da Azoia (do az-zawiya) indica a existência de antigas peregrinações ao túmulo de um homem santo, das quais os círios em honra da Senhora do Cabo constituiriam afinal a (re)atualização cristã.
Quanto à época em que se terá verificado o achamento da imagem da Senhora, Frei Agostinho de Santa Maria é pouco esclarecedor: «Quanto ao tempo em que a Senhora apareceu, não podemos certamente dizer o ano em que foi (…)»; no entanto, logo adianta ser certo «que foi no reinado del Rei Dom João Primeiro» (17, Tomo II, p. 475). Frei Cláudio da Conceição concorre com esta opinião, afirmando peremptoriamente que «esta função [o culto à Senhora do Cabo] é muito antiga, data do tempo do Senhor Rei (5, p. 361). Sabe-se, todavia, que ao contrário da opinião destes dois autores, o culto estava já plenamente estabelecido no , conforme o atesta um documento da chancelaria de
Agostinho de Santa Maria explica a sua opinião assinalando que, tendo sido a Ermida doada à Ordem de S. Domingos em 1428, "já deviam ter passado muitos anos do seu aparecimento; porque já lhe ofereciam o sítio com casa, em que pudesse louvar a nosso Senhor." Essa doação da ermida e dos seus terrenos foi feita em 18 de Novembro daquele ano por Diogo Mendes de Vasconcelos, cavaleiro comendador de Sesimbra e de Ourique, ao convento lisboeta de São Domingos de Benfica, fundado por Em 1390, o Rei concedeu a comenda de Sesimbra a Diogo Mendes de Vasconcelos, que ali terá mandado exigir a Ermida, já que dela afirma ter «senhorio, e posse, e propriedade, e direito», acrescentando: «e tiro de mim, e deixo todo senhorio, e posse, e propriedade, e direito, que eu hei, e tenho no dito lugar, e hermida, e ofrendas». Pelo documento da doação — reproduzido textualmente por Frei Luís de Sousa (20, p. 883) — se vê que, sendo o cavaleiro admirador da «discrição, e bondade, e bom viver» daqueles frades, e vendo que «a hermida, e lugar, e limite de Santa Maria da Pedra de Mua (…) é bom, e honesto, lugar para nele viver (…)», lhes dá «perpetuamente para sempre a dita hermida, e lugar, e direito dele, e seu limite com todos as honras, e direitos (…).»
Só que já não era a primeira vez que Diogo Mendes de Vasconcelos tentava oferecer a Ermida do Espichel para ali se edificar um convento. De fato, Frei José Pereira de Santana (19, p. 822) reproduz a «carta de consentimento e autoridade» passada em 22 de Fevereiro de 1414 pelo cónego da Sé de Lisboa Estêvão Gonçalves, em nome do Arcebispo de Lisboa Afonso de Azambuja, na qual afirma que «Diogo Mendes Commendador de Cezimbra me mandou dizer, que na dita sua Commenda de Cezimbra é edificada sua Ermida, a quem chamam Santa Maria do Cabo, que se logo [lugar] de grande romagem, e devoção (…): e que (…) ele por o bem, e saúde de sua alma, e remuimento de seus pecados queria fazer pura, e irrevogável doação da dita Ermida, e oferecia o dito Oratório, e logo onde ele está ao Mosteiro de Santa Maria do Carmo de Lisboa (…).»
Outras datas foram sendo mencionadas por diversos autores, mas sem qualquer base documental conhecida. Num manuscrito inédito intitulado "Aparições de Nossa Senhora da Luz, do Cabo Espichel, etc.", que datamos dos finais do , afirma-se que a imagem foi encontrada em 1275, data que todavia não é mencionada em qualquer outro documento. Por seu turno, o "Dicionário Histórico, Corográfico, etc." de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues (1904/1915) popularizou a data de 1250, que foi retomada pela "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira", mas para a qual não encontramos quaisquer indicações concretas. Por este motivo, consideramos que estas datações não oferecem crédito.
Os círios à Senhora do Cabo Perde-se na história dos séculos a realização, em terras de Portugal, de romarias cíclicas anuais a diversos santuários, com a participação de romeiros organizados por freguesias. Essas irmandades de romeiros levavam outrora uma tocha de cera (o círio) para oferecer à divindade; por este motivo, ao grupo de romeiros se passou a dar a designação metonímica de "círio", muito comum em toda a zona da Estremadura.