O Neoclassicismo surgiu em Portugal no último quartel do século XVIII. Começou por ter uma maior expressão no Porto e só depois se estendeu para Lisboa. Prolongou-se até metade do século XIX, tendo, em alguns casos, chegado até ao século XX.
Contexto histórico
thumb|left|250px|Embarque para o Brasil de D. João VI. Devido ao fator de um surgimento numa época muito conturbada, o Neoclassicismo em Portugal desenvolve-se de modo muito próprio, debatendo-se com problemas de ordem artística e econômica, impondo uma periodização diferente do resto da Europa. Assiste-se muito cedo ao desenvolvimento de uma arquitetura pré-clássica, que permanece durante todo o final do século XVIII. Na segunda metade do século, um pouco mais tarde que no resto da Europa, surge, principalmente em Lisboa e Porto, o Neoclassicismo, para, no início do século XIX, se assistir a uma quase paragem dos programas artísticos. Este facto deve-se à grande instabilidade provocada por uma sucessão de acontecimentos avassaladores para o país, nomeadamente a fuga da família real para o Brasil em 1807 (facto de importância fundamental para os dois países), invasões francesas, posterior/consequente domínio inglês, revolução liberal em 1820, regresso da família real em 1821, independência do Brasil e a perda do comércio colonial em 1822. Pouco depois ocorre a contra revolução absolutista, originando as guerras liberais, o que mantém a instabilidade até 1834, permitindo o normal desenvolvimento artístico e econômico apenas quase a meio do século. Em face do exposto não é de admirar que o estilo permaneça, a par do Romantismo, até ao início do século XX.
Antecedentes - Pombalino
Enquanto a Europa assiste ao surgimento do gosto neoclássico, durante a segunda metade do século XVIII, Portugal tenta recuperar do catastrófico terramoto de 1755, durante o reinado de D. José , criando a arquitetura pombalina, o que condiciona, logo à partida, o normal desenvolvimento do Neoclassicismo em Portugal.
A arquitetura pombalina é um sistema de construção pré-fabricado anti-sísmico, o primeiro utilizado em grande escala, que serve para reconstruir a arrasada cidade de Lisboa. Muito moderno para a época, segue a arquitectura Rococó, retirando toda a decoração, e impondo uma sobriedade claramente de influência clássica. Enquanto na Europa os edifícios perdem gradualmente decoração, até se começar a impor os modelos clássicos, em Portugal desenvolve-se uma arquitectura elegantemente sóbria, ainda sem ordens arquitectónicas clássicas, mas já com uma racionalidade pré-clássica, submetendo tudo à funcionalidade, fazendo um corte real com a fortíssima tradição do Barroco e mesmo do Rococó. O edifício é de tal modo simples e moderno, para a época, que na verdade não foi verdadeiramente sentida a necessidade de impor um autêntico Neoclassicismo como no norte da Europa. O principal exemplo talvez seja a Igreja dos Mártires, em pleno centro de Lisboa, ainda com decoração Rococó nas portas e janelas, mas com um esquema clássico visível nas pilastras e frontão triangular que dominam os três corpos simulados. Infelizmente a historiografia da arte nunca deu grande importância a este fato, reduzindo-o a uma variante do gosto dominante, nem percebeu a importância desta arquitetura, porque se limita a querer ver Rococó francês ou Neoclassicismo de influência grega e romana, num programa construtivo de grande escala, renovador e demasiado moderno para o seu tempo, que ultrapassa a sua época. Por isso esta aproximação entre pombalino e Neoclassicismo será, no mínimo, polêmica e, certamente, muito contestada nos meios académicos demasiado ocupados a desvalorizar a criatividade nacional para perceberem o que é evidente. É, sem dúvida, um resultado do iluminismo, porque elimina tudo o que é supérfluo submetendo a construção à razão, mas também consequência da necessidade renovadora vivida no continente europeu. Posteriormente, com a reconstrução da cidade já muito avançada, entra o Neoclassicismo por duas vias distintas – Lisboa e Porto.
Arquitectura
Considera-se que em termos internacionais o Neoclassicismo surge entre 1750 e 1760, enquanto em Portugal, pelas razões apresentadas em cima, se começa a desenvolver durante a década de 1770, com a construção do Picadeiro Real (actual Museu Nacional dos Coches), em Lisboa, e Hospital de Santo António no Porto.
thumb|left|230px|Entrada principal do Museu Nacional dos Coches em Lisboa Facto bastante curioso é a clara diferença entre as duas cidades. Lisboa recebe influências italianas devido ao gosto dominante na corte, enquanto que a cidade do Porto, em resultado da importante comunidade britânica presente na cidade, desenvolve edifícios de forte influência inglesa, por vezes quase neopalladianos como o Hospital de Santo António. No entanto, o forte carácter funcional é uma das características comuns entre os dois pólos. Posteriormente, devido ao facto de os estudantes de arte concluírem os estudos em Roma, o norte converte-se ao classicismo romano em detrimento do palladianismo.
