Michel Serres (Agen, 1 de setembro de 1930 — Vincennes, 1 de junho de 2019) foi um filósofo francês. Escreveu entre outras obras "O terceiro instruído" e "O contrato natural". Atuou como professor visitante na Universidade de São Paulo. Desde 1990 ele ocupou a poltrona 18 da Academia francesa.

Biografia Michel Serres nasceu em Agen, sul da França, descendente de marinheiros e camponeses da Garona.(...) aos seis anos, a guerra de 1936, na Espanha; aos nove, a Blitzkrieg de 1939, a derrota e a debandada; aos doze, o confronto entre a resistência e os colabora-cionistas (sic), a tragédia dos campos e a deportação; aos quatorze, a Liberação e os acertos de conta que ela provocou na França; aos quinze, Hiroshima (....) Aos seis anos os meus primeiros cadáveres, aos vinte e cinco os últimos. (1999, 9).Esse período de guerras durante a formação do jovem Serres foi tão fundamental para sua obra que uma das suas buscas filosóficas é a questão da violência. De um lado o período de guerras durante sua infância e juventude deu-lhe peculiaridades tanto no seu pensamento filosófico como de toda uma geração, como aponta Hobsbawm, o século XX “(...) foi marcado pela guerra. Viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os canhões se calavam e as bombas não explodiam”.

De outro, especificamente a experiência de Hiroshima foi um fato decisivo em seu percurso filosófico. Serres chega a dizer: “Hiroshima constitui o único objetivo de minha filosofia” (1999, 25). Muitos de seus amigos cientistas interromperam suas atividades no campo da física atômica depois de Hiroshima. Nas palavras de Serres, talvez, pela primeira vez a ciência se depara com problemas do outro lado do universo ético (1999, 27). A questão da violência foi, como aponta sua biografia, uma de suas grandes preocupações filosóficas.

Sua formação superior se inicia na Escola Naval em 1947 onde se licencia em Matemática. Como caminho natural, nos dizeres de Serres, do aprofundamento da matemática, surge a filosofia. Um dos fatos que fez com que Serres abandona-se a Escola Naval e fosse para as humanidades foi a leitura de La pesanteur et la grâce de Simone Weil. Em seguida ingressa na École Normale Supérieure em 1952 onde fará seus estudos literários, obtendo também o título de Filosofia em 1955. Durante os anos de 1956 a 1958 Serres serve à Marinha francesa. De volta à vida acadêmica, recebe seu doutorado em 1968. Serres foi orientado em sua tese por Bachelard. A tese versou sobre a diferença entre o método algébrico de Bourbaki. É neste momento que Seres aprender matemática moderna, estrutura, álgebra e topologia. Ainda na década de 60 passa pelas universidade de Clermont-Ferrand e Universidade Paris VIII (Vincennes), onde leciona com Michel Foucault, ocupando mais tarde a cadeira de História de Ciência na Sorbonne (Paris I).

No decorrer de sua formação filosófica, Serres percebe que a epistemologia não repercutia as revoluções científicas. “Os epistemólogos trabalham sobre ciências já ultrapassadas” (1999, 19). Em muitos momentos, Serres, aponta a demora dos ramos da filosofia em acompanhar as revoluções científicas. Segundo suas palavras a Bruno Latour, a filosofia nem sequer deu ouvidos no tempo de seu acontecimento os barulhos de Hiroshima (1999, 20). Serres começa a olhar cada vez mais para as revoluções científicas e menos para o arcabouço técnico-filosófico que as epistemologias se muniam.

A sua formação filosófica passa, nos seus dizeres, por três revoluções,(...) em primeiro lugar, a transformações matemática, passado do cálculo infinitesimal ou da geometria às estruturas algébricas e topológicas (...) A segunda foi de ordem física: eu aprendera a física clássica e, de repente, eis a mecânica quântica (...) a terceira revolução, posterior, ocorreu após ter conhecido Jacques Monod e tê-lo como amigo por muito tempo – um amigo maravilhoso -, que me ensinou a bioquímica contemporânea. (1999, 21)É por meio dessas misturas entre ciência, filosofia, letras, que Serres forjará sua filosofia, seu modo de pensar as ciências.

