O Quilombo do Ambrósio foi a capital da confederação Quilombo do Campo Grande, composta por 27 quilombos localizados em pontos do território das atuais regiões Centro, Centro-Sul, Centro-Oeste, Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. Liderada pelo Rei Ambrósio, um negro brasileiro nascido de ventre livre, essa confederação resistiu, entre 1726 e 1760, a diversas investidas de tropas mercenárias enviadas pelo então governador da Capitania, Gomes Freire de Andrade.

Durante muitos anos, acreditou-se que a confederação se limitava ao quilombo localizado na divisa entre Ibiá e Campos Altos. Em seus estudos, o pesquisador Tarcísio José Martins demonstrou que o Quilombo do Ambrósio, noticiado desde 1726 e atacado em 1746, situava-se em Cristais e teria sido o maior e mais duradouro quilombo de Minas Gerais.

O mapa do Campo Grande, feito pelo Capitão França

O pesquisador Tarcísio José Martins, por indicação de Hélio Gravatá, do Arquivo Público Mineiro, localizou e fotografou os originais do Mapa de Todo Campo Grande, Tanto da Parte da Conquista, que Parte com a Campanha do Rio Verde, e São Paulo, como de Piumhi, Cabeceiras do Rio São Francisco e Goiases, pertencente à Coleção da Família Almeida Prado, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Desde então, Martins dedica-se ao estudo sistemático desse documento, processo iniciado há mais de trinta anos.

Segundo o pesquisador, historiadores anteriores teriam analisado o mapa invertido, com o norte voltado para baixo, circunstância que não teria sido percebida até então. A partir dessa constatação, Martins concluiu que o mapa foi elaborado a partir da sobreposição de diversos outros, representando os roteiros das expedições militares contra os quilombos do Campo Grande entre 1743 e 1760. Essas expedições teriam sido coordenadas pelo português Antônio Francisco França, responsável pelos comboios de mulas que abasteciam as tropas nas batalhas de 1758 e 1759, incluindo o ataque final ao Quilombo do Cascalho, em 1760.

Ainda de acordo com essa interpretação, a versão inicial do mapa teria sido elaborada a pedido de Gomes Freire de Andrade em 1760, enquanto a versão final, solicitada por Luiz Diogo Lobo da Silva, teria sido concluída em 1763. O documento cartográfico detalha os quilombos em cada uma das rotas de ataque, indicando, inclusive, o número de casas existentes em cada povoação no momento de sua destruição. Além disso, registra a presença de dois núcleos denominados Ambrósio: um identificado como “Primeira Povoação do Ambrósio – Despovoado” e outro como “Quilombo do Ambrósio – Despovoado”.

Histórico

Primeira povoação do Ambrósio – Atacada em 1746

De acordo com o pesquisador Tarcísio José Martins, a Primeira Povoação do Ambrósio foi atacada, mas não destruída, em 1746, por ordem do então governador Gomes Freire de Andrade, em expedição comandada pelo capitão Antônio João de Oliveira. Segundo essa interpretação, o núcleo localizava-se ao norte do atual território do município de Cristais.

Martins afirma ter chegado a essa conclusão a partir da comparação entre o Mapa do Campo Grande, sucessivas cartas topográficas da região e diversos documentos administrativos e militares do período colonial. Entre os indícios apresentados, destaca-se a identificação, por meio de cartografia histórica e imagens de satélite, do local denominado Sítio dos Curtumes, onde teriam se acantonado as tropas de Oliveira. Segundo o autor, esse ponto é mencionado em carta de Gomes Freire ao rei, datada de 8 de agosto de 1746, na qual se afirma ser necessário que a tropa marchasse “mais de cinquenta léguas até fim de setembro”. Para Martins, a distância entre esse sítio e a área onde posteriormente se localizou o quilombo de Ibiá ultrapassaria setenta e cinco léguas apenas no percurso de ida, o que tornaria essa hipótese improvável.

Outro argumento apresentado diz respeito à própria designação territorial de “Campo Grande”. Segundo Martins, esse topônimo deslocava-se progressivamente de leste para oeste, acompanhando o movimento das povoações quilombolas. Em 1746, o termo abrangeria apenas a região situada entre o Rio do Peixe e o Rio Piumhi, sem ultrapassar o Rio São Francisco e sem alcançar os chamados Goiases, área onde posteriormente se estabeleceria o quilombo de Ibiá.