Em suma, pode considerar-se que o edifício neoclássico português é simples, muito funcional, submetendo tudo ao carácter utilitário, simétrico, é constituído normalmente por três corpos sendo o central sugerido ou pouco avançado, ornamentado com pilastras, poucas colunas, varandas ou varandins, arcada no piso térreo funcionando como embasamento, aparelho (rusticado ou não), balaústres, com pouca ou nenhuma decoração escultórica, sendo esta essencialmente arquitectónica (talvez consequência dos tempos difíceis, mas também, sem dúvida, como reflexo da muito prática simplicidade pombalina). No entanto esta afirmação é demasiado redutora porque ao estudar os edifícios individualmente nos apercebemos de uma grande diversidade de soluções. Os exemplos são numerosos variando entre edifícios mais simples mas muito marcantes, como a Feitoria Inglesa no Porto ou os banhos de São Paulo em Lisboa, até às grandes obras como o Teatro Nacional de São Carlos, Teatro Nacional D. Maria II, Palácio Nacional da Ajuda e o Palácio de São Bento (Assembleia da República), em Lisboa, ou Hospital de Santo António e Palácio da Bolsa, no Porto. Existem, ainda, variados exemplos, como igrejas, palácios ou edifícios públicos um pouco por todo o país.
Porto thumb|235px|Hospital de Santo António, no Porto. thumb|235px|Bom Jesus do Monte, em Braga. 235px|thumb|Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. O Hospital de Santo António, de John Carr no Porto, foi construído para ser o hospital da Misericórdia, nos terrenos vagos fora da cidade. É o mais palladiano dos edifícios portugueses. Desenvolve-se em vários andares, de modo sóbrio, simples e simétrico, mas com volumes bem definidos animando a superfície. Possui no piso térreo arcada e aparelho, formando um embasamento. Corpo central com colunas, simulando um templo clássico, ladeado por vários corpos que avançam e recuam até aos torreões nas esquinas. O primeiro piso é recuado, possuindo varanda e balaustrada, lateralmente ao corpo central, com várias portas coroadas por frontões triangulares e curvos. A decoração é muito resumida, limitando-se a algumas (poucas) esculturas, urnas e elementos arquitectónicos clássicos. Encontra-se próximo da Antiga Cadeia da Relação. A Feitoria Inglesa, de John Whitehead, no Porto, é outro exemplo palladiano. Prédio urbano, inserido numa esquina, com arcada e aparelho no piso térreo, como um embasamento. Janelas simples no primeiro e terceiro andar, mas varandins com portas, no segundo andar, coroadas por frontões curvos e triangulares. Três corpos, sendo o central sugerido, frontão rectangular com grinaldas e balaustrada. Simplicidade, simetria e elegância. Alfândega do Porto
Igreja da Lapa Igreja Matriz do Bonfim Palácio da Bolsa Reitoria da Universidade do Porto
Braga
O Santuário do Bom Jesus do Monte, de Carlos Amarante, em Braga é um conjunto monumental, ladeado por jardins, de grande efeito cenográfico, inserido no monte da Falperra, com o imponente escadório das virtudes, capelas e igreja. O edifício possui três corpos, sendo o central ligeiramente avançado, com frontão decorado, pilastras jónicas, três janelões, varanda, com escultura e balaústres, suportada por colunas, alternando com nichos e portal. Os corpos laterais suportam as torres sineiras, encontrando-se divididos em andares com janelões e varandins de balaústres no segundo andar.
Lisboa
O Palácio Nacional da Ajuda, de José da Costa e Silva e Francisco Xavier Fabri, em Lisboa foi iniciado apenas em 1795, quando se tornou óbvia a necessidade absoluta de um novo palácio real em Lisboa. Devido ao facto de o antigo Paço da Ribeira ter ficado completamente destruído com o terramoto de 1755, e as soluções provisórias, como a transferência da corte para o Palácio Nacional de Queluz, Palácio Nacional de Belém, Palácio das Necessidades ou a “real barraca” (palácio em madeira feito depois do terramoto de 1755 e destruído por um incêndio em 1794 destruindo o seu sumptuoso recheio), serem claramente insatisfatórias. É de notar o facto de se ter dado prioridade à reconstrução da cidade, albergando primeiro o povo, sujeitando-se a casa real e a corte a soluções temporárias ou transitórias, esperando-se quarenta anos para iniciar as obras do verdadeiro palácio real, numa altura em que a situação era claramente insustentável – abona muito em favor dos governantes da época ao contrário do que consideram a maioria dos autores. É um edifício com três corpos e torreões nos cantos. O corpo central possui dois pisos, com três arcos nos dois andares, varanda suportada por colunas e friso com frontão sustentado por meias colunas. Os corpos laterais associam pilastras a janelas, no rés-do-chão, e varandins, no primeiro piso. O conjunto é coroado por balaustrada e, nos torreões, alguma decoração escultórica. O conjunto é monumental e austero.
O Teatro Nacional D. Maria II, de Fortunato Lodi, em Lisboa foi construído bem no centro de Lisboa, mais concretamente no Rossio (a segunda praça mais importante da cidade e seu coração), o teatro pretendia colmatar a necessidade de um grande edifício dedicado exclusivamente à representação teatral, como já existia para a opera. É a obra neoclássica mais marcante da cidade, talvez devido ao local onde se encontra, influenciando as posteriores construções neoclássicas da capital. É um impressionante edifício de três corpos, sendo o central constituído por seis colunas de capitel jónico e um frontão decorado. Os corpos laterais simulam torreões nos cantos alternando pilastras e varandins. O piso térreo possui aparelho e, nas fachadas laterais, varandas largas sobre arcadas. O conjunto é simétrico e funcional mas, ao contrário do tradicional gosto português, decorado com relevos e escultura, quebrando a já habitual sobriedade do neoclassicismo português.
Escultura