Luísa Maria de França (Louise Marie de France; Versalhes, — Saint-Denis, ) foi uma princesa da França, última filha do rei Luís XV de França e de sua esposa Maria Leszczyńska.

Primeiros anos

Nascimento Luísa nasceu no Palácio de Versalhes a 15 de julho de 1737, exatamente como previram os médicos reais. Os seus pais tiveram sete filhas e dois filhos antes dela, mas uma das suas irmãs (Maria Luísa) e um irmão (o Duque de Anjou) já tinham falecido aquando do seu nascimento. Visto que a lei sálica excluía as mulheres da sucessão do trono, Luís XV desejava o nascimento de um filho varão. Depois do nascimento, ele pregou uma partida à multidão que se tinha juntado fora do palácio e anunciou que tinha nascido um menino. A notícia espalhou-se e o povo celebrou com banquetes públicos. O avô materno da recém-nascida, o rei deposto Estanislau da Polónia, preparou-se para viajar até Versalhes, mas ao fim da tarde soube-se a verdadeira notícia e ele permaneceu em casa. O país e a corte real ficaram desiludidos com o nascimento de mais uma menina.

As filhas do rei de França, conhecidas como filles de France, eram tratadas simplesmente como madame e pelo seu nome próprio. As crianças reais francesas eram batizadas imediatamente após nascerem com uma cerimónia simples chamada ondoiement (o de Luísa foi realizado pelo Arcebispo de Vienne). O batismo era concluído alguns anos mais tarde, com uma cerimónia pública onde era dado um nome à criança e os padrinhos oficializados. Antes dessa cerimónia, as filhas de Luís XV eram chamadas por números. Assim, Luísa era chamada Madame Septième, visto que era a sua sétima filha.

Segundo um relato da época, o rei anunciou que ele e a rainha Maria não teriam mais filhos e, por isso, chamavam Luísa Madame Dernière ("a última madame"). Porém, a historiadora Simone Poignant defende que esta história foi inventada e espalhada pelo marquês d'Argenson, conhecido pelos seus rumores maliciosos. A rainha Maria Leszczyńska, quando soube o sexo do seu bebé, terá murmurado ao marido: "Sofreria mais uma vez e o mesmo para te dar um duque de Anjou". Luís XV não perdeu a esperança de ter mais um filho, mas Luísa acabou por ser a sua última filha.

Primeiros meses no Palácio de Versalhes As crianças reais partilhavam um apartamento na alle des Princes (Ala dos Príncipes) de Versalhes, com uma antecâmera e gabinete comuns para receberem visitas, e um altar privado. As paredes e mobília eram forrados em damasco vermelho e cobertos de sarja vermelha para se protegerem. As divisões encontravam-se decoradas com tapeçarias de cenas mitológicas e históricas. O apartamento não tinha sido alterado desde a época dos filhos de Luís XIV e não havia toques pessoais, exceto as cómodas que as princesas receberam ao nascer. A cómoda de Luísa era forrada com um brocado de ouro e prata, tinha flores coloridas e revestido de tafetá verde.

Á semelhança das irmãs, Luísa tinha um quarto com três camas e um berço que partilhava com a sua ama-seca, Madame Hoppen, uma sous-gouvernante, a temueuse (cuja tarefa era vestir e dar banho à bebé) e duas camareiras (que partilhavam uma cama desdobrável e uma delas tinha de estar acordada). Luísa recebeu um conjunto completo de talheres de ouro maciço gravados com a designação enfants de France (filhos de França) quando nasceu e que só podia ser usado em ocasiões especiais. Todos os objetos de uso pessoal, incluindo penicos, tinham a mesma gravação. Os ingredientes para as papas de aveia do seu pequeno almoço eram levados para os aposentos num recipiente fechado e eram inspecionados, cozinhados em público. A gouvernante provava a comida antes de a servir às crianças.

A primeira gouvernante de Luísa foi Madame de Tallard, que também cuidou dos seus irmãos mais velhos. Cada princesa era acompanhada de uma numerosa comitiva. Um visitante estrangeiro registou com espanto ver as princesas a correr pelo palácio sempre seguidas de pelo menos catorze pessoas. A relação entre as crianças e os pais, tal como todos os aspetos das suas vidas, era regida pela etiqueta da corte com todo o detalhe, mas o rei facilitava um pouco as regras em privado. As crianças participavam em pleno nas apresentações da corte: as suas refeições e quando se vestiam de manhã e à noite eram ocasiões públicas para a corte.