O autor também sustenta que Gomes Freire teria proibido referências oficiais aos ataques realizados em 1746. Em carta de 1757, seu irmão José Antônio de Freire de Andrade mencionaria o “Quilombo Grande, junto ao do Ambrósio, que da outra vez foi destruído”. Em 1758, em correspondência à Câmara de São João del-Rei, teria sido registrado o pedido de vinte canoas feito por Diogo Bueno para uma expedição ao Campo Grande, o que, segundo Martins, seria incompatível com um ataque ao quilombo de Ibiá, dada a distância e as condições geográficas do percurso.

Ainda segundo essa reconstrução, no final de 1758 ou início de 1759, Diogo Bueno teria recebido ordens para atacar as chamadas “relíquias do Quilombo do Ambrósio”, expressão registrada em carta da Câmara de Tamanduá, datada de 1793. Essas relíquias estariam localizadas no atual território de Aguanil, ao sudeste de Cristais. O ataque, no entanto, teria sido adiado, e apenas em 1760 Diogo Bueno teria utilizado as vinte canoas para navegar pelo Rio Grande até a Serra das Esperanças, também conhecida como Serra da Boa Esperança, nas proximidades da Primeira Povoação do Ambrósio.

Após o término da campanha de 1759 e do ataque final ao Quilombo do Cascalho, em 1760, Diogo Bueno, seu primo Bartolomeu Bueno do Prado e outros capitães teriam se reunido em local identificado como “Boa Vista”. Em ata datada de 2 de outubro de 1760, o escrivão de Diogo Bueno relataria a passagem pela “paragem chamada Boa Vista, defronte do quilombo já destruído, chamado Quilombo Queimado”. Para Martins, essa referência ao “Quilombo Queimado”, presente também no Mapa do Campo Grande, corresponderia à Primeira Povoação do Ambrósio.

O autor menciona ainda a carta da Câmara de Tamanduá, datada de 1793, a qual, embora considere tendenciosa, documentaria a expedição de Diogo e Bartolomeu em 1760 e a destruição do Quilombo do Cascalho. Nela, afirma-se que os expedicionários “abriram estradas e fizeram pontes e picadas até as vertentes do Rio Sapucaí, defronte do destruído Quilombo do Ambrósio”.

Segundo Martins, parte dessa documentação teria sido ignorada por parcela da historiografia. Entre os registros citados, encontram-se documentos da Capela de Nossa Senhora da Ajuda dos Cristais (Livro TP-39, Arquivo Público Mineiro), nos quais constariam menções ao Quilombo do Ambrósio ainda em 1856. Um exemplo apresentado é o testamento de Jerônima Fernandes de Carvalho, lavrado em 1795 na Fazenda do Quilombo do Ambrósio.

O capitão Antônio João de Oliveira teria recebido sesmarias em 1747 na área indicada no mapa do capitão França como Primeira Povoação do Ambrósio, correspondente ao atual território de Cristais. Bartolomeu Bueno do Prado, por sua vez, teria obtido nova carta de sesmaria sobre a mesma área em 1760. Posteriormente, em 1765, Constantino Barbosa da Cunha teria adquirido parte dessas terras, cuja posse foi homologada como “Sítio do Quilombo do Ambrósio”.

Martins também registra a existência de tradição oral coletada por José Gomide Borges, no município de Candeias, que preservaria a memória de uma guerra ocorrida no local em 1746, transmitida por descendentes de pessoas escravizadas da região.

De acordo com essa interpretação, a Primeira Povoação do Ambrósio situava-se ao norte de Cristais, em área que preserva topônimos como Morro Meia Laranja, Morro do Quilombo e Ribeirão do Paiol, o que, segundo o autor, confirmaria a leitura do Mapa do Campo Grande, datado de 1763. As chamadas “relíquias” do quilombo estariam localizadas no atual município de Aguanil, nas nascentes do Ribeirão Aguanil, afluente do Rio Grande.

