Os cariris (em jargão antropológico Kariri, Kairiri ou Kiriri; do tupi kiri'ri, "silencioso")FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 314, 1 438. é a designação da principal família de línguas indígenas do sertão do Nordeste do Brasil. Vários grupos locais ou etnias foram ou são referidos como pertencentes ou relacionados a ela. Na literatura especializada, existe uma larga discussão sobre os pertencimentos dos grupos indígenas do sertão à família Kariri ou a outras famílias como a Tarairiú. Além dessas, existem várias línguas isoladas na região (yathê, xukuru, pankararu, proká, xokó, natu etc.). Historicamente, os grupos indígenas da região aparecem denominados de modo genérico como tapuias, podendo ser vinculados ao tronco linguístico macro-jê.

As línguas cariris Apesar de comprovadamente presente em todo o semiárido nordestino, apenas quatro das línguas kariri chegaram a ser minimamente descritas, todas elas da região ao sul do São Francisco: o Dzubukuá, falado por grupos no arco do submédio São Francisco (entre o que é hoje Petrolina e Paulo Afonso); o Kipeá, falado por indígenas que se tornaram conhecidos como Quiriri (ou Kiriri) principalmente na bacia do Itapicuru, Bahia; e o Camamu (ou Kariri) e o Sapuyá, de duas aldeias próximas na região de Pedra Branca (bacia do Paraguaçu), também na Bahia.

A partir da proposta de áreas etnolinguísticas no leste-sudeste do Brasil por volta de 1500, Martins dos Santos entende que existe uma área etnolinguísticas chamada "Kariri", a qual seria composta pelos seguintes povos/etnias: Dzubukuá, Kamuru, Karuru, Kariri, Kipeá, Kiriri, Sabujá, Sapuyá, Tinguí-Botó e Tumbalalá.

Influência na toponímia Toda a região marcada pela presença dos Kariri e pela Guerra dos Bárbaros (1683-1713) tem isto hoje muito distintivamente assinalado em sua toponímia, no extenso arco de serras dos Cariris Velhos e dos Cariris Novos, respectivamente nas divisas entre Paraíba e Pernambuco e entre Paraíba e Ceará; na região do Cariri, a sudoeste de Campina Grande (também uma antiga missão cristã de índios), na Paraíba, e, famosamente, no Vale do Cariri, que ocupa toda a bacia do Alto Jaguaribe, no sul do Ceará. Ainda na Paraíba, a cidade de Pilar, originou-se de um outro aldeamento de indígenas Kariri e Coremas.

No período holandês Uma das primeiras referências aos povos indígenas Cariris data do período da ocupação holandesa em Pernambuco e Paraíba. Elias Herckman, governador holandês da Capitania da Paraíba, descrever em 1639 os povos indígenas que habitavam no interior dessa capitania e que mantinham contato com os holandeses:

A Guerra dos Bárbaros Os muitos grupos cariri existentes ao norte do São Francisco, principalmente nos atuais estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, enfrentaram a epopeia de uma guerra de extermínio que se seguiu a expulsão dos holandeses e que durou toda a segunda metade do século XVII. Esse importante episódio até recentemente pouco conhecido da História do Brasil, conhecido como "Guerra dos Bárbaros", "Guerra do Açu" ou "Confederação dos Cariris", está hoje bem descrito no livro "A Guerra dos Bárbaros", de Pedro Puntoni, da USP, publicado há poucos anos. Há também outras obras recentes de historiadores de Pernambuco e Ceará sobre esse sangrento episódio histórico.

Os sobreviventes dessa guerra chegaram a ser reunidos em estabelecimentos missionários espalhados pelo sertão da Paraíba; pelas regiões do Seridó e do Açu, no Rio Grande do Norte; e por todo o Centro e Sul do Ceará.

Aldeamentos missionários Os diversos povos Kariri foram reduzidos em vários aldeamentos missionários pelos sertões. Alguns destes aldeamentos posteriormente tornaram-se vilas e cidades, enquanto outros permanecem como terras indígenas ainda hojeDANTAS, Beatriz G., SAMPAIO, José Augusto L. e CARVALHO, Maria do Rosário G. "Os Povos Indígenas no Nordeste Brasileiro: Um Esboço Histórico". In: M. Carneiro da Cunha (org.), História dos Índios no Brasil. São Paulo: FAPESP/SMC/ Companhia das Letras. pp. 431-456. 1992..

CapitaniaAldeiaVilaInvocaçãoMissionárioNaçãoBahiaJaguaripe do Rio da AldeiaJaguaripeSto. AntônioClérigoKaririBahiaConquista da Pedra BrancaCachoeira  KaririBahiaCaranguejoCachoeira  SapuyáBahiaMissão do SahyVila Nova da Rainha  Kariri, Payayá, Maracá, Topim, Sapuyá, TupináBahiaRio RealVila da AbadiaJesus, Maria, JoséCarmelitaKiririBahiaAramarisSão João da Água Fria ClérigoKiririBahiaNatubaItapicuruN. Sra. da ConceiçãoJesuítaKiririBahiaCanabravaItapicuruSta. TeresaJesuítaKiririBahiaSaco dos MorcegosItapicuruAscensão de CristoJesuítaKiririBahiaMassacaráItapicuruSma. TrindadeFranciscanoKiriri, KaimbéSergipeJuruLagartoN. Sra. do SocorroJesuítaKiririPernambucoGameleiraAlagoasN. Sra. das BrotasClérigoKariri, Língua Geral e UruáPernambucoSão BrásPenedoN. Sra. do ÓJesuítaKariri e ProgézPernambucoIlha do PambuRio São FranciscoN. Sra. da ConceiçãoCapuchinhoKaririPernambucoIlha de AracapáRio São FranciscoS. FranciscoCapuchinhoKaririPernambucoIlha do CavaloRio São FranciscoS. FélixCapuchinhoKaririPernambucoIlha do IrapuáRio São FranciscoSto. AntônioCapuchinhoKaririPernambucoIlha de InhanhunsRio São FranciscoN. Sra. da PiedadeFranciscanoKaririParaíbaCaririsTaypuN. Sra. do PillarCapuchinhoKaririCearáMirandaIcóN. Sra. da Penha de FrançaCapuchinhoKariri, Quixeréu, Cariú, Cariuané, Calabaça e Icozinho

Aliados aos quilombos O historiador Ricardo Pinto de Medeiros informa que os indígenas Kariri da aldeia do Pilar na Paraíba, haviam aliado-se aos quilombolas do Cumbe. Em outubro de 1731 o rei escreve ao capitão-mor da Paraíba a respeito da informação que havia recebido sobre os roubos que os moradores do sertão do Cariri, Tapera e Taipu estavam sofrendo do mocambo do Cumbe, onde se achavam havia mais de treze anos, quatro índios que haviam fugido da aldeia do Cariri, de que eram moradores. Aqueles estavam fazendo repetidos assaltos à dita aldeia e provocando a sua diminuição, por estarem levando os índios e os agregando à sua companhia, junto com negros fugidos, com o que chegavam a quase setenta pessoas. Na entrada realizada pelo sargento-mor Gaspar Pereira de Oliveira e pelo capitão Teodósio Pereira de Oliveira ao dito mocambo foram mortos cinco índios e aprisionados cinqüenta e seis, e sete negros, escapando dos quatro índios cabeças desta gente, três, tendo um deles por nome Bartolomeu que com quatro filhos seus tinha feito uma emboscada, e matado um soldado, ferindo também ao cabo, e escapando por veredas impenetráveis para as cabeceiras do rio Capibaribe da jurisdição de Pernambuco. O rei ordena ao capitão-mor da Paraíba avisar ao governador de Pernambuco para o mandar prender. Em outra carta escrita pelo rei ao capitão-mor da Paraíba, em agosto do ano seguinte, o rei agradece a informação a respeito do dito Mocambo, onde das cinqüenta e sete pessoas que se haviam prendido, sete eram negros e duas eram negras, que foram entregues a seus donos e os quatro índios que o capitão-mor achou serem os cabeças do mocambo, foram mandados para a cadeia, onde morreram do “contágio das bexigas” antes de cumprir a pena. Os outros haviam sido entregues ao seu missionário que os havia levado para a aldeia onde estavam vivendo com sujeição.

No rio São Francisco Dos Cariri do São Francisco para o Sul, os Dzubukuá chegaram a habitar diversas missões de padres capuchinhos situadas nas ilhas do rio, no século XVIII, sobre os quais há dois importantes relatos feitos por esses padres: o de Bernardo de Nantes, hoje uma obra rara; e o de Martinho de Nantes, "Relação de uma Missão no São Francisco", editado na coleção "Brasiliana" da Companhia Editora Nacional. Ambos trazem preciosos relatos dos costumes dos Cariri. Atualmente, não há nenhum grupo nessa área que reivindique a identidade cariri, apesar de haver na região, hoje, diversos outros grupos indígenas (Aticum, Trucá, Pancará, Tuxá etc.) aos quais, possivelmente, cariris tenham se associado.

Nos sertões da Bahia Dos Kipea, ou "Kiriri", como atualmente designados, há um grupo com umas duas mil pessoas, com seu território devidamente demarcado após décadas de luta, no município de Banzaê, Bahia. Sobre eles há várias dissertações recentes, infelizmente não disponíveis em publicações, a não ser através de alguns artigos em revistas especializadas. É possível acessar um bom verbete sobre eles na Enciclopédia dos Povos Indígenas, do Instituto Socioambiental.

Os Cariri e Sapuiá da Pedra Branca, após seguidas revoltas e guerras no século XIX, peregrinaram em fuga por décadas até serem reunidos, no final da década de 1930 - pelo mesmo Nimuendaju autor do mapa citado - na Reserva Caramuru-Paraguaçu, no Sul da Bahia. Hoje eles compõem a maioria (cerca de 75%) dos indígenas que aí vivem, genericamente designados como Pataxó Hã Hã Hãe (nome de um dos dois grupos então ainda isolados que primeiro habitaram a reserva) e que enfrentam, há mais de vinte anos, um terrível conflito e uma demanda judicial pela retomada de suas terras, invadidas por fazendas. O indígena Galdino, assassinado queimado em Brasília em 1997, em um episódio que ficou tristemente famoso, era um Cariri-Sapuiá.

Há um bom artigo da professora Maria Rosário Carvalho (UFBA) sobre as revoltas da Pedra Branca e também pode-se encontrar algo sobre os Cariri-Sapuiá no verbete "Pataxó Hã Hã Hãe" da Enciclopédia dos Povos Indígenas.SOUZA, Jurema Machado de Andrade; CARVALHO, Maria Rosário Pataxó Hã-Hã-Hãe. Povos Indígenas no Brasil. Instituto Socioambiental.

A saga dos kariri-sapuyá De acordo com as antropólogas Maria Rosário Carvalho e Jurema Machado, a história dos Kariri-Sapuyá é marcada por uma série de processos de territorialização e desterritorialização. Sob a denominação genérica de "índios da Pedra Branca" havia, tradicionalmente, dois grupos: os Kamuru, da Aldeia Pedra Branca, posteriormente denominados Kariri, e os Sapuyá ou Sabuja, da Aldeia Caranguejo, um quarto de hora mais ao sul, ambos pertencentes à família linguística Kariri, respectivamente aos ramos Kipeá e Sabujá. Aos primeiros imputa-se uma trajetória caracterizada por estreito relacionamento com a instituição militar, durante o governo colonial, na condição de soldados utilizados na captura de escravos foragidos e na repressão a quilombos; já os últimos têm a reputação de ser refratários tanto à Igreja quanto aos poderes seculares. Os dois grupos viriam a compor, em 1818, segundo relato de Spix e Martius, que visitaram a região, um contingente de "600 almas" SPIX, Joh. Baptiste von & MARTIUS, Carl F. Phil. von. Viagem pelo Brasil 1817-1820, Vol. II, Livro VI, Cap. IV. São Paulo : Melhoramentos/IHGB/Instituto Nacional do Livro /Ministério da Educação e Cultura, 1976, p.121.

À época da passagem do príncipe Wied-Neuwied, eles estariam supostamente "todos civilizados; o que deles resta é conhecido pelo nome de 'Cariris da Pedra Branca'. Na condição de soldados, sempre que recebiam ordens para uma expedição, levavam consigo suas mulheres e filhos" WIED[-NEUWIED], Maximiliano, Príncipe de. Viagem ao Brasil. 2a edição. Tradução de Edgard Süssekind de Mendonça e Flávio Poppe de Figueiredo, refundida e anotada por Olivério Mário de Oliveira Pinto.São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1958; p. 466.