Desde 1984 é professor da Universidade de Stanford, sendo ainda eleito para a Academia Francesa em 1990.

Suas obras possuem uma multiplicidade de assuntos. Podemos ver que a análise de modelos matemáticos, começando por Leibniz, terá importância na obra de Serres, desde seu doutoramento, em obras como O nascimento da Física no texto de Lucrécio de 1977. De 1969 a 1980 publica uma série que tem como mote Hermes, que para o autor simboliza a comunicação, noção fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo. Essa série terá cinco volumes: I. A Comunicação, 1969; II. A Interferência, 1972; III. A Tradução, 1974; IV. A Distribuição, 1977; V. A Passagem do Noroeste, 1980. Nessa série, Serres irá fazer inúmeras reflexões sobre a ciência.

Na década de 80, Serres irá publicar livros como O Parasita, onde ele se detém no problema da violência, da mudança de meios na perpetuação da barbárie. Em 1990, O contrato natural, irá tratar da relação homem-natureza; em 1991, O terceiro instruído, se deterá na reflexão sobre a educação e a mestiçagem cultural.

Entusiasta das novas tecnologias, Serres, ao lado de figuras como Pierre Lévy, está na discussão contemporânea sobre as mídias e a educação, televisão, educação à distância, como se pode ver na Mission Serres, pesquisa encabeçada por Serres a pedido da primeira ministra Edith Cresson, que de 1991 a 1993 formulou propostas de ensino à distância e elaborou softwares. Também podemos ver a atuação do autor sobre a mídia televisão. Sobre o tema publica em 1995 o livro Mensagens à distância e também passa a fazer parte do comitê diretor da TV5. Serres é ainda um grande entusiasta de tecnologias colaborativas como a Wikipédia.

A filosofia de Serres: uma filosofia fora das autoestradas “Que autor contemporâneo segui? Infelizmente, nenhum.”

Serres fez seu percurso intelectual no que ele chama de “fora das autoestradas”. Autoestrada são os grandes caminhos abertos por um filósofo, um pensador, ou ramo do conhecimento. São os caminhos pré-estabelecidos onde os novos intelectuais encontram terreno farto para caminhar. Foi desse caminho que Serres se distanciou propositalmente. “Licenciado em matemática, eu me vira também, de algum modo, numa autoestrada, e não era para seguir uma outra que eu fizera uma mudança radical, das ciências às letras” (1999, 18).

Trata-se de um autor que não se dedicou amplamente a um único tema, ou que fez de dois ou três assuntos o mote de suas análises filosóficas. Serres forjou uma maneira de entender o pensamento filosófico, uma forma de comunicação, de caminho, entre as ciências e as artes, entre as ciências e as humanidades.

Serres falou sobre questões pertinentes ao seu tempo. Como crítica a uma filosofia que na sua opinião nunca se atentou aos assuntos realmente relevantes em sua época, Serres busca problematizar, buscar caminhos e relações inesperadas entre os ramos do conhecimento com vistas, se não uma resposta, pelo menos um aprofundamento no entendimento das questões contemporâneas.

Com essa ideia, Serres analisou problemas que, ao seu modo de pensar, eram principais em nossa época.

A filosofia como um sistema com perdas

A filosofia de Serres se inicia a partir de uma crítica à filosofia cartesiana. As questões mais importantes e urgentes do mundo estão sendo esquecidas. Como exemplo disso, Serres fala da época do lançamento da bomba atômica em Hiroshima, “Não se podia, na época, trabalhar em física sem ter sido ensurdecido pelo barulho universal de Hiroshima. Ora, a epistemologia tradicional ainda não punha em questão, para si, a relação entre ciência e violência” (1999, 26). Essas questões estão sendo esquecidas ao preço da razão. Seguindo os postulados cartesianos a filosofia acabou por se reduzir a razão, fechou-se nela mesma, como um sistema fechado. Falando da filosofia cartesiana Serres pondera, “A natureza se reduz à natureza humana, que se reduz à história, seja à razão” (1991, 47). Serres, a partir da termodinâmica passa a questionar a sustentabilidade de sistemas fechados. Aqui é importante falarmos um pouco de Carnot e da termodinâmica para entendermos o percurso do pensamento de Michel Serres.