Segundo Quilombo do Ambrósio – Atacado em 1759

Ao contrário do que ocorre com a Primeira Povoação do Ambrósio, atacada em 1746 na região do atual município de Cristais, não há, segundo Tarcísio José Martins, documentação primária que comprove que o Quilombo Grande, localizado na atual Ibiá e atacado apenas em 1759, fosse efetivamente denominado Quilombo do Ambrósio. De acordo com o autor, essa identificação baseia-se sobretudo em fontes cartográficas e em documentação secundária.

Entre essas fontes, Martins destaca: (1) um mapa-roteiro e um croqui anexados por Inácio Correia Pamplona ao relatório enviado ao então governador Conde de Valadares, referente à sua suposta entrada em 1769; (2) o Mapa do Campo Grande, elaborado pelo capitão Antônio Francisco França, responsável pelo trem bélico na campanha de 1759 e participante da guerra de 1760 contra o Quilombo do Cascalho; e (3) o Livro de Registro de Terras de Araxá, Notação TP-1-011 (1855–1857), pertencente ao Arquivo Público Mineiro, o qual, segundo o pesquisador, constitui fonte probatória inédita nesse debate.

Segundo essa interpretação, o sítio quilombola indicado por Pamplona em 1769 e também referido na obra de Álvaro da Silveira, publicada em 1924, localizar-se-ia entre Ibiá e Campos Altos, mas corresponderia apenas ao paiol ou às trincheiras (denominadas quipaca) do chamado Segundo Quilombo do Ambrósio. O núcleo principal do quilombo, por sua vez, abrangeria uma área muito mais extensa, estendendo-se do norte e nordeste desse ponto até as nascentes do Córrego do Quilombo, conforme indicado no mapa do capitão França, datado de 1763, e em mapas municipais de Ibiá e São Gotardo, assinados em 1939 pelo engenheiro Benedito Quintino dos Santos, então chefe do Serviço Geográfico de Minas Gerais, e pelos respectivos prefeitos.

Martins também critica o processo de tombamento promovido pelo Ministério da Cultura durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o qual, segundo ele, teria sido influenciado por interpretações de historiadores ligados à UFMG e ao IPHAN. Para o autor, esse processo teria se baseado em documentação referente aos ataques de 1746, atribuindo-os equivocadamente à região de Ibiá, quando, em sua leitura, esses confrontos teriam ocorrido na área de Cristais e Formiga.

Entre os equívocos apontados por Martins, estariam: (1) a restrição do tombamento apenas ao município de Ibiá, quando o sítio histórico se estenderia também por Campos Altos; e (2) a delimitação da área tombada ao espaço correspondente apenas ao paiol ou quipaca, em vez de abranger todo o território que, segundo ele, teria sido ocupado pelo quilombo principal atacado em 1759.

Na segunda edição de sua obra Quilombo do Campo Grande, publicada em agosto de 2008, Martins detalha os principais pontos que, em sua interpretação, comporiam o sítio histórico do Segundo Quilombo do Ambrósio. Entre eles estariam: o Alto do Quilombo, onde se localizariam a capela de Santa Rosa de Lima e a atual Escola Municipal Quilombo do Ambrósio; a Fazenda Samambaia, associada às nascentes do córrego homônimo; as Fazendas do Quilombo I, II e III, situadas ao longo do Ribeirão do Quilombo e do Córrego do Quilombo do Ambrósio; o Paiol ou Quipaca, indicado no croqui de Pamplona; o Morro da Espia, registrado em cartografia posterior; a foz do Córrego das Guaritas no Misericórdia, na divisa entre Ibiá e Campos Altos; e a Fazenda Santo Antônio do Quilombo, localizada a oeste de Tobati.

O pesquisador também afirma ter localizado o documento nº 82129, datado de 16 de dezembro de 1759, no Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília, no qual se registraria a morte do líder do Quilombo do Ambrósio durante os confrontos de 1759 contra os quilombos do Alto Paranaíba, do Triângulo e do Sudoeste de Minas. Segundo esse documento, cinquenta líderes quilombolas teriam sido enviados como prisioneiros-galés ao Rio de Janeiro, onde teriam sido empregados por Gomes Freire de Andrade nas obras de reconstrução da Fortaleza de São Francisco Xavier da Ilha de Villegagnon.