Pouco depois do nascimento de Luísa, o ministro-chefe, cardeal de Fleury anunciou que a presença de tantas crianças era um "embaraço para a corte" e demasiado dispendioso. À exceção das três princesas mais velhas, todas as filhas de Luís XV foram enviadas para um convento. A rainha opunha-se à decisão, mas tinha demasiado receio do marido e do seu poderoso ministro para os desafiar.

Fontevraud esquerda|miniaturadaimagem|305x305px|Madame Luísa de França por Jean-Marc Nattier, 1748. Este retrato foi encomendado por Madame de Pompadour, e foi enviado para os pais de Luísa em outubro de 1748 Luísa ainda não tinha completado um ano quando foi enviada para a distante Abadia de Fontevraud com as suas três irmãs mais velhas: Vitória, de cinco anos, Sofia de quatro anos e Teresa de dois anos (conhecidas como Madame Quatrième, Madame Cinquième, and Madame Sixième, visto que ainda não tinham sido batizadas. Luís XV tinha viajado para caçar em Rambouillet e desconhece-se o seu estado emocional relativo à separação das suas filhas. As princesas partilharam uma carruagem e foram acompanhadas pelas suas sub-governantas, por Madame de La Lande, e seguidas por oito carruagens, duas charretes e vinte carroças com bagagens. A ama-seca de Luísa, Madame Hoppen, acompanhou-a.

Luísa e as irmãs chegaram a Fontevraud no dia 28 de junho de 1738 e ficaram hospedadas no edifício Logis-Bourbon, que tinha sido renovado para elas e possuía uma capela privada. No dia seguinte, a Madame de La Lande regressou a Versalhes. Mais tarde nesse ano, Luísa adoeceu com bastante gravidade, ao ponto de a abadessa ter ordenado o seu batismo imediato a 30 de dezembro, no qual recebeu o nome de Luísa Maria. A rainha falou da doença numa carta privada, identificando-a como disenteria, e acrescentando: "neste mundo cruel só há sofrimento, mas graças a Deus, não somos obrigados a ficar aqui."

As princesas foram educadas principalmente por duas freiras, as irmãs Mac Carthy e Françoise Paris de Soulange. Receberam ainda uma freira como governanta pessoal. Por vezes, as princesas eram sujeitas a castigos severos, como serem fechadas numa campa sozinhas, o que levou a princesa Vitória a sofrer ataques de pânico para o resto da vida. As princesas nunca receberam visitas dos seus familiares, incluindo dos seus pais.

Conhecem-se três professores atribuídos às mesdames em Fontevraud: o abade Piers, um jurista que morreu no ano em que elas chegaram à abadia; Monsieur de Caix, um dos músicos da corte; e um professor de dança. As memórias de Madame Campan afirmam que, com doze anos de idade, Luísa ainda não tinha aprendido todo o alfabeto, algo que o seu biógrafo, Casimir Stryenski rejeita com base nas suas assinaturas da época em que vivia em Fontevraud. Luísa foi considerada inteligente desde cedo e gostava de troçar dela própria e dos outros (à semelhança do que o seu pai e irmãos faziam).

Em setembro de 1744, a irmã mais próxima dela em idade, Teresa, morreu de varíola. Pouco tempo depois, o rei encomendou um retrato das suas três filhas ainda vivas para oferecer de surpresa à sua mulher. Ao comentar o quadro, a rainha disse que "nunca tinha visto nada tão agradável como Luísa; o seu rosco é comovente e nada mostra de tristeza; ela nunca tinha visto ninguém tão singular, a Luísa é querida, gentil e espiritual". Em criança, Luísa era considerada arrogante e esperava que as freiras a tratassem como uma princesa na corte. Segundo relatos, ela exigia que as pessoas se levantassem quando ela entrava numa sala ou quando bebia, dizendo: "Levantem-se, senhoras. A Luísa está a beber". A abadessa, Madame de Soulanges, exclamou: "Fiquem sentadas". Quando uma empregada não se comportou de forma humilde o suficiente na sua presença, a jovem Luísa perguntou: "Não sou filha do seu rei?", ao que a mulher respondeu: "E eu, madame, não sou filha do seu Deus?"

Enquanto vivia em Fontevraud, é possível que Luísa tenha sofrido um acidente: enquanto esperava pela sua camareira de manhã, ela subiu as grades da cama e caiu. Independentemente do motivo, a certa altura ela desenvolveu uma "corcunda" (como ela própria lhe chamava). É possível que ela tenha herdado escoliose congénita, que alguns membros da família Bourbon tiveram. Durante a sua infância, teve uma saúde frágil.

Em 1748, quando Luísa tinha onze anos e ainda vivia em Fontevraud, começaram a circular rumores de que o seu pai queria casá-la com o príncipe Carlos Eduardo Stuart, o pretendente do trono inglês. Luísa declarou: "Não me preocupa ser boa para um marido, não desejo outro que não Jesus Cristo."

Idade adulta em Versalhes miniaturadaimagem|372x372px|Madame Louise por Drouais, ca. 1770 No início de 1748, a princesa Vitória, na altura com 15 anos, declarou estar "farta" de viver em Fontevraud e pediu autorização ao pai para regressar a Versalhes. Após, alguma hesitação, o rei permitiu o seu regresso. Em novembro de 1750, Sofia e Luísa (com 13 anos) também regressaram ao palácio. Vitória tornou-se bastante admirada na corte, por ser considerada "extremamente bonita" e por ter boas conversas, mas Sofia e Luísa não tiveram tanto sucesso. Sofia era muito tímida e desajeitada socialmente. Luísa teve vários problemas de saúde e, segundo um contemporâneo, "tinha uma cabeça um pouco grande para o seu corpo", para além da sua doença visível na coluna vertebral.

As mesdames eram lideradas pela terceira irmã mais velha, Adelaide, que eram considerada masculina no seu comportamento, mas também muito bonita. Ela tinha uma personalidade forte, reforçada pelo facto de, após a morte de Henriqueta em 1752, ela se ter tornado na princesa mais velha. Adelaide era "impulsiva" e o seu humor mudava constantemente. As princesas eram livres de fazer o que queriam, sem a interferência dos pais. Nos seus primeiros anos, elas só socializaram com um grupo seleto de pessoas. Elas associaram-se à rainha Maria, que era conservadora, e partilhavam com ela a opinião de que a igreja católica e a corte tinham soberania sobre o parlamento.

Enquanto que Vitória e Sofia, mais tímidas, aceitavam o domínio de Adelaide, Luísa, que era considerada a mais inteligente de todas, resistia. Ela era considerada uma pessoa "feroz e fervorosa" e passou os seus primeiros anos de regresso a Versalhes a aproveitar os luxos da corte, dedicando-se a exercício extenuante, comida e vestidos. Nestes primeiros anos, ela era considerada a Madame "com o melhor vocabulário, sem comparação". As memórias de Madame de Boigne afirmam que Luísa saía do palácio de noite, algo considerado escandaloso para a época. esquerda|miniaturadaimagem|285x285px|As Mesdames Sofia, Vitória, e Luísa num retrato copiado a partir do original de François-Hubert Drouais. Em Versalhes, as Mesdames tornaram-se muito próximas do seu único irmão, o delfim Luís, que as encorajava a estudar e a dedicar-se a passatempos úteis como pintura e música. As filhas do rei partilharam uma vida de luxos, especialmente no que dizia respeito a comida: nos seus aposentos nunca faltavam salsichas, doces e vinhos espanhóis. Apesar de a sua educação no convento ter sido negligenciada (Luísa afirmou que só aprendeu a ler fluentemente quando já vivia em Versalhes), as irmãs compensaram estes anos ao estudar extensamente. As Mesdames praticavam ortografia e gramática, estudavam história e matemática e aprenderam inglês e italiano. Para além dos estudos, tinham pouco para fazer. Elas gostavam de caminhar e de jardinagem, mas só podiam fazer a primeira nos jardins de Versalhes e a segunda nos parapeitos das janelas. Luísa em particular viveu bastante isolada nos últimos anos que passou em Versalhes. Ela era a irmã favorita da princesa Vitória.