No ano de 1824, Sadi Carnot, engenheiro do exército francês, “(...) chamou a atenção para o fato de que, na máquina a vapor, o calor fluía de uma região de alta temperatura (a caldeira) para uma região de baixa temperatura (o condensador)” (2002, 100). Carnot errou quando achou que não havia perda de calor durante o sistema, porém após seu trabalho, muitos físicos ampliaram e aprofundaram a ideia dando origem à termodinâmica. A partir de um modelo, como a máquina de Carnot, Serres desenvolve o pensamento de que não há sistema que não tenha perda de calor. Ainda mais, a perda de calor é condição necessária para que um sistema funcione. Perder calor significa que o sistema não entrará em colapso e ser um sistema aberto é condição de existência para o sistema. Este é o aspecto essencial dos ramos do conhecimento humano para Serres. Ele chegará a falar que na comunicação os elementos essenciais são: um canal de comunicação e uma mensagem. Aliado a isso, em toda comunicação há ruído, que inutilmente se tenta tirar, fechar o sistema, tentar fazer uma comunicação sem perdas. O ruído é essencial, é o terceiro elemento, para que haja comunicação. Buscar um sistema de comunicação sem ruído, como a filosofia buscou fazer em seus sistemas de pensamento, fechar-se em um sistema, puro formalismo, é cair no domínio da escravidão da razão. É fechar-se em si mesmo. “(...) Serres acredita firmemente que a própria viabilidade e vitalidade da ciência dependem do grau para o qual ela está aberta para seu outro poético” (2002, p. 103), ou seja, a abertura da ciência para a intervenção, ou, nas palavras do filósofo, para a tradução, comunicação e interferência é condição essencial para a sua sobrevivência e seu fortalecimento.

Esse fortalecimento se dá, com aponta Moraes (2000), pelas redes que se formam pelos diversos ramos do conhecimento. Entrelaçados, tencionando-se mutuamente, encontrando conexões e se fortalecendo.

Os locais dessas conexões, dessas relações, das passagens que Serres buscou com a sua filosofia forjar, são os locais de mestiçagem. Conceito importante para o filósofo, a mestiçagem. A mestiçagem é o local de passagem.(...) qualquer evolução ou mesmo aprendizagem exigem a passagem por um terceiro lugar e por isso o conhecimento, pensamento ou invenção, não cessa de saltar de um terceiro para outro terceiro lugar, expõe-se sempre, pois, ou aquele que conhece, pensa ou inventa depressa se torna nesse terceiro que passa (1997, 27).Essa é uma grande temática para Serres. Em seu livro Le Tier-Instruit, que na edição portuguesa ganhou o nome de O terceiro instruído e na edição brasileira o de Filosofia mestiça, trata justamente dessa questão. Dessa zona de intersecção, de interferência entre ciências e artes, entre ciências e humanidades a que Serres chama de mestiçagem.

Mestiçagem Atravessando o rio, entregando-se todo nu à dependência da margem à sua frente, acaba de aprender uma terceira coisa. Do outro lado, decerto, existem novos hábitos e uma linguagem estranha (1997, 23).Serres considera que o aprendizado, seja para o indivíduo, seja para as ciências se dá sempre no limiar, nessas interconexões entre o que já é conhecido e o que não é. O nome terceiro instruído, provém possivelmente de um trocadilho com a noção lógica de terceiro excluído. A lei do terceiro excluído , tertium non datur, enuncia que para qualquer frase F, ou F ou não-F são verdadeiras. A sua representação é feita da seguinte